Citas de
Ludwig Feuerbach (1804-1872)
«A miúdo acontece que nos temos
libertado tempo atrás dumha cousa, umha doctrina, umha idea, mas temo-nos
libertado de facto e nom ainda na cabeça; ela já nom é verdade no nosso
ser –acaso nom o fora nunca- e, sem embargo, nom deixa de ser umha verdade teórica, é dizer, um limite da nossa
mente. Na medida em que apreende as cousas desde o mais profundo, a cabeça é tamém a que mais tarda em libertar-se. A liberdade teórica é, quando menos a respeito de
muitas cousas, a última liberdade.»
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«Assi pois, o pensar, por si
próprio, nom chega a umha diferência positiva
nem a umha oposiçom respeito de si, e
precisamente por isso nom tem outro critério da verdade que o que algo nom
contradiga a idea, nom contradiga o pensar; é dizer, tam só um critério
formal, subjetivo, o qual nom decide sobre se a verdade pensada é também umha verdade
real. O critério que decide sobre isto último é únicamente a intuiçom. Sempre debe escuitar-se ao
inimigo. E precisamente a intuiçom
sensível é o partido contrincante do pensar. A intuiçom aprehende as cousas
num sentido amplo, o pensamento no
mais estrito dos sentidos; a intuiçom
deixa as cousas na sua liberdade mais
ilimitada, o pensamento impom-lhes leis que a miúdo som despóticas; a intuiçom ilumina a cabeça, mas nom determina nem
decide nada; o pensar determina, mas também embota a miúdo a cabeça; a intuiçom
carece para si de princípios, o pensar carece para si de vida; a regra é a meta
do pensar, a exceiçom da regra é a meta da intuiçom. E assi como só a intuiçom determinada polo pensar é
verdadeira, assi também, à inversa, só
o pensar ampliado e aberto através da intuiçom é o pensar verdadeiro, o
pensar conforme à essência da
realidade.»
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«Nom só as cousas exteriores constituem o objeto dos
sentidos. O home somentes se da a si mesmo através dos sentidos; el é objeto para si próprio entanto que objeto dos sentidos. A identidade de
sujeito e objeto, que na autoconsciência nom é mais que umha idea abstracta,
somentes é verdade e realidade na intuiçom sensível do home polo home.
Nom só sentimos as pedras e a
madeira, nom só a carne e o osso; tamém sentimos sentimentos ao estreitar a mao
ou ao roçar os beiços dum ser sensitivo; polos nossos ouvidos nom só percibimos
a murmuraçom da auga e o sussurro das folhas, mas tamém a voz espiritual do
amor e a sabedoria; nom só vemos superfícies especulares e espectros de cores,
mas tamém olhamos a mirada do home. Nom
só, pois, o exterior, mas tamém o interior; nom só a carne, mas tamém o
espírito; nom só a cousa, mas tamém o Eu constitue o objeto dos sentidos.
Todo é, por isso, sensívelmente perceptível, ainda quando nom imediatamente,
senom mediatamente; ainda quando nom
cos sentidos vulgares, grosseiros,
senom cos sentidos cultivados; ainda
quando nom cos olhos do anatomista ou do químico, senom cos olhos do filósofo.
Com razom infere tamém o empirismo a orige das nossas ideas a partir dos
sentidos; só que el esquece que o objeto
sensível mais importante e essencial do home é o home mesmo; que só no
olhar do home ao home mesmo acende-se a luz da consciência e do entendimento.
De ai que o idealismo tenha razom quando busca no home a orige das ideas e nom
a tenha, nom obstante, quando pretende deriva-las do home isolado, fixado como
ser existente para si, como alma; numha soa palavra: quando pretende deriva-las do Eu sem um Tu sensívelmente dado.
Somentes da comunicaçom, únicamente da conversa do home co home, xurdem as
ideas. Nom é por si só, mas na relaçom mútua, que se acede aos conceitos, à
razom em geral. Precisam-se dous homes
para a geraçom do home, tanto a espiritual como a física: a comunidade do home
co home é o primeiro princípio e critério da verdade e a universalidade. A
própria certeça da existência doutras cousas fóra de mim está mediada, para
mim, pola certeça da existência doutro home fóra de mim. Do que eu vejo só,
duvido; únicamente quando outro tamém o ve, é isso certo.»
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«A nova filosofía tem (...) ,
como sujeito, nom o Eu, nom o
espírito absoluto, isto é, abstracto --numha palavra, nom a razom por si soa--,
mas o ser real e total do home. Só o
home pensa, nom o Eu, nom a razom. A nova filosofía nom se funda, pois, na divinidade, é dizer, na verdade da razom só para si mesma, senom
que se funda na divinidade, isto é,
na verdade, da totalidade do home.
Noutras palavras, ela funda-se, por suposto, na razom, mas na razom cuja essência é a essência humana; por conseguinte, nom numha razom carente de
essência, de cor e de nome, senom numha razom embebida do sangue do home. De ai
que, onde a velha filosofía [especulativa] dizia: só o racional é o verdadeiro e real, a nova filosofia diga, polo
contrário: só o humano é o verdadeiro e o
real; pois só o humano é o racional; o home é a medida da razom.»
L.
Feuerbach, Princípios da filosofia do futuro, 1843.
(Os
r essaltados som nossos)
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«O caminho da filosofia
especulativa do abstracto ao concreto, do ideal ao real, tem sido até agora um
caminho invertido. Por esta via nunca
se chega à realidade verdadeira, objetiva, senom sempre e únicamente à realizaçom das suas próprias abstracçons
e, justamente a causa disto, nunca se chega à verdadeira liberdade do espírito; pois só a intuiçom das cousas e
seres na sua realidade objetiva fai livre ao home e o absolve de todos os
preconceitos. O passo do ideal ao real só
tem cabida na filosofia prática.»
L.
Feuerbach, Teses provisionais para a reforma da filosofia, 1842.
(Os
r essaltados som nossos)