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A revoluçom nom se fará sem as mulheres -
Suplemento boletim Igneo num.2
Indice
Apresentaçom
- Comunistas
Revolucionári@s
economia política da libertaçom das mulheres - Margaret Benston
as mulheres e o mito do consumismo - Ellen Willis
Apresentaçom
Publicamos aquí
dous textos históricos do movimento de libertaçom das mulheres americanas que
consideramos lúcidos e de grande actualidade, a pesar da data da sua redaçom e
de que em certos aspectos secundários
tenham quedado algo atrasados.
Nos anos 60-70
produziu-se um ascenso internacional nom só da luita de classes, mas tamém da
luita das mulheres. O esgotamento do capitalismo, as crescentes dificuldades
para lograr reformas, o nível de vida crescente, motivaram um ciclo de luitas
sociais contra as múltiples formas de opressom existentes, mas que tamém
estivera marcado pola persistência das ilusons reformistas. A luita das
mulheres rematou, deste modo, fundamentalmente numha conquista da igualdade
jurídica e política formal cos homes. Nom existiam todavia as condiçons
necessárias para que se delineasse claramente a contradiçom de interesses que
enfrentava às mulheres implicadas no movimento: o antagonismo entre os
interesses das mulheres que estabam em processo de proletarizaçom e eram de
extracçom social proletária, e os interesses das mulheres em ascenso na
burguesia e de extracçom burguesa, que aspiravam à oportunidade de converter-se
em explotadoras, ter o seu próprio negócio individual ou trabalhar por conta
própria[i].
Este conflito somentes puido fazer-se claro a posteriori, quando, para
as mulheres proletárias ou em vias de proletarizar-se, demonstrou-se
práticamente que a chamada “libertaçom da mulher” nom fora mais que umha revoluçom
feminista burguesa, e que os problemas da explotaçom doméstica, do
desemprego, da discriminaçom e segregaçom laborais, da opressom sexista em
geral, nom só nom se aboliram, senom que incluso se tenderam a intensificar,
baixo novas formas, paralelamente ao processo de degradaçom geral do trabalho
assalariado: a crescente mercantilizaçom e cosificaçom da mulher, a imposiçom
da necessidade de assumir os piores trabalhos para manter a família, a
geralizaçom e normalizaçom da dupla jornada, a multiplicaçom da alienaçom
feminina pola combinaçom dos rasgos patriarcais e os rasgos capitalistas do
trabalho alienado, etc., etc..
A vigência dos
seguintes artigos, "A economia política da libertaçom das mulheres"
e "As mulheres e o mito do consumismo", reside em que as suas
autoras, apesar dos seus limites intrínsecos e históricos, possuiram a
profundidade necessária para orientarem-se cara umha análise da situaçom total
da mulher como umha situaçom de explotaçom. Por isso, a sua perspectiva é
claramente proletária e revolucionária, a diferência de toda a verborrea do
feminismo burguês e pequenoburguês, que únicamente defende o programa do velho igualitarismo
burguês baixo umha forma mais radical, pretendendo futilmente que a
libertaçom das mulheres poda realizar-se dentro do capitalismo ou exteriormente
à luita de classes entre capital e trabalho, fomentando umha identidade
inteclassista entre as mulheres trabalhadoras (isso si, umha identidade
"na diferência", rendindo culto à psicologia feminina alienada
produzida por séculos de explotaçom e convertindo as diferências entre os sexos
em umha fonte de divisons e num novo tabú).
O ponto de vista
destes textos é o do reconhecimento das mulheres como trabalhadoras alienadas
que devem luitar, para libertar-se da sua explotaçom, contra a dupla explotaçom
da familia e do capital. Hoje, umha vez visto que a situaçom de opressom no
marco familiar continua -independentemente do carácter mais
"patriarcal" ou mais "liberal" da família-, a causa da
exclusom do mercado de trabalho e das necessidades económicas da vida familiar,
a conclusom lógica a tirar é que o capital é o principal interessado em manter
esta situaçom. Pola sua parte, os proletários somentes participam desta
opressom na medida em que actuam como parte do próprio capital, como
componhentes económicos da máquina produtiva, sem constituir-se em classe
oposta aos interesses do capital. A ilusom de que o trabalho gratuito das
mulheres no fogar benefícia aos trabalhadores dissipa-se quando se atende à
extensom crescente da jornada laboral e à reduçom dos salários, que assume como
base essa explotaçom do trabalho doméstico, igual que quando se atende ao facto
de que as mulheres seguem a ocupar amplamente os empregos a tempo parcial e a
aceitar os trabalhos pior pagos, mantendo-se assi a sua dupla jornada.
Todo isto somentes
pode explicar-se porque a família actual, independentemente da sua forma
exterior -mais patriarcal ou mais liberal-, está integrada económicamente
dentro do próprio modo de produçom capitalista, e o trabalho alienado no fogar
transforma-se, através do trabalho assalariado do home e dos filh@s, numha
fonte suplementar de plusvalor que se apropriam @s capitalistas. Deste modo,
nas mulheres proletárias se encontra condensada a dupla forma de explotaçom,
assi como o carácter dual que assume o trabalho alienado dentro de cada umha
dessas formas -explotaçom de gênero e explotaçom de classe-. Pois nom só o
trabalho do fogar é explotado polo marido (formalmente) e polo capital
(efectivamente), tamém o trabalho assalariado feminino assume em geral
características de género, está "generizado". Por esta razom a
luita das mulheres proletárias tende a assumir umha perspectiva de totalidade e
um carácter radical e revolucionário, apesar de sofrer um maior grao de
alienaçom; por isso, umha vez aberto o seu processo de autolibertaçom, as
mulheres tenderám a situar-se à vanguarda do movimento revolucionário do
futuro, que somentes poderá prosperar combatindo todas as formas de
explotaçom e dominaçom que integra o capital[ii].
A revoluçom
feminista proletária está ainda por fazer, e será umha parte indissolúvel
da transformaçom comunista da sociedade. O verdadeiro comunismo significa a
libertaçom completa das mulheres. Sem a libertaçom total das mulheres
trabalhadoras, e com elas a libertaçom de todo o sexo feminino da sua condiçom
de género, nom pode haver verdadeiro comunismo.
Comunistas Revolucionári@s
A ECONOMIA POLÍTICA
DA LIBERTAÇOM DAS MULHERES
Margaret
Benston
"A situaçom das mulheres descansa, como tudo
na nossa complexa sociedade, sobre umha base económica" - Eleanor Marx e Edward Aveling
A "questom da
mulher" é geralmente ignorada na análise da estrutura de classes da
sociedade. Isto ocorre porque, por umha banda, definem-se em geral as classes
segundo a sua relaçom cos meios de produçom, e pola outra nom se considera que
as mulheres tenham umha relaçom única cos meios de produçom. É umha categoria
que parece extender-se através de todas as classes; fala-se de mulheres
obreiras, mulheres de classe meia, etc.. O status
das mulheres é francamente inferior ao dos homes, mas a análise desta situaçom
formula-se em geral em discusons sobre socializaçom, psicologia, relaçons
interpersoais ou o papel do matrimónio como instituçom social. Mas som estes os
factores primários? Se se sustém que as raízes do status secundário das mulheres som em realidade económicas, é
possível demonstrar que as mulheres como grupo tenhem em realidade umha relaçom
específica cos meios de produçom e que esta relaçom é distinta da dos homes. Os
factores persoais e psicológicos derivam entom desta relaçom especial coa
produçom, e umha modificaçom desta última é umha condiçom necessária (mas nom
suficiente) para modificar os primeiros. Se se aceita a realidade desta relaçom
especial das mulheres ca produçom, a análise da situaçom das mulheres encaixa
naturalmente na análise de classes da sociedade.
O ponto de partida
da análise das classes numha sociedade capitalista é a distinçom entre os que
posuem os meios de produçom e os que vendem a sua força de trabalho por um
salário. como di Ernest Mandel:
"A
condiçom proletária é, em poucas palavras, umha falta de acesso aos meios de
produçom ou meios de subsistência, o que, numha sociedade de produçom
geralizada de mercadorias, obriga ao proletário a vender a sua força de
trabalho. A cámbio da sua força de trabalho recebe um salário que lhe permite,
entom, adquirir os meios de subsistência necessários para a satisfacçom das
suas próprias necessidades e das da sua família".
Esta é a definiçom
estrutural do que trabalha por um salário, o proletário. Disto deriva certa
relaçom co seu trabalho, cos produtos do seu trabalho, e em geral coa sua
situaçom na sociedade, que pode resumir-se numha palavra: alienaçom. Mas
desta definiçom estrutural nom cabe tirar conclusons a respeito do nível do seu
consumo... a amplitude das suas necessidades ou o grao em que as pode
satisfazer.
Nom temos umha
definiçom estrutural correspondente das mulheres. O que em primeiro termo
precisamos nom é um exame completo dos síntomas do status secundário das
mulheres, senom umha aclaraçom das condiçons materiais nas sociedades
capitalistas (e doutro tipo) que definem o grupo "mulheres". Sobre
essas condiçons construem-se as superestruturas específicas que conhecemos.
Umha interessante passage de Mandel sinala o caminho:
"A mercadoria... é um produto criado
para ser cambiado no mercado, em contraposiçom a outro criado para o consumo
directo. Toda mercadoria tem que possuir à vez um valor de uso e um valor de
cámbio."
Tem que ter um valor de uso: em caso
contrário ninguém a mercaria... Umha mercadoria sem valor de uso para ninguém,
seria inusável, umha produçom inutil, nom teria valor de cámbio precisamente
por nom ter valor de uso.
Por outra parte ,
todo produto que tem valor de uso nom possue necessáriamente valor de cámbio.
Só tem valor de cambio na medida em que a sociedade na que a mercadoria é
produzida está fundada no cámbio, é umha sociedade onde o cámbio é umha prática
corrente...
Na sociedade
capitalista a produçom de mercadorias ou de valores de cámbio acadou o seu
máximo desenvolvimento. É a primeira sociedade na história da humanidade na que
a maior parte da produçom consiste em mercadorias. Nom é verdade, sem embargo,
que toda a produçom no capitalismo seja produçom mercantil. Duas classes de
produtos seguem a ser somentes valores de uso.
O primeiro grupo
compreende todas as cousas produzidas polos labregos para o seu próprio
consumo, tudo o directamente consumido nas fazendas rurais onde é produzido...
O segundo grupo de
produtos na sociedade capitalista que nom som mercadorias, senom que seguem a
ser somentes valores de uso, compreende todas as cousas produzidas no fogar.
Pese ao facto de que umha considerável quantidade de trabalho humano aplica-se
a este tipo de produçom doméstica, segue a ser umha produçom de valores de uso
e nom de mercadorias. Cada vez que se prepara umha sopa ou se cose um botom
numha roupa, trata-se de produçom, mas nom de produçom para o mercado.
Ao aparecer a
produçom mercantil, e logo ao regularizar-se e geralizar-se, o modo de
trabalhar dos homes e o seu modo de organizar a sociedade tranformaram-se
radicalmente.
Se quadra Mandel
nom advertiu que este último parágrafo é justamente correcto. A apariçom da
produçom de mercadorias transformou efectivamente o modo em que os homes trabalham. Tal como o sinala, a
maior parte do trabalho doméstico na sociedade capitalista (e, em quanto a este
ponto, nas sociedades socialistas existentes[iii])
prosegue na etapa anterior ao mercado. Este é o trabalho reservado às mulheres,
e é neste facto onde podemos encontrar a base dumha definiçom das mulheres.
Como mera
quantidade, o trabalho do fogar, inclusive o coidado dos nenos, constitue umha
enorme suma de produçom socialmente necessária. Nom obstante, numha sociedade
na que impera a produçom de mercadorias, nom é geralmente considerado
"verdadeiro trabalho", posto que está fora do comércio e da praça do
mercado. É precapitalista num sentido mui real. A atribuçom do trabalho
doméstico como funçom dumha categoria especial ("mulheres")
significa que esse grupo encontra-se efectivamente frente à produçom numha
relaçom diferente da do o grupo "homes". Tentaremos definir às
mulheres, polo tanto, como grupo de persoas que som responsáveis pola produçom
de simples valores de uso naquelas actividades associadas co fogar e a família.
Posto que os homes
nom tenhem responsabilidade algumha por dita produçom, a diferência entre os
dous grupos encontra-se aqui. Observe-se que as mulheres nom estám excluidas da
produçom de mercadorias. A sua participaçom no trabalho assalariado pode
dar-se, mas como grupo nom tenhem umha responsabilidade estrutural nessa área e
essa participaçom considera-se habitualmente transitória. Os homes, por outra
banda, som responsáveis pola produçom de mercadorias; nom tenhem em princípio
nengum papel no trabalho do fogar. Por exemplo, quando participam na produçom
doméstica, esta participaçom considera-se mais que simplesmente exceiçoal, é
desmoralizante, afeminante, até perjudicial para a saúde. Umha nota na primeira
página do Vancouver Sun, em Janeiro
de 1969, sustinha que os homes na Grande Bretanha viam a sua saúde em perigo
porque tinham que fazer demasiado trabalho doméstico.
A base material do status inferior das mulheres está justamente
nesta definiçom. Numha sociedade na que o dinheiro determina o valor[iv],
as mulheres som um grupo que trabalha fóra da economia monetária. O seu
trabalho nom vale dinheiro, logo nom tem valor, e polo tanto nem sequer é
trabalho de verdade. As mesmas mulheres que fam esse trabalho sem valor, cabe
esperar que valgam menos que os homes, que trabalham por dinheiro. Em termos
estruturais, o mais semelhante à condiçom das mulheres é a de outros que se
encontram igualmente fóra da produçom de mercadorias, isto é, servos e
labregos.
No seu trabalho
recente sobre as mulhers, Juliet Mitchell empeça a sua exposiçom do jeito
seguinte:
"Na
sociedade industrial avançada, o trabalho das mulheres é só marginal frente à
economia total. Contudo, é polo trabalho que o home transforma as condiçons
naturais e assi cria a sociedade. Até que aconteza umha revoluçom na produçom,
a situaçom laboral determinará a situaçom das mulheres dentro do mundo dos
homes".
A declaraçom da marginalidade do trabalho das mulheres é um
reconhecimento nom analisado de que o trabalho que fam as mulheres é diferente do trabalho que fam os homes.
Dito trabalho nom é, contudo, marginal; somentes nom é trabalho assalariado e,
polo tanto, nom é computado. Chega até dizer, na mesma nota:
"O
trabalho doméstico ainda hoje é enorme, se se computa em termos de labor
produtiva."
Da algumhas cifras como ilustraçom: em Suécia, 2340 milhons
de horas por ano som dedicadas polas mulheres a trabalhos domésticos, mentres
na indústria as mulheres trabalham 1290 milhons de horas. E o Banco Chase
Manhattan calcula o trabalho semanal total da mulher em 99,6 horas. Sem
embargo, Mitchell nom destaca os factores económicos básicos (em realidade
censura à meirande parte dos marxistas por destacar demasiado os aspectos
económicos) e passa rápidamente aos factores superestruturais porque lhe parece
que "o advenimento da industrializaçom até o presente nom libertou às
mulheres". O que se lhe escapa é que, até agora, nengumha sociedade
industrializou o trabalho doméstico. Engels sinala que
"a
primeira premisa para a emancipaçom das mulheres é a reintroduçom de todo o
sexo feminino na indústria pública... E isto voltou-se possível como resultado
da indústria moderna a grande escala que nom só permite a participaçom dum
grande número de mulheres na produçom, senom que a esige e ademais tende cada
vez mais a converter o trabalho doméstico privado numha indústria
pública".[v]
E mais adiante:
"Já
podemos ver aquí que a emancipaçom das mulheres e a sua igualdade cos homes som
impossíveis e seguira-no sendo mentres as mulheres fiquem excluidas do trabalho
socialmente produtivo e limitadas ao trabalho doméstico, que é privado".
O que Mitchell nom
tivo em conta é que o problema nom é singelamente a introduçom das mulheres na
produçom industrial existente, senom
o mais complexo de converter a produçom privada do trabalho doméstico em
produçom pública.
Para a maior parte
dos norte-americanos, o trabalho doméstico como "produçom pública"
sugire imediatamente images de Um mundo
feliz ou dumha vasta instituiçom -umha mestura de assilo de orfos e quartel
do exército- onde se estaria obrigado a viver. Por este motivo é preferível
expôr esquemáticamente aquí a natureza da industrializaçom.
Umha unidade de
produçom preindustrial é aquela em que a produçom realiza-se a pequena escala e
é reduplicada[vi]. Hai um
grande número de pequenas unidades, cada umha completa e igual às demais.
Geralmente estas unidades de produçom tenhem por base as relaçons familiares e
som de finalidade múltiple, cumprindo funçons religiosas, recriativas,
educativas e sexuais à vez que a funçom económica. Numha situaçom semelhante os
atributos desejáveis num indivíduo, os que dam prestígio, som apreçados segundo
critérios que nom som puramente económicos: por exemplo, entre os rasgos de
carácter mais estimados encontram-se umha conduta correcta cos parentes ou a
boa disposiçom para cumprir as obrigas.
Semelhante
produçom nom está destinada origináriamente ao intercámbio. Mas se o
intercámbio de mercadorias volta-se bastante importante, entom fai-se
necessária umha maior eficiência na produçom. Esta eficiência obtem-se coa
transiçom cara a produçom industrializada, que implica a eliminaçom da unidade
baseada na relaçom familiar. Umha unidade de produçom a grande escala e nom
reduplicativa toma o seu lugar, cumha soa funçom, a económica, e na qual o
prestígio -o status- obtem-se por meio da habilidade económica. A produçom é
racionalizada, volta-se mais eficiente, e fai-se cada vez mais pública: é parte
dumha rede social integrada. Tem lugar, entom, umha enorme expansom da
potencialidade produtiva do home. No capitalismo estas forças produtivas
sociais utilizam-se quase exclusivamente em benefício privado. Estas podem
considerar-se formas de produçom capitalizadas.
Se aplicamos o que
acabamos de analisar ao trabalho doméstico e à criança dos nenos, é evidente
que cada família, cada fogar, constitue umha unidade de produçom individual,
umha entidade preindustrial, do mesmo modo que o labrego ou os fiandeiros a
domicílio representam unidades de produçom preindustriais. As principais
características som evidentes, xurdindo como as mais importantes o trabalho
reduplicativo, de base familiar, e natureza privada. É interessante destacar as
outras características: as múltiples funçons da família, o facto de que os
atributos desejáveis para as mulheres nom estejam centrados na habilidade
económica, etc.. A racionalizaçom da produçom através da transiçom à produçom a
grande escala nom tivo lugar nesta área.
A industrializaçom
é, em si mesma, umha grande força para o bem da humanidade; a explotaçom e a
deshumanizaçom acompanham ao capitalismo, mas nom necessáriamente à
industrializaçom. Pretender a conversom
do trabalho doméstico privado numha indústria pública, baixo o capitalismo, é
algo mui distinto a pretender essa conversom numha sociedade socialista. Neste
último caso, as forças de produçom obrariam em favor do bem-estar humano, nom
do lucro privado, e o resultado seria a libertaçom, nom a deshumanizaçom.
Poderiamos entom falar de formas socializadas de produçom.
Estas definiçons
nom pretendem ser técnicas, senom establecer a diferência entre dous
importantes aspectos da industrializaçom. O medo de que resultara algo
semelhante a um quartel se se introduzisse o trabalho doméstico na economia
pública seria realista baixo o capitalismo. Mas cumha produçom socializada, a
eliminaçom do interesse polo lucro e o trabalho alienado que lhe corresponde
nom hai razom algumha para que, numha
sociedade industrializada, a industrializaçom do trabalho doméstico nom
redundara numha melhor produçom, é dizer, melhor alimentaçom, ambientes mais
confortáveis, coidado dos nenos mais inteligente e carinhoso, etc., que na
actual família nuclear.
A miúdo sustem-se
que, co neocapitalismo, o trabalho da casa reduziu-se muito. Ainda que isto é
certo, nom é estruturalmente relevante. Exceito as mui ricas, que podem pagar
alguém para faze-lo, hai para a maioria das mulheres um mínimo irreduzível de
trabalho necessário implicado no coidado da casa, do marido e dos filhos. Para
umha mulher casada sem filhos este mínimo irreduzível de trabalho provávelmente
significa de 15 a 20 horas semanais; para umha mulher com filhos pequenos o
mínimo e provávelmente de 70 a 80 horas semanais. Hai certa resistência a
considerar o coidado dos filhos como um emprego. Que hai trabalho, é dizer,
produçom de valor de uso, fai-se mui evidente quando implica valor de cámbio:
quando o trabalho é realizado por babysitters,
enfermeiras, centros de coidado das crianças ou por mestras. Um economista já sinalou
o paradoxo de que se um home casa cum ama de chaves reduz o ingresso nacional,
pois o dinheiro que lhe da já nom se computa como salário. A reduçom do
trabalho doméstico ao mínimo considerado segue a ser caro; as famílias de
rendas baixas precisam de mais trabalho. De todos os modos, o trabalho
doméstico segue a ser estruturalmente o mesmo: um assunto de produçom
privada.
Umha das funçons
da família, a que nos é ensinada na escola e geralmente aceitada, é a
satisfacçom das necessidades emocionais: a necessidade de achegamento, de
comunidade e de relaçons cálidas e seguras. A sociedade ofrece poucas maneiras
de satisfazer essas necessidades; por exemplo, nom se espera que as relaçons de
trabalho ou de amizade sejam sequer aproximadamente tam importantes como a
relaçom home-mulher-filhos. Até as mesmas relaçons de parentesco som
secundárias. Esta funçom da família é importante para que se estabilice e poda
cumprir a sua funçom puramente económica, mencionada acima. O assalariado,
marido e pai, cujos ingressos o mantenhem, "paga" tamém o trabalho
realizado pola mulher-nai e mantém aos filhos. O salário dum home compra o
trabalho de duas persoas. A importáncia crucial desta segunda funçom da família
fai-se visível quando a unidade familiar racha co divórcio. A continuaçom da
funçom económica constitue a principal preocupaçom quando hai nenos implicados
na questom; o home tem que continuar pagando o trabalho da mulher. O seu
salário é normalmente insuficiente para permitir-lhe manter umha segunda
família. Neste caso as suas necessidades emocionais som sacrificadas à
necessidade de manter a sua ex-mulher e os filhos. É dizer, quando hai conflito
a funçom económica da família tem precedência sobre a emocional. E isto
acontece numha sociedade que ensina que a principal funçom da família é a
satisfacçom das necessidades emocionais.
Como unidade
económica, a família nuclear é umha estimável força estabilizadora da sociedade
capitalista. Posto que a produçom realizada no fogar é pagada cos ingressos do
marido-pai, a sua capacidade para retirar o seu trabalho do mercado é limitada.
Até a sua facilidade para cambiar de emprego é limitada. A mulher privada dum
emprego activo no mercado, tem pouco control sobre as condiçons que governam a
sua vida. A sua dependência económica reflicte-se na sua dependência emocional,
a sua passividade e outros rasgos "típicos" da personalidade
feminina. É conservadora, temerosa, adepta do status quo.
Ademais, a
estrutura desta família é de tal orde que resulta umha unidade de consumo
ideal. Mas a este facto, ao que muitas vezes se alude na literatura do
movimento de Libertaçom das Mulheres, nom deve atribuir-se umha funçom
primordial. Se a análise enriba desenrolada é correcta, caberia considerar
fundamentalmente à família como umha unidade de produçom para o trabalho
doméstico e a criança dos filhos. Todos na
sociedade capitalista som consumidores; a actual estrutura da família é
particularmente apta para alentar o consumo. As mulheres, principalmente, som
boas consumidoras; isto resulta naturalmente da sua responsabilidade nos
assunto da casa. Tamém o status inferior das mulheres, a falta dum forte sentido do valor e da identidade, fam-nas
mais fazilmente explotáveis que os homes e polo tanto melhores consumidoras.
A história das
mulheres no sector industrializado da economía dependeu sempre das necessidades
de trabalho deste sector. As mulheres desempenham a funçom dum ejército de
reserva da mao de obra. Quando a mao de obra é escassa (começo da
industrializaçom, as duas guerras mundiais, etc.) as mulheres constituem umha
parte importante da força de trabalho. Quando hai menos demanda de mao de obra
(como actualmente baixo o neocapitalismo) as mulheres voltam-se umha força de trabalho sobrante -os seus homes e
nom a sociedade respostam económicamente por elas-. O "culto do
fogar" reaparece em épocas de desemprego e utiliza-se para desviar às
mulheres da economia de mercado. Isto é relativamente fázil, posto que ninguém,
home ou mulher, considerará seriamente a participaçom delas na força laboral. O
verdadeiro trabalho das mulheres, ensinam-nos, está no fogar; isto vale sejam
casadas ou nom, solteiras ou chefas de família.
Em tudos os
tempos, o trabalho do fogar incumbe às mulheres. Quando trabalham fóra da casa
devem amanhar-se dalgúm jeito para ralizar as duas tarefas, o emprego na rua e
o trabalho da casa, ou polo menos a fiscalizaçom dumha substituta no fogar. As
mulheres, particularmente as casadas, com filhos que trabalham fóra, tenhem
singelamente dous empregos; a sua participaçom no trabalho assalariado só é
permitida se tamém cumprem a sua primeira responsabilidade na casa. Isto é
particularmente visível em países como Rússia, e outros da Europa oriental, nos
que a expansom das oportunidades para as mulheres na força laboral nom lhes
aportou umha expansom correspondente da sua liberdade. A igualdade de acesso
aos empregos fóra do fogar, que é umha das pre-condiçons da libertaçom das
mulheres, nom é em si mesma suficiente para brindar-lhes a igualdade; mentres o
trabalho no fogar siga sendo assunto de produçom privada cuja responsabilidade
corresponde às mulheres, elas levarám singelamente umha dupla carga de
trabalho.
Um segundo
requisito prévio para a libertaçom das mulheres, que cabe derivar da análise
enriba desenrolada, é a conversom do trabalho realizado agora no fogar como
produçom privada em trabalho realizado na economia pública. Para falar com mais
precisom, isto significa que do coidado dos filhos já nom devem ser
responsáveis somentes os pais. A sociedade deve empeçar a assumir a
responsabilidade dos nenos; a dependência económica de mulheres e nenos do
marido-pai deve acabar. Os outros trabalhos do fogar devem tamém cambiar a
través de comedores e lavandarias comuns, por exemplo. Quando estes trabalhos
passem ao sector público, as basses materiais da discriminaçom contra as
mulheres terám desaparecido.
Estas som só pre-condiçons.
A ideia do status inferior da mulher está profundamente arraigada na sociedade
e custará um grande esforço extirpa-la. Mas quando as estruturas que producem e
sustenhem esta idea se modifiquem, entom, e só entom poderemos esperar o
progresso. É possível, por exemplo, que a adopçom de comedores comuns só
signifique que as mulheres se trasladem da cozinha familiar à comunal. Isto
seria seguramente um progresso, particularmente numha sociedade socialista onde
o trabalho nom tivesse o carácter de explotaçom que agora tem. Umha vez que as
mulheres fossem libertadas da produçom privada no fogar, resultaria
provavelmente mui difízil manter durante certo tempo umha rígida atribuçom dos
empregos segundo o sexo. Este é um exemplo da interrelaçom entre duas
pre-condiçons enriba mencionadas: a verdadeira igualdade de oportunidades nos
empregos é provavelmente impossível sem a liberdade respeito ao trabalho no
fogar, e a industrializaçom é improvável a menos que as mulheres deixem o fogar
por empregos.
Algumhas
modificaçons da produçom, necessárias para que as mulheres saiam do fogar,
parecem, em teoria, possíveis baixo o capitalismo. Um dos pontos de partida dos
movimentos de Libertaçom das Mulheres pode ser o facto de que existem agora
formas alternativas, capitalizadas, da produçom do fogar. Existe o coidado
diurno, ainda que inadecuado e se quadra demasiado caro; alimentos preparados,
entrega de comidas a domicílio, e outras comidas que um mesmo leva à casa
abundam; lavandarias e tinturarias ofrecem preços globais. Contudo, o custo em
geral impide o emprego completo destas fazilidades, que nom existem em todas
partes, ainda em Norteamérica. Caberia considera-las formas embrionárias, antes
que estruturas completas. Nom obstante, ofrecem-se como alternativas do actual
sistema de atender a esse trabalho. Particularmente em Norteamérica, onde o
desenvolvimento das indústrias de serviços é importante para o crescimento da
economia, as contradiçons entre estas alternativas e a necessidade de conservar
às mulheres no fogar ham de desenrolar-se.
A necessidade de
conservar às mulheres no fogar provém de dous aspectos principais do sistema
actual. Primeiro, a quantidade de trabalho nom remunerado realizado polas
mulheres é moi grande e moi proveitosa para os que possuem os meios de
produçom. Pagar às mulheres polo trabalho que fam, ainda no nível do salário
mínimo, implicaria umha massiva redistribuiçom da riqueza. Actualmente o
sustento da família é um dissimulado imposto ao salariado -um salário merca a
força de trabalho de duas persoas-. Em segundo lugar hai um problema de se a
economia pode expandir-se o suficiente para dar trabalho a todas as mulheres
como parte dumha força laboral normal. A economia de guerra pode incluir
parcialmente às mulheres na economia, mas nom puido criar a necessidade de
todas ou sequera a maioria das mulheres. Sustém-se que os postos que chegara a
criar a industrializaçom do trabalho do fogar proveeriam a essa necessidade,
mas pode-se ponher em dúvida sinalando: 1) a existência de grandes forças
económicas que defendem o status quo e que som contrárias à
capitalizaçom antes mencionada, e 2) o facto de que as actuais indústrias de serviços
que dalgúm jeito se oponhem a essas forças nom foram capazes de enfrentar o
crescimento da força laboral, tal como está actualmente constituida. A
tendência nas indústrias de serviços [é que] criam somentes subemprego no
fogar; nom criam novos postos para as mulheres. Mentres esta seja a situaçom,
as mulheres seguirám sendo umha parte convintemente elástica do ejército
industrial de reserva. A sua incorporaçom à força laboral em termos de
igualdade -que criaria certa pressom para a capitalizaçom do trabalho do fogar-
só é possível cumha expassom económica até o de agora apenas lograda polo
neocapitalismo em condiçons de plena mobilizaçom para a guerra.
Ademais, estas
modificaçons estruturais implicariam a rotura do actual esquema da família
nuclear. A funçom estabilizadora do consumo que desempenha a família, sumada à
capacidade do culto do fogar para conservar às mulheres fóra do mercado do
trabalho, servem demasiado bem ao neocapitalismo para que podam ser fazilmente
desbotadas. E, num nível menos importante, ainda que estas modificaçons
necessárias da natureza da produçom do fogar chegaram a realizar-se baixo o
capitalismo, implicariam a desagradável consequência de incluir todas as
relaçons humanas em vencelhos monetários. A atomizaçom e o isolamento da gente
na sociedade ocidental está já o suficiente avançada para que se volte duvidoso
que semelhante isolamento psíquico puidesse já tolerar-se. É provável, em
realidade, que umha das respostas negativas de tom emocional respeito dos
movimentos de Libertaçom das Mulheres provenha desse temor. Se esse fosse o
caso, caberia citar possíveis alternativas -cooperativas, kibbutz, etc.- para
demonstrar que as necessidades psíquicas de comuniom e calor podem ser melhor
atendidas com outras estruturas.
No melhor dos
casos, a capitalizaçom do trabalho doméstico só daria às mulheres a liberdade
limitada de que gozam a maioria dos homes na sociedade capitalista. Isto nom
significa, contudo, que as mulheres devessem esperar para esigir a liberdade,
contra a discriminaçom. Hai umha base material do status feminino; nom somos
só objecto de discriminaçom, somos explotadas. Actualmente o nosso trabalho
nom pago no fogar é necessàrio para que tudo o sistema funcione. A pressom
criada polas mulheres que nom aceitam o seu papel ha de reduzir a eficácia
desta explotaçom. Ademais, estes desafios impidem o funcionamento da família e
podem voltar menos eficaz o deliberado alonjamento das mulheres da força de
trabalho. Cabe agardar que tudo isto apressurará a transiçom cara umha
sociedade distinta; a nossa tarefa é assegurar que as modificaçons da sociedade
rematem efectivamente coa opressom das mulheres.
(1970)
AS MULHERES E O MITO DO CONSUMISMO
Ellen Willis
Se os brancos radicais pensam seriamente numha revoluçom, terám
que desbotar muita ideologia inconsequente criada por, e para, os homes brancos
instruidos de classe meia. A difundida teoria do consumo é um exemplo do que
haverá que desbotar.
Tal como tenhem
exposto muitos pensadores da esquerda, e particularmente Marcuse, esta teoria
sustém que os consumidores som psiquicamente manipulados polos meios de
comunicaçom de massas, coa fim de que desejem cada vez mais bens de consumo e,
deste jeito, reforcem umha economia que depende de vendas crescentes. Esta teoria
considera-se particularmente aplicável às mulheres, pois elas fam realmente a
meirande parte das compras, o seu consumo está relaconado quase sempre coa sua
situaaçom de oprimidas (por exemplo, maquilhage, detergente, etc.) e elas som o
branco habitual dos anunciantes. Desde este ponto de vista, a sociedade define
às mulheres como consumidoras e como objectos sexuais passivos que os meios de
difusom de massas encandilam com mercadorias. Polo tanto, os que se beneficiam
coa depreciaçom das mulheres nom som os homes, senom a estrutura corporativa do
poder.
Ainda que a teoria
do consumismo tenha adquirido nos ultimos anos a invulnerabilidade dum dogma
religioso, tem, como a maior parte dos dogmas, por principal funçom defender os
interesses dos seus adeptos: neste caso, os privilégios classistas, sexuais e
raciais.
Em primeiro termo,
nom hai nada intrisecamente erróneo no consumo. Ir de compras e consumir som
actividades humanas agradáveis e a praça do mercado foi o centro da vida social
durante miles de anos. O sistema do lucro é opressor nom porque abundem os
luxos triviais, senom porque as necessidades básicas nom som atendidas. A
localizaçom da opressom está na funçom produtiva; a gente nom controla que
classe de mercadorias se producem (nem de que serviços se pode dispor), em que
quantidades, baixo que condiçons, nem tampouco como se distribúem. As empresas
decidem, tendo em conta exclusivamente as perspectivas de lucro. Resulta mais
proveitoso produzir mercadorias de luxo para os ricos (ou para os pobres, a
praços, em condiçons de explotaçom) que produzir e distribuir alimento,
habitaçom, e serviços médicos, educacionais, recriativos e culturais, de acordo
coas necessidades e desejos da gente. Nós, como consumidores podemos aceitar ou
rejeitar as mercadorias que nos ofrecem, mas nom podemos influir na sua
qualidade ou modificar o sistema de prioridades.
Tal como se
manifesta, a profussom de mercadorias é umha genuína e poderosa compensaçom da
opressom. É um suborno, mas como tudos os subornos ofrece benefícios concretos:
no caso do norteamericano corrente, um nível de confort físico sem paralelo na história. Nas actuais condiçons, a
gente interessa-se polos bens de consumo, nom porque tenham passado por um
lavado de cerebro, senom porque mercar é umha actividade agradável que é
permitida e incluso activamente fomentada polos nossos governantes. O prazer de
consumir um gelado será umha satisfacçom mínima se se compara cum trabalho
independente e interessante, mas o primeiro está à nossa disposiçom e o segundo
nom. Umha família pobre preferiria induvitávelmente obter um apartamento
decente antes que mercar um novo televisor, mas como nom existe a mais remota
possibilidade de acadar o apartamento, que ganharia com privar-se do televisor?
Os radicais, que som
em geral saudavelmente escépticos com respeito a fázeis explicaçons freudianas,
deram-se pressa, sem embargo, em aceitar esta teoria da manipulaçom dos meios
de difusom abertamente inspirada em Freud, tal como foi vulgariçada por
investigadores de mercado e sociólogos como Vance Packard (Marcuse reconhece a
influência de Packard em O home
unidimensional). Esta teoria sustém que os anúncios, programados para criar
associaçons inconscientes entre certos produtos e profundos temores, desejos
sexuais e necessidades de autoestima, induzem à gente a mercar objectos na
procura de satisfacçons que nengum produto pode proporcionar. Ademais as
empresas, a través dos meios de difusom, criam deliberadamente temores e
desejos, que os seus produtos simulam satisfazer. É dizer: as mulheres nom som
somentes enganadas com mentiras e exageraçons -como, por exemplo, a sugestom de
que certo perfume fará-as sexualmente irresistíveis- senom que, ademais, som
psiquicamente incapazes de apreender a través da experiência e voltarám mercar
pesse a todas as decepçons, pois, de tudos os jeitos, a "necessidade"
de serem sexualmente irresistíveis é programada nelas para que continuem
mercando perfumes. Esta hipótese de distorssom psiquica tem por base o erróneo
suposto de que a saude mental e o antimaterialismo som sinónimos.
Ainda que tenha
que enfrontar os enganos e fantasias do sistema comercial, a gente em geral
compra mercadorias por motivos práticos do seu próprio interesse. Umha lavadora
fai mais fázil o trabalho da ama de casa (posto que nom hai socializaçom do
trabalho doméstico); a excedrina suprime efeitivamente a dor de cabeça;
um automóbil é realmente um meio de transporto. Se alguém é induzido a mercar
um produto por um anúncio enganoso, trata-se dumha explotaçom; nada tem que ver
cum lavado cerebro.
A publicidade, em
realidade, é um compéndio prático para a economia do consumidor, que
constantemente lembra-nos que temos à nossa dispossiçom e alenta-nos a
satisfazer-nos. Funciona (é dizer, estimula as vendas) porque mercar é o único jogo que hai na cidade, e nom vice-versa. Os anúncios sugirem temores
mórbidos (por exemplo o medo ao mal cheiro corporal) ou falsas esperanças (de
irresistibilidade) e os compradores fronte a múltiples e indiscerníveis marcas
dum produto podem eleger segundo a sugestom do anúncio: que outro método
seria o melhor?. É o velho jogo de coidar-se dos enganos. O engano conta
coa ingenuidade do comprador e a gente apreende aa resistir o engano através da
experiência. Hai grupos particularmente vulneráveis, como essa gente maior, sem
a experiência prévia -individual ou histórica- que a guiara quando a cornucópia
do consumo desenvolveu-se bruscamente depois da Segunda Guerra Mundial; e os
pobres que nom tenhem cartos de abondo para apreender, através do método da
experiência, o erro e a desilusom, a voltarem-se consumidores sagazeis. O
constante refinamento das pretenssons dos anúncios, os seus efeitos visuais,
etc., revelam que a experiência insensibiliça. Ninguém crê realmente que fumar
a marca X de cigarros volte a umha persoa sexy.
A funçom do sexo num anúncio é provavelmente o óbvio -atrair a atençom cara o
anúncio- e nom lograr que a gente "identifique" sexualidade e
produto. O efeito pricipal da marcado énfase sexual publicitária foi estimular
umha procupaçom cara o sexo, o que vém a demonstrar que nom é fázil derivar
cara outras fins um impulso humano fundamental. Madison Avenue vém alonjando-se
das técnicas "motivacionais" e desenvolvendo as estéticas:
especialmente os comerciais de televisom voltaram-se extraordinariamente
inventivos desde o ángulo visual. Disto se deduz que o enfoque da psicologia
profunda nunca chegou a funcionar, ou deixou de faze-lo a medida que os
consumidores voltavam-se mais destros.
A teoria de que as
empresas criam novas necessidades psicológicas para vender o seu material é
assimesmo, insubstancial. Nom hai prova de que a propaganda poda por si mesma
criar um desejo; ocorre na realidade que trae à consciência um desejo latente,
ao sugerir que estám disponhíveis os meios de satisfaze-lo. Trata-se dumha
convicçom supersticiosa: subjace nela a implicaçom de que o opresor é
diavolicamente inteligente (apreendeu a controlar as almas) e de que os meios
de difusom tenhem poderes mágicos. Confunde tamém os efeitos coas causas, e
simplifica drasticamente as relaçons entre a ideologia e as condiçons
materiais. Nom nos ensinarom a ter averssom polo nosso mal cheiro para poder
vender-nos desodorantes; os desodorantes vendem-se porque ter mal cheiro tem
consequências sociais. E a atitude negativa respeito dos nossos corpos que fixo
possível inventar e vender desodorantes, está profundamente arraigada na nossa
cultura anti-sexual, que à sua vez foi formada por modos de producçom
explotadores e polo antagonismo de classe entre homes e mulheres.
A confusom entre
causa e efeito é particularmente evidente na análise consumista da opressom das
mulheres. Estas nom som manipuladas polos meios de difusom para que sejam
serventes domésticas e sexualmente decorativas e insensatas, coa fim de vender
jabóm e laca para o cabelo. Ocorre, pola contra, que esta image reflicte às
mulheres tal como som forçadas polos homes a comportarem-se numha sociedade
sexista. A supremacia do home é a forma mais antiga e básica de explotaçom
classista, nom algo inventado por um inteligente agente de propaganda. O dano real
que fam os meios de difusom coa image da mulher que proponhem é suster o statu quo sexista. Em certa medida a
propaganda da moda, os cosméticos e a "higiene feminina" dirigem-se
mais aos homes que às mulheres. Sugirem ao home que as mulheres devem recorrer
a todos os adornos da escravitude sexual, expectativa que as mulheres tenhem,
entom, que satisfazer se querem sobrevivir. Que os anunciantes explotam a
subordinaçom das mulheres mais bem que a criam é agora evidente, desde que a
moda, e os produtos de beleza e higiene masculinos, chegaram a ser grandes
negócios. Em contraste coa propaganda dos produtos femininos, que sugirem
"use isto e el amará-a" (ou "se vostede nom usa isto,
el nom a amará") a propaganda para o sector masculino afirma: "Vostede
tamém pode deleitar-se com perfume e roupas de cores vivas; nom se preocupe,
isto nom o fai feminino". Ainda que os anunciantes coidam de destacar
quanto virís som esses produtos (dando-lhes nomes como "Brut",
mostrando ao home que os usa numha caceria ou coqueteando com mulheres
admirativas que, dito seja de passo, som apenas objectos decorativos quando a
venda se propóm ao home) nunca pretendem que o devandito produto seja essencial à masculinidade (como a
maquilhage é essencial à feminidade) senom que é compatível com ela. Para convencer a um home de que merque algo,
umha propaganda deve dirigir-se ao seu desejo de autonomia e liberdade frente
às restricçons convencionais; para convencer a umha mulher deve dirigir-se à
sua necessidade de agradar ao opressor.
Para as mulheres,
mercar e usar vestidos e produtos de beleza nom é propriamente consumo,
senom trabalho. Umha das tarefas femininas nesta sociedade é ser um
objecto sexual atrainte, e as roupas e a maquihage som instrumentos de
trabalho. Assimesmo, mercar alimentos e artefactos caseiros é umha tarefa
doméstica; é trabalho feminino eleger os produtos que serám consumidos por toda
a família. Os aparelhos e os produtos de limpeza som instrumentos que fazilitam
as funçons domésticas. Quando umha mulher gasta umha suma de dinheiro e de
tempo decorando o seu fogar ou decorando-se a si mesma, buscando
insistentemente a melhor aspiradora, nom se trata dumha gratuita compracência
consigo mesma (e nom falemos do resultado dumha manipulaçom psíquica) senom dum
saudável intento de encontrar umha saída para as suas energias criadoras,
dentro do seu limitado ámbito.
Existe o arraigado
mito de que a mulher tem o control do dinheiro do seu home, porque é ela quem o
gasta. Em realidade, nom tem muita mais autonomia financieira que o empregado
dumha empresa encarregado de mercar o mobiliário e os elementos necessários
para umha oficina. O marido, especialmente se é rico, pode permitir à sua
mulher certa amplitude nos gastos, pode considerar que, já que tem que
trabalhar na casa, possue o direito de amobla-la ao seu gosto, ou sinxelamente
prefire nom molestar-se polos detalhes domésticos; mas conserva um direito de
veto final. Se nom gosta do manejo dos cartos que fai a sua mulher dirá-lho. Na
maioria dos fogares, particularmente na classe trabalhadora, a mulher nom pode
fazer gastos importantes, de carácter persoal ou na sua funçom de
servente-objecto, sem o consultar ao seu home. E , segundo as estatísticas, o
mais corrente é que seja o marido quem tome as decisons definitivas respeito ao
mobiliário e os aparatos, e assimesmo a outros gastos maiores, como casas,
carros e vacaçons.
A teoria do
consumismo é o produto dum antimaterialismo aristocrático, de orientaçom europea,
cuja base é um resentimento da classe alta contra a ascensom burguesia vulgar.
Os intelectuais radicais sentiram-se atraidos por esta posiçom essencialmente
reaccionária (os pontos de vista de Herbert Marcuse sobre a cultura de massas
som surpreendentemente semelhantes aos dos teóricos conservadores como Ernest
Van Den Haag) porque satisfazia à vez o seu disgosto do capitalismo e o seu
sentimento de superioridade frente à classe trabalhadora. Este elitismo é evidente na convicçom radical
de que tenhem desenmascarado ao sistema, mentres o trabalhador corrente é
víctima do lavado de cerebro que imponhem os meios de difusom. É estrano que
ninguém pretenda que a classe dominante é oprimida polas mercadorias; ao
parecer, os ricos consumem por livre determinaçom. Em última instáncia, este
ponto de vista leva a atribuir umha estéril trascendência às soluçons
individuais -se somentes os descarriados rejeitaram a sua existência
"plástica" e se mudaram aos
alojamentos de East Village- e a suster que a gente resulta oprimida porque é
estúpida ou enferma. O odioso desta atitude radica no facto de que os radicais
só podem manter a sua existência "prescindível" mentres suficientes
trabalhadores supostamente submetidos a lavado de cerebro mantenham a economia
em movimento.
O consumismo
aplicado às mulheres é claramente sexista. A imagem geralizada da consumidora
feminina de cabeça baleira, que irrita constantemente a paciência do seu home
coas suas compras extravagantes, contribue a afiançar o mito da superioridade
masculina: as mulheres som incapazes de gastar racionalmente os cartos; tudo o
que precissam para sentirem-se felizes é um sombreiro novo de quando em vez.
Hai um estereotipo racial análogo: o negro co seu Cadillac e as suas camisas de
cor vermelha. Ademais, o ponto de vista do consumismo permite aos homes nom ter
que reconhecer que explotam às mulheres, ao atribuirem a sua opressom
exclusivamente ao capitalismo. Encaixa muito bem na teoria radical existente e
os seus interesses, aforrando o esforço de tratar os verdadeiros problemas da
liberaçom das mulheres. E, ao dividir às mulheres, retarda a luita contra a
supremacia varonil. O mesmo ocorre no movimento masculino. A crença no
consumismo alenta às mulheres radicais a tratar com arrogáncia a outras mulheres,
porque tratam de sobreviver da melhor maneira possível, e conservar as suas
ilusons individualistas.
Se pretendemos
suscitar um movimento de massas temos que admitir que nengumha decissom
individual, como rejeitar o consumo, pode libertar-nos. Devemos deixar de
discutir respeito de qual estilo de vida é preferível (secretamente confiados
em que é o nosso) e dedicar-nos à tarefa de luitar colectivamente contra a nossa própria opressom e contra os modos
em que nós mesmos oprimimos aos demais. Quando cheguemos a atopar umha
alternativa válida para o sexismo, o racismo e o capitalismo, o problema do
consumidor, se realmente é um problema, resolverá-se por si mesmo.
(1970)
[i] As profissons liberais e os cargos de
responsabilidade em régime salariado dentro do sistema público podem
considerar-se, polas suas características económicas e autonomia individual no
processo de trabalho, como sucedáneos da autonomia económica pequenoburguesa,
que por outra parte tende a ser eliminada polo próprio desenvolvimento dos
meios de produçom baixo o capitalismo.
[ii] A medida
que o modo de produçom capitalista se expande, tende a integrar dentro de si e
a assimilar as distintas formas concretas de trabalho social que existem na
sociedade, convertindo-as em forças produtoras de plusvalor. O modo de produçom
patriarcal -que por outra parte já fora integrado em certa medida polos modos
de produçom feudal, escravista, etc., como parte da relaçom de explotaçom
dominante- é integrado polo capital suprimindo a sua existência autónoma da
produçom capitalista, insertando-o como extensom do trabalho assalariado.
Dado que o capitalismo -e mais
evidentemente, o capitalismo na sua fase de decadência aberta- nom pode
integrar directamente, como trabalho assalariado, a toda a força de trabalho
feminina, o que fai é server-se e perpetuar o trabalho feminino na sua forma
precapitalista para reduzir o mínimo salarial imprescindível do trabalho
masculino, e para incrementar o tempo ou a energia disponhíveis por parte do
obreiro que som susceptíveis de transformar-se em tempo de trabalho produtivo
meiante a extensom da jornada laboral ou a intensificaçom do ritmo de trabalho.
Como o salário está determinado polo dinheiro socialmente necessário para a
reproduçom simple e ampliada da força de trabalho, a parte destinada à criança
de nov@s proletári@s é repartida (desigualmente) entre a mulher e o home quando
a primeira acede ao trabalho assalariado, ao tempo que se tende a reduzir a
suma dos dous salários combinados ao equivalente ao valor global necessário
como salário familiar.
Portanto, económicamente e nos demais
aspectos a própria família passa a ser umha expressom social do modo de
produçom capitalista e da dominaçom geral do capital sobre o trabalho, e tende
a desenvolver-se num sentido específicamente capitalista em contraposiçom a
todos os rasgos precapitalistas das relaçons familiares (home-mulher,
pais-filh@s). A dominaçom de género nom é exercida autónomamente polo modo de
produçom familiar, senom polo modo de produçom -e a classe- que dominam sobre o
conjunto do trabalho social.
[iii] Hai que
recordar que este texto foi escrito em 1970. Nós nom compartimos a consideraçom
dos chamados países "socialistas" ou "comunistas" como
auténticamente tales. Estes eram régimes de explotaçom do trabalho assalariado,
formas de capitalismo de Estado totalizadas e ligadas a um nível de
desenvolvimento das forças produtivas relativamente atrassado -em boa parte
pre-capitalista-. Precisamente neste carácter reside umha das causas pola que o
estalinismo nunca serviu para avançar no processo de libertaçom da mulher,
senom que, ao contrário, reforçou a família tal e como existe no capitalismo, a
família burguesa, como meio para intensificar o rendimento do trabalho
assalariado.
[iv] Nom é o dinheiro o que determina o valor senom o
valor (de cámbio) o que adopta o dinheiro como forma universal. O valor é a
relaçom entre o trabalho vivo e o seu produto baixo umha forma abstracta,
alienada; nom na forma do valor de uso que resposta a umha necessidade social.
Nom é certo que o trabalho das mulheres (doméstico) nom produza valor, senom
que produze valor de uso mas nom valor de cámbio; polo tanto, o produto do seu
trabalho nom se convirte em mercadoria susceptível de ser vendida por dinheiro
senom que se queda em trabalho gratuito. Contudo, o trabalho doméstico produz
valor de cámbio indirectamente, incrementando o rendimento da força de trabalho
do home e reduzindo o mínimo salarial necessário para a reproduçom social da
força de trabalho.
[v] Hoje
resulta evidente que o mais que se pode esperar no capitalismo é o
reconhecimento formal do carácter social do trabalho doméstico nom remunerado.
A tendência à socializaçom do trabalho doméstico até a forma dum trabalho na
indústria pública nom pode desenvolver-se geralizadamente dentro do
capitalismo, constituindo somentes exceiçons na forma de serviços sociais
minoritários.
[vi] Co termo
"reduplicaçom" semelha fazer referência a um processo produtivo
auto-recurrente, que sempre se repite baixo as mesmas condiçons sem levar a
umha acumulaçom de riqueza e, por conseguinte, a um desenvolvimento crescente
das forças produtivas (umha forma de produçom que se "duplica" ou
reproduz a si mesma umha e outra vez sobre a mesma base material). Na teoria
económica marxiana poderia dizer-se "reproduçom simple", em oposiçom
à produçom capitalista que implica acumulaçom e, portanto, “reproduçom
ampliada” (O Capital, tomo II).