V. A trajectória histórica do
movimento proletário galego.
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Para o proletariado galego, o ascenso do movimento reformista começa a princípios do século XX, formando as primeiras organizaçons obreiras independentes. Estas seguiam o modelo das organizaçons precedentes, de ámbito estatal, e integravam-se com elas, o qual era próprio dessa fase incipiente de desenvolvimento num contexto de atraso económico e social em contraste com outras partes do território estatal, mais avançadas.
Coa guerra civil e a posterior repressom franquista, os débiles agrupamentos de pre-guerra (UGT-PS, CNT-FAI, POUM) som destruidos ou ficam inoperantes. Por entom, o nacionalismo burguês galego, representado polo Partido Galeguista, nom tinha influência significativa sobre a classe obreira.
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Co ascenso da luita de classes entre fins dos 60 e começos dos 70, aparece umha tendência ao desenvolvimento da consciência da classe obreira como classe nacional, ainda que mantem-se dependente do nacionalismo burguês (PSG, UPG). Elevam-se tamém a consciência e a luita de classe, num processo canalisado principalmente através do movimento das Comissons Obreiras, e que bate rápidamente coa dominaçom do PCE sobre as mesmas. Assi, nesse periodo xurdem aceleradamente duas agrupaçons independentes: Galiza Socialista, com base em Vigo e concentrada em Citroen, e Organización Obreira, tamém maiormente com base em Vigo. Nesta época, no conflito de classe vai-se incluindo a consciência progressiva das desigualdades nacionais nas condiçons de trabalho e de vida, ao tempo que a luita económica e a luita política tendem a fusionar-se. Frente às CCOO reduzidas ao sindicalismo de "reconciliaçom nacional" polo PCE, estas luitas e esta consciência impulsam na Galiza o desenvolvimento de organizaçons nacionais de classe independentes.
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Em 1975 aparece o Sindicato Obreiro Galego, nucleado na Frente Obreira da UPG (Unión do Povo Galego). Esta última fora formada co objeto de proporcionar umha base de massas, e umha influência sobre o movimiento proletário, a este partido pequeno-burguês, criado por umha minoria radical da intelectualidade. De facto, dado o desenvolvimento da luita de classes e do grande peso do PCE, a intelectualidade nom podia formular nengum projecto nacionalista radical e leva-lo adiante sem buscar abertamente a adesom do proletariado, o que se traduziu na assunçom da perspectiva socialista -tal e como se formulava dentro do molde político estalinista- e num esforço por dotar-se de organizaçons de massas próprias.
Nom obstante, o contexto de ascenso da luita de classes e de ascenso da consciência como classe nacional provoca que a Frente Obreira da UPG se convirta num espaço de reagrupamento de forças provintes dos núcleos avançados da classe. Como esse ascenso incipiente se expressava, por um lado em termos sociais gerais dum modo reformista, como umha procura do reconhecimento, por parte da orde burguesa, da classe obreira como parte a ter em conta da própria sociedade burguesa; e, por outro lado, fazia-o nos termos específicos dum país subdesenvolvido e oprimido por um Estado nacional alheo, este ascenso expressou-se na forma dum movimento socialreformista cumha aspiraçom à liberdade política nacional que oscilava entre o autonomismo estatista e a independência política plena. Mas a influência da UPG e do nacionalismo intelectual burguês em geral terá as suas consequências limitantes sobre o desenvolvimento da consciência proletária.
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Co refluxo da luita de classes a fins dos 70, abre-se um periodo de crecentes escisons. O devir cara o sindicalismo, depois de experiências mais próximas à autonomia obreira -desde as luitas assemblearias de massas até a formaçom de organizaçons militantes avançadas como Organización Obreira- é o produto deste contexto de refluxo radicado na "transiçom" (um processo de integraçom acelerada das velhas organizaçons obreiras no Estado capitalista combinado co maquilhamento democrático-burguês do mesmo).
Por essas razons, a formaçom, primeiro do SOG, e logo da Intersindical Nacional Galega, devem ver-se o começo dum retroceso, ainda que, dum ponto de vista formal, sejam nom obstante auténticas autoafirmaçons do proletariado galego como classe nacional -se bem, como classe alienada, como classe para o capital-. Ainda que necessário para o proletariado galego, para desenvolver livremente a sua consciência de classe na sua forma específica e poder chegar assi a umha verdadeira unidade internacionalista c@s proletári@s de otras naçons, trata-se, contudo dum passo históricamente regressivo.
Ademais, na dinámica do contexto de refluxo, e no parelho crescimento da tendência burocrática, está a causa de que, por um lado, a formaçom de organizaçons nacionais se envolva cum espírito burguês, como afirmaçom dumha naçom frente a outras, e que este carácter nacional acabe por ter um sentido restritivo e isolacionista. E, polo outro, estas novas organizaçons sindicais e partidárias rápidamente se burocratizam e se integram na acçom puramente reformista e parlamentarista.
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Políticamente, no periodo de fins dos 70 até meiados dos 80 decantam-se claramente duas tendências: umha puramente reformista, que dará lugar ao sindicalismo nacional maioritario da CIG e ao Bloque Nacionalista Galego, e outra que busca a ruptura com a tendência à integraçom capitalista, mas sem questionar ainda o enquadramento capitalista, que dará lugar a pequenas organizaçons sindicais mais à esquerda (a Confederación Xeral de Traballadores Galegos em 1985; e mais tarde, separando-se da CIG, a Confederación Unitária de Traballadores em 1998) e a pequenos partidos como a FPG (1988) e a sua escisom, a Assembleia do Povo Unido (1989) -e mais recentemente, à formaçom de Nós-UP-. No transcurso deste periodo tamém se vam decantando, dentro desta última tendência, umha tendência mais aferrada às concepçons reformistas típicas dos PCs estalinistas, e outra mais progressiva -mas somentes no sentido de que tende a levar ao extremo a contradiçom entre a sua teoria (bolchevique-independentista), supostamente revolucionária, e a sua prática completamente reformista-.
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Namentres estas fracçons sindicais e políticas se entretinham nos seus choques e escisons, o certo é que pouco ou nada fixerom para impulsar o desenvolvimento da classe obreira num sentido revolucionário. Por contra, a classe obreira seguiu, a nível de massas, o processo xordo, alternado com luitas mais ou menos reduzidas em intensidade e extensom, salpicado por algumha luita ampla e de alcanço, que é o auténtico modo em que se leva a cabo históricamente a maduraçom espontánea da consciência de classe. Essas fracçons, enquadradas ainda na praxis reformista e, por conseguinte, na orde burguesa, nom tenhem actuado significativamente como vanguarda real que elevasse este processo de desenvolvimento espontáneo da consciência a um processo organizado e racional. Nom podiam faze-lo porque as suas formas de organizaçom respostam a outro papel: o papel de luitar por melhoras dentro do capitalismo, seja através do parlamentarismo laboral, seja através do parlamentarismo político.
Isto é o que explica que as bases destas tendências diminuiram entre o proletariado ou se mantivesem estancadas em lugar de medrar. Pola sua parte, na tendência mais radical este crescente isolamento traduziu-se, em lugar de num giro táctico em prol de elevar a compreensom teórica acerca do alcance dos problemas práticos e desenvolver umha propaganda e agitaçom revolucionárias imediatas, num giro oportunista na procura de concentrar forças (a famosa "unidade do independentismo") e numha crescente fossilizaçom ideológica.
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Como expressom mais avançada deste processo ideológico-político (que é parte superestrutural do processo de maduraçom da consciência de classe, que transcorre através das luitas sociais de massas), formou-se mais recentemente Nós-Unidade Popular. Esta organizaçom conflue sobre duas tendências: a do independentismo pequeno-burguês ultra-radical da tendência APU, desesperado por anos de grupusculizaçom sectária, e a do dirigentismo marxista-leninista de Primeira Linha, que combina esse radicalismo pequeno-burguês com umha perspectiva reformista completamente oportunista. Deste modo, adoptando o modelo basco de plataforma independentista, trata-se dumha organizaçom em si mesma fundada num espírito oportunista e na desesperaçom.
Embora, em Nós-UP condensam-se os dous processos políticos históricos: por um lado, a crise e degeneraçom da velha esquerda reformista; polo outro, a tendência de parte da classe obreira a buscar vias de elevar a sua luita a nível político. Isto explica que se convertisse até certo ponto numha canle para certos elementos proletários ascendentes que, nom obstante, nom representam a vanguarda real da classe, hoje maiormente desorganizada (7). Mas nom vamos a considerar aqui esta contradiçom entre a vanguarda de massas e esse sector intermédio que vacila ainda entre o reformismo e a revoluçom, entre o radicalismo verbal e a prática oportunista. O desenvolvimento desta contradiçom depende fundamentalmente do avanço da decadência do capitalismo e da sua incidência na agudizaçom e geralizaçom do antagonismo de classes.
(7) Esta vanguarda é demasiado reduzida e está demasiado dispersa. Compreendeu negativamente as leiçons da derrota do reformismo, e nom alcança todavia a tomar o impulso preciso, nem a ter a claridade de ideas necessária, para pôr em prática a superaçom positiva do velho movimento obreiro. Isto realimenta o problema da falta de concentraçom e fai que poda apresentar-se como um sector passivo, limitando-se quando é possível a defender formas incipientes de luita autónoma imediata, como o asemblearismo radical e as folgas selvages.
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Retomar hoje, e levar mais alá, a experiência do assemblearismo dos 70, da organizaçom militante... ou seja, dos elementos incipientes da autonomia proletaria galega; desenvolver umha concepçom e um programa de luita revolucionarios-proletários, para unir revoluçom mundial e libertaçom nacional; estas som, respeitivamente, a tarefa prática e a tarefa teórica mais imediatas para @s comunistas revolucionári@s galeg@s.
Dado o curso histórico, o passo positivo seguinte no desenvolvimento da esquerda independentista será o passo ao comunismo de conselhos -que este paso se apresente como tal abertamente ou nom, que se desenvolva conscientemente ou nom, que se efectue através de um lento proceso de rupturas ou através dum salto acelerado, será o aspecto meramente formal-. Mas este passo nom se produzirá sem que a luita de classes faga voar polo ar a adesom às superestruturas político-ideológicas actuais, formadas por programas, ideologias, dirigentes, que conformam hoje a organizaçom do independentismo galego. Se a nossa análise é correcta, da actual esquerda independentista sairám novos agrupamentos, que servirám como polo de confluência política para os elementos de vanguarda até agora dispersos.
Namentres este processo de ruptura e superaçom nom se produza, veremos crescer sem limites o oportunismo e o reformismo das organizaçons independentistas, funcionando em última instáncia como muros de contençom da luita de classes dentro do capitalismo. A extrema esquerda é, em geral, o último muro que separa ao proletariado do derrocamento do poder burguês. O comunismo de conselhos, no sentido que nós lhe damos, nom é outra ideologia mais, nom é um sistema pechado de ideas ao que deveria amoldar-se o movimento real: é o movimento proletário elevado à consciência revolucionária total e viva, por oposiçom ao bolchevismo e a todas as formas de recuperaçom social-demócratas e pequeno-burguesas.