I. Os fundamentos teóricos.
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A maioria d@s supost@s
marxistas, cegad@s pola tradiçom leninista e polo nacionalismo burguês,
consideram a chamada "questom nacional" como um obstáculo para a
emancipaçom proletária ou, quando menos, vem a libertaçom nacional como um
interesse exterior à perspectiva comum de classe, em lugar de considerar
a libertaçom nacional como parte necessária e universal da emancipaçom
proletária. Esta, sem embargo, era a focage marxiana essencial da questom,
focage que se opóm tanto ao "princípio nacional" como ao internacionalismo
ideológico que pretende fazer abstracçom das diferenciaçons nacionais.
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A diferência do pensamento
revolucionário proletário, o nacionalismo burguês é incapaz de construir umha
teoria histórica que ultrapasse os limites do capitalismo. Isto expressa-se na
sua mistificaçom da própria história, considerando à Naçom como sujeito do
processo histórico e como umha categoria eterna. Na sua visom da história
confudem-se e misturam-se a ideologia e os factos. Por outra parte, ao adoptar
como ponto de partida objetivo e como sujeito histórico à Naçom, em lugar da
actividade e relaçons sociais humanas e dos indivíduos concretos, a sua
tendência é necessáriamente idealista e nom aprofunda nas determinaçons
históricas. Assi, tem que reproduzir todas as mistificaçons que a própria
realidade social cria devido às relaçons alienantes, vendo o mercado como
determinante da produçom, a política como determinante da economia, a cultura
como o determinante da existência da naçom, etc..
O materialismo histórico é incompatível coa
historiografia nacionalista. A presensom de utilizar o materialismo histórico
para elaborar a "história nacional" significa deforma-lo. Ao nom partir da actividade dos
indivíduos reais, senom senom dum sujeito abstracto, a naçom, a sua história
serve únicamente, no melhor dos casos, para descrever a formaçom da naçom e
justificar a sua existência. Nom se podem explicar realmente as causas
determinantes do devir histórico da comunidade nacional sem remitir-se à sua
base material na actividade humana concreta, o que significa, mais
concretamente: o desenvolvimento da produçom e da luita de classes. O resultado
é:
1º) substituiçom da contradiçom entre forças produtivas e relaçons de produçom
pola contradiçom -necessáriamente abstracta, baixo esta focage- entre naçom
oprimida e naçom opressora (Galiza-Espanha, p.e.), e
2º) substituiçom da luita de classes pola luita entre naçons.
O trasfundo desta
mistificaçom nom é outra cousa que a negativa a explicitar o próprio ponto de
vista de classe no marco da análise histórica; pois somentes desde esta
perspectiva subjetiva pode pretender escrever-se umha história da naçom
distinta da determinada polo desenvolvimento dos modos de produçom e a luita de
classes. Em lugar de considerar a totalidade da vida nacional desde o prisma da
luita de classes, considera-se a luita de classes como um fenómeno nacional
mais, e difumina-se seguindo um critério empirista em numerosas luitas
estamentais (os obreiros, os moços, as mulheres, os intelectuais, o
campesinado, etc.).
As relaçons
internacionais som, seguindo esta lógica, apresentadas como as determinantes
das relaçons sociais que imperam na própria naçom, em lugar de considerar ambos
planos como interrelacionados e interdependentes. Aqui tamém se busca a causa
histórica do subdesenvolvimento nacional na opressom política exterior, em
lugar de ver ambos fenómenos como resultados da dinámica natural do
desenvolvimento histórico da acumulaçom de capital. Dito doutro modo: a
dialéctica desenvolvimento-subdesenvolvimento é inerente ao capitalismo, e
implica nom só o interesse da burguesia dominante em manter essa relaçom, senom
tamém o da burguesia dominada. Esta dialéctica tem como fundamento que o
sistema capitalista nom é umha soma de economias nacionais, senom umha totalidade
indivissível. A teoria de que o capitalismo veu imposto a Galiza desde o
exterior é completamente ahistórica e reempraça a explicaçom da necessidade
histórica do desenvolvimento capitalista de Galiza, que deriva do
desenvolvimento das forças produtivas na sociedade feudal e a conseguinte
internacionalizaçom do comércio, polo relato dum acidente: o facto
de que as primeiras formas importantes de capitalismo na Galiza se vinculem a
capitalistas de outras nacionalidades.
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Para o marxismo revolucionário, a
comunidade nacional actual e o seu futuro, entanto forma singular da comunidade
humana, é umha questom subordinada ao objetivo da emancipaçom d@s proletári@s,
à revoluçom comunista. Mas isto nom se deve a que ponhamos o internacionalismo
por acima dos problemas nacionais, senom a que @s proletári@s nom temos
pátria.
O capitalismo significa que
"o home mesmo é um valor de cámbio, que a abrumadora maioria da
populaçom das naçons constitue umha mercadoria, que pode ser determinada sem
ter em conta «as condiçons políticas das naçons»". Por essa razom: "A nacionalidade do obreiro nom é nem francesa, nem inglesa,
nem alemá: é o trabalho, a escravitude livre, a automercantilizaçom. O seu
Governo nom é nem francês, nem inglês, nem alemám: é o capital. O seu ar nativo
nom é nem francês, nem alemám, nem inglês: é o ar da fábrica. A terra que lhe
pertence nom é nem francesa, nem inglesa, nem alemá: está a uns quantos pés
baixo o cham." (Karl Marx, Projecto dum artigo sobre o livro de
Friedrich List «O sistema nacional de economia política», 1845) (1)
Na medida em que o proletariado é umha classe despossuida dos
seus próprios meios de subsistência, carece de pátria. Ao máximo que pode
chegar é a assumir o patriotismo da burguesia, pensando que, esforçando-se polo
bem da sua "pátria" -do capitalismo e da burguesia-, colaborando coa
classe inimiga, obterá algumha concesom. Na sociedade capitaista, os seus
sentimentos nacionais somentes encontram um objeto verdadeiro na sua própria
comunidade de classe e popular espontánea, e no seu entorno ambiental. Mas isto
nom é para el umha pátria, dado que, por umha parte, os seus meios de
subsistência nom procedem de aí, e, por outra parte, porque se trata de algo
que está crescentemente subordinado aos imperativos do capitalismo. O
proletariado nom é nem sequer "dono" da sua vida privada.
A medida que desenvolve a sua consciência de classe, o proletariado
compreende esta despossessom e que a sua pátria -se se quere utilizar este
concepto- nom poderá nunca ser sua mais que meiante a supressom da sociedade de
classes. A revoluçom proletária é, entom, no plano nacional, a conquista da
pátria e a transformaçom da comunidade nacional de acordo coas novas relaçons
sociais comunistas.
Dado que o proletariado nom
tem pátria, tampouco tem liberdade nacional. A sua única liberdade consiste em
vender-se como mercadoria e em reproduzir-se como tal. A revoluçom que lhe
permita libertar-se tem, portanto, que ser umha revoluçom radical e universal,
um processo de autolibertaçom total dos indivíduos que implica, como forma, a supressom
da sociedade de classes e do Estado: o comunismo. Enquanto este régime social
significa o establecimento dumha forma de comunidade na que a liberdade de cada
um/umha é a condiçom da liberdade de tod@s, inclue já a realizaçom mais plena
da liberdade de todos os indivíduos para viver conforme às suas
particularidades culturais e de carácter, e para conformar, seguindo esse mesmo
princípio, as suas próprias estruturas sociais em todos os planos. Por isso, a
liberdade nacional d@s proletári@s constitue umha parte essencial do comunismo
e, portanto, tamém do internacionalismo comunista.
Isto o explica com muita
claridade o próprio Marx:
"Para que os
povos sejam capazes de unir-se verdadeiramente, tenhem que ter interesses
comuns. E para que os seus interesses se fagam comuns, as
relaçons de propriedade existentes devem suprimir-se, pois estas relaçons de
propriedade implicam a explotaçom de umhas naçons por outras: a aboliçom das
relaçons de propriedade existentes concerne únicamente à classe obreira. Só ela
tem, tamém, os meios para faze-lo. A vitória do proletariado sobre a burguesia
é, ao mesmo tempo, a vitória sobre os conflitos nacionais e industriais que
hoje enfrentam aos diversos países com hostilidade e inimizade. A vitória do proletariado
sobre a burguesia é tamém, por isso, o sinal de libertaçom de todas as naçons
oprimidas." (Marx, Discurso sobre Polónia, 1847)
Co afundimento do
capitalismo afundem-se, tamém, as comunidades nacionais existentes: "nom
é só a velha Polónia a que está perdida. A velha Alemanha, a velha França, a
velha Inglaterra, o conjunto da velha sociedade está perdido. Mas a perda da
velha sociedade nom é perda para aqueles que nom tenhem nada que perder na
velha sociedade, e este é o caso da grande maioria em todos os países na época
actual. Tenhem, no seu lugar, tudo que ganhar co derrube da velha sociedade,
que é a condiçom para o establecimento dumha nova sociedade, umha já nom
baseada em antagonismos de classe." (Ibid.)
Esta, portanto, é a
perspectiva essencial, a conexom essencial, entre a luita revolucionária do
proletariado e a luita de libertaçom das naçons oprimidas. Somentes sobre esta
base pode criar-se umha verdadeira unidade internacional, que esteja por acima
dos conflitos que enfrentam os distintos povos baixo o capitalismo. A supressom
proletária da situaçom de opressom nacional nom se ve aqui no mero cámbio das
relaçons entre as naçons, senom que vai à sua raiz -as relaçons de produçom
capitalistas- e integra-se como componhente do processo total de destruiçom da
sociedade de classes e de criaçom dumha sociedade nova, sem classes. Dito cos
termos do Manifesto: a elevaçom do proletariado a classe dominante
coincide coa sua autoconstituiçom em naçom.
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Esta perspectiva radical,
que une libertaçom nacional e revoluçom proletária, é o princípio essencial que
se vem negando até agora, pola influência sobre o proletariado tanto dos
nacionalismos burgueses dominantes como dos nacionalismos burgueses dominados.
Incluso a "esquerda" independentista renega desta perspectiva, quando
menos práticamente, do mesmo modo que o fixera o bolchevismo. O anarquismo está
mais próximo a este ponto de vista, mas, como acontece a nível geral, a suas
posiçons políticas tenhem habitualmente um carácter rígidamente idealista ou
arbitrário, e no caso da autodeterminaçom nacional nom é distinto. Assi, o
anarquismo tradicional limita a defesa da autodeterminaçom nacional a umha vez
consumada a revoluçom social, ou, polo contrário, subscreve acríticamente
propostas nacionalistas burguesas e pequeno-burguesas -normalmente, sempre que
nom vaiam orientadas ao puro separatismo-. Ou seja, a posiçom anarquista típica
pode bem definir-se como inconcreta teóricamente e vacilante na prática.
Dado que o proletariado
somentes pode constituir-se em sujeito autónomo através da luita de classes, os
direitos democráticos nom podem ser para el mais que meios tácticos para
realizar os seus objetivos, nom fins em si mesmos. A democracia proletária é
umha realidade antagónica ao capitalismo. O direito de autodeterminaçom
nacional nom pode, por conseguinte, ser assumido como um princípio, como
tampouco a defesa da democracia burguesa -e o direito de autodeterminaçom nom
é, sobre a base do capitalismo, em princípio mais que outro direito democrático
burguês-.
A autodeterminaçom nacional
real do proletariado nom está garantida nem encontra as suas condiçons
histórico-materiais, tanto objetivas como subjetivas, em nengum direito
político, nem numha determinada forma externa (territorial e cultural) da
estrutura do poder político (um marco autónomo de negociaçom laboral, um
estatuto de autonomia regional, um Estado nacional independente, etc.), senom
somentes na sua própria luita de classes e no seu movimento autónomo de classe.
Pola mesma razom, a luita revolucionária do proletariado nom depende
essencialmente para o seu desenvolvimento como luita nacional da forma
particular que adopte a dominaçom capitalista, nem sequer quando esta é umha
combinaçom de dominaçom capitalista autóctona e foránea. A sua posiçom de
classe na sociedade é a que o dirige contra a dominaçom capitalista como tal.
Nom tem o menor interesse em reformar essa dominaçom sem suprimi-la umha vez o
capitalismo deixa de ser um sistema social progressivo. Todos os seus objetivos
políticos orientam-se a socavar e destruir as estruturas do poder capitalista
sem distinçom, a sua luita económica tende cada vez mais a converter-se numha
luita política ante a inviabilidade das reformas e a crescente ofensiva que
contra el dirige a classe capitalista. E no curso desta luita é como o
proletariado se autodesenvolve como sujeito consciente, cria as suas próprias
organizaçons autónomas e estruturas de poder próprias, e impóm ao capital novas
condiçons e marcos de luita. Se o Estado burguês é uninacional ou plurinacional
é umha questom insignificante dum ponto de vista comunista-revolucionário. (Por
outra parte, o ponto de vista reformista, igual que se volve cada vez mais
utópico segundo se aprofunda a tendência decadente do capitalismo, tamém no que
respeita à "questom nacional" se volve mais demagógico e valeiro de
conteúdo.)
@s comunistas revolucionári@s,
ao mesmo tempo que reconhecemos a importáncia de teóric@s como Rosa Luxemburg
ou Anton Pannekoek pola sua defesa incondicional do internacionalismo
proletário e da independência de classe -ou, por outro lado, a importáncia das
ideas anarquistas sobre a livre federaçom como princípio da sociedade
comunista- temos que refutar as suas posiçons sobre a autodeterminaçom e a
independência nacionais. Eles coincidiram em aborda-las desde a perspectiva dos
interesses do proletariado DENTRO do capitalismo, e quando consideram a
revoluçom comunista som incapazes de reconhecer a importáncia e complexidade da
sua dimensom nacional. Subestimaram, em consequência, tamém a importáncia
táctica e a trascendência para o desenvolvimento da consciência proletária das luitas
nacionais, obstinando-se muitas das vezes em posturas dogmáticas. Nisto
abandonavam a teoria marxiana e recaiam em posiçons social-demócratas. Por
isso, estas teorias, junto co apatridismo e o pseudo-indiferentismo
nacional, tenhem servido como apertura para a penetraçom inconsciente do
nacionalismo burguês dominante dentro dos agrupamentos proletários.
Nom obstante, a grande
importáncia de Luxemburg, Pannekoek e outros, reside em que, a diferência dos
bolcheviques, souberam manter firmemente umha posiçom internacionalista e
defender a independência de classe do proletariado, de modo que, ao mesmo
tempo, seguem a ser hoje umha base de orientaçom imprescindível para clarificar
o problema da libertaçom nacional e a atitude a tomar ante os conflitos inter-nacionais.
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Segundo Marx, a posiçom
acerca da defesa proletária da autodeterminaçom nacional dentro do capitalismo
haverá de cumprir três critérios fundamentais (veja-se o Discurso sobre
Polónia de 1875):
1) Um "povo subjugado" prova
o seu "direito histórico à autonomia nacional e à autodeterminaçom"
na medida em que empreende umha "luita incesante e heróica contra os
seus opressores". Somentes deste modo pode esse povo "cooperar
como umha força independente na transformaçom social", porque "mentres
tanto a vida independente dumha naçom seja oprimida por um conquistador
estrangeiro dirige inevitavelmente toda a sua força, todos os seus esforços e
toda a sua energia contra o inimigo externo; durante este tempo, por
conseguinte, a sua vida interna permanece paralisada; é incapaz de trabalhar
pola emancipaçom social".
2) A situaçom "geográfica, militar
e histórica" do país, tendo em conta o contexto histórico mundial. No
capitalismo ascendente era prioritaria a dissoluçom dos Estados feudais como o
russo e a oposiçom à independência nacional de aqueles povos que serviam de
base à persistência do antigo régime, em lugar de servir ao ascenso do
capitalismo e, por conseguinte, à futura emancipaçom do proletariado. Na fase
de estancamento do capitalismo, que começa coa I Guerra Mundial, o principal
passou a ser a desestabilizaçom da dominaçom da burguesia imperialista nos seus
países de orige, meiante a luita revolucionária anti-colonial, procurando
orienta-la o mais possível num sentido revolucionário-proletário. Co declive
aberto do capitalismo, do que se trata nom é já de desestabilizar, senom de
começar a destruir violentamente essa dominaçom, ou seja, de transformar as
luitas de libertaçom nacional em revoluçons proletárias (que, em muitos
casos, se nom na maior parte, já som sustentadas por umha massa maioritária de
proletári@s).
3) O critério principal é a posiçom
nacional dentro da luita de classes mundial, ou mais precisamente, a relaçom
entre os movimentos nacionais dos países considerados e a luita pola
emancipaçom da classe obreira, que é internacional. Assi, Marx e Engels
opunham-se aos "povos contra-revolucionários" e à "teoria
da uniom fraternal universal dos povos, que chama indiscriminadamente à uniom
fraternal sem considerar a situaçom histórica e a fase do desenvolvimento
social dos povos individuais" (Engels, O pan-eslavismo democrático,
1849). A situaçom histórica determina se os movimentos nacionais cumprem ou nom
um papel revolucionário, e isto está por acima de outras questons -já que, à
sua vez, o papel social e político revolucionário está directamente
interrelacionado co nível de desenvolvimento económico-.
Nom obstante, este terceiro
critério implica, tamém, considerar a situaçom histórica dumha perspectiva
internacional: os países coloniais tenhem que considerar-se como formando umha
mesma estrutura cos seus países colonizadores (nos tempos de Marx, o caso de
Irlanda com Inglaterra). Por essa razom, pode acontecer que um movimento mais
avançado xurda num país mais atrassado, devido à intensificaçom dos
antagonismos sociais provocada pola sua posiçom económica a nível mundial; ou
que, num país relativamente avançado, os antagonismos de classe se atenuem.
Embora, no primeiro caso isso nom suprime automáticamente o atraso histórico
acumulado, que somentes pode lograr-se através dum esforço consciente; e, no
segundo, a maior maduraçom do capitalismo proporciona ao proletariado umha
experiência muito mais rica e profunda e cria as condiçons para um
desenvolvimento subjetivo superior.
Portanto, a situaçom
histórica nacional depende, por um lado, do desenvolvimento da luita de classes
nacional, e por outro, da interrelaçom entre esta luita de classes e o
desenvolvimento económico internacional (no que à sua vez repercutem as luitas
de classes dos países correspondentes).
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A perspectiva proletária sobre a
libertaçom nacional nom se limita à luita nas naçons oprimidas, senom que é um
objetivo universal. Nom só no sentido da liberdade nacional do proletariado nas
naçons opressoras, senom tamém no sentido da interdependêndia de todas as
naçons através do mercado mundial. Deste ponto de vista, a condiçom decisiva da
supressom da opressom nacional a escala mundial é a revoluçom proletária nos
centros imperialistas, já que estes actuam como freo à vez dos esforços pola
libertaçom nacional como dos esforços pola emancipaçom proletária dos demais
países. Por esta razom, Marx, no seu Discurso sobre Polónia de 1847 ante
os Cartistas, os exorta: "De modo que vós, cartistas, nom devedes
simplesmente expressar pios desejos de libertaçom das naçons. Derrotade os
vossos próprios inimigos internos e entom poderedes estar orgulhosos de ter
derrotado à velha sociedade enteira." Este é o sentido essencial da
frase que, no mesmo momento, pronúncia Engels na sua intervençom: "Umha
naçom nom pode chegar a ser livre e ao mesmo tempo continuar a oprimir a outras
naçons" (Engels, Discurso sobre Polónia, 1847).
Mas isto em absoluto deve
interpretar-se de modo simplista. Em "O movimento revolucionário",
de Janeiro do 1849, Marx formula que: "O derrocamento da burguesia na
França, o triunfo da classe obreira francesa, e a libertaçom da classe obreira
em geral é (...) o berro de convocatória da libertaçom europea." Umha
"exitosa revoluçom na França" provocaria, como "primeiro
resultado", umha "guerra europea", que implicaria a
Inglaterra e adquiriria, devido ao seu papel de centro imperialista, o carácter
dumha guerra mundial. "Somentes umha guerra mundial pode romper a velha
Inglaterra, o mesmo que só isto pode proporcionar aos Cartistas, o partido dos
obreiros ingleses organizados, as condiçons para um alçamento exitoso contra os
seus poderosos opressores. Somentes quando os cartistas encabecem o governo
inglês passará a revoluçom social da esfera da utopia à da realidade."
(Ibid.). Essa guerra mundial implicaria, por suposto, umha
intensificaçom das luitas de libertaçom nacional e das luitas democráticas
contra os régimes feudais.
Vemos, pois, que para Marx
existe um encadenamento entre a revoluçom social e luitas de libertaçom
nacional, precisamente porque o capitalismo mundial é a base comum dos
antagonismos que as provocam. E vemos que a guerra mundial é o cenário onde
ambas podem aliar-se. O bolchevismo tentou trasladar, erroneamente, esta
perspectiva à epoca posterior, com condiçons distintas, pretendendo que as
luitas de libertaçom democrático-burguesas das colónias servissem para
debilitar os centros imperialistas. Em realidade, sem embargo, eram as colónias
as que eram a parte dependente e débil, nom os centros imperialistas, que
podiam seguer mantendo esses países numha situaçom subordinada meiante os
mecanismos económicos. E nos casos em que esses países assumiram sistemas de
capitalismo de Estado, seguindo o modelo bolchevique, o único que aconteceu é o
troco dumha dependência do capitalismo "livre" pola dependência do
bloco "socialista", reduzida em qualquer caso parcialmente, meiante a
intensificaçom brutal e extrema da explotaçom do proletariado acompanhada dumha
ditadura totalitária.
A teoria leninista do
"elo mais débil da cadea imperialista" é completamente oposta
ao razonamento de Marx, precisamente porque, se existe umha constante
metodológica nas suas formulaçons, é que o centro dinámico da revoluçom
proletária está nos países mais desenvolvidos e nom nos países
subdesenvolvidos. O papel dos países periféricos tem que ver-se, entom, da
perspectiva da sua interacçom com a luita de classes nesses centros dinámicos
da economia mundial. As luitas revolucionárias nos países periféricos podem
servir para acelerar e intensificar a luita de classes nos países centrais,
como fixo a Revoluçom russa de 1917 a respeito de Alemanha (revoluçom de
1918-23), mas nom podem reempraçar o processo de autodesenvolvimento do
proletariado dos países centrais nem reempraçar a sua posiçom determinante no
processo revolucionário mundial, determinada polas condiçons económicas. Esta
interacçom é o factor decisivo. Sem ela nom som possíveis nem a libertaçom
nacional nem a revoluçom comunista.
Seguindo este mesmo
razonamento histórico-materialista, o factor decisivo na destruiçom do Estado
espanhol é a luita internacionalista do proletariado ubicado nos centros de
acumulaçom capitalista. Mas hoje, a diferência dos tempos de Marx, o
desenvolvimento económico e político-militar do capitalismo mundial fai que o
problema tenha que abordar-se dum ponto de vista directamente mundial,
tornando-se completamente insuficiente considerar somentes o marco europeu, e
nem que falar do marco de um só Estado. Sem umha revoluçom proletária nos EEUU,
ou simultaneamente em vários dos principais países europeus (Inglaterra,
Alemanha e França) e o Japom, nengumha tentativa revolucionária, tanto dumha
verdadeira autodeterminaçom nacional como dumha revoluçom proletária, pode ter
futuro.