Jacques Camatte - “A
Erráncia da humanidade”
Comunismo como
supressom da civilizaçom
“Somentes
se pode falar da vitória dos proletários na medida em que se afirma
simultaneamente que nom a realizarám como proletários, mas ao negar-se a si
mesmos, ao pôr-se como homes.”
Capital
e comunidade, 1972.
Jacques Camatte é um teórico comunista francês, ainda que filiado à esquerda
comunista italiana, que se desenvolvera desde os anos 20 baixo a influência de
Amadeo Bordiga. É de aí, sem dúvida, de onde procede a importáncia central que,
no seu pensamento, tenhem o ser humano como ser comunitario e o anelo por umha
verdadeira comunidade humana -nesta clave está o seu interesse polo “comunismo
primitivo” e sua dissoluçom coa emergência da propriedade privada. Dum espírito
anti-ideológico, que o empurrava a contracorrente do bordiguismo, o
desenvolvimento intelectual de Camatte conduciu-no a abandonar a perspectiva
marxista, depóis de mais umha década de actividade teórica comprometida com
aquela. Consideraba que o capitalismo tivera éxito em transformar à classe
obreira por completo em parte do seu modo de produçom, polo que a revoluçom
proletária -no sentido clássico- deixara de ser possível. O movimiento
revolucionário do futuro havería de desenvolverse como umha luita entre a
humanidade e o capital, nom como umha luita entre as classes sociais. O
capital, tendo absorvido dentro de si as formas de dominaçom anteriores, deviu
totalitario e domesticou completamente aos individuos. Para tomar consciência
da sua realidade, estes terám assi que chegar às raízes da propria sociedade de
classes, entendendo que o modo de produçom capitalista nom decairá, mas que o
decae é a própria espécie humana. Embora, esta crítica da noçom de decadência,
dumha óptica marxiana, tamém poderia expressar-se -pensamos nós- dizindo que, o
declive do modo de produçom capitalista, expressa-se nom como umha
inviabilidade do sistema -tal como pensava Rosa Luxemburg-, mas como umha
degradaçom e alienaçom crescentes (em quantidade e qualidade) da vida e da
consciência humanas.
A
singularidade do pensamento de Camatte foi, quiçais, um produto específico da
sua época. A meiados dos 70 esvaeciam-se as perspectivas revolucionárias e, ao
mesmo tempo, emergiam movimientos que chamavam por umha consciência crítica
mais ampla e por horizontes positivos, alonjando-se assi da política
tradicional ou rejeitando-a abertamente. Por outra banda, o pensamento marxiano
seguia todavia encerrado na”s” ortodoxia”s” (sic) leninistas, incluida a
bordiguista (1). Conhecendo
estes factores, fai-se perfeitamente entendível por que Camatte fugiu do campo
da teoria marxiana e buscou outro enfoque disconexo, e como, nom obstante à sua
deriva teórica -que nom compartimos- as suas reflexons podem conter mais
verdade para a luita revolucionária d@s proletari@s de hoje do que a grande
quantidade de elaboraçons subscritas por outras fontes mais ligadas à
“tradiçom”.
Explica-se, desde modo, o interesse que ainda hoje podem despertar os escritos
de Camatte entre @s proletari@s avançad@s. Interesse que compartimos plenamente
cos companheiros do Grupo Autonomia (Brasil), que levam adiante desde
hai mais de 6 anos o projecto da Biblioteca Virtual Revolucionária. Eles
acabam de culminar a traduçom do importante ensaio de Camatte «A
Errância da Humanidade» (Errance de l'humanité;
Conscience repressive; communisme), além de ter realizado anteriormente
várias traduçons de escritos seus -a mais recente, a de «Declínio
do Modo de Produção Capitalista ou Declínio da Humanidade?» (Declin
du mode de production capitaliste ou declin de l'humanité?). Éste
último data, como aquel, de 1973, e ambos foram publicados juntos em inglês por
Black&Red, Detroit, 1975 (trad. Fredy Perlman.)
Assi
pois, felicitamos aos compas brasileiros polo seu trabalho de traduçom e
difussom. A vos, que estades a lêr isto, só nos queda animar-vos a visitar o
arquivo da Biblioteca Virtual Revolucionária, que
conta com grande quantidade de textos de interesse - e como nom, a lêr os
textos de Camatte ali disponhíveis:
- Sobre
Organização: As Gangues (dentro e fora do Estado) e o Estado como Gangue (2) Revolução
- Declínio
do Modo de Produção Capitalista ou Declínio da Humanidade?
Mas,
para abrir boca, aqui seguem uns destaques dos escritos apresentados:
«Muitas vezes se
pensou e escreveu que o comunismo floresceria após a destruição do modo de
produção capitalista, o qual seria minado por contradições tais que seu fim
seria inevitável. Mas inúmeros eventos deste século infelizmente trouxeram
outras possibilidades à vista: o retorno à “barbárie”, analisado por Rosa
Luxemburgo e toda a ala esquerda do movimento operário alemão, por Adorno e a
Escola de Frankfurt; a destruição da espécie humana, como se evidencia a cada
dia que passa; enfim, um estado de estagnação no qual o modo de produção
capitalista sobrevive ao se adaptar a uma humanidade degenerada desprovida do
poder de destruí-lo. Para compreender o colapso de um futuro que se pensava
inevitável, devemos levar em conta a domesticação dos seres humanos,
implementada por todas as sociedades de classes e principalmente pelo capital,
e analisar a autonomização do capital.»
«Até agora, todos
os lados tem argumentado como se os seres humanos permanecessem inalterados nas
diversas sociedades de classes e sob a dominação do capital. É por isso que o
papel do contexto social foi enfatizado (o homem, que era fundamentalmente bom,
seria modificado positivamente ou negativamente pelo contexto social) pelos
filósofos materialistas do século XVIII, enquanto que os marxistas enfatizavam
o papel de um ambiente condicionado pelo desenvolvimento das forças produtivas.
A mudança não era negada e, depois de Marx, repetia-se que a história é uma
contínua transformação da natureza humana. Não obstante, sustentava-se
explícita ou implicitamente que um elemento irredutível permitiria aos seres humanos
se revoltar contra a opressão do capital. E o capitalismo era descrito de forma
maniqueísta: de um lado, o pólo positivo, o proletariado, a classe libertadora;
de outro, o pólo negativo, o capital. O capital, afirmado como necessário e
como tendo revolucionarizado a vida dos seres humanos, era descrito como um mal
absoluto em relação ao bem, o proletariado. No mínimo, o fenômeno que hoje
emerge não desfaz a avaliação negativa do capital, mas nos força a
generaliza-la à classe que outrora o antagonizou e era portadora de todos os
elementos positivos do desenvolvimento humano, e à própria humanidade. Este
fenômeno é a recomposição de uma comunidade e dos seres humanos pelo capital,
refletindo a comunidade como um espelho. A teoria da visão do espelho só pode
surgir quando o ser humano se tornou uma tautologia, um reflexo do capital. No
mundo do despotismo do capital (é assim que a sociedade aparece hoje), não se
pode distinguir nem o bem e nem o mal. Tudo pode ser condenado. A forças
negadoras só podem emergir fora do capital. Dado que o capital absorveu todas
as antigas contradições, o movimento revolucionário deve rejeitar a totalidade
do produto do desenvolvimento da sociedade de classes. Este é o elemento
crucial de sua luta contra a domesticação, contra a decadência da espécie
humana. Este é o momento essencial do processo de formação de revolucionários,
absolutamente necessário para produzir a revolução.»
Declínio
do Modo de Produção Capitalista ou Declínio da Humanidade?, 1973.
«O reformismo revolucionário
- projeto de criar o socialismo baseado no capitalismo e em continuidade com o
modo de produção capitalista - se desintegrou, entre 1913 e 1945. É o fim do
que se revelou uma ilusão: a ilusão de ser capaz de dirigir o desenvolvimento
das forças produtivas num sentido diferente daquele que tomou na realidade.
Podemos realmente concordar com a visão de Marx de que, depois de 1848, o
comunismo era possível precisamente porque a irrupção do modo de produção
capitalista tinha rompido todas as barreiras sociais e naturais e fez possível
o livre desenvolvimento. Mas a mentalidade, as representações da população eram
tais que ela não podia conceber nem perceber tal futuro. Ela era muito
dependente do movimento milenar do valor, ou estava muito debilitada pelas
limitações dos pervertidos remanescentes de suas antigas comunidades para ser
capaz de se lançar num novo caminho e alcançar outra comunidade. Até mesmo Marx
e Engels, no fundo, consideravam o capitalismo um momento necessário, e
pensavam que todos os seres humanos, por toda parte, inevitavelmente, teriam de
experimentá-lo. Somente a revolta dos populistas russos, e seu desejo de evitar
a trilha do capitalismo, fez Marx entender seu erro. Mas este reconhecimento
foi insuficiente. Desde a metade do século XIX, com a justificação fornecida
pela teoria marxista (a teoria do proletariado), toda a humanidade cairia na
errância: desenvolver as forças produtivas.»
«A revolução
comunista só pode ser concebida mediante a história e a paleontologia dos seres
humanos, assim como de todos os seres vivos. Compreendendo isto, nos tornamos
conscientes da revolução. E se ela é, há muito, necessária, hoje pode ser
realizada. Antes, ela era possível, mas não inevitável. Existiam outros
caminhos "humanos" que ainda permitiam um desenvolvimento humano;
sobretudo, permitiam a exteriorização das potências humanas. Hoje, quase tudo
já foi exteriorizado e saqueado pelo capital, traçando o único caminho possível
fora da revolução comunista: a negação total dos seres humanos. Portanto,
devemos entender nosso mundo; devemos entender o despotismo do capital e o
movimento de rebelião que rompe com ele. Este ato de entendimento, que está
ocorrendo intelectual e também sensualmente (a rebelião é em grande parte uma
rebelião corporal), só pode ser alcançado pela recusa da errância e da
consciência repressiva.»
A
Errância da Humanidade; Consciência repressiva; Comunismo, 1973.
(1) «Depois dos acontecimentos de maio
de 1968, na França, Camatte, junto com seus companheiros de Invariance, começou
uma análise crítica das atividades da esquerda comunista italiana, das obras de
Bordiga e de Marx. O título do jornal referia-se originalmente à "invariância
da teoria do proletariado", a teoria da Liga dos Comunistas e da
Primeira Internacional. Em 1973, os críticos diziam, sobre o jornal, que "nada
varia mais do que Invariance". Camatte e seus camaradas, prosseguindo
na análise crítica, foram levados a concluir que "o que é invariante é
o desejo de redescobrir a comunidade humana perdida, e isto não pode ocorrer
mediante um restabelecimento do passado, mas unicamente através de uma nova
criação." Sua questão teórica os levou a uma completa recusa da teoria
das organizações e partidos revolucionários, da teoria da consciência
revolucionária, da teoria do progressivo desenvolvimento das forças produtivas.
"O movimento de maio na França mostrou que o que é necessário é um novo
modo de viver, uma nova vida." (as citações acima são do último artigo
de Invariance Nº 3, 1973).» (Apresentaçom à ediçom de Black & Red, 1975.)
(2) Gangue procede do inglês gang, de onde
procede “gangster”. Pode traduzir-se por “banda criminal” ou “máfia”.