Pensamento e Acçom

 

 A revoluçom russa

 

 

 


Fonte: Boletím "Ígneo", suplemento Outono 2004.

 

Traduçom ao galego-português:  A partir da versom espanhola de Zero-Zix (que tem numerosas falhas e omite umha grande parte de A Revoluçom russa), mas com apoio na versom latino-americana da Editorial Proyección.

 

Algumhas notas do idioma: "folga" = "greve", "obreiro"="operário".

 

 

 


Introduçom editorial: Anton Pannekoek (1873-1960)

  Anton Pannekoek foi um dos teóricos mais importantes do comunismo holandês, além de chegar a ser um reputado astrónomo -profissom que manteria até o seu retiro.. Sendo mui novo, Pannekoek ingressou na social-democracia holandesa (SDAP), juntando-se coa sua ala esquerda ao carom de Herman Gorter e Frank van der Goes, os chamados "tribunistas" (por publicar um jornal denominado A tribuna). O seu achegamento à teoria marxiana tivo o seu motivo numha aspiraçom à compreensom científica do mundo, unindo sociedade e natureza. Assi, co tempo Pannekoek desenvolveria um intenso trabalho intelectual, ensinando nas escolas social-demócratas e escrevendo para diversas revistas e jornais.

  No curso da luita contra as tendências reformistas, e em confrontaçom com Kautsky desde 1912, Pannekoek foi esboçando os fundamentos da teoria política do comunismo de conselhos, do que seria o principal teórico. Estas formulaçons madurariam através da sua ruptura coa social-democracia durante a I Guerra Mundial, e coa sua estreita cooperaçom co movimento comunista alemám, que desde 1918 se convertiu na verificaçom e ampliaçom prática destas ideas.

  Desde 1920 começa tamém, junto co comunismo revolucionário holandês e alemám, a sua ruptura co bolchevismo, que o levaria a realizar importantes aportaçons à sua crítica nos planos económico, político e filosófico. Tamém realizou importantes trabalhos teóricos sobre o tema da evoluçom, da ética, da organizaçom proletária, mas a sua obra mais famosa e reconhecida som Os Conselhos Obreiros (1947), obra que recolhe e analisa as experiências mais importantes da luita revolucionária do proletariado durante a primeira metade do século XX, e na que Pannkekoek sintetiza as grandes leiçons da história do movimento obreiro até entom.

  O pensamento de Pannekoek destaca pola sua capacidade de síntese e polas suas influências singulares, as mesmas que contribuiram à originalidade do comunismo holandês. Principalmente, o estudo da formulaçom do materialismo dialéctico elaborada por Joseph Diezgen (contemporaneo de Marx e Engels, e cuja filosofia fora reconhecida como tal por estes), e o reconhecimento da importáncia do factor espiritual, ou psicológico, na luita de classes e para a vitoria revolucionária do proletariado.

  Anton Pannekoek morreu solitário em Wageningen, umha vila de Holanda, o 28 de Abril de 1960. O esquecimento do que foi objecto durante décadas polos leninistas, erigidos em detentadores do "marxismo", é o melhor sinal da sua actualidade, do seu carácter irrecuperável para o reformismo e o pseudorrevolucionarismo. Toda a sua obra estivo dedicada a proveer ao proletariado mundial de instrumentos para pensar e actuar por si mesmo.

  Os dous textos que aquí publicamos procedem da sua obra Os Conselhos Obreiros.

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«A luita do proletariado nom é simplesmente umha luita contra a burguesia polo poder do Estado como objectivo, senom umha luita contra o poder estatal. O problema da revoluçom social pode sintetizar-se dizindo que se trata de fazer crescer o poder do proletariado até tal ponto que supere o poder do Estado. E o conteúdo dessa revoluçom é a destruiçom e liquidaçom dos instrumentos de poder do Estado usando os instrumentos de poder do proletariado

A. Pannekoek, Acçons de massas e revoluçom, 1912.

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PENSAMENTO E ACÇOM

  O movimento obreiro da a image dum cámbio perpétuo, de períodos ascendentes seguidos de períodos de decadência, indo do entusiasmo e da força à completa impotência. E alguns trabalhadores nom devem deixar de formular-se esta questom descoraçoadora: e se os sacrificios dos melhores filhos da classe obreira tiveram sido em vao? e se estes sacrifícios nom fossem conduzir nada mais que a umha escravitude ainda pior e impossível de destruir? Por isto, é necessário formular-se, seriamente, outra pergunta: Por que aconteceu este desenvolvimento?  Respostará-se de seguro: porque os obreiros eram todavia demasiado débiles.  Mas, entom, por que no se ve aumentar continuamente as suas forças? Por que hai épocas em que semelham mais débiles, ou mais fortes, do que em realidade eram? Por que, umha e outra vez, esse rápido declínio?

  Vem-se nascer permanentemente, no seo das massas de seres humanos que formam juntos as classes sociais, acçons e forças que som produto da sociedade, e polas que sofrem e vivem; mas, quando existe umha coacçom vinda de acima, estas acçons e forças nom alcançam o nível da consciência e ficam a nível do subconsciente. Até o momento em que sejam despertadas e reveladas à consciência e se convirtam, deste modo, em forças espirituais; até que as possibilidades potenciais dumha força ainda durmida, como inflamadas por umha idea, fagam nascer umha força real e activa; até que se transformem numha espécie de lume que arde baixo as cinças, mas que se convirte de tempo em tempo numha chama brilhante e ardente. Sabe-se que o ser humano, em circunstáncias críticas, pode lograr do seu corpo muito mais do que em condiçons normais; isto acontece cada vez que umha força imperiosa o estimula coa tensom ajeitada e, deste modo, o prepara para cumprir coa tarefa do momento.

  Igualmente, na sociedade, durante os períodos críticos, as enormes resistências que se encontram nom podem vencer-se mais que quando a tensom é suficiente, quando as ideas entusiasmantes apoderam-se de tudo. Mas umha vez tenhem mostrado a sua força, e cada um se persuadiu de que eram indispensáveis, estas ideas instalam-se como verdades primordiais. Dogmatizam-se, transformando-se em verdades (supostamente) absolutas e eternas, em ideologias que fam às persoas incapaces de ver em novas circunstáncias e de cumprir as suas novas tarefas. E assí começa a decadência.

  A resposta a todas as perguntas que nos temos formulado encontra-se na actividade do espírito humano, nesta capacidade suprema que coloca ao Home por acima dos animais. Na natureza do espírito humano está o admitir como verdade geral o que foi experimentado umha vez como parte da verdade, admitir como bom e útil todo o que ten sido experimentado como tal em circunstáncias particulares: atribue-se a estas observaçons particulares umha validez geral, absoluta, em todas partes e sempre. O espírito é o órgao do geral: busca o modo de separar o essencial do grande número de fenómenos gerais, todo o que lhe permitirá determinar as suas próprias acçons.  Mas, do momento em que esquece os límites da sua experiência real, começa a extraviar-se e, a miúdo, mais tarde, a realidade castiga-o duramente polos seus erros.  O erro nom é o contrário da verdade; ésta é, de facto, umha verdade limitada à que erróneamente se lhe atribue umha importência demasiado grande, umha validez demasiado genérica.  O máu nom é o contrário do bom, é o que poderia ser bom noutras circunstáncias, mas que se póm em prática onde nom convém.

  Isto quere dizer que hai que ver e aceitar a relatividade das cousas, que hai que apreender a luitar por verdades que se sabe que nom som absolutas, que hai que empregar todas as forças em necessidades temporais, que hai que apreender sem cair cegamente em ilusons, que hai que sacrificar-se co maior entusiasmo para cumprir umha tarefa temporal. Polo demais, um dará-se conta mais tarde de que a realizaçom desta tarefa temporal tem decidido, em cada ocasiom, o porvir.

  Isto é certo nas futuras luitas. As classes vem-se obrigadas a actuar polas necessidades imediatas e servem-se do conhecimento que tenhem adquirido na sua experiência da vida. No começo e nos factos, a tarefa da classe obreira é um problema à vez simple e prático: tomar ao seu cargo a produçom e organizar o trabalho. Um pergunta-se como podem xurdir aquí dudas e vacilaçons. Producem-se porque esta tarefa simple está ligada a todo um mundo e à construiçom dum mundo novo. E é necessário que este exista primeiro na forma de pensamento e de vontade, antes de que seja possível todo acto criador. É necessário vencer enormes resistências internas, assí como o enorme poder do inimigo, poder material que se une a outro espiritual. As velhas ideologias pessam muito no cerebro dos homes, influenciam sempre o seu pensamento, incluso quando estes se movem por novas ideas.  Entom, os objectivos som contemplados de forma limitada e restrita; aceitam-se as novas consignas como umha religiom e as ilusons fream a acçom eficaz. Quase sempre as derrotas da classe obreira no passado tenhem sido causadas por ilusons: ilusom dumha vitória fácil e rápida, ilusom acerca da debilidade do inimigo, ilusom sobre o significado das medias decisons, ilusom sobre o valor das belas palavras de paz e unidade. E onde se via manifestarse umha desconfiança instintiva e justificada, alguns tentavam -naturalmente em vao- suplir a falta de força interior e de confiança em si mesmos com métodos externos e umha sujeiçom dura e cruel.

  De aí por que som tam importantes para os obreiros o conhecimento e a compreensom. O desenvolvimento espiritual é o factor mais importante na toma do poder polo proletariado. A revoluçom proletária nom é o produto dumha força bruta, física; é umha vitória do espírito. Resulta da aplicaçom das forças das massas obreiras, mas estas forças som tamém forças espirituais. Os obreiros nom vencerám graças aos seus enormes punhos: estes  deixarám-se dominar por um cerebro astuto, por enganos, e podem ser facilmente voltos contra si mesmos. As massas nom vencerám porque som maioria: sem organizaçom, sem saber, esta maioria é impotente frente a umha minoria bem organizada, capaz e consciente dos seus objectivos. Nom vencerám mais que porque a maioria que formam desenvolverá o seu poder moral e intelectual até um nível mais elevado que o inimigo. Cada grande revoluçom da história nom triunfou mais que porque nasciam nas massas novas forças espirituais. Umha força bruta e estúpida nom pode mais que destruir. As revoluçons, polo contrário, som novas construiçons, produto de novas formas de organizaçom e pensamento. As revoluçons som períodos construtivos da evoluçom humana. E muito mais ainda que todas as revoluçons de antanho, a transformaçom que fará dos obreiros os donos da sociedade, o imprantamento dumha organizaçom do trabalho no mundo enteiro, exigirám em grande medida do seu espírito e da sua força moral.

  A classe dominante sabe todo isto tam bem como nós; o sabe de forma mais instintiva, fai todo o possível para evitar que as massas cheguem a esta compreensom e, nisto, conta coa ajuda da apatia das próprias massas.  Vemos aquí como se formula o problema: umha revoluçom nunca poderá ser vitoriosa se se impide que estas condiçons necessárias sejan cumpridas com anterioridade. A soluçom está nas possibilidades que ofrece o intercámbio recíproco entre acçom e pensamento, é dizer, a auto-educaçom revolucionária das massas.

  No princípio, di-se, era a acçom. Mas isto nom quere dizer que nada a preceda. O ser humano haja-se exposto permanentemente a impressons, sem relaçom coas suas acçons imediatas, mas produto da sua vida anterior, da acçom do seu entorno e que, como tais, som forças sociais. Estas impressons acumulam-se, formam umha reserva no subconsciente humano porque nom é capaz de utiliza-las na prática, nom tenhem possibilidades de entrar em acçom e, por conseguinte, nom podem influir sobre a sua vontade. Mas causam tensons, a miúdo reprimidas polo costume, por um sentimento instintivo de impotência, às vezes incluso por umha obriga que se impóm por si mesma. E isto até que a sua pressom chega a ser demasiado forte e, em condiçons favoráveis, a tensom sube o bastante para provocar umha descarga: é a acçom.  Nom se reflexiona sobre ela com antelaçom, e ainda que esteja precedida por umha luita interior, nom é decidida conscientemente polo ser humano a partir do que conhece e compreende: brota espontáneamente, impulsada por forças profundamente soterradas no subconsciente e que dominam entom a vontade. Brota surpreendendo a todos, incluido quem a leva a cabo. Na acçom, o ser humano mostra-se tal como é: deste modo toma consciência do que é capaz, do que nunca acreditara poder fazer.  Realizada a acçom, tenta dar-se conta dos motivos que lhe impulsaram. Entom fai a sua apariçom a reflexom consciente sobre as causas e as conseqüências. Porque a acçom mesma tem engendrado umha nova compreensom, tem feito patentes estas causas e conseqüências que ainda onte nom podia reconhecer. Agora é-lhe preciso atrever-se a pensar o que antes nom se atrevia por medo às conseqüências. Assi pois, a acçom precede porque resulta das forças do subconsciente.

  Igual que coa classe, acontece co indivíduo. E nom só porque todos os obreiros sigam individualmente, mais ou menos da mesma forma, o processo anteriormente descrito; de facto, o que temos descrito é, quiçais, ainda mais válido para a classe que para o indivíduo. E isto porque as forças da classe, as forças da comunidade, que se cruzam em cada indivíduo, som sentidas por el de modo mais ou menos vago, e sem que se dé conta de que as mesmas forças actuam nos demais. Daquí é de onde procede o sentimento de impotência, e o facto de que o instinto de conservaçom reprima os sentimentos de solidariedade. Esta situaçom mantém-se até que a necessidade de resistir chega a ser tam imperativa que se produz umha explosom, primeiro em pequenos grupos, onde a tensom era mais forte, para extender-se depois às grandes masas. E nom se trata dum trenamento de seguidores, desprovistos de pensamento, dóceis ou imitadores, como se recriam em descrever os escritores burgueses na sua pretendida psicologia de massas. Polo contrário, trata-se do descubrimento individual da potência coa que se manifestam nos outros as forças que se tenhem em um mesmo: é a tomada de consciência, de facto se trate tanto de forças de classe como das forças das massas que se baseam num apoio mutuo, na solidariedade, num sentimento comunitário. Assi tem acontecido nas revoluçons burguesas, quando os cidadáns comprobaram, com ocasiom do estoupido dos primeiros grandes movimentos revolucionários, que formavam de facto umha massa, com ideas semelhantes, coa mesma vontade, de modo que cada um podia confiar no outro e, por conseguinte, que permitia formular reivindicaçons com audácia e força. O mesmo acontece cos obreiros, e a um nível mais elevado, pois para eles a solidariedade, a unidade de classe, som condiçons primordiais para o éxito e som a base sobre a que repousam todos os seus pensamentos e sentimentos.

  Para isto é preciso que cada um comparta umha certa uniformidade na forma de sentir, experimente similares desejos, expressando-se tudo isso em consignas gerais referidas a objectivos mui concretos, produto da experiência comum da vida, mas tamém produto desta propaganda de ideas que dela se deriva. Por exemplo, em 1871, os artesans, os obreiros e os pequenos burgueses parisinos compartiam esta consciência geral de que, frente à burguesia explotadora, era-lhes necessário tomar nas suas maos o seu próprio destino político, fazer umha «Comuna». Igualmente em 1918, na Alemanha, a consciência geral dos obreiros levava-os a pensar que o socialismo, é dizer, a organizaçom do trabalho, devia pôr fim à explotaçom. Disto deduzia-se que o acto revolucionário poderia xurdir, realizar-se como facto histórico. Mas esta consciência era limitada, e os seus limites mostraram-se decisivos nas travas e barreiras postas à acçom e, por último, no contragolpe que se produziu e que troujo consigo a derrota. Em 1871 existia tam só a consciência dum carácter político da revoluçom, e a falta dumha consciência da necessidade dumha organizaçom económica sólida era produto desta situaçom pequeno-burguesa, unida a um desenvolvimento industrial restringido e limitado a París. Em 1918 reinava a crença de que o socialismo, a organizaçom, a força mesma da luita, deviam vir de acima, do Partido, dos seus dirigentes. Mas desde o momento em que nasce na classe obreira a consciência, difusa num princípio, de que é necessário fazer todo por si mesma, de que a organizaçom do trabalho deve ser obra dos obreiros mesmos, actuando com base nas fábricas, a acçom que resultará de todo isto será tamém o começo dum desenvolvimento novo e sólido.

  Fazer despertar esta consciência, essa é a principal missom da propaganda; propaganda que é produzida por indivíduos e pequenos grupos que tenhem chegado a esta compreensom antes que os demais. Por difízil que poda ser o começo, dará os seus froitos mais adiante, quando corresponda à experiência própria dos obreiros. Entom este pensamento apoderará-se das massas, como umha chama, e mostrará a direcçom que devem tomar as suas acçons. Onde o retraso político e económico trae consigo a ausência desta consciência, o desenvolvimento conhecerá, obrigatóriamente, dificultades muito mais fortes, com altibaixos.

  Deste modo, no princípio era a acçom. Mas a acçom nom é mais que o começo. O verdadeiro trabalho está por fazer; abre-se o caminho, derrubam-se algunhas barreiras, mas o trabalho criador da revoluçom, a organizaçom e a construiçom da nova sociedade, exigem agora o concurso de todas as forças que as massas, passadas à acçom, som capazes de proporcionar. Agora tenhem-se libertado da sua antiga apatia, que era umha forma de resistencia contra reivindicaçons para as quais nom estavam ainda maduras. Agora inicia-se um período de intensa actividade espiritual. E isto devido a que os obreiros vem-se colocados ante um grande número de problemas e dificultades que tenhem que resolver. Nom se trata únicamente de problemas da sua própria organizaçom senom, especialmente, de problemas da luita contra a classe dominante, todavia no poder. Para lograr este objectivo concreto devem vencer às antigas ideologias e desenmascarar as novas, extraer o núcleo material, o dos interesses de classe. Toda inconsciência, toda ilusom sobre a essência, o objectivo, a força do adversário traduzem-se em desgrácia e derrota, instauram umha nova escravitude. Toda a experiência extraída da luita e do desenvolvimento do passado, tal e como se encontra concentrada na teoria e na história, é necessária agora. Mas é ainda mais necessário exercer o trabalho livre com todo o poder do pensamento, despertado e posto em acçom. O pensamento criativo consagra-se agora sem reservas à luita.

  A compreensom que os obreiros necessitam na luita e na construiçom da nova sociedade nom pode lograr-se meiante umha ensinança dada polos que sabem, nem por umha aportaçom externa da consciência aos que permanecem passivos. Só pola auto-educaçom pode lograr-se dita compreensom, pola actividade intensa de cada cerebro, pola consciência de que é necessário buscar por todas partes o conhecimento que é preciso ter. Seria demasiado fácil se aos obreiros lhes bastase com aceitar, atontados, a verdade proporcionada polos que dim possui-la. Mas, justamente, esta verdad que precisam nom existe fóra de eles. É necessário que a construam em si e por si mesmos. Em particular, todo o dito neste livro nom tem de nengum jeito a pretensom de ser a verdade que hai que assimilar. É umha opiniom baixo a forma dum todo, produto dumha certa experiência e dun estudo atento da sociedade e das luitas obreiras, trasladado à letra impressa coa fim de fazer pensar a outras persoas, faze-las reflexionar sobre os problemas do trabalho e do mundo. Existem centos de pensadores capazes de proporcionar novos pontos de vista; existem milheiros de trabalhadores inteligentes que, baseados nos seus conhecimentos práticos, e a partir do momento em que se tenhem dado conta da sua própria capacidade, podem ter ideas mais completas sobre a organizaçom da sua luita e do seu trabalho. O que leem aquí pode ser a faisca que acenda a chama no seu espírito.

  Existem grupos e partidos que pretendem possuir o monopólio da verdade e tentam ganhar-se aos obreiros meiante a propaganda. Empregando pressons morais e, onde tenhem possibilidade, pressons materiais, tentam impôr às massas as suas teorias, eliminar todas as demais formas de pensar, provocar nelas reacçons paixonais bautizando com nomes odiados esses outros modos de pensamento (como, por exemplo, reaccionário, anarquista, capitalista, burguês, fascista, etc.). Está claro que este adoctrinamento unilateral meiante umha corrente única nom pode e, na realidade, nom busca, mais que produzir discípulos aborregados e preparar deste modo umha nova escravitude. A autolibertaçom das massas trabalhadoras exige que existam nelas o pensamento autónomo, o conhecimento adquirido por si mesmas, a apreendizage persoal do método para distinguir o bom e o certo. Fazer trabalhar o seu cerebro é mais difícil que fazer trabalhar os seus músculos. Mas hai que logra-lo, pois é o cerebro o que domina aos músculos e, se nom se fai, serám os cerebros de outros os que os dominarám.

  Liberdade de discussom sem limites, essa é a condiçom vital para o desenvolvimento da luita obreira. Limitar esta liberdade, censurar a imprensa, todo isso serve para impedir aos obreiros que adquiram esta consciência que é tam necessária para lograr a libertaçom. Cada despotismo, cada dictadura, de onde ou de hoje, tem começado por limitar esta liberdade ou mesmo por aboli-la: cada limitaçom desta liberdade é, de facto, um passo no caminho que leva aos obreiros baixo o jugo. Dirá-se, nom obstante, que é preciso proteger aos obreiros contra as falsedades, os velenos e as tentaçons dumha propaganda inimiga, ou ainda que devem evitar expôr-se ao contágio. Como se meiante umha celosa protecçom contra as máas influências e umha tutela espiritual se puidera incrementar as suas forças e achar deste modo a capacidade de vencer. Trata-se precisamente de tudo o contrário! O conhecimento doutras opinions, incluida a dos seus inimigos, e a partir de fontes directas, desempenha um papel clarificador, porque estimula o cerebro e obriga-o a desenvolver a força do pensamento. Mas se acontece tamém que o inimigo se apresenta como amigo, que as diversas correntes se acussam mutuamente de ser os perigos para a classe obreira, quem teria que separar o verdadeiro do falso?  Sem dúvida algumha os próprios obreiros; deven descobrer qual é a sua via entre todos os caminhos possíveis. Poderia acontecer que os obreiros de hoje, com plena consciência e honestidade, condenaram certas opinions, por considera-las negativas, e que o dia de manhá fossem a base dum progresso.  Mas isto nom impide que só abrindo portas e fiestras para deixar entrar todas as ideas existentes no mundo, exercitando o seu cerebro para compara-las umhas com outras e eligindo entre elas por si mesmos, se coloquem as bases que permitirám à classe obreira obter esta superioridade espiritual que necessita para vencer ao capitalismo.

  Imagina-se um de boa gana que as massas, umha vez saídas desta cegueira herdada da escravitude, iluminadas polas novas ideas, donas dumha vontade única, guiadas por umha mesma consciência, unificada, sem divergências, encontrarám fázilmente o seu caminho. A história de todas as grandes revoluçons ensina-nos que as cousas nom acontecerám certamente deste modo. Cada época revolucionária foi um momento de enfebrecida actividade espiritual; xurdiam por centos os escritos políticos, os jornais e os folhetos, instrumentos da auto-educaçom das massas. O mesmo acontecerá no transcurso da revoluçom que fará da classe obreira a dona do mundo. A história  ensina-nos que durante o sono revolucionário ve-se emerger a maior quantidade de novos pensamentos, procedentes de diferentes persoas, reflectindo novas opinions, mais ou menos puras, expressando cada umha do seu jeito as necessidades fundamentais. Pois a humanidade avanza aquí tenteando, na busca dumha direcçom ainda desconhecida, explora novas vias, enfrenta-se ao assalto de novas opinions que luitam no espírito de cada um e que se oponhem as umhas às outras. Só meiante esta floraçom espontánea da actividade espiritual podem cristalizar e tomar forma as grandes ideas úteis, que expressam a verdade dos novos tempos. Só meiante esta concurrência podem formar-se e desenvolver-se as opinions que, como umha luz clara que brila mais e mais, penetram nas massas e as estimulan. Em cada um destes pensamentos diversos encontra-se, de facto, umha parte da verdade, mais ou menos grande.  A primeira vista, poderia-se compartir a sedutora ilusom de que a classe enteira absorberá a verdade que lhe dam os que a conhecem (ou creem conhece-la) e que, de seguido, dita verdade será levada à prática de modo permanente e por todos unanimemente. Mas isto nom é possível nem bom. Só o conquistado meiante a dura luita e com esforço tem um efeito duradeiro. O que a classe obreira fai, no transcurso das suas primeiras acçons importantes e unificadas, apoiando-se no que queda nela dum objectivo colectivo mas vago, é liquidar o velho domínio e abrir o caminho para um desenvolvimento dos pensamentos e acçons futuras.

  Isto quere dizer que o periodo das primeiras grandes vitorias estará cheo do fragor da luita entre os diversos «partidos». Pois, automáticamente, por si mesmos, unirám-se os que compartem as mesmas opinions, à vez para precisa-las, para desenvolve-las, para extraer a sua verdade, para luitar por ela, defende-la e propaga-la. Mas estes partidos -ou grupos de discussom, ou ligas de propaganda, pouco importa o nome com que se designem- tenhem um carácter por completo diferente desta organizaçom em partidos políticos que temos conhecido no passado. Pois antanho, no seo do parlamentarismo burguês, os partidos eram portadores dos interesses das classes em conflito, e no movimento obreiro nascente eram grupos que pretendiam lograr a direcçom da classe obreira. Agora, estes grupos dos que aquí se fala nom podem ser mais que organizaçons de opiniom, ligas que defendem um ponto de vista comum: já nom se trata de poder substituir à classe. Os «partidos» já nom podem, como antes, imaginar que som os órgaos, os representantes e chefes da classe obreira, nem atribuir-se a sua funçom.  A luita dos «partidos» já nom é umha luita polo poder senom polo desenvolvimento da consciência. A classe obreira tem descuberto os seus próprios órgaos, por meio dos quais actua: as organizaçons de fábrica, a organizaçom em Conselhos Obreiros. Forma-os ela mesma, e som estes órgaos os que se encarregam da acçom, os que devem decidir em cada instante o que hai que fazer. Todas as opinions, comuns ou opostas, contraditórias ou nom, também as que som propagadas e defendidas por um ou outro grupo ou partido, devem ser confrontadas umhas com outras no seo das organizaçons de fábrica e dos Conselhos, e fundir-se finalmente numha resoluçom, umha decisom, umha acçom comum. Mentres tanto os pensamentos sejam vagos e confusos, as decisons serám vacilantes e a acçom carente de força. A tarefa importante que devem realizar as organizaçons de opiniom é justamente a de formular de maneira clara os diversos pontos de vista, pôr em orde e organizar as forças espirituais para que se convirtam em ferramentas das que a classe obreira poda server-se. Deste modo terám um papel frutífero no desenvolvimento das novas acçons. Deste modo, a revoluçom proletária tomará a forma dumha interacçom permanente do pensamiento e da acçom que se estimulam mutuamente.

  Nom hai que crêr que se trata aquí dumha complejidade de pensamento por completo temporal, que corresponde a um tempo de erro e desvario e que desaparecerá coa vitoria, para deixar passo a umha uniformizaçom progressiva. O certo é que só nos primeiros tempos as diversas divisons entre as opinions herdadas do velho mundo, e as diferências entre os entornos de trabalho -por exemplo, entre trabalhadores de pequenas e grandes empresas, entre cidadans e camponeses, entre camponeses e ingenheiros- darám orige a oposiçons, fricçons dolorosas e incluso, com freqüência, a conflitos graves. Mas co progresso da revoluçom, co crescimento da unidade, co desenvolvimento das organizaçom, estas dificultades serám progressivamente superadas. E, mais tarde, as formas de vida e ambientes de trabalho serám da maior diversidade: deste modo criarám-se as fontes e as bases dumha rica e múltiple vida do espírito. Tudo o que no antigo mundo capitalista abocava a umha uniformizaçom mortal da vida espiritual dos grupos e das clases -limitaçom na instrucçom e no saber, limitaçom no trabalho, que se reduzia a efectuar sempre o mesmo movimento sobre a mesma peça, a viver toda umha vida na mesma rutina, com jornadas laborais demasiado longas e fatigantes- todo isto desaparecerá. E com esta desapariçom, o espírito humano pode começar a florescer.

  Aí volta-se a encontrar a grande contradiçom entre umha organizaçom desde acima, decretada por umha autoridade central, imposta pola força, e umha organizaçom desde a base, fundada na colaboraçom dos produtores livres. No primeiro caso, trata-se dumha regulamentaçom tam uniforme como seja possível de todos os aspectos; meiante um decreto válido para todos, pretende-se fazer funcionar a sociedade do mesmo modo em todas partes, pois do contrário veria-se na impossibilidade de controlar e regular a sua evoluçom desde um único centro de mando. No outro caso, polo contrário, é a iniciativa de milheiros de seres humanos que pensam por si mesmos e administram eles mesmos o seu próprio trabalho, em milheiros de centros de trabalho, os que, por meio dumha discussom permanente, adaptam-se mutuamente, proporcionam-se uns aos outros ideas e, meiante os seus intercámbios recíprocos, formam, colectivamente, a organizaçom mais eficaz. O seu trabalho apresenta grandes diferências e todos tentam, coa sua razom prática, a sua reflexom científica, a sua imaginaçom artística, faze-lo mais eficaz, mais satisfatório e mais belo. O que tenhem em comum é poder ter de novo umha visom de conjunto, umha visom ampla da sociedade, da unidade da produçom, e isto é resultado da nova organizaçom do seu trabalho.

  A vida espiritual reflicte agora as condiçons de trabalho e as impulsa. Onde existe umha autoridade central que governa desde acima fai-se precisa, assi mesmo, umha direcçom que regule a vida espiritual, e isto traduce-se num empobrecimento e uniformizaçom. No mundo dos trabalhadores livres, a vida espiritual deve desenvolver-se como o trabalho e dar lugar a umha brilhante multiplicidade. Os talentos humanos som dumha riqueza infinita e difirem infinitamente uns de outros. O mundo é infinitamente rico, e apresenta tantas facetas, que ninguém pode capta-lo no seu trabalho e assimila-lo nem do mesmo modo nem em todos os seus detalhes. A vida espiritual, tal como brota do talento e da prática social, apresenta umha multiplicidade, umha diversidade ainda maior. A recíproca influência entre vida espiritual e processo de trabalho chega a ser ainda mais íntima e importante: desenvolve dous aspectos dumha mesma relaçom, a do ser humano e o mundo. Junto coa opressom de antanho, que freava aos seres humanos até que se produzia umha explosom, desaparerám as tensons. E no seu lugar desenvolverá-se a acçom recíproca que conduz à unidade do pensamento e da acçom.

 

A REVOLUÇOM RUSSA

  A Revoluçom russa é um momento importante no desenvolvimento do movimento obreiro. Primeiro, já o temos indicado, porque vinheram a manifestar-se novas formas de folga política durante a mesma. Despois, e muito mais ainda, porque tenhem feito por primeira vez a sua apariçom novas formas de organizaçom dos trabalhadores em luita, os Soviets ou Conselhos Obreiros. Em 1905 a sua existência, como fenómeno efémero, passou quase desapercibida e os soviets desapareceram ao mesmo tempo que a actividade revolucionária. Em 1917 xurdiram de novo, mas cumha potência incrementada. Nesta ocasiom, os trabalhadores de Europa ocidental compreenderam a importáncia destas novas formas, que os soviets deviam desempenhar um papel nas luitas de classes que se produziram na mesma depois da Primeira Guerra Mundial.

  No essencial, os soviets eram simplesmente comités de folga, como os que se formam sempre durante as folgas selvages. Na Rússia, ao produzir-se as folgas nas fábricas e alcançar mui rápidamente as cidades e províncias, os obreiros deviam manter-se em contacto de forma permanente. Reuniam-se e discutiam nos lugares de trabalho, de modo regular, ao rematar a jornada laboral e, nos momentos de crise, incluso durante todo o dia sem interrupçom. Enviavam delegados às demais fábricas e aos soviets centrais, para intercambiar informaçons, discutir os problemas, tomar decisons e examinar as novas tarefas.

  Mas estas últimas revestiam agora outra amplitude que nas folgas ordinarias. Os trabalhadores tinham que desfazer-se da pesada opressom do zarismo; sentiam que, por meio da sua acçom, a sociedade russa ia mudando nos seus fundamentos. Deviam considerar nom somentes os salários e as condiçons que reinavam nos lugares de trabalho, senom tamém todas as questons vinculadas à sociedade em sentido amplo. Tinham que encontrar por si mesmos o seu próprio caminho nestes dominios, e tomar decisons sobre questons políticas. Quando a folga estoupou, extendendo-se a todo o país, detendo toda a indústria e o transporto e paralisando as funçons do governo, os soviets se encontraram ante novos problemas. Tinham que regular a vida pública, atender à segurança e à orde, velar polo bom funcionamento dos serviços públicos indispensáveis; em poucas palavras, desempenhar funçons que ordináriamente som as dos governos. O que eles decidiam, os obreiros o executavam, mentres que o governo legal e a policia se coidavam muito de nom intervir, conscientes da sua impotência frente às massas sublevadas. Entom os delegados doutros grupos sociais, dos intelectuais, dos camponeses, dos soldados, vinheram rápidamente a unir-se aos soviets centrais e a participar tanto nos debates como nas decisons. Mas toda esta potência foi como um lóstrego na noite, um pouco como o passo dum cometa. Quando o governo zarista logrou finalmente reunir as suas tropas e liquidar o movimento, os soviets desapareceram.

  Assi aconteceu em 1905. Em 1917, as derrotas militares e a fame que reinavam nas cidades tinham debilitado a autoridade guvernamental e os soldados, polo comum camponeses, participam já na acçom. Aparte dos conselhos obreiros das cidades, formaram-se conselhos de soldados no exército; os oficiais que se opunham a que os soviets formaram o poder foram fuzilados, para evitar a anarquia total. Durante seis messes, políticos e chefes militares esforzaram-se por impôr novos Governos, mas em vao; em adiante, os soviets apoiados polos diferentes partidos socialistas, eram donos da sociedade.

  Deste modo, os soviets encontravam-se ante umha nova tarefa. Órgaos da revoluçom até entom, deviam agora transformar-se em órgaos da reorganizaçom social. As massas tinham o poder e, por suposto, punham-se a planificar a produçom de acordo coas suas necessidades e interesses vitais. Como sempre nestes casos, os seus desejos e actos nom estavam determinados em absoluto por doctrinas inculcadas, senom pola sua mentalidade de classe, polas suas condiçons de vida. Quáis eram estas condiçons? Rússia estava no período agrícola primitivo, e nom conhecia mais que um cormeço de desenvolvimento industrial. As massas populares estavam formadas por camponeses incultos, dominados espiritualmente por um clero carregado de riquezas, e os obreiros industriais estavam unidos por mil laços aos seus velhos povos. Os soviets camponeses criaram-se por todas partes, foram, pois, comités de camponeses que se gobernavam por si mesmos, ocupavam as grandes propriedades e as dividiam. A situaçom evolucionava cara umha geralizaçom da pequena propriedade privada e manifestava-se já umha diferência entre propietários, entre camponeses ricos e influintes e agricultores pobres e pouco escuitados.

  Nas cidades, em cámbio, estava excluida toda possibilidade de desenvolvimento da indústria capitalista privada, dada a falta dumha burguesia de certa importáncia. Os trabalhadores aspiravam sem dúvida a umha certa forma de produçom socialista, a única viável em tais circunstáncias. Mas o seu espírito e a sua mentalidade, modificadas só superficialmente polos começos do capitalismo, escassamente lhes permitiam levar a cabo a tarefa do momento: organizar eles mesmos a produçom. Polo que os elementos que iam à sua cabeça, os militantes socialistas do partido bolchevique, disciplinados e endurecidos por anos de luita ao serviço da causa, viram-se transformados de chefes da revoluçom em dirigentes da reconstruiçom. Por outro lado, para evitar que estas tendências da classe obreira nom fossem barridas pola carreira cara a pequena propriedade, procedente do campo, era necessário um governo forte e centralizado, capaz de contrarrestar estas tendências camponesas. Devia acometer-se umha tarefa imensa: organizar a indústria e a defesa contra os ataques da contra-revoluçom, cortar de raíz a resistência dos camponeses, mais ou menos favoráveis ao capitalismo, e inculcar-lhes ideas científicas modernas no lugar das crenças arcaicas; todo isto exigia que os elementos mais aptos entre os obreiros, os intelectuais e os antigos funcionários e oficiais que tinham aceitado colaborar com eles, se encontraram no seo do Partido Bolchevique, o novo órgao dirigente. O Partido transformou-se em Governo. Os soviets perderam progressivamente a sua qualidade de órgaos meiante os que se expressava a auto-determinaçom das massas, e viram-se reduzidos ao nível de simples engranages do aparelho guvernamental. Nom obstante, mantivo-se o nome de República dos Soviets para camuflar esta evoluçom, e o partido dirigente mantivo o nome de Partido Comunista.

  O sistema de produçom que se desenvolveu na Rússia é um socialismo de Estado. É umha produçom organizada na que o Estado é o patrono universal, o dono do aparelho produtivo. Os trabalhadores já nom som donos dos meios de produçom, ao igual que no capitalismo ocidental. Recevem um salário e som explotados polo Estado, que é o capitalista único (e de que talha!). É por isto polo que o nome de capitalismo de Estado pode definir adequadamente este sistema. O conjunto da burocracia dos funcionários, que dirige e governa o país, é o verdadeiro proprietário das fábricas. Forma a classe possuidora. Os seus membros som, de facto, os proprietários dos meios de produçom, nom por separado, tendo cada um direito à sua parte, senom colectivamente, todos juntos. A eles correspondia cumprir coa funçom e a tarefa que foram levadas a cabo na Europa ocidental e Norteamérica pola burguesia: desenvolver a indústria e a produtividade do trabalho, assi como transformar a Rússia de país agrícola e bárbaro em país civilizado, moderno, é dizer, possuidor dumha grande industria. A isto dedicavam-se. E, rápidamente, no curso dumha guerra de classes a miúdo cruel, entre camponeses e dirigentes, grandes empresas agrícolas controladas polo Estado vinheram substituir às pequenas fazendas atrassadas.

  Portanto, a Revoluçom nom fixo de Rússia, como pretende umha propaganda enganosa, um país onde os trabalhadores som os amos e reina o comunismo. Mas si tem logrado um progresso de enorme importáncia. Pode-se-a pode comparar coa grande Revoluçom francesa. Destruiu o poder dum monarca absoluto e duns proprietários feudais; começou por outorgar a terra aos camponeses e converter aos donos da indústria em dirigentes do Estado. Onte, na França as massas, os canailhes despreçados, convertiram-se em cidadáns livres; reconheceu-se a cada um umha personalidade, incluso aos pobres ou aos que se encontravam em situaçom de dependência económica, assí como a possibilidade de ascender na escala social; tamém na Rússia as massas saíram da sua barbárie imutável para entrar na corrente do progresso mundial, onde cada qual pode actuar como indivíduo dotado dumha personalidade reconhecida.  Ainda se o governo nom adopta a forma dumha ditadura política, já nom pode parar esta evoluçom, como lhes ocurrira a Napoleom e à ditadura militar na França. E, ao igual que na França, xurdiram da massa de cidadans e camponeses os capitalistas e chefes militares, livrando-se umha batalha encarnizada pola ascensom social, na que todos os meios eram bos, a energia como o talento, a intriga como o engano.  Do mesmo modo, na Rússia formou-se a classe dominante. Os filhos dos obreiros e camponeses mais dotados intelectualmente, lançaram-se às escolas técnicas e agrónomas; chegaram a ser ingenheiros ou oficiais, é dizer, chefes técnicos ou militares. Abria-se o porvir ante eles, sentiam-se desbordantes de energia. Meiante o estudo e o trabalho intensivo, a astúcia e a intriga, tentavam fazer-se um sítio na nova classe dirigente que, tamém aquí, reinava sobre umha massa miserável de proletários explotados. E, ao igual que umha vaga de nacionalismo apoderou-se da França revolucionária, que a conduzira a querer dar a nova liberdade a toda Europa e a abandonar-se, durante um tempo relativamente curto, a um sonho de glória eterna, tamém Rússia proclamou-se orgulhosamente investida da missom de libertar, meiante a Revoluçom mundial, a todos os povos do jugo capitalista.

  A significaçom da Revoluçom russa, do ponto de vista da classe obreira, deve buscar-se numha direcçom totalmente diferente. Tem amossado, em efeito, aos trabalhadores europeos e americanos, detidos nas ideas e práticas reformistas, primeiro como umha classe de obreiros industriais é capaz de conmover e destruir o poder estatal por meio dumha acçom colosal de massas sem precedentes e, depois, como se transformavam os comités de folga, no curso destas acçons, em Conselhos Obreiros, órgaos de combate e autogestom encarregados de tarefas e funçons públicas. Para estudar a influência do exemplo russo sobre as ideas e acçons da classe obreira depois da Primeira Guerra Mundial, devemos retroceder no tempo.

  A proclamaçom da guerra de 1914 troujo consigo um derrubamento inesperado do movimento obreiro em toda a Europa capitalista. A submissom vontária dos trabalhadores ao poder militar, o rápido apoio aportado, em todos os países, polos chefes dos sindicatos e partidos socialistas aos seus governos, que fazia deles os cúmplices da massacre dos trabalhadores, a ausência de toda protesta de certa importáncia, tinham provocado um profundo desánimo entre todos os que anteriormente punham as suas esperanças de libertaçom no socialismo proletário. Mas, de modo progressivo, os obreiros mais conscientes empeçaram a compreender que o que se tinha derrubado era a ilusom dumha libertaçom fácil meiante reformas parlamentárias. Vian às massas mais sangradas e explotadas que nunca rebelarse contra os sofrementos da opressom e da carniceria humanas. Esperavam, de acordo nisto cos revolucionários russos, que a destruiçom do capitalismo pola revoluçom mundial seria umha conseqüência do caos provocado pola guerra. Rejeitavam o apelativo de socialistas, pois esta palavra tinha chegado a ser repugnante, e se denominavam comunistas. Era umha volta ao velho nome que se deram, noutro tempo, os revolucionários da classe obreira.

  Entom, como umha brilhante estrela no céu escuro, a Revoluçom russa acendeu-se e brilou sobre a terra. E em todas as partes as massas sentiram-se enchidas de presentimientos e comenzaram a inquedar-se, ao ouvir o chamado dos revolucionários em favor do remate da guerra, da irmandade dos trabalhadores de todos os países, da revoluçom mundial contra o capitalismo. Ainda apegadas às suas velhas doctrinas socialistas e às suas organizaçons, as massas, inseguras baixo a marea de calúnias que derramava a imprensa, quedaram agardando, vacilantes, para ver se o conto se convertia em realidade.  Grupos mais pequenos, especialmente entre os obreiros joves, reuniam-se em todas as partes para formar um movimento comunista cada vez mais amplo. Constituiram a vanguarda nos movimentos que, despois do remate da guerra, irrumpiram em todos os países, e de jeito mais acentuado na Europa central, derrotada e exhausta.

  Este comunismo era umha nova doctrina, um novo sistema de ideas, umha nova táctica de luita que, cos poderosos meios de propaganda guvernamental, por entom novos, foi propagada desde Rússia. Fazia referência à teoria de Marx da destruiçom do capitalismo meiante a luita de classe dos obreiros. Chamava a umha luita contra o capital mundial, concentrado sobretudo em Inglaterra e os Estados Unidos, que explotava a todos os povos e a todos os continentes. Convocava nom só a todos os trabalhadores industriais de Europa e Norteamérica, senom tamém aos povos submetidos de Asia e Africa, para que se levantasem numha luita comum contra o capitalismo. Como toda guerra, esta só podia ganhar-se por meio da organizaçom, meiante a concentraçom de poderes e umha boa disciplina. Nos partidos comunistas, incluidos os luitadores mais valentes e capaces, já havia os núcleos e as equipas dirigentes: estes tinham que assumir a guia, e ao seu chamado as masas deviam levantar-se e atacar aos governos capitalistas. 'Na crise política e económica mundial nom podemos esperar até que as massas, meiante umha paciente ensinança, se tenham volto todas comunistas. Tampouco é isto necessário; se estám convencidas de que só o comunismo é a salvaçom, se depositam a sua confiança no Partido Comunista, seguem as suas directivas, o levam ao poder, o Partido, que será o novo governo, establecerá a nova orde. Assí o fixo na Rússia, e este exemplo deve seguer-se em todas partes. Mas entom, em resposta à pesada tarefa e à devoçom dos dirigentes, som imperativas umha estrita obediência e disciplina das massas, destas para co partido e dos membros do partido para cos chefes. O que Marx chamara a ditadura do proletariado só pode realizar-se como a ditadura do Partido Comunista. No Partido está encarnada a classe trabalhadora, o Partido é o seu representante.'

  Nesta forma de doutrina comunista era claramente vissível a orige russa. Na Rússia, coa sua pequena indústria e a sua classe obreira nom desenvolvida, só havia que derrotar a um despotismo asiático já mui descomposto. Na Europa e nos Estados Unidos umha classe obreira numerosa e muy desenvolvida, trenada por umha poderosa indústria, enfrenta-se cumha poderosa classe capitalista que dispóm de todos os recursos do mundo. Por tal razom, a doctrina da ditadura do partido e da obediência cega encontraram nesses países umha forte oposiçom. Se na Alemanha os movimentos revolucionários despois do remate da Primeira Guerra tivesem levado a umha vitória da classe obreira e esse país se unisse a Rússia, a influência desta classe, produto do desenvolvimento capitalista e industrial mais elevado, teria sobrepassado rápidamente as características russas. A sua influência sobre os obreiros ingleses e norteamericanos teria sido enorme, e teria arrastrado à própria Rússia cara novos caminhos. Mas na Alemanha a revoluçom fracassou; as massas mantiveram-se apartadas pola acçom dos seus dirigentes socialistas e sindicais, meiante relatos de atrocídades e promesas de felicidade socialista bem ordeada, mentres eram exterminadas as suas vanguardas e assassinados os seus melhores porta-vozes polas forças militares baixo a protecçom do governo socialista. Assi, os grupos opositores de comunistas alemanes nom puideram exercer influjo algum; foram expulsados do Partido [Comunista Alemám (KPD)]. No seu lugar, os grupos socialistas descontentos foram induzidos a unir-se à Internacional moscovita, atraídos pola nova política oportunista da mesma ao apoiar o parlamentarismo, co qual esperava conquistar o poder nos países capitalistas.

  Deste modo, a «Revoluçom Mundial» transformou-se, de grito de guerra, em umha mera expressom verbal. Os dirigentes russos imaginavam a revoluçom mundial como umha extensom e imitaçom a grande escala da Revoluçom russa. Só conheciam o capitalismo na sua forma russa, como um poder explotador foráneo que empobrecia aos habitantes e se levava todos os benefícios fóra do país. Nom conheciam o capitalismo como o grande poder organizador que, coa sua riqueza, produzia a base dum novo mundo ainda mais rico. Como resulta claro polos seus escritos, nom conheciam o enorme poder da burguesia, frente ao qual todas as capacidades de dirigentes abnegados e dum partido disciplinado resultam insuficientes. Nom conheciam as fontes de energia que jacem ocultas na classe obreira de hoje. Daí as formas primitivas de ruidosa propaganda e terrorismo partidário, nom só espiritual, senom tamém físico, contra os pontos de vista dissidentes. Foi um anacronismo que Rússia, que recém entrava na era industrial, saíndo da sua primitiva barbárie, tomara o mando da classe obreira de Europa e os Estados Unidos, enfrentada à tarefa de transformar um capitalismo industrial mui desenvolvido numha forma ainda superior de organizaçom.

  A velha Rússia tem sido, essencialmente no que respeita à sua estrutura económica, um país asiático. Em toda Asia viviam milhons de camponeses que praticavam umha agricultura primitiva a pequena escala, restritos à sua aldea, baixo senhores despóticos mui distantes cos que nom tinham vinculaçom algumha, salvo o pago dos impostos. Na época contemporánea, estes impostos transformaram-se num tributo cada vez mais pesado em favor do capitalismo ocidental. A Revoluçom russa, ao repudiar as dévedas zaristas, significava a libertaçom dos camponeses russos desta forma de explotaçom que beneficiava ao capital ocidental. Com isso incitou a todos os povos reprimidos e explotados de Oriente a seguer o seu exemplo, a unir-se à luita e arrojar o jugo dos seus déspotas, instrumentos do rapaz capital mundial. E o chamado ouviu-se ao longo e ancho do mundo, na China e Pérsia, na Índia e África. Formaram-se partidos comunistas, compostos de intelectuais radicalizados, de camponeses rebelados contra os proprietários feudáis da terra, de jornaleiros e artesáns, que levavam a centos de milhons de homes a message de libertaçom. Como na Rússia, significou para todos estes povos a apertura do caminho cara o desenvolvimento industrial moderno e, às vezes, como na China, a aliança cumha burguesia industrial progressista. Desta maneira, a Internacional moscovita, mais que instituiçom europea chegou a ser, ainda mais, umha instituiçom asiática. Isto acentuou o seu carácter de movimento da classe meia e fixo reviver nos seus seguidores europeos as velhas tradiçons das revoluçons das classes meias, coa preponderáncia de grandes dirigentes, de sonoras consignas, de conspiraçons, complots e revoltas militares.

  A consolidaçom do capitalismo de Estado na Rússia foi a razom determinante do carácter tomado polo Partido Comunista. Mentres que na sua propaganda no estrangeiro seguia a falar de comunismo e de revoluçom mundial, criticava o capitalismo e chamava aos trabalhadores a unir-se-lhe na sua luita pola libertaçom, escondia o facto de que, na Rússia, os trabalhadores nom eram mais que umha classe submetida e explotada, que vivia na sua maior parte em condiçons laborais miseráveis, baixo umha ditadura opressiva e implacável, privada de liberdade de expressom, de prensa e de associaçom, muito mais duramente sujeita ainda do que às suas irmás dos países capitalistas ocidentais. Deste modo, umha falsificaçom congénita impregnava a todos os níveis a política e as ensinanças deste partido. Ainda que era na prática o instrumento da política exterior do governo russo, logrou monopolizar, meiante a sua fraseologia revolucionária, as tentativas de rebeliom que estalhavam entre a mocidade entusiasta dos países ocidentais, assolados polas crises. Mas só para dissipar a sua força em abortados e odiosos simulacros de luita, ou numha política oportunista -umhas vezes contra os partidos socialistas sinalados como traidores o social-fascistas, e outras buscando a sua aliança nos denominados frentes vermelhos ou frentes populares-, o que trouxo consigo o abandono, desgustados, dos melhores elementos. A doctrina que este partido difundia baixo o nome de marxismo nom era a teoria do derrocamento dum capitalismo altamente desenvolvido por umha classe obreira igualmente desenvolvida, senom umha caricatura, produto dum mundo primitivo e bárbaro, onde a luita contra as superstiçons religiosas serve de alimento espiritual e a industrializaçom moderna é identificada co progresso. O ateísmo é a sua filosofia. O domínio do Partido, o seu objectivo. A obediência à ditadura, a regra suprema. O Partido Comunista russo nom tinha a intençom de transformar aos trabalhadores em combatentes independentes, capazes de construir por si mesmos o seu mundo novo coa ajuda da sua inteligência e a sua compreensom. Queria únicamente fazer deles servidores obedientes dispostos a leva-lo ao poder.

  Assi oscureceu-se a luz que tinha iluminado ao mundo; as massas que tinham saudado a sua chegada quedaram numha noite mais negra, e por desalento alonjaram-se da luita ou seguiram a combater para encontrar novos e melhores caminhos. A Revoluçom russa dera ao começo um poderoso impulso à luita da classe obreira, polas suas acçons massivas directas e as suas novas formas de organizaçom com base nos Conselhos -isto expressou-se no amplo xurdimento do movimento comunista em todo o mundo-. Mas quando, logo, a Revoluçom se assentou e se traduziu numha nova orde, um novo domínio de classe, umha nova forma de governo, o capitalismo de Estado baixo a ditadura dumha nova classe explotadora, o Partido Comunista assumiu necessáriamente um carácter ambiguo. Assi, no curso dos eventos seguintes, convertiu-se em algo mui ruinoso para a luita da classe obreira, a qual pode somentes viver e crescer na claridade do pensamiento lúcido, os factos desembuçados e o trato honesto. Coa sua vaa palavraria acerca da revoluçom mundial, o partido obstaculizou a nova orientaçom de meios e fins, que tam urgente era. Promovendo e ensinando, baixo o nome de disciplina, o vício da submissom -o principal vício de que devem desprender-se os trabalhadores-, suprimindo toda pegada de pensamento crítico independente, impediu o desenvolvimento dum poder real de classe obreira. Ao usurpar o nome de comunismo para o seu sistema de explotaçom dos trabalhadores e a sua política de perseguiçom dos adversários, a miúdo cruel, fixo deste nome, que até entom tinha sido expressom de elevados ideais, um objecto de opróbrio, aversom e ódio ainda entre os trabalhadores. Na Alemanha, onde as crises políticas e económicas agudizaram ao máximo os antagonismos de classe, o partido reduziu a dura luita de classes a umha escaramuça infantil de moços armados contra bandas nacionalistas similares. E entom, quando a marea do nacionalismo alcançou umha gran altura e resultou mui forte, grande parte deles, só educados para derrotar aos adversários dos seus dirigentes, cambiarom simplesmente de bando. Assi, o Partido Comunita contribuiu enormemente, coa sua teoria e a sua prática, a preparar a vitoria do fascismo.

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