Clube dos Escritores

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Mais Que Uma Esquina

Cleomar S. dos Santos

Amanhã vou escrever sobre as esquinas de Porto Alegre e você não vai ler. Não o fará porque acredita não existir nada de interessante numa esquina. E está certo. De fato, a menos que você faça parte de algum grupo de religião afro, uma esquina em nada pode lhe interessar. Mas leia, antes, Quintana. Em seguida perceberá que além da esquina objeto, haverá a do adjetivo. Deste momento em diante você seguirá até o fim do texto que escreverei. Há uma esquina.

Esta é a função de quem sente e escreve o que sente. Aguçar a percepção de quem lê. É óbvio que mesmo assim podemos achar ridículo falar sobre esquinas. É que o poeta não foi bom na exposição. Agora, se foi dos bons e lhe convenceu, imagine se falar sobre a mão de nosso pai, o olhar filial, o bem querer maternal.

Torçer por um time que não seja o oficial, o do bairro. Amar a mulher que não seja a alheia, a esposa. Cuidar do cachorro em um dia de frio, não por pena mas por empatia. Estudar para sentir-se pensante e não para empregar-se. E´isso que o poeta nos revela. E´isso que muitos percebem em momentos errados, sempre num futuro, como a placa de fiado no armazém.

Sei que uma pessoa sem dons literários, ao expressar a beleza da esquina, transmitirá superficialidade mas não devido ao assunto; é devido à forma como foi expresso. Falamos agora do valor real de cada elemento. Pensar na esquina de forma romântica não representa um passo em falso, treina, sim, nossa mente a não deixar passar os detalhes que nos faz perceber, por exemplo, quando a cédula de cem reais é falsa.


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