De
posse dos dados das Voyagers, ele criou um simulador da atmosfera titaniana
em seu laboratório e agora se dedica a bombardeá-la com radiação.
Assim, pretende descobrir como se formaram as substâncias que, na
Terra, precederam o aparecimento dos seres vivos. Titã tem um raio
de aproximadamente 2 000 quilômetros, não muito menor que
o de Mercúrio, que mede 2 500 quilômetros, ou o de Marte,
com 3 000 quilômetros. Além disso, é coberto por extensos
mares de hidrocarbonetos parentes químicos da gasolina, de grande
importância nos fenômenos estudados por Speller. Esses líquidos
poderiam compensar a falta da água, tão necessária
às reações químicas. No entanto, ao contrário
dos planetas mais conhecidos, metade do corpo de Titã é feito
de gelo, pois a água era um material extremamente abundante em todo
o sistema solar na época de sua formação. Os planetas
e luas mais próximos do Sol, devido ao calor, perderam a maior parte
de sua cota. Mas, além da órbita de Marte, a água
e outras substâncias geladas condensaram-se na forma de corpos celestes.
Nos outros satélites saturnianos, a importância dessa matéria-prima
chega a ser maior que em Titã, pois contém de 60 a 70 por
cento de gelo. Curiosamente, esses mundos distantes acabam tendo uma vida
geológica mais ativa que alguns astros rochosos. É que o
gelo é mais fácil de moldar por exemplo, por meio da energia
liberada durante o impacto de meteoros. Esses últimos, efetivamente,
produzem mudanças drásticas nos arredores de Saturno, como
se vê em Japeto, a segunda lua em tamanho, que tem metade de sua
superfície coberta por uma estranha substância escura.
A
idéia é que se trata de uma espécie de lava, isto
é, matéria do interior do satélite que, sob um forte
impacto externo, fundiu-se e vazou para a superfície. "Imaginamos
que essa pasta contenha amônia, gelo de água e algum outro
composto escuro, de natureza incerta" arriscam os planetologistas Laurence
Soderblom e Torrence Johnson, ligados à agência americana
NASA. Eles afirmam que, antes dos anos 80, já se esperava que os
satélites de Saturno, assim como os de Júpiter, apresentassem
alto grau de atividade geológica."Mas os resultados foram muito
mais amplos que o esperado". acrescentam. Réia, uma lua quase do
mesmo tamanho que Japeto (com 1500 quilômetros de raio), exibe os
mesmos estranhos vazamentos escuros. Em outros satélites, como Tétis,
existem largas rachaduras superficiais, provavelmente devido a fortes tensões
em sua crosta gelada.
(AURORA POLAR EM SATURNO)
O
próprio Saturno é um gigante de gelo, mas nesse caso há
um componente adicional: a imensa massa de gases que o circunda. Embora
seja 750 vezes maior que a Terra, Saturno é o planeta mais rarefeito
de todo o sistema solar se fosse possível colocá-lo em
uma bacia com água, flutuaria. Isso não quer dizer que seja
leve, pois é 95 vezes mais pesado que a Terra. No entanto, apenas
o seu núcleo, com 5 por cento do volume total, é constituído
por gelo e rocha sólida. Acima dessa, existe um mar de hidrogênio
líquido e o resto são gases de hidrogênio e hélio,
os mais leves da natureza. Isso faz com que a densidade do planeta se torne
menor que a da água", ensina o planetologista Oscar Matsuara, da
Universidade de São Paulo (USP). Outra conseqüência da
massa gasosa é que ela dá a Saturno uma superfície
extremamente turbulenta, já que, apesar de todo seu tamanho, ele
leva somente 10 horas e 32 minutos para completar uma volta em torno de
si mesmo.Como se vê, muito se aprendeu desde o tempo em que Saturno
foi descoberto ele já era conhecido pelos sábios da Babilônia,
no século VII a.C. A cerca de 1 bilhão de quilômetros
da Terra, era o mais longínquo planeta conhecido pelos antigos.
Posteriormente, a descoberta dos anéis maravilhou o mundo. O autor
da façanha foi o italiano Galileu Galilei (1564-1642), que, em julho
de 1610, observou duas estranhas "orelhas" nas bordas do planeta.
Seu
telescópio mostrava apenas as extremidades dos anéis, pois
apareciam dos lados de Saturno, bem nítidas contra o céu
escuro; não permitia ver a pane central, ofuscada pelo astro, ao
fundo. Assim, o enigma só foi decifrado em 1656, pelo astrônomo
holandês Christiaan Huygens (1629-1695). No século seguinte,
um outro engano seria derrubado pela argúcia do físico francês
Pierre Simon de Laplace (17491827). A história começou com
o astrônomo italiano Gian Domenico Cassini (1625-1712), que descobriu
a divisão dos anéis em faixas concêntricas. Mesmo depois
disso, no entanto, continuou-se a pensar que os anéis eram sólidos
e formavam um único bloco uma teoria absurda, segundo Laplace.
Se os anéis formassem um bloco, disse ele, seriam destruídos
por sua própria rotação, pois seu aro interno, mais
próximo de Saturno, sofreria uma atração gravitacional
mais intensa. Como conseqüência, tenderia a girar mais rapidamente.
Já o aro externo, mais distante e menos solicitado pela força,
giraria com mais lentidão. Em suma, a diferença de velocidade
entre as panes destroçaria o suposto corpo único e íntegro.
Por ironia, parece ter sido exatamente assim que os anéis surgiram
pelo menos é o que pensam os defensores da hipótese de
que eles são os restos de um antigo satélite.
Dessa
vez o raciocínio pioneiro coube ao francês Édouard
Roche (1820-1883), que, não contente em aceitar a idéia de
Laplace, decidiu aplicá-la a um corpo qualquer. Perguntou se, então,
o que aconteceria se a Lua se aproximasse cada vez mais da Terra. A resposta,
é claro, teria de ser semelhante àquela que se havia obtido
com os anéis: o hemisfério mais próximo da Terra seria
atraído com mais força e acabaria separando-se do hemisfério
mais distante. De acordo com as contas de Roche, a Lua se desintegraria
quando estivesse a 15 563 quilômetros do centro da Terra. Hoje, ela
está segura, pois encontra-se a 384 000 quilômetros de distância
e está se afastando gradualmente. Mas há 350 milhões
de anos, a apenas 18 000 quilômetros, passou bem perto da desintegração.
A mesma sorte não tiveram os anéis, pois, nesse caso, o raio
de Roche é de cerca de 150 000 quilômetros, contados a partir
do centro de Saturno e o mais externo deles está a pouco mais
de 136 000 quilômetros de distância. Assim, eles podem ter
se originado de um ou vários satélites que passaram o limite
e foram destruídos. Até que as imagens das Voyagers chegassem
à Terra ninguém foi capaz de antever toda a riqueza de movimentos
de que são capazes essas pequenas rochas geladas.
Perfiladas
em milhares de faixas e não três, como ainda se supunha
dez anos atrás , elas às vezes se apresentam emboladas,
torcidas como urna rosca, ou mesmo alinhadas numa reta, em flagrante desafio
à geometria circular das órbitas. Análises recentes
revelam que esses fenômenos devem-se à influência gravitacional
de miniluas imersas na vasta planície dos anéis. Elas impedem
que as pequenas rochas se misturem, e assim criam inúmeras faixas
orbitais estreitas. Por isso, recebem o apelido de "pastoras", embora em
muitos casos, em vez de guiar, esse tipo de ação sirva para
subverter o movimento mais usual das rochas geladas. Os anéis, então,
assumem as configurações torcidas, alinhadas ou emboladas.
Além desse papel peculiar, as seis miniluas identificadas até
agora fazem uma ponte entre as rochas dos anéis e os satélites.
Com os seus 250 quilômetros de diâmetro, em média, elas
criam uma escala crescente de tamanho que começa com os 50 metros
das pequenas rochas e vai até os satélites, com um diâmetro
de 1000 quilômetros ou mais. Em vista disso, já não
há muito sentido em diferenciar anéis e satélites,
pois algumas miniluas são quase tão grandes como alguns dos
menores satélites. Também é possível que novas
"pastoras" sejam descobertas nos próximos anos: é difícil
discerni-las no emaranhado de anéis. Por último, mas não
menos interessante, há miniluas que partilham a órbita dos
satélites mais próximos.
Os primeiros passos da vida nos desertos gelados de Titã :
Com uma temperatura de 150 graus negativos e praticamente nenhuma
água em estado líquido, Titã não parece ser
um bom local para o desenvolvimento da vida. Apesar disso, contém
ácido cianídrico, cianogênio e cianoacetileno - substâncias
que na cálida e úmida Terra, há 4 bilhões de
anos, foram decisivas para o surgimento dos seres vivos. Mas como puderam
formar-se nas adversas paisagens titanianas? Essa é a pergunta que
o físico Carlos Vianna Speller procura responder mesmo sem sair
de seu laboratório, em Florianópolis, SC. Para isso, reproduziu
a receita da atmosfera de Titã numa câmara fechada, do tamanho
de uma caixa de fósforo, e bombardeia essa mistura de gases com
radiação. Agora espera que a energia radioativa force as
reações químicas entre os gases: isso pode ter acontecido
em Titã, pois no espaço também há radiação.Parecida
com o ar da Terra primitiva antes que as bactérias começassem
a fabricar oxigênio , a atmosfera titaniana contém 95 por
cento de nitrogênio, 5 por cento de metano e menor quantidade de
argônio. A diferença é que é muito rarefeita
e fria. Essas condições extremas, copiadas por Speller sugerem
uma analogia curiosa. "É como se a Terra tivesse sido colocada no
congelador." O físico não espera provar, logo de saída,
que os gases são a matéria-prima das substâncias orgânicas
Mas já confirmou que, sob a blitz radioativa, eles tornam-se eletricamente
carregados e formam grupos. Seria o primeiro passo para a união
dos gases simples em uma arquitetura química maior e mais complicada.