As palavras soavam como que saídas
da boca de um visionário: "Náo tenho receio de considerar
como questáo final se, por fim no futuro distante, nos pudermos
arranjar os átomos da maneira que quisermos (...). O que aconteceria
se pudéssemos arranjar os átomos, um por um, do jeito que
quiséssemos?" Na época em que o físico americano e
aprendiz de profeta Richard Feynman (1918-1988) devaneou diante de uma
platéia incrédula, o mundo náo era lugar para pequenas
idéias. Em dezembro de 1959, quando Feynman proferiu as visionárias
palavras na palestra "Há muito lugar no fundo" para seus colegas
da Sociedade Americana de Física, os computadores ainda eram geringonças
que ocupavam metade das salas em que eram colocados. Feynman falava em
mexer átomos num tempo em que ninguém sequer tinha visto
um deles. Trinta anos depois, o sonho do físico ganhou forma na
ciéncia do muito pequeno, a nanotecnologia, assim chamada porque
seus objetos de estudo costumam ser medidos em nanômetros - 1 milháo
de vezes menor que 1 milímetro.
O
que aconteceria se pudéssemos mover átomos?, perguntava Feynman.
Respondem os cientistas que os manipulam hoje: podem-se construir supercomputadores
que caibam no bolso, gravar bibliotecas inteiras em superficies de centímetros
quadrados, colocar microssondas para fazer testes sanguíneos dentro
do corpo humano. Tudo isso ainda é suposiçáo, previsáo,
talvez sonho. "A preocupaçáo fundamental náo é
a aplicaçáo das descobertas na prática, mas a pesquisa
pela pesquisa. Os resultados disso só se tomaráo visíveis
dentro de uma década", O mundo futuro imaginado por Drexler, em
que se construiráo aparelhos ou substáncias molécula
por molécula, é ridicularizado por alguns de seus colegas
cientistas da mesma forma que a maioria dos físicos presentes á
palestra de Feynman acreditava que ele estava simplesmente brincando. Tentar
prever o que é possível fazer ao nivel dos átomos
é táo difícil quanto entender a natureza lá
embaixo. A nanotecnologia só existe hoje como prática porque,
há quase sessenta anos, os cientistas que estudavam a matéria
derrubaram sólidos conceitos da Física clássica e
criaram a Física quántica, em que as particulas como os fótons
e os elétrons náo se comportam como no mundo de gente grande.
O microscopio de varredura por efeito túnel (scanning tunnelling
microscope, ou SIM), a ferramenta fundamental para a entrada no pequeno
mundo, é filho afreto da Física quántica. Lá,
ande os átomos se contam ás unidades, os elétrons
sofrem de dupla personalidade comportam-se ao mesmo tempo como particulas
e como ondas (mais ou menos como se fossem ao mesmo tempo balas de um revólver
e onda do mar). Isso é inadmissível para a Física
clássica, mas perfeitamente aceitável para a Física
quántica, mesmo que náo se compreenda multo bem o porqué.
A
clássica imagem do átomo como um núcleo de prótons
e néutrons, em torno do núcleo, os elétrons circulam
em órbitas, também foi por água abaixo. O aspecto
mais importante da Física quántica para os nanocientistas
é a descoberta de que os elétrons ás vezes andam por
onde náo.deveriam. Normalmente, os elétrons param de se mover
quando náo tém energia para transpor uma barreira á
sua frente. No reino da Física quántica, no entanto, há
determinadas circunstancias em que os elétrons encontram uma barreira
táo fina que há probabilidade de que eles simplesmente a
ignorem e sigam em frente - é o chamado efeito túnel. Seria
apenas mais uma descoberta teórica se, em 1981, uma equipe do laboratorio
da IBM em Zurique, na Suíça, náo tivesse transformado
essa maluquice do elétron num aparelho de enxergar átomos
- ele mesmo, o microscopio de efeito túnel. O invento valeu a Gerd
Binnig e Heinrich Rohrer o Prémio Nobel de Física, em 1986.
Esse microscopio nada mais é do que uma minúscula ponta feita
de material condutor que percorre - ou varre - toda a superficie da amostra
a ser analisada. A ponta e o substrato ande se deposita a amostra ficam
ligadas por um circuito. Aplica-se uma tensáo elétrica no
circuito e abaixa-se a ponta do microscopio até quase encostar na
amostra. É um "quase" imperceptível ao olho humano, pois
a distancia entre a ponta e a amostra chega a alguns nanómetros.
Pois os elétrons, que só deveriam passar da amostra para
a ponta se as duas estivessem encostadas, simplesmente pulam pelo ar mesmo
- tunelam -, fechando o circuito entre a ponta e a amostra, e criando uma
comente com uma voltagem infinitamente pequena, da ordem de al guns nanoampéres.
É um grande salto para o elétron e um grande passo para a
humanidade.
Com
o microscopio de efeito túnel, passou-se a enxergar os átomos,
antes jamais vistos, e, melhor ainda, conseguiu-se manipulá-los.
certo que dizer "enxergar" átomos chega a ser uma licença
poética, pois o que se vé é uma imagem simulada da
variaçáo da corrente elétrica. O levantar e abaixar
da ponta do microscopio é uma operaçáo que exige precisáo
multo além do que qualquer máo humana ou mecánica
possa alcançar. Esse trabalho é feito pelos cristais piezoelétricos,
como o quartzo, que se expandem ou encolhem quando recebem tensáo
elétrica (sim, mexem-se apenas alguns nanómetros). Há
tres cristais: o do eixo z (que se move para cima e para baixo), o x (para
a frepte e para trás) e o y (para a esquerda e para a direita).
Quando a ponta do microscopio começa a varrer a amostra, movendo-se
nos eixos x e y, o eixo z fica na mesma. Porém, quando a ponta encontra
uma pequena montanha pela frente, ou seja, um átomo mais alto que
os outros, a voltagem da corrente elétrica aumenta, pois a distancia
em relaçáo á amostra diminuí. No modo de operaçáo
mais comum, o de voltagem constante, o eixo z deve portanto receber um
alteraçáo de tensáo, para que se contraía e
suspenda a ponta do microscopio de modo a fazer a voltagem retornar ao
valor prévio. A variaçáo da tensáo do cristal
z resulta num gráfico, que é transformado em imagem - está
pronta a fotografia dos átomos. Obviamente, o microscopio de efeito
túnel só funciona com amostras de materiais condutores ou
semicondutores; do contrário, náo haveria passagem de corrente
elétrica. Materiais isolantes, como vidro ou células vivas,
seriam invisíveis ao SIM.
Que
o pequeno mundo náo se perca por isso - o mesmo Gerd Binnig deu
um jeitinho e inventou uma ponta de microscopio capaz de enxergar qualquer
coisa. Ele acoplou á ponta um pequeno fragmento de diamante, que
contoma os átomos da amostra exercendo uma pressáo pequena
o suficiente para náo destruí-la. É o microscópio
de força atómica (AFM, em inglés). Conforme o fragmento
de diamante se move quando encontra saliéncias, move-se também
a ponta, criando-se entáo imagens como no SIM. Mais importante do
que ver átomos é a possibilidade de mové-los, um a
um. isso acontece quando se aplica uma tensáo,elétricamuito
forte entre a ponta do microscópio e a amostra - um átomo
salta e gruda na ponta. Se a polaridade da comente for invertida, o átomo
volta para baixo com força, ficando encravado naquele ponto. Desde
que o pesquisador americano Don g Eigler, do laboratório da IBM
na Califómia, nos Estados Unidos, alinhou átomos de xenónio
para escrever o logotipo da empresa sobre uma superficie de níquel,
começou urna verdadeira corrida entre os cientistas para conseguir
o melhor dominio da técnica de arrancar átomos de um ponto
e colocá-los em outro. O homem enfim toca o coragáo da matéria
e, átomo por átomo, pode chegar a construir moléculas
sob medida. Dar o sonho de montar um minúsculo supercomputador -
enquanto nos chips dos computadores atuais a linguagem binária do
sim/náo é feita com a passagem ou náo de bilhóes
de elétrons da comente elétrica, a manipulagáo atómica
poderla levar á montagem de um interruptor que fosse uma única
molécula. Em laboratorio, pelo menos, já se demonstrou que
isso funciona, quando se verificou que a mudanga de posiçáo
de um átomo de xenónio, ora sobre uma superfície de
níquel, ora grudado na ponta do microscopio, causava uma variaçáo
na corrente elétrica que bem poderla servir como 0 e 1 do código
binário. Claro que isso é inviável como tecnologia,
já que uma das partes desse interruptor molecular é o próprio
microscopio.
Na
hora de arrnazenar inforrnaçóes, a nanotecnologia pode encolher
a níveis absurdos o tamanho do suporte para gravá-las. John
Mamin, também do laboratorio da IBM na Califórnia, desenhou
um mapa com átomos de ouro para demonstrar o potencial de arrnazenagem
de informagóes em pouco espaço. Da mesma maneira que a superficie
plana altemada com buracos num compact disc formam a linguagem binária,
um simples átomo e sua auséncia construiriam a mesma linguagem
numa nanoamostra. A técnica de Mamin poderla armazenar a obra completa
do dramaturgo inglés William Shakespeare numa superficie menor do
que 0,2 milímetros. É uma densidade de informagáo
l0 000vezes maior do que o melhor disquete de computador existente. Eric
Drexler pensa longe quando visualiza aonde tudo isso pode levar: "A curto
prazo, acredito que a nanotecnologia será pioneira no lançamento
de novos instrumentos científicos voltados para a mediçáo
de escalas moleculares. Depois disso, provavelmente encontrará um
campo de açáo fértil na computaçáo,
primeiro na área da memoria, e em seguida nos próprios computadores.
Haverá também aplicaçóes importantes nos produtos
resultantes da manufaturaçáo molecular, na medicina, nos
equipamentos para uso aéreo e espacial, em instrumentos de proteçáo
do meio ambiente e inclusive no desenvolvimento de novos instrumentos para
esse fim". Uma das idéias de Drexler neste campo é acriagáo
de nanomáquinas, que seriam lançadas na estratosfera para
capturar átomos de cloro e resguardar a camada de ozónio
do planeta.