Disse certa vez o celebrado escritor de ficção científica Isaac Asimov que, se um visitante do espaço contemplasse a distância o sistema solar, acabaria concluindo que o “único objeto que interessa por essas bandas é aquele grande planeta, o quinto a partir do Sol. Tudo o mais são fragmentos de matéria que não merecem consideração.” O imaginário observador extragalático estaria se referindo, é claro, a Júpiter, o maior planeta do sistema solar, não por acaso assim chamado em homenagem ao deus máximo da mitologia para os romanos. Calcula-se que Júpiter possui 70 cento de toda a matéria que gira em torno do Sol. É tão gigantesco que no seu interior caberiam folgadamente mais de mil Terras. Comparadas a tal gigante, até os planetas mais avantajados, como Urano, Netuno e Saturno — este, o segundo maior — não passam de anões.
Não
é de estranhar, portanto, que, quando foi formado junto com os outros
planetas, há cerca de 4,5 bilhões de anos, Júpiter
podia perfeitamente bem se transformar numa estrela. Se isso tivesse acontecido,
os habitantes deste pequeno mundo chamado Terra , a cerca de 600 milhões
de quilômetros de distância, passariam pela provavelmente desconfortável
experiência de viver com dois sóis no céu e talvez
nenhuma noite. Não seria uma novidade na Via Láctea, onde
a maioria das estrelas é binária, ou seja, faz parte de sistemas
duplos.Mas o Sol permaneceu solitário: Júpiter teria que
acumular cinqüenta vezes mais massa para que a temperatura no seu
interior desse início às reações de fusão
nuclear que caracterizam uma estrela, e ele passasse a brilhar com luz
própria.
Como isso não ocorreu,
o planeta se tornou uma espécie de bola gigantesca de gases — hidrogênio,
hélio, metano e amônia — que por motivos ainda não
explicados pela Astronomia emite duas vezes mais energia do que recebe
do Sol. Dotado de um sistema particular de dezesseis luas, Júpiter
passou a ser um alvo importante das sondas espaciais.
Quatro
delas, as Pioneer 10 e 11 e as Voyager 1 e 2, mostraram imagens fantásticas
da atmosfera multicolorida desse planeta, que lhe dão a aparência
de um ovo de Páscoa achatado, pintado a mão. As observações
convencionais feitas na Terra não podem se comparar aos resultados
obtidos pelas sondas espaciais, mas ainda podem trazer alguma contribuição.
Júpiter é conhecido desde a Antiguidade, por ser o segundo
astro mais brilhante no céu (depois de Vênus e, naturalmente,
sem contar o Sol e a Lua), podendo portanto ser localizado facilmente a
olho nu. Além disso, seus satélites, todos com nomes de amigos
e amantes dos deuses, foram avistados por Galileu (1564-1642) há
mais de trezentos anos com uma simples luneta.
Calcula-se que esse mundo de gases deve ter no centro uma massa informe de rocha e ferro. Em volta dela, numa zona onde o calor chega a 400 graus Celsius e onde a pressão é inconcebíveis 3 milhões de vezes maior que a da atmosfera da Terra, deve existir um grande oceano derretido e escuro de hidrogênio. Nessas condições, afirmam os físicos, o hidrogênio, embora líquido, se torna um condutor elétrico como qualquer metal, com a peculiaridade de não oferecer resistência à passagem de correntes, como se fosse uma cerâmica supercondutora.
(TÊNUE ANEL DE JÚPITER)
Hoje
existem fotografias não só de lo e Calisto, mas também
de seus semelhantes Europa e Ganimedes, tiradas pela Voyager 2 também
em 1979, e ainda dos anéis muito tênues, feitos de poeira
e gás, em volta do planeta. Não é impossível
que esses anéis sejam restos de corpos maiores cujas partículas
estão demorando para se dissipar.
O sistema solar não é
um atlas imutável, mas um sistema em constante modificação.
Os quatro grandes satélites, por exemplo, tiveram histórias
geológicas e evoluções diferentes. Calisto, o mais
afastado de Júpiter, ganha a distinção de ser o objeto
mais esburacado do sistema solar. Suas camadas de gelo não puderam
impedir as marcas do impacto de milhões de meteoritos na superfície.
E, em pelo menos um lugar, o calor provocado pelo choque de um projétil
grande fundiu o material da superfície cavando uma depressão
de 600 metros de diâmetro parecida com os mares lunares.
(ETERNO FURACÃO)
Ganimedes
também é uma mistura de rocha e gelo parcialmente coberta
de crateras. Ali, o derramamento de lavas vulcânicas limpou uma parte
da superfície, deixando áreas claras e escuras, estas últimas
as mais esburacadas. Europa, um globo onde o chão é coberto
de pólo a pólo com o que parece uma teia de aranha, lembra
a rede de canais que os terrestres mais imaginosos pensavam ter sido construída
pelos hipotéticos habitantes de Marte. Europa já foi inteirinho
coberto de gelo. Hoje sua carapaça possui rachaduras, espécies
de janelas que permitem a passagem da luz. Nas fotos das Voyagers podem
ser vistos vulcões gelados que lançam cristais de gelo e
água no céu de Europa. Por isso, cientistas da Associação
Americana de Geofísica formularam a ousada hipótese de que
a luz, penetrando nas rachaduras, poderia assegurar a sobrevivência
de microorganismos em oceanos subterrâneos do satélite, como
aqueles encontrados sob o gelo perpétuo que cobre os lagos antárticos
da Terra.
O
mais colorido de todos os satélites de Júpiter chama-se Io
e tem o tamanho da Lua terrestre. Queimado de amarelo e vermelho e salpicado
de pontos negros, ou vulcões, Io já foi comparado a uma pizza
descomunal. O calor gerado pela enorme força gravitacional de Júpiter,
do qual está muito próximo, detona explosões de enxofre
e sulfeto de enxofre do seu interior. Quando isso acontece, o material
jorra dos vulcões a quilômetros de altura para depois voltar
sob a forma de neve sulfúrica. Io tem atmosfera — uma raridade entre
os satélites do sistema solar compartilhada apenas por Titã,
de Saturno, e Tritão, de Netuno — composta de uma fina camada de
dióxido de enxofre.
( IO )
Diante
de tanto enxofre, os especialistas da NASA costumam brincar que se Io fosse
realmente uma pizza teria um insuportável cheiro de ovo podre.Se
os quatro grandes satélites de Júpiter fossem do tamanho
de uma bola de futebol, os doze menores não passariam de um grão
de areia — sem falar na possibilidade de que haja outros mais ainda invisíveis.
Desses pequenos astros conhecidos, quatro sobrevivem como podem no ambiente
hostil muito próximo de Júpiter, expostos ao contínuo
bombardeio de partículas carregadas de sua magnetosfera e de dejetos
sulfurosos dos vulcões de Io.
Em órbitas mais afastadas
estão quatro luas companheiras, também com diâmetro
de algumas centenas de quilômetros. Tanto estas como as quatro mais
distantes, que giram no sentido oposto ao da rotação do planeta,
podem ser asteróides, arrancados de suas primitivas órbitas
entre Marte e Júpiter por uma espécie de cabo-de-guerra gravitacional
em que o planeta derrotou o Sol.
(VULCÃO NEGRO EM ERUPCÃO EM IO)
A
gigantesca atração gravitacional de Júpiter teria
afetado até o próprio cinturão de asteróides,
onde se concentram milhares de pedaços de astros.Há evidências
indiretas de que ali começou a se formar um planeta que por algum
motivo desconhecido não vingou. Os fragmentos foram confinados a
determinadas órbitas por causa da influência de Júpiter.
Quase uma estrela dotado de uma família de satélites e influenciando
os astros a seu redor, Júpiter pode mesmo ser considerado um sistema
solar em miniatura — se é que essa palavra pode ser aplicada a um
corpo tão gigantesco. Quando a Voyager 2 passou perto dele, há
mais de dez anos, foram enviadas à Terra 18 mil fotografias. Ainda
hoje elas estão sendo analisadas.