14-3-2001

 

 

 

WALT WHITMAN

(1819 – 1892)

 

 

Leaves of Grass

Song of Myself

 

  Houses and rooms are full of perfumes, the shelves are crowded with
     perfumes,
  I breathe the fragrance myself and know it and like it,
  The distillation would intoxicate me also, but I shall not let it.
 

  The atmosphere is not a perfume, it has no taste of the
     distillation, it is odorless,
  It is for my mouth forever, I am in love with it,
  I will go to the bank by the wood and become undisguised and naked,
  I am mad for it to be in contact with me.

 

  The smoke of my own breath,
  Echoes, ripples, buzz'd whispers, love-root, silk-thread, crotch and
     vine,
  My respiration and inspiration, the beating of my heart, the passing
     of blood and air through my lungs,
  The sniff of green leaves and dry leaves, and of the shore and
     dark-color'd sea-rocks, and of hay in the barn,
 

  The sound of the belch'd words of my voice loos'd to the eddies of
     the wind,
  A few light kisses, a few embraces, a reaching around of arms,
  The play of shine and shade on the trees as the supple boughs wag,
  The delight alone or in the rush of the streets, or along the fields
     and hill-sides,
  The feeling of health, the full-noon trill, the song of me rising
     from bed and meeting the sun.
 

  Have you reckon'd a thousand acres much? have you reckon'd the
     earth much?
  Have you practis'd so long to learn to read?
  Have you felt so proud to get at the meaning of poems?
 

  Stop this day and night with me and you shall possess the origin of
     all poems,
  You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions
     of suns left,)
  You shall no longer take things at second or third hand, nor look
     through the eyes of the dead, nor feed on the spectres in
     books,
  You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
  You shall listen to all sides and filter them from your self.
 

 

 

   

Canto de Mim Mesmo

 

As casas e os quartos estão repletos de perfumes,

      as prateleiras estão repletas de perfumes,

Eu próprio aspiro essa fragrância, conheço-a e gosto dela,

Eu próprio dela poderia embriagar-me, mas não o

      permitirei.

A atmosfera não é um perfume, não sabe a emanação

      alguma, é inodora,

Para sempre ficará na minha boca, por ela me apaixonei,

Irei ao rio junto ao bosque e despojar-me-ei de disfarces

      e roupas,

Estou louco por entrar em contacto com ela.

O fumo da minha própria respiração,

Ecos, ondulações, murmúrios e sussurros, raiz do amor,

      fio de seda, forquilha e vide,

A minha respiração e inspiração, o bater do coração,

      o sangue e o ar que passam pelos meus pulmões,

 

O odor das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das

      rochas escuras do mar, e do feno no celeiro,

O som das palavras que a minha voz atira aos remoinhos

      do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, os braços à volta

      de um corpo,

O jogo de luz e sombra nas árvores com os dóceis ramos

      balouçando,

O prazer de estar só ou no tumulto das ruas, ou pelos

      campos e colinas,

A sensação de saúde, os gorjeios do grande meio-dia,

      o meu canto ao levantar-me da cama e encontrar o sol.

 

Achas que mil acres são muitos? Achas que a Terra é muita?

Praticaste o necessário para aprender a ler?

Sentiste-te orgulhoso por captar o sentido dos poemas?

 

Fica comigo este dia e esta noite e possuirás a origem

      de todos os poemas,

Possuirás o que há de bom na Terra e no Sol

      (há milhões de sóis)

Não terás coisas em segunda ou terceira mão, nem verás

      pelos olhos dos mortos, nem te alimentarás

      dos espectros dos livros,

Nem através dos meus olhos verás, nem de mim terás

      as coisas,

Escutarás tudo e todos e tudo em ti filtrarás.

 

Tradução de José Agostinho Baptista

  

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