6-11-2000

 

Os Monólogos da Vagina

 

Um diálogo íntimo

 

 

A actriz Guida Maria desempenha o papel de narradora dos «Monólogos da Vagina», uma peça de Eve Ensler em exibição no Teatro Casino do Estoril

A polémica estalou em Nova Iorque: já não bastavam as estrelas de cinema e televisão feministas que, desde 1997, se sucediam, a um ritmo impressionante, a interpretar ou a ler os monólogos com que a activista Eve Ensler, no espaço de três anos, se tornara um fenómeno de popularidade e ganhara um Obie. Agora também a ex-actriz e jornalista do Channel 5, Donna Hanover, mulher do implacável Rudi Giuliani, presidente da Câmara de Nova Iorque, punha em polvorosa o conservadoríssimo Partido Republicano, a que o marido pertence, oferecendo-se para interpretar o mais «chocante» de todos os monólogos políticos da off-Broadway!

        GUIDA MARIA

A actriz Guida Maria desempenha o papel de narradora dos «Monólogos da Vagina», uma peça de Eve Ensler em exibição no Teatro Casino do Estoril

A polémica estalou em Nova Iorque: já não bastavam as estrelas de cinema e televisão feministas que, desde 1997, se sucediam, a um ritmo impressionante, a interpretar ou a ler os monólogos com que a activista Eve Ensler, no espaço de três anos, se tornara um fenómeno de popularidade e ganhara um Obie. Agora também a ex-actriz e jornalista do Channel 5, Donna Hanover, mulher do implacável Rudi Giuliani, presidente da Câmara de Nova Iorque, punha em polvorosa o conservadoríssimo Partido Republicano, a que o marido pertence, oferecendo-se para interpretar o mais «chocante» de todos os monólogos políticos da off-Broadway!

Foi, pode dizer-se, uma espécie de «guerra dos sexos» no seu sentido mais inesperado. A 1 de Maio, a primeira dama de Nova Iorque anuncia que irá integrar o elenco rotativo do mais badalado espectáculo do teatro americano do final dos anos 90, criado pela sua amiga Eve Ensler, frontal detractora do «mayor» e apoiante declarada de Hilary Clinton na corrida ao cargo de senadora. Mas, para tornar esta atitude mais interessante para os «media», o conservador Rudolph Giuliani faz saber, no espaço de poucos dias, que sofria de cancro da próstata, que pretendia divorciar-se e que tinha um caso «de amizade» com uma enfermeira.

A célebre apresentadora do programa «Good Day New York», informada pelos jornais da sua situação de futura-ex-mulher casada, adia a estreia e convoca uma conferência de imprensa onde denuncia todos os «affairs» do «mayor» e todas as cenas alegadamente passadas nos segredos da cama do casal. E revela a inabalável decisão de interpretar a narradora dos «Monólogos da Vagina», confirmada para o início de Outubro. A imprensa foi ao rubro e «entalou» o marido infiel e tão extremista de atitudes políticas (a dar razão a quem lhe chama «Benito»!). Mas Giuliani, apesar da mão pesada da política, mostrou-se paternal e disse não «gostar especialmente da peça». E lá se foi o tema que opunha a parte do corpo feminino, na peça de Ensler, em quase todas as variantes da fala americana, ao cancro da próstata do italo-americano Giuliani!MC>Que Peça é então esta de Eve Ensler, jornalista, poeta, e guionista que se considera «uma activista política» em todas as suas facetas profissionais e criativas? «The Vagina Monologues» é um conjunto de 18 «monólogos», na versão publicada, em 98, pela corajosa editora Villard.

O mais interessante deste «texto teatral», onde a palavra «vagina» é pronunciada 128 vezes (com as variantes regionalistas, familiares e pelo menos uma versão popular de quatro letras), para além da seriedade dos problemas que abrange com humor e sentimento (descoberta, de velhas e meninas, do seu corpo; abusos sexuais; violações das mulheres na guerra da Bósnia; educação castradora, mas também a aleluia do prazer e da maternidade), é o facto de se tratar de um género dramático novo.

Como poderão constatar na versão portuguesa acabada de estrear no Casino do Estoril (uma de entre dezenas de versões mundiais), estes «monólogos, com base em 200 entrevistas, a mulheres situadas entre a infância e a terceira-idade, de raças e estatutos sociais diferenciados no «melting pot» norte-americano, é uma espécie de fusão da «stand-up comedie» (que não temos, mas que é uma especialização da técnica de «entertainment» em que um actor/actriz, a solo, diverte o público com as suas rábulas e interpelações directas à realidade, como a série Seinfeld mostrava muito bem, misturando a «sitcom» com a «stand-up comedie»).

Os objectivos destes monólogos são, apesar dos condimentos da comunicação e do divertimento que incorporam, fundamentalmente políticos. Assim como uma espécie anglo-saxónica do teatro documento criado pelo alemão Piscator, mestre de Brecht. Só que, em vez das caricaturas expressionistas, dos tapetes rolantes e das projecções de dados estatísticos, é a palavra, explícita e engajada, o veículo de todas as informações.

Eve Ensler estreou esta acção teatral em 1996, num espaço alternativo da Home for Contemporary Theatre and Art, no Art at Here do Arts Centre de Nova York, ou seja, na «off-Broadway». Com o correr dos espectáculos, dos quilómetros (pela América e pelo estrangeiro) e dos anos, e segundo uma estratégia de dramaturgia épica contemporânea como é o «work in progress», Ensler foi acrescentando e revendo os monólogos mediante os comentários das suas entrevistadas e a consciência da falta de certos campos de reflexão, como o do parto, não incluídos nas versões anteriores. Este processo de trabalho revela com clareza que o que move esta feminista heterossexual - e digo heterossexual porque, entre nós, tal campo da política activa e militante continua a ser, apesar dos passos dados nos anos 90, ordinariamente restringido à interpretação de «escolhas sexuais alternativas», salvo quando se trata da pioneira Teresa Horta (também ela, no seu tempo, foi insultada) - é, com efeito, não a procura de sucesso como actriz (que, aliás, obteve), mas o sucesso da luta contra a violência sobre as mulheres. Foi para esta causa, entendida a nível mundial, que criou, no princípio dos anos 90, quando se encontrava no Quénia, com a celebridade televisiva Calista Flockhart, a apoiar os movimentos contra a FGM (Feminine Genital Mutilation), o V-Day, movimento que se passou a comemorar nos EUA, desde 98, no Dia dos Namorados (14 de Fevereiro), através de acções mediáticas como a representação ou leitura de «Os Monólogos da Vagina» por celebridades de Hollywood, feministas, como Melanie Griffith, Cate Blanchett, Winnie Ryder, Glenn Close, Susan Sarandon ou Whoopi Golderberg.

Outros textos de intervenção de Eve Ensler, como «Necessary Targets», sobre a eliminação étnica na Bósnia através das violações sistemáticas, foram lidos, na própria campanha da assumidamente feminista Hilary Clinton ao Senado, por outras activistas como Meryl Streep, Angelica Huston, Cherry Jones, etc.

A Versão portuguesa da polémica peça de Ensler, com interpretação da actriz Guida Maria e direcção de Celso Cleto (também do Teatro Nacional D. Maria II), é um espectáculo que nos interpela, incomoda, diverte e faz reflectir sobre o silenciamento a que se mantém confinado o activismo político feminista, não partidário, no nosso país.

Não que o espectáculo seja, como o é para Eve Ensler, uma acção de intervenção política directa, ou uma actividade estratégica programada no âmbito de uma acção de grupo ou individual. O trabalho português, postas todas as distâncias, quase corresponde à teorização de Anselma Dell'Olio, fundadora do New Feminist Theatre (1974), que considera que «o teatro feminista pode trabalhar no enquadramento tradicional e ter sucesso comercial», pois emerge, exactamente, como um espectáculo profissional e comercial cuja temática e conteúdos (ainda que atenuados pelos cortes produzidos no texto original) ousam afrontar alguns preconceitos e temores e chamar, assim, a atenção, pela «comédia», pela «comediante» (um talento apreciável, incompreensivelmente «escondido» nos bastidores do D. Maria) e pelas opções do director, para um teatro diferente e uma dramaturgia no fio da navalha entre o uso apelativo da linguagem desbocada, simplificadora, e o uso arrojado e frontal de uma linguagem que não se confunde nem com a má educação propagada pela televisão (por exemplo, a dos habitantes da casa Grande Irmão), nem com os excessos, obscenos, do «feminino monstruoso», da freudiana psicanálise, veiculado pelos filmes de terror e pelos filmes e textos pornográficos.

E o que resulta mais surpreendente é justamente o facto de a peça ser tão impressiva que consegue não só atenuar os graves problemas desta nova versão (J.L. Luna) em português (a primeira foi a brasileira de Fausto Holff) como dissolver quaisquer meros objectivos comerciais e divertimento acéfalo, arrebatando a actriz e o auditório para a consciência do «acto» que se partilha naquele espaço de intimidade que se volveu o teatrinho do Casino (Fernando Marques Oliveira/José Luís Reis).

Guida Maria, tal como Eve Ensler, veste-se (elegantemente) de negro e penteia-se à Louise Brooks. Comunicativa e hilariante em «números» como aquele em que recria uma tipologia para os «gemidos orgásticos», a actriz, muito bonita e sexy, faz-nos recordar os tempos do seu regresso de Londres, quando pisava, disciplinada e corajosamente, o Teatro da Graça (Slag, 1980). Depois disso, só a publicidade lhe deu visibilidade. Será agora redescoberta na «tournée» que inclui Madeira, Açores, Porto, Coimbra, Faro, entre outras regiões nacionais.

Entretanto, já existe uma resposta a «Os Monólogos da Vagina», da autoria de Ernest Thompson! Chama-se «A Resposta do Pénis» e Celso Cleto prepara-se já para mais essa aventura teatral! Que chova público!

            BEATRIZ VASQUES,  no "Expresso", de 28-11-2000

 

Medo do escuro

Primeiro lembrei-me de mim, depois dos meus filhos, cada um na sua época a pedir "deixe a luz acesa". Este medo do escuro, que começa por ser literal e, ao longo da vida, vai oferecendo outras leituras e encerrando outras simbólicas, acompanha-nos desde sempre e não me consta que nos liberte nunca.("O que é não ter intuição?" - perguntava-me um amigo, no outro dia, antes de ele próprio responder: "Não ter intuição é não saber ver no escuro.") E a propósito: estive na estreia de Os Monólogos da Vagina - nome indigesto até para mulheres -, da jornalista americana Eve Ensler, com interpretação da Guida Maria e direcção de Celso Cleto, no Casino Estoril.

 RITA FERRO

Não sei se gostei, se não gostei, porque numa ida ao teatro, por pior que seja a peça, a gente gosta de umas coisas e não gosta de outras, mas entre as que gosta consta sempre a ida em si, a hesitação dos sapatos, os encontros no foyer, os amigos que estão, a magia das luzes, a ceia a seguir.

Gostei de ir ao teatro, pois. Gostei de saber que a Guida Maria sobrevive, depois de todos estes anos de maus tratos humanos e desconsiderações culturais - lamento, mas é assim que continuamos a imaginar a forma como tratam os actores de teatro, em geral -, com uma memória hercúlea e um cabelo tratado. Gostei de a ver representar algumas das partes mais difíceis e subtis do enredo, como os diferentes gemidos femininos durante o amor, desde o da fêmea bissexual ao da protestante anglo-saxónica, com um humor e uma versatilidade daqueles. Não gostei do som, mas existe uma probabilidade remota de ocorrerem em mim, unicamente em salas de teatro portuguesas, episódios de surdez.

Mas gostei sobretudo de outra coisa: de ter refrescado algumas ideias, enfatizadas num texto muito mais de uma cronista do que de uma dramaturga, mas de não ter aprendido nada de muito novo com a peça, o que, vindo de mim, pode só corresponder à suspeita, ou melhor, à esperança de que as minhas conterrâneas lidem com a sua intimidade de uma forma mais saudável do que certas americanas - calvinistas, ignorantes, provincianas, reprimidas -, que ainda nos parecem, em termos sexuais, na Idade do Bronze.

Para além de uma exortação ao investimento dos cavalheiros no "prazer" da mulher - os homens são ali tratados um pouco como calões autistas; aos direitos (ou às exigências) clitoridianos; à despenalização, em moldes tendenciosos, do lesbianismo; e à homenagem às mulheres violadas, sobretudo em cenários de guerra, muitas até com canos de espingarda -que constitui a vertente humanitária da peça, mas não a central - ninguém nos diz mais do que já sabemos: que as mulheres são mais generosas a estimular os homens do que o contrário; que as suas predilecções sexuais não devem ser omitidas; e que o nosso corpo cheira ao nosso corpo, e não a chuva, a rosmaninho ou a amoras.

Mas o teatro, nessa noite, começara já antes da peça, no parque de estacionamento do Casino, onde os automóveis dos jogadores eram mais e melhores dos que, como o meu, queriam simplesmente chegar a horas.

Situação: três mulheres dentro de um carro, sozinhas, duas delas abandonadas pelos legítimos, a quem o simples nome da peça dera pretexto para se juntarem à roda de um copo, à frente da televisão. Um único lugar vago no meio de todo aquele pandemónio dissuasivo. Um arrumador negro balouçando o corpo ressacado à nossa frente e barrando o dito lugar.

Depois, um riso, uma brincadeira e uma fraternidade impossível, admito, de ser entendida como tal: "Ó senhor arrumador, saia daí que eu não o quero matar!"

Logo a seguir, a reacção arrepiante, assustadora como o salto de um felino: "Com que então queres matar o cabrão do preto, é?" Depois, tudo muito depressa.

Eu ao volante, eu a sair - "Cem escudos, filha? Para ti são duzentos!" -, eu a ser barrada pelo corpo do homem, encostado ao meu, esborrachando o meu, e a mão dele, cerrada, escondendo alguma coisa - uma navalha, uma intenção, um outro preço -, a aproximar-se de uma parte de mim, para me agredir, para a agredir?

Não sei. Chegou a polícia, agarrou no homem, as pernas tremiam-me, foi assim que entrei no Casino: feérica! Para ver uma peça que já tinha visto. Que todas as mulheres já viram. O fechar das luzes. O levantar do pano. O medo do escuro, do preto, da noite?

Não sei. Só muito tempo depois, em casa, entrei em monólogo. As pernas fechadas à chave, o olhar ainda estúpido, a voz disfarçando: "Não feches a luz."

 

Rita Ferro, no Diário de Notícias, de 29-11-2000

 

 

MONÓLOGOS (BEM) VISÍVEIS

Há quatro anos, uma jovem escritora e actriz chamada Eve Ensler, sentou-se num palco diante de uma audiência que enchia por completo o teatro Here, no South Village em Nova Iorque, e deu início ao espectáculo “one woman show” intitulado “The Vagina Monologues” ( o título não é dos mais felizes mas o conteúdo compensa). Apesar da referência “chocante” a um órgão sexual, num país em que é proibido, por exemplo, dizer essa mesma palavra ( “vagina”) na televisão, a peça foi um sucesso imediato. Presentemente, depois de milhares de representações em todo o mundo e de ter recebido vários prémios, “The Vagina Monologues” (já editado também em livro), é uma obra considerada como um dos expoentes máximos do chamado “novo feminismo”, tendo contribuído para um reconhecimento, por parte das mulheres, da sua própria anatomia e do que esse órgão representa nas suas vidas. 

Scott Fitzgerald, o famoso autor norte-americano, costumava perguntar às suas companheiras mais próximas, em ocasiões sociais, “se elas preferiam as partes privadas dos homens grandes ou pequenas”, dando assim voz à inquietação e insegurança que sentia pelo facto de a sua própria mulher, Zelda, achar o seu pénis muito pequeno. Conta-se que um dia, Ernest Hemingway, que era muito “macho” e não tinha contemplações em relação às fraquezas de Scott, o levou para uma casa-de-banho pública no intuito de “compararem o tamanho dos respectivos órgãos sexuais”. Uma vez que, para que tais “medições” sejam correctas, é sempre necessária a respectiva erecção, é interessante imaginar o que terá acontecido nesse dia em que Hemingway tentou “sossegar”, ( de uma forma que se parece perigosamente com uma humilhação), o seu amigo e companheiro de escrita. Esta e outras histórias semelhantes servem apenas para ilustrar uma inquietação que domina a mente dos homens e que os preocupa a ponto de determinar, decisivamente, o grau da própria auto-estima. Por alguma razão é costume, entre a população masculina, a repetida introdução no discurso de palavras alusivas ao seu tão estimado (e quase sempre sobrestimado) órgão sexual, um hábito que não é secundado pelas mulheres, talvez porque elas não sentem a mesma necessidade de competir, que é apanágio dos homens, ou então porque a relação da mulher com o seu próprio corpo, principalmente no que diz respeito aos órgãos genitais, é completamente diferente da do homem. Aquilo que os homens exibem com mais ou menos orgulho ( ou tristeza!) é, no seu contraponto feminino, um poço de mistérios, mitos e tabus ou, pelo menos, algo que é guardado com reserva e, em muitos casos, pudor.

Mas algo está a mudar no reino da sexualidade feminina, esse “continente negro” da alma, como lhe chamava Freud, o homem que, como se sabe, desenvolveu a teoria da “inveja do pénis” nas “pobres” mulheres, que ele considerava em permanente carência e roídas pela cobiça de tão orgulhoso e proeminente atributo. Num recente estudo publicado numa revista americana, o Dr. John Bancroft do Kinsey Institute ( Alfred Kinsey e a dupla Masters e Johnson foram pioneiros no estudo da sexualidade), afirmou : “Vivemos ainda no seio de uma cultura que define a sexualidade, o prazer sexual e os seus objectivos em termos masculinos. Em seguida, aplicamos o mesmo paradigma às mulheres, o que se revela como um erro.”

No momento, em que se desenvolvem todos os esforços para se descobrir um Viagra feminino e se fazem estudos aturados no sentido de se saber o que realmente dá prazer às mulheres, eroticamente falando, um dado parece conclusivo: a satisfação e plenitude sexual feminina é um processo complexo e cheio de “nuances” , de forma alguma comparável à dos homens, para quem, na maior parte das vezes, basta o simples ( e, às vezes não tão simples assim) acto da erecção. No entanto, para melhorar a qualidade de vida sexual das mulheres, é necessário derrubar tabus e alargar o conhecimento do próprio corpo, uma vez que é ponto assente que a ignorância nesse capítulo, cimentada por séculos de silêncio, medos e incompreensão, é uma realidade incómoda.  Se, por exemplo, perguntarmos a uma mulher de que tamanho é o seu clitóris ou se saberá desenhar o formato de uma vagina, (vale a pena (re)ver a obra da pintora norte-americana Georgia O’Keefe ou o trabalho da artista Judy Chicago), o mais certo é que, qualquer que seja a resposta, se a houver, ela não será, de forma alguma satisfatória.

Eve Ensler escreveu “The Vagina Monologues” exactamente porque, “estava preocupada com a questão das vaginas e o que pensamos a respeito delas e, mais ainda, com o facto de que (a maior parte das vezes), não pensamos nelas...”. Ao entrevistar centenas de mulheres de todas as idades, raças e grupos sociais, com as mais variadas profissões, solteiras, casadas, lésbicas, vítimas de guerra e de maus tratos, oriundas de lugares tão diferentes como a Bósnia, a Somália ou Long Island, a autora/actriz quis compreender melhor, e dar a conhecer, esse lugar estranho e fantástico, “fonte de prazer e de dor”, a “porta que se abre para dar vida” . O resultado, bastante surpreendente, foi esta peça de teatro que já correu mundo ( para quando a sua encenação em Portugal?) e tem sido interpretada por um numero surpreendente de actrizes, entre as quais se contam  Susan Sarandon, Glenn Close, Whoopi Goldberg, Winona Ryder, Marisa Tomei, Kirstie Alley, Rosie Perez, Amy Irving, Erica Jong, Diane Lane, etc. Há bem pouco tempo, em plena campanha eleitoral para a eleição para o Senado norte-americano, Rudolph Giuliani, o controverso (e conservador) Presidente da Câmara de Nova Iorque (que, recentemente, cortou os subsídios ao Museu de Brooklyn por ter achado uma exposição “escandalosa”), ficou extremamente contrariado por a sua então mulher, a actriz Donna Hanover, por sinal amiga da rival Hillary Clinton, ter representado o primeiro papel em “Monólogos da Vagina”, um facto que causou furor e fez as delícias dos“media”.

Mas por que razão, uma peça de teatro cujo tema se centraliza no órgão genital feminino tem sido objecto de tanta polémica ? A conhecida autora e feminista Gloria Steinem, no prefácio do livro, lembra que as próprias mulheres têm relutância em falar do que ela chama “o que está lá em baixo” e articular termos como vulva, lábios, vagina, clitóris, etc. Ela refere que só se apercebeu da importância deste assunto quando viveu na Índia, onde é comum representar-se graficamente, não só o lingam , o abstracto símbolo genital masculino, mas também a yoni , o símbolo genital feminino, um “triângulo em forma de flor ou ovalado com duas pontas, idolatrado há milhares de anos e ainda hoje incluído no Tantrismo que defende que o homem só atinge a satisfação espiritual pela união sexual e espiritual com a energia superior da mulher”, opinião e crença partilhadas em múltiplas formas, como por exemplo pelos cristãos gnósticos (Maria Madalena seria a mais sábia dos discípulos de Jesus), os místicos Sufi do Islão e até pela religião católica com as suas múltiplas formas do culto de adoração a Maria. Segundo o resultado de uma pesquisa efectuada pela própria Steinem na Biblioteca do Congresso, o traçado das igrejas tradicionais imita o corpo feminino: “há uma entrada externa e outra interna (grandes e pequenos lábios), um corredor vaginal central, duas estruturas curvas laterais, (os ovários) e o centro sagrado, o útero que “dá à luz, onde acontece o milagre”.

Eve Ensler teve a ideia para os seus “Monólogos” por sentir que essa parte da anatomia feminina, apesar de toda a sua importância, era (é) um território inexplorado, escondido e desconhecido: “” Eu digo a palavra (vagina) porque acredito que aquilo que não dizemos, nós também não vemos, não reconhecemos, não recordamos. O que não dizemos transforma-se em segredos e os segredos, muitas vezes, criam vergonhas, medos e mitos. Eu digo a palavra invisível porque quero dizê-la um dia sem sentir vergonha ou culpa. Quero dizê-la com tranquilidade”. E é através desse órgão cujo nome é , ainda, objecto de censura, que Ensler nos faz ouvir a voz de mulheres: mulheres que nunca viram a própria vagina e a descobrem em sessões conjuntas com a ajuda de espelhos, outras, cujos maridos têm gostos esquisitos como aquele que mandava a mulher rapar os pêlos e fez dessa exigência um cavalo de batalha e, ainda, aquela outra velha judia de Queens que confessa que “não vai lá abaixo desde 1953”. A autora fala ainda das experiências muito diversas das primeiras menstruações, dos orgasmos e do amor lésbico descoberto por uma mulher que fora violada em criança. Mas os dois textos mais poderosos e comoventes são, aquele que se refere às mulheres vítimas de estupro durante a guerra na Bósnia e o que descreve um nascimento.

Entre o riso mais exuberante e as lágrimas mais dolorosas, estes testemunhos actuam como uma espécie de catarsis para todos aqueles, homens ou mulheres, que ainda têm capacidade para sentir indignação pelas injustiças e violências cometidas, tristeza pela dor de quem sofre e alegria pelo milagre que é a vida em todas as suas manifestações.

 

Factos interessantes:

Num julgamento de feiticeiras em 1593, o advogado investigador (um homem casado) viu um clitóris pela primeira vez, identificando-o como sendo “ a teta do diabo”. A mulher que o possuía foi, evidentemente, condenada. ( “Monólogos da Vagina”)

Nos Estados Unidos, a última cliterodectomia ( ablação do clitóris) para a “cura” da masturbação, ocorreu em 1948 e foi executada numa menina de cinco anos. ( “The Woman’s Encyclopedia of Miths and Secrets”)

O clitóris, um “feixe” de 8000 fibras nervosas, é o único órgão do corpo humano cuja função exclusiva é a de dar prazer.

Uma vagina saudável, ao contrário do que normalmente se pensa, (não esquecer as anedotas que a relacionam com “ o desagradável cheiro a peixe” que pode acontecer por falta de higiene, por um desequilíbrio na flora vaginal ou pela ocorrência de infecções) é um dos lugares mais limpos do corpo humano, seguramente mais do que a boca ou o ânus. É verdade que aí se concentram bactérias (lactobacilos) mas essas bactérias são “boas”, são as que existem no iogurte, por exemplo. Estas mesmas bactérias geram “desinfectantes” que afastam habitantes indesejáveis a ajudam ainda a repelir as “más” bactérias, as que provocam infecções. ( In “Woman, An Intimate Geography” de Natalie Angier)  

 

Nota: Este texto refere-se à edição brasileira de “Os Monólogos da Vagina”, Bertrand Brasil. Para informações mais completas, incluindo o horário de espectáculos em Nova Iorque, consultar o seguinte “site” na Net: www.vaginamonologues.com/performers.html

 

Helena Vasconcelos, na ELLE de Novembro de 2000

 

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Book Cover


BY EVE ENSLER

FOREWORD BY GLORIA STEINEM

VILLARD

NONFICTION

144 PAGES

BY SARA KELLY | For some of us, a little vagina goes a long way. Most of us, however, are not Eve Ensler, the woman behind "The Vagina Monologues." For Ensler, not even the limits of the human constitution can keep a determined vagina down. And that, in essence, is the point of this literary adaptation of her Obie-winning one-woman show. Assembled in seemingly random fashion from interviews with "a diverse group of over two hundred women about their vaginas," the monologues, their author contends, are for our own good. The intent is purely missionary -- to reclaim the much-maligned "vagina" for women the same way the gay community has reclaimed the term "queer."

It is with great pride and purpose that Ensler invokes the "V" word. Like a precocious child, she repeats those telltale three syllables guaranteed to get a rise out of the grown-ups. "I say 'vagina,'" she explains, "because I want people to respond." And they respond, she says, because they know they shouldn't. Since learning the word's liberating power for herself as an adult, Ensler has hardly tired of its cryptic joys. "I say it in my sleep," she boasts. "I say it because I'm not supposed to say it. I say it because it's an invisible word -- a word that stirs up anxiety, awkwardness, contempt and disgust."

"The Vagina Monologues" is comprised of roughly 15 thematically linked pieces (the number varies depending on whether you count the "vagina facts," dedications, explanations and musings that punctuate the interviews). A foreword by Gloria Steinem attempts to connect the vagina with the core beliefs of world religions (i.e., Tantra's central tenet is man's inability to reach spiritual fulfillment except through sexual and emotional union with woman's superior sexual energy). Doubtless, "Monologues" suffers in translation from performance piece to text. But to help ease the transition, Ensler has appended a few paragraphs of context to most selections.

Two, "Jewish Queens accent" and "English accent," are introduced with a semblance of stage directions. Others launch directly into diary entries or unbroken lists of interviewees' responses to Ensler's questions. "If your vagina could talk, what would it say?" asks the author. "If your vagina got dressed, what would it wear?" "What does a vagina smell like?" The responses range from pithy to banal. "Yum, yum," "Oh, yeah" and "Is that you?" say interviewees who mentally dress their "sexy"- and "wet garbage"-smelling vaginas in everything from "a pinafore" to "a slicker."

"The Vagina Monologues" is by turns confessional and voyeuristic. It's hard to know, for instance, just how to respond to the tragic tale of a Bosnian rape camp survivor ("... they took turns for seven days ... smelling like feces and smoked meat, they left their dirty sperm inside me ...") when juxtaposed with a vignette about a woman who experienced her first orgasm in a hands-on tutorial called "The Vagina Workshop" ("I felt connection, calling connection as I lay there thrashing about on my little blue mat ..."). Ensler is, at the very least, egalitarian in achieving her mission. She treats such subjects as lesbian sex, birth, rape and child abuse with equal candor and respect. Whether her evenhanded treatment of such conflicting subjects shortchanges both is a matter best left to sex researchers and therapists.
SALON | Feb. 4, 1998

Sara Kelly is the editor of In Pittsburgh, an alternative weekly newspaper.

 

 

 

 

The monologues, taken from her interviews with 200 women, range from rape as a weapon in Bosnia (the woman describes a gang rape as the destruction of a village, and the language has the intensity of poetry), to a thirteen year old's initiation into sex ... Ms. Ensler punctuates them with riffs on such topics as past ignorance, abuse of women, and hilarious euphemisms... eliciting roars from the audience … Cunning writing. Sex just doesn't get funnier or more poignant than that." -- D.J.R.Bruckner, The New York Times



"The special genius of The Vagina Monologues is Eve Ensler's ability to lead her audience to lost, discarded, and wounded parts of themselves, and make them shout, weep, and finally howl with laughter." -- Sapphire, poet and author of Push



"That she avoids shock value or even titillation is a tribute to the intelligence with which she has fashioned this courageous piece. Ensler describes her work as 'An anthropological Exploration.' This is accurate, since she bases her monologues on the experiences of women as disparate as a sex worker ... and her own daughter-in-law, whom she witnessed give birth." -- Howard Kissel, The New York Daily News



"Ensler mines the politics and profundity of her subject. There's the elderly woman who 'hasn't been down there since 1953'...Or the corporate lawyer turned lesbian dominatrix - 'It was as if I had found my calling. Tax law seemed completely boring and insignificant then.' Each woman's tale reveals particulars of her own psyche and, at the same time, tacitly sketches the social structures that these women succumb to - or break. In the VM's she does nothing less than reclaim women's ownership of our most intimate incendiary selves." -- Alisa Solomon, The Village Voice



"Not since Erica Jong's Fear of Flying has there been such an entertaining and heartfelt genital celebration." -- Lisa Coleman Bradlow, Time Out New York



"The Vagina Monologues is a play and a piece of art. Eve Ensler is before the audience with a goal, for all people, especially women, to be comfortable with vaginas. The performance shows the hilarious, sentimental, power, mystery, and pain of vaginas. Ms. Ensler takes the audience through the history of and its misunderstanding of vaginas and through the experiences of women from every age/race group that she interviewed...She explores what relationship a Bosnian refugee, a Long Island Antique dealer, a homeless woman and everyone in between has with her vagina." -- Claudia Terry, Hi Drama


"Ensler's audiences - a surprisingly disparate group - may have never heard the word 'vagina' spoken aloud in public, with the (possible) exception of high-school health classes. But playwright-turned-performer Ensler is determined to change all that with her solo performance of The Vagina Monologues...Ensler radiates the qualities of a classic storyteller..." -- Wendy Weiner, American Theater



"Her one-woman show, The Vagina Monologues, is lively and liberating. Eve Ensler - playwright, actor, activist - gives a voice to refugees, the homeless and our most private parts." -- Rebecca Meade, Mirabella Magazine

 

 

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