A Livre Interpretação da Bíblia e a "Sola Scriptura". Aspectos Práticos

 

Antes de adentrarmos no tema propriamente dito, é de boa praxe dispor, ainda que resumidamente, sobre o objeto de estudo.

Com a Pseudo-Reforma protestante, entram no mundo cristão, dois princípios até então nunca utilizados por aqueles que se propunham um estudo sério da Revelação divina e suas tradições, institutos esses que viriam a ser a chave de toda uma gama de interpretações, destoantes entre si, e por isso mesmo auto-excludentes, que colocariam em risco a saúde de muitas almas.

Essas regras passam, devido a radicalidade da mudança que aportam, a servir de fundamento para todo o protestantismo, que elabora a quase totalidade de suas doutrinas nelas.

Estamos a falar da "sola Scriptura" e da livre interpretação da Bíblia, que são, em análise rápida, a utilização da Bíblia como única fonte de doutrina e a capacidade de todo ser humano de entendê-la corretamente através de uma assistência do Espírito Santo.

Talvez não ilustre o pensamento de todos aqueles que abraçaram a fé protestante, mas certamente para grande parte o faz, a idéia de que a Bíblia, toda ela, seja um livro auto-explicativo.

Na verdade, para que prospere, mesmo que idealmente, aquelas duas doutrinas já citadas, deve se aplicar a regra de que as Sagradas Escrituras se expliquem em si mesmas, já que quando lemos um texto qualquer, nos utilizamos para interpretá-lo de conhecimentos externos a ele, conceitos, dados históricos em que foi escrito, figuras de linguagem utilizados e inclusive outros ensinamentos do próprio autor ou pessoas com o mesmo pensamento, além de outros parâmetros, que a priori não são aceitos pelos protestantes.

Imagine a elaboração mental de uma pessoa que, desconhecendo qualquer dado geográfico, histórico, cultural, se pusesse a ler a Palavra de Deus. Diferiria, inevitavelmente, da que teria alguém com todos esses conhecimentos.

Ora, mesmo que encontremos algumas daquelas senhas interpretativas dentro do próprio Texto Sagrado, nos faltará ainda alguma coisa, e é nesse sentido que encontramos, dentro da própria Bíblia, testemunho bastante esclarecedor, vejamos:

"30 Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías, e perguntou-lhe: 'Porventura entendes o que estás lendo?' 31 Respondeu-lhe: 'Como é que posso, se não há alguém que mo explique?' E rogou a Filipe que subisse e se sentasse junto dele." (At 8,30-31)

Como se retira do próprio versículo 31, é necessário que alguém, munido de autoridade, venha nos explicar aquilo que, sem os devidos conhecimentos prévios, se torna inatingível, ou fica ao menos em parte obscurecido.

E quem possui essa autoridade? Certamente não qualquer um que somente tenha lido todo o texto, ainda porque, ler, mesmo que diversas vezes, determinada obra, não é comprovante de bem compreendê-la. Essa autoridade foi dada por Jesus a seus apóstolos, que conhecedores na íntegra do que o Mestre dos mestres os tinha ensinado e, ai sim, auxiliados pelo Espírito Santo, possuíam os requisitos completos para compreender e ensinar sobre as Escrituras, e com a mesma propriedade compreender e ensinar o que haviam escrito, que mais tarde passaria a fazer parte das mesmas Escrituras.

Ademais, é igualmente numeroso o testemunho bíblico, de que muito mais havia feito Jesus, e muito mais ensinaram os apóstolos (Paulo pede que se guarde tudo aquilo que ensinou, seja por carta, seja palavra IITes 2,15) do que o que está posto nas cartas e evangelhos, e sem essa parte da tradição, chamada Oral, não se pode realmente entender as Escrituras, e com elas a totalidade da Revelação

Dirão alguns que o Espírito Santo ele próprio, faz as vezes dos requisitos de interpretação, permitindo assim que a todos seja acessível a Palavra de Deus. Porém, tal pensamento se expõe impossível, tanto teoricamente, quanto de fato, senão vejamos.

Suponhamos que esse princípio seja aplicável, nesse caso teríamos um sério problema, saber quem de fato possuiria a iluminação divina para a interpretação, já que alguém havendo cometido pecado, ou blasfemado, por exemplo contra o Espírito, poderia estar excluído desse auxílio permanente, e assim teria, sem saber, uma interpretação falha, o que levaria aqueles que o seguissem a se perder.

Além disso no mundo fático, acontecem ao menos duas situações que contradizem a regra da ajuda geral do Paráclito, uma delas é a invariável necessidade, nos meios protestantes, de alguém que vá ao púlpito e imponha sua interpretação, já que na maioria das vezes o indivíduo não é capaz de compreender, mesmo os vocábulos mais comuns. A Segunda é a da multiplicidade de interpretações. Ora, o Cristo deixa claro que Ele é "o Caminho, a Verdade e a Vida" (grifo nosso), se aceitássemos que o Espírito, que é um com o Pai e o Filho, dá diversas interpretações ao Verbo, que em última análise é o próprio Jesus, Verbo Encarnado, estaríamos duvidando das palavras do Salvador, e colocando em xeque todo o sistema divino que recebemos. E de fato essas diversas interpretações tomam lugar no protestantismo.

Acentue-se que mesmo a menor das divergências tomada como doutrina, sacrifica o todo, ou estaríamos dizendo que a Bíblia não é toda ela Verbo de Deus, ou seja Jesus, "o Caminho, a Verdade e a Vida"

Por fim, resta dizer que é doutrina acertada a que diz que toda a Bíblia é inspirada e contém a Verdade, porém não podemos dizer, através de um esforço interpretativo, que seja ela somente a Verdade, pois quando passamos a aceitar, até para efeitos de análise do próprio texto, que muitas outras coisas foram ditas, feitas e ensinadas, e que mantidas até os nossos dias, pelo que a Igreja Católica chama de Tradição Oral, que com a devida vênia era a forma mais comum de passagem de conhecimentos até pelo menos o século XV, complementam de tal forma as Escrituras que seu estudo fica difícil sem esses ensinamentos, como vimos acima, somos obrigados a aceitar que os ensinamentos dados através das palavras que São Paulo nos lembra (IITes 2,15), estão vivos e conforme o que se retira do versículo, fazem parte da Verdade Revelada. Discutamos quais sejam esses ensinamentos depois, porém é importante que se note, que existem.

Logo, diante de todo o exposto, podemos afirmar que fundamento sobre o qual se ergue o edifício protestante é falso, e inviável na prática.

Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo

Christiano Oliveira Pereira

Esse texto pode ser livremente reproduzido e difundido com a menção do Autor

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