IMACULADA CONCEIÇÃO
O que é Imaculada Conceição?
A Imaculada Conceição foi a sublime graça que a Mãe do Senhor recebeu de ser isenta do pecado original. Ao contrário de todos nós, que nascemos espiritualmente mortos, privados da graça pela culpa dos nossos primeiros pais (Rm 3,23), Maria, desde o primeiro momento de sua existência, é amiga de Deus, filha dileta do Pai, virgem cheia de graça (kecaritwmsnh, cfr. Lc 1,27-33).
Maria, primeira redimida
Quer isto dizer que Maria não precisou de Cristo como Salvador? De modo algum. Ele a salvou de um modo único, redimindo-a preventivamente. Enquanto nós fomos salvos depois de termos nascido no pecado, a Mãe de Deus foi salva de ter nascido no pecado.
"... Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina, que acha que a beatíssima Virgem Maria no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e em vista dos méritos de Jesus Cristo, salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e por isso deve ser crida firme e constantemente por todos os fiéis" (bula Ineffabilis Deus, fórmula dogmática pronunciada pelo papa Pio IX em 8.12.1854).
Portanto, Maria foi a primeira redimida, e Cristo é, com muita razão, seu Salvador, como ela mesma faz questão de proclamar em Lc 1,47.
Maria, inimiga do demônio
A Escritura diz:
"Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3,15).
"Entrando onde ela estava, disse-lhe: ‘Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!’ Ela ficou intrigada com essa palavra e pôs-se a pensar qual seria o significado da saudação. O Anjo, porém, acrescentou: ‘Não temas, Maria! Encontraste graça junto de Deus. Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho, e tu o chamarás com o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim’" (Lc 1,28-33).
Maria, a "cheia de graça", é a mulher que esmaga a cabeça da serpente, o Diabo, desatando assim o nó da maldição dado por Eva. Já dizia Santo Ireneu, no século II d.C., que a Virgem Maria é "a advogada de Eva, de sorte que o gênero humano, submetido à morte por uma virgem, fosse dela libertado por uma Virgem, tornando-se contrabalançada a desobediência de uma virgem pela obediência de outra" (Contra as Heresias, Livro V, XIX,1). A obediência de Maria nos salvou da morte.
A honra de ser Mãe de Deus (pois Jesus é Deus) é absolutamente incompatível com o pecado. Deus não daria ao seu Filho encarnado uma mãe pecadora.
O pecado nos faz escravos, propriedade do demônio:
"Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo 8,44).
"Aquele que comete o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. Para isso é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus" (1Jo 3,8s).
"Nós sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca; o Gerado por Deus o guarda e o Maligno não o pode atingir. Nós sabemos que somos de Deus, e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno" (1Jo 5,18-19; cfr. tb. Ef 2,1-3 e Hb 2,14-15).
Maria nada tinha com o demônio. A Mãe do Salvador não poderia ser, ao mesmo tempo, propriedade do seu maior inimigo. Seria uma contradição, uma imperfeição inaceitável nos planos divinos. Ela é a primeira criatura humana verdadeiramente livre, desde o início de sua vida fora do alcance do Maligno. Nela se manifesta a completa destruição das obras do demônio, realizada pelo Filho de Deus na cruz.
Jesus honrou sua Mãe
"Quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe deverá morrer. Visto que ele amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe, o seu sangue cairá sobre ele mesmo" (Lv 20,9).
Teria Jesus permitido que a maldição jogada sobre Adão e Eva se estendesse à sua Mãe? Se respondemos que sim, então devemos concluir que Jesus violou um dos mandamentos divinos, o que é absurdo. Portanto, só nos resta concluir, pela lógica, que Jesus jamais deixou que sua Mãe Santíssima fosse tocada pelo pecado original.
Todos pecaram. E Maria?
É verdade que Paulo diz:
"...sendo que TODOS PECARAM E TODOS ESTÃO PRIVADOS DA GLÓRIA DE DEUS" (Rm 3,23).
"Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque TODOS PECARAM" (Rm 5,12).
O que serve de falso argumento para que nossos irmãos protestantes deduzam que Maria também pecou, e também foi atingida pelo pecado original.
No entanto, Paulo também diz:
"Pois, assim como TODOS MORREM em Adão, em Cristo todos receberão a vida" (1Cor 15,22).
Sabemos que NEM TODOS MORREM em Adão. Como exemplo, vejam-se os casos de Enoc e Elias, arrebatados sem conhecerem a morte. O mesmo Paulo fala na Primeira Epístola aos Tessalonicenses (4,17) que os que estiverem vivos por ocasião da Parusia serão arrebatados sem perecer.
É, portanto, razoável ler o "TODOS PECARAM" de Rm 3,23 e Rm 5,12, não como uma regra absoluta, sem exceções, mas como uma afirmação da generalidade do pecado, no qual a humanidade em peso se afundou. De resto, a forma grega do verbo "pecar" (¼marton) utilizada nesses versículos pelo Apóstolo das Gentes, segundo muitos exegetas traduz melhor a idéia de pecado pessoal do que a de pecado "hereditário", excluindo de seu âmbito, por exemplo, as crianças que não atingiram a idade da razão (cfr. Rm 9,11).
É interessante notar que alguns versículos antes do v.23 de Rm 3, Paulo cita Sl 14,1-3: "Diz o insensato no seu coração: ‘Deus não existe!’ Suas ações são corrompidas e abomináveis: não há um que faça o bem. Do céu Iahweh se inclina sobre os filhos de Adão, para ver se há um sensato, alguém que busque a Deus. Estão todos desviados e obstinados também: não há um que faça o bem, não há um, sequer". Este texto é de fundamental importância para o argumento que o Apóstolo construirá em seguida, sobre a universalidade do pecado. Se quisermos interpretá-lo de maneira correta precisamos ter em mente o seu contexto. Vejamos o versículo seguinte: "Não sabem todos os malfeitores que devoram meu povo, como se comessem pão, e não invocam a Iahweh?" (Sl 14,4).
São os insensatos, que não possuem um só representante que pratique o bem, que devoram o povo do Senhor. Nota-se a oposição entre esse grupo dos insensatos e o grupo dos justos, dos filhos de Israel. Dois grupos, o dos maus e o dos bons. É preciso, portanto, matizar o "TODOS PECARAM". Paulo quer mostrar que Cristo nos faz membros do grupo dos justos. O eixo da Epístola aos Romanos não é o ensinamento sobre o pecado, e sim a doutrina da justificação recebida mediante (mas não somente por) a fé em Jesus Cristo. Mais fundamental para o Apóstolo não é a falta de Adão, que nos torna escravos, mas sim a fé no Filho de Deus que nos justifica.
Maria, Cidade de Deus
"Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas..." (Ap 12,1).
"Nela jamais entrará algo de imundo, e nem os que praticam abominação e mentira. Entrarão somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro" (Ap 21,27).
"Desperta, desperta, mune-te da tua força, ó Sião! Põe os teus vestidos de gala, ó Jerusalém, cidade santa, pois nunca mais tornarão a entrar em ti o incircunciso e o impuro" (Is 52,1).
Maria não é uma fiel qualquer. Ela é uma digna Mãe de Deus. Mãe segundo a carne, mas principalmente, Mãe pela fé. A Jerusalém do Alto é figura de Maria e Maria é figura da Jerusalém do Alto. Assim como nada de impuro pode entrar na Cidade de Deus, nada de impuro, nem mesmo a menor ruga ou mancha, pode ser encontrado na Virgem Maria.
As grandes mães de Israel não eram mulheres comuns... quanto mais a mãe do Messias!
Tendo em vista a grandiosidade da honra que o Pai deu à sua filha dileta, a posição protestante é mesquinha demais. Sim, pois ninguém honrou mais Maria do que o próprio Deus, ao escolhê-la para ser mãe do seu Filho. A Bíblia diz que Jesus é Filho de Deus e de Maria. Jesus "nasceu de Maria", o que coloca a Virgem acima de qualquer outra criatura.
"Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus em meu Salvador, porque olhou para a humilhação de sua serva. Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada, pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo" (Lc 1,46-49).
"...e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? Pois quando a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu ventre. Feliz aquela que creu, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido’" (Lc 1,41b-45).
Quem somos nós para recebermos a visitação da Mãe do Senhor! Bendita seja, Maria, porque creste! E nós, com toda a Igreja de Jesus Cristo, até o fim dos tempos, vamos te proclamar bendita, bem-aventurada, obra-prima do Espírito Santo! O Senhor fez em ti maravilhas e prodígios indizíveis! Bendito seja o nome do Senhor! Amém.
Maria, serva humilde
Por ser a serva mais humilde, Cristo a exaltou acima de todos os anjos e santos.
"Aquele que no vosso meio for o menor, esse será grande" (Lc 9,48b).
"Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos" (Mc 9,35b).
"Disse então Maria: ‘Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!’" (Lc 1,38a).
"Sua mãe disse aos serventes: ‘Fazei tudo o que ele vos disser’" (Jo 2,5).
Mãe, filha e também esposa do Senhor, "sem ruga e sem mancha", assim é Maria.
Duas últimas objeções
Duas últimas objeções nos restam. Ambas não são difíceis de responder. A primeira: se Maria precisava ser Imaculada, por que não deviam sê-lo seus pais, seus avós, seus bisavós, e assim por diante? Embora pareça pueril, respondemos essa questão: Maria está estreitamente associada a Cristo, muito mais associada que seus pais e todos os seus ascendentes, porque ela, e somente ela, é o ELO IMEDIATO entre Cristo e o restante da humanidade. É em Maria, imediatamente em Maria, que Cristo entra na História. A estreitíssima proximidade com o Verbo encarnado é o elemento fundamental para a compreensão do dogma da Imaculada Conceição, e não só deste dogma, mas de todos os outros dogmas marianos.
A segunda objeção tem a ver com a história da Imaculada Conceição, uma vez que houve, antes da sua solene definição, várias vozes discordantes, incluindo aí a voz de grandes santos, como Santo Tomás de Aquino.
Em primeiro lugar, a Imaculada Conceição é fundamentada na Escritura, na Tradição da Igreja e na autoridade do Magistério. É uma verdade que depende do reto entendimento de vários elementos do mistério cristão (pecado original, soteriologia, doutrina da graça e da predestinação, eclesiologia, etc.), elementos que só foram sendo esclarecidos aos poucos pela Igreja, assistida pelo Espírito Santo (ainda hoje não podemos dizer que todas as perguntas foram respondidas). Nem mesmo grandes santos e gênios teológicos do porte de Santo Tomás de Aquino estão imunes a equívocos ou são capazes de superar os limites do próprio tempo, da teologia e da exegese de sua época. O fato deles estarem errados não os torna hereges, pois na época em que viveram a Igreja ainda não tinha definido a Imaculada Conceição.
Ser santo não é ser infalível.
Resumo
Em síntese:
- Maria é Imaculada por causa de sua estreitíssima união com Cristo. Ela não é o centro da nossa fé, mas está no centro, pois ninguém esteve tão perto de Jesus quanto ela.
- Deus a redimiu de modo preventivo, aplicando-lhe antecipadamente os méritos de Cristo. Não há limites de espaço ou de tempo para a salvação. Em Cristo, Maria foi escolhida antes da fundação do mundo para ser santa e Imaculada (cfr. Ef 1,4ss). "Vós [Jesus] e vossa Mãe, sozinhos, sois mais belos que tudo o mais; não há mácula em vós, Senhor, nem nódoa alguma em vossa Mãe" (Santo Efrém, o sírio, séc. IV d.C.). Maria é "o santuário da impecabilidade, o templo santificado por Deus..., o paraíso verdejante e incorruptível" (Proclo de Constantinopla, séc. V d.C.).
- "Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as suas graças e chamou-as Maria" (S. Luís Maria Grignion de Montfort). A santidade de Maria é obra da graça divina - a Virgem não mereceu nada em primeiro lugar.
Ewerton Wagner Santos Caetano