A INFALIBILIDADE PAPAL
Pedro é católico e Elias é protestante. Os dois são bons amigos e colegas de faculdade. Durante uma conversa, Elias toca num assunto polêmico: a infalibilidade papal.
Elias: Não posso aceitar, Pedro, essa idéia de que o papa é infalível. Para mim é um absurdo, o cúmulo da arrogância e, perdoe-me, até uma forma de autodeificação. Imagine só! Um homem, como eu e você, dizer-se infalível! Só Deus é infalível, e a Bíblia. Aliás, é a própria Bíblia que diz que somos pecadores e falíveis. Leio em Rm 3:23: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus", e em Jr 17:5: "Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!" É impossível confiar em um homem porque o homem é falível, sempre, em toda parte, em todos os tempos.
Pedro: Creio, amigo Elias, que você está confundindo a infalibilidade papal com coisas que nada têm a ver com ela. Veja, você fala da infalibilidade como se cada palavra do papa fosse infalível, como se ela implicasse em impecabilidade da parte do papa e como se ela fosse uma virtude natural do papa, algo que o papa é em virtude de seus méritos ou de sua natureza. Não é nada disto que os católicos crêem. Deixe-me explicar melhor.
Elias: Claro. Prossiga.
Pedro tira o Novo Catecismo da Igreja Católica de sua mochila.
Pedro: Primeiramente a infalibilidade não inclui todos os atos e palavras do papa, mas apenas alguns atos e palavras especiais do papa. Leio no número 891 do Catecismo: "Goza desta infalibilidade o Pontífice Romano, chefe do colégio dos Bispos, por força do seu cargo quando, na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fiéis, e encarregado de confirmar seus irmãos na fé, proclama, por um ato definitivo, um ponto de doutrina que concerne à fé e aos costumes". Perceba que há aí uma série de condições para o exercício da infalibilidade: primeiro o papa precisa agir como pastor e doutor supremo dos fiéis, ou seja, precisa ensinar ex cathedra - termo em latim que quer dizer "da cátedra", da cadeira de onde os bispos ensinam a doutrina ao povo - com a autoridade de Sucessor de Pedro, para toda a Igreja; ele precisa deixar bem claro sua intenção de emitir um pronunciamento infalível, definitivo - se o papa não diz que um pronunciamento que vai fazer será ex cathedra, infalível, então ele não é infalível naquele pronunciamento. Depois o pronunciamento precisa versar sobre questões de fé e moral (costumes). O papa não é infalível quando fala de física, química, matemática, economia, psicologia ou política. Ele pode errar quando faz um cálculo, estabelece acordos com governos estrangeiros ou decide sair na chuva.
A infalibilidade papal faz parte da promessa que Cristo fez a Pedro e a Igreja. Posso pegar sua Bíblia? É uma tradução protestante, não?
Elias: Claro... a de João Ferreira de Almeida...
Elias entrega sua Bíblia a Pedro, que começa a folheá-la, procurando uma conhecida passagem do Evangelho de São Mateus.
Pedro: Aqui está. Vejamos... Mt 16,18: "Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus". Observe que aqui Cristo promete solenemente que as portas do inferno, as forças da cidadela da morte, da mentira e do pecado, não serão capazes de vencer sua Igreja. Ora, isto implica necessariamente na infalibilidade da Igreja como um todo. Se a Igreja falhar, se ela trair a Verdade que lhe foi confiada por Cristo, então na verdade serão as forças da cidadela infernal que terão prevalecido e destruído a Igreja. A promessa de Cristo seria desmentida e, portanto, sua autoridade refutada. Jesus não poderia ser o Messias, o Filho de Deus, se fizesse uma promessa e depois a história comprovasse que tal promessa não foi cumprida. A Igreja precisa ser visivelmente infalível, e é por isso que Cristo lhe dá um fundamento visível, uma rocha que todos podem ver e à qual todos podem recorrer quando se trata de discernir entre o bem e o mal, a sã doutrina e a heresia. Se Cristo é a rocha invisível infalível, Pedro é a rocha visível que participa da infalibilidade de Cristo por uma graça divina extraordinária. Tudo o que Pedro e seus sucessores ligarem, determinarem, estabelecerem, usando deste poder recebido de Deus, é imediatamente sancionado no Céu. A participação de Pedro na autoridade de Cristo Mestre e Pastor é evidente no texto.
Elias: Mas a Bíblia é a única autoridade doutrinal subordinada a Cristo que reconhecemos.
Pedro: Mas onde a Bíblia diz que ela, a Bíblia, é a única autoridade doutrinal que deve ser reconhecida? Em parte alguma! A Bíblia não ensina tal coisa. Diz, pelo contrário: "Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade" (1Tm 3,15). A Bíblia diz que é a Igreja, e não a Bíblia, a coluna e firmeza da verdade. É à Igreja que precisamos recorrer quando queremos saber a verdade e refutar o erro: "...e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano" (Mt 18,17). "Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação" (2Pd 1,20). A Bíblia não deve ser interpretada com autoridade por qualquer indivíduo, pois ela não veio da mente de um indivíduo qualquer, mas de Deus. A Bíblia deve ser interpretada com autoridade apenas por quem recebeu de Deus o dom de interpretá-la assim. Quem recebeu este dom foram os apóstolos e seus sucessores, os bispos, e sempre unidos a Pedro e aos sucessores de Pedro, os papas. "A infalibilidade prometida à Igreja reside também no corpo episcopal quando este exerce seu magistério supremo em união com o sucessor de Pedro, sobretudo em um Concílio Ecumênico", diz o Catecismo. Jesus, depois da promessa solene a Pedro, estendeu a todos os apóstolos o poder de ligar e desligar, em comunhão com Pedro: "Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu" (Mt 18,18). A infalibilidade é um carisma, uma assistência especial do Espírito Santo prometida à Igreja: "Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir" (Jo 16,13).
É a Pedro que o Senhor diz: "...Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos" (Lc 22,31-32). Pedro aparece aqui como aquele que confirma a fé dos discípulos de Cristo no momento da provação. Por três vezes Jesus confia a Pedro o encargo de cuidar da Igreja: "Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Ora, tais funções não cessam com a morte de Pedro em Roma, mas continuam em seus sucessores, os bispos daquela cidade.
Elias escuta atento, em silêncio.
Pedro: Do que eu lhe disse até agora, dá para perceber que a infalibilidade não é impecabilidade. O papa e os bispos são pecadores, como eu e você, e se confessam pecadores diante de Deus. É comum ver protestantes confundindo infalibilidade com impecabilidade, e isto só demonstra o quanto de preconceito e incompreensão existe no meio de vocês. Dá para ver também que a infalibilidade não vem do papa ou dos bispos, mas de Deus mesmo, que assiste a Igreja sempre e se serve de canais humanos para transmitir a sua Palavra sem erro. Não confiamos na humanidade do papa, na sua inteligência ou no seu entendimento humano da Revelação, mas confiamos na assistência infalível do Espírito Santo que, através do papa e dos bispos, transmite-nos toda a verdade necessária para nossa salvação eterna, e de modo definitivo nas solenes proclamações que invocam a sua infalibilidade. A infalibilidade reside em Deus, mas se comunica até nós por canais visíveis, que se tornam, desta maneira, participantes da infalibilidade divina. Creio que este aspecto de "participação" em algo divino é uma das maiores diferenças entre o catolicismo e o protestantismo, e a raiz de quase todas as nossas discordâncias.
Elias: E todos esses dogmas novos, que o papa definiu com sua infalibilidade? A Imaculada Conceição, a Assunção? nada disto está na Bíblia ou nas crenças da Igreja primitiva...
Pedro: Na verdade estas verdades estavam presentes na crença da Igreja primitiva e também estão presentes na Escritura, mas de modo velado, implícito. Certamente nenhum fiel dos primeiros tempos conhecia estes dogmas que você mencionou na formulação usada hoje em dia, mas todos eles sabiam que Maria era a mulher mais excelsa e digna entre todas, que ela era uma digna Mãe do Filho de Deus, e de uma santidade singular. Esta noção foi sendo aprofundada pelos padres, doutores, santos, bispos, papas, e pelo próprio povo de Deus. Perscrutando a Bíblia e a Tradição com a consciência da sublime santidade de Maria, aos poucos foram sendo percebidos certos aspectos de seu mistério. Sua Assunção, por exemplo, tem entre suas bases bíblicas uma célebre passagem do Apocalipse (c. 12), os precedentes de Henoc e Elias, e também o fato de a Arca de Deus não ter sido destruída mas miraculosamente preservada por Deus (Maria é vista na tradição cristã como a Nova Arca da Aliança)... A santidade de Maria e a sua união profunda a Cristo tornam inaceitável a idéia de que ela conheceu a corrupção... Aquele que recebeu de Maria a vida do corpo não negaria a vida incorruptível ao corpo de Maria. Assim, a Virgem, em corpo e alma, foi assunta e glorificada por Cristo. Formular tal fato dogmaticamente e de modo adequado levou séculos, embora a antigüidade das tradições sobre a Assunção de Maria e a inexistência de relíquias de seu corpo sejam notórias. O papa Pio XII, usando a infalibilidade, não decretou isto como uma nova verdade, mas como uma verdade que já pertencia ao Depósito da Fé e que ainda não tinha sido explicitada como tal. Da mesma maneira, o dogma da Trindade professado em Nicéia, no ano 325 d.C., não era explícito na Igreja primitiva. Contudo, todas as igrejas cristãs, inclusive as protestantes, aceitam a autoridade do Concílio Ecumênico de Nicéia.
Elias: Bem, na óptica católica há mais coerência do que eu imaginava no início... mas ainda assim não sei se estou convencido.
Pedro: Talvez ajude se você pensar na sua própria igreja e em como vocês enxergam a questão da infalibilidade. Vocês transferiram a infalibilidade da Igreja hierárquica, papas e bispos, para o fiel, que individualmente lê a Bíblia e é, segundo a visão de vocês, iluminado de modo direto pelo Espírito Santo. Ora, tal transferência, a meu ver, só multiplicou o problema. Ao invés de um papa infalível em determinados momentos e sob condições estritas, obtém-se milhares, milhões de papas infalíveis em todos os momentos e sempre, com a Bíblia debaixo do braço e na ponta da língua. O pior é que todos esses papas discordam entre si, e fundam para si próprias suas próprias igrejas. Há 23.000 denominações protestantes no mundo de hoje, classificadas em vários blocos e dezenas de tradições doutrinais, e todos os dias surgem algumas dezenas mais. Uma verdadeira "Babel", unida por traços comuns, é verdade, mas também dividida doutrinalmente em pontos nada secundários (só para citar alguns exemplos: a predestinação, o batismo, a Ceia do Senhor, a eclesiologia, a segurança da salvação, etc.).
Elias: Eu sempre me perguntei qual a melhor igreja para servir ao Senhor... mas nunca tinha raciocinado desta maneira antes. Escute, preciso sair agora. Vou à igreja. Apresentarei os seus argumentos ao meu pastor e veremos o que ele irá dizer.
Ewerton Wagner Santos Caetano
"Mas visto que seria coisa bastante longa elencar, numa obra como esta, as sucessões de todas as igrejas, limitar-nos-emos à maior e mais antiga e conhecida por todos, à igreja fundada e constituída em Roma, pelos dois gloriosíssimos apóstolos, Pedro e Paulo, e, indicando a sua tradição recebida dos apóstolos e a fé anunciada aos homens, que chegou até nós pelas sucessões dos bispos, refutaremos todos os que de alguma forma (...) se reúnem prescindindo de qualquer legitimidade. Com efeito, deve necessariamente estar de acordo com ela, por causa da sua origem mais excelente, toda a igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, porque nela sempre foi conservada, de maneira especial, a tradição que deriva dos apóstolos" (Santo Ireneu de Lião, Mártir, + 202 d.C., Contra as Heresias, Livro III, Cap. 3, v. 2).