IMAGENS
Acusação protestante:
Os católicos adoram imagens de Maria e dos santos, violando o mandamento divino: "Não farás para ti ídolos, nem figura alguma do que existe em cima, nos céus, nem embaixo, na terra, nem do que existe nas águas, debaixo da terra" (Ex 20,4).
Refutação:
O argumento protestante se estrutura do seguinte modo:
1 - O uso de imagens implica sempre em um culto de adoração às imagens.
2 - Deus proibiu absolutamente o uso de imagens.
3 - Portanto os católicos, que usam imagens, necessariamente adoram imagens e desrespeitam a vontade de Deus.
Vamos demonstrar a falsidade das proposições 1 e 2, de onde, logicamente, seguirá a invalidação da proposição 3.
1 - O uso de imagens implica sempre em um culto de adoração às imagens
Esta proposição é evidentemente falsa quando compreendemos o que significa o termo "imagem". O dicionário diz que imagem é a representação de um objeto pelo desenho, pintura, escultura, etc. Trata-se, portanto, da representação de alguma coisa, representação que pode ser usada para vários fins: ornamentação, recordação, símbolo, expressão de idéias e emoções. Uma fotografia, um quadro de Rembrandt ou de Monet, uma escultura de Da Vinci ou a Estátua da Liberdade e o Cristo Redentor são alguns exemplos de imagens. Vê-se logo que o simples uso de imagens não é, em si mesmo, idolatria.
Adoração, no sentido próprio do termo, é latria, o "primeiro ato da virtude da religião. Adorar a Deus é reconhecê-lo como Deus, como o Criador e o Salvador, o Senhor e o Mestre de tudo o que existe, o Amor infinito e misericordioso. (...) Adorar a Deus é, no respeito e na submissão absoluta, reconhecer 'o nada da criatura', que não existe a não ser por Deus. Adorar a Deus é, como Maria no Magnificat, louvá-lo, exaltá-lo e humilhar-se a si mesmo, confessando com gratidão que ele fez grandes coisas e que seu nome é santo" (Catecismo da Igreja Católica, 2096-2097).
Os santos e santas, bem como a Virgem Maria, não recebem culto de adoração, mas sim culto de veneração, ou seja, um culto que consiste em amá-los, honrá-los, reverenciá-los por suas virtudes e boas obras, imitando os seus bons exemplos e implorando humildemente a sua intercessão (em teologia, o culto dos santos recebe a denominação de dulia, e o de Nossa Senhora, hiperdulia).
No dicionário, "veneração" pode ser sinônimo de "adoração". É preciso lembrar que em qualquer língua uma mesma palavra pode ter diferentes significados, de acordo com o contexto em que é utilizada. A Igreja, ao utilizar a palavra "veneração" para descrever o culto aos santos, exclui absolutamente o sentido de adoração (latria).
O culto prestado aos santos está de acordo com as palavras de Jesus: "Quem vos recebe, a mim recebe, e quem me recebe, recebe aquele que me enviou" (Mt 10,40). Ao honrarmos (recebermos) os santos e Nossa Senhora, honramos (recebemos) o próprio Deus que os criou e abençoou. Elogiar a obra de um artista não o faz sentir-se ofendido ou menosprezado. Antes, é um louvor ao seu talento. Ao venerarmos as obras de Deus - que são os santos e a Virgem Maria - louvamos o seu Autor.
As imagens religiosas não são objeto de adoração por parte da Igreja. A elas prestamos um culto de veneração relativa, ou seja, não veneramos as imagens em si mesmas, mas quem as imagens representam. Na imagem não existe nada além da matéria. Quem é retratado não se "incorpora" na imagem. A imagem serve como mediação simbólica que remete, através de sua forma, de suas cores, de seus traços, para a pessoa que ela quer reproduzir. Já dizia São João Damasceno: "A beleza e a cor das imagens estimulam a minha oração".
"O culto cristão de imagens não é contrário ao primeiro mandamento que proíbe os ídolos. De fato, 'a honra prestada a uma imagem se dirige ao modelo original', e 'quem venera uma imagem, venera nela a pessoa que nela está pintada'. A honra prestada às santas imagens é uma 'veneração respeitosa', e não uma adoração, que só compete a Deus" (Catecismo da Igreja Católica, 2132).
Deve-se ainda lembrar o valor pedagógico das imagens, que durante muito tempo serviram (e ainda servem) para instruir os iletrados.
2 - Deus proibiu absolutamente o uso de imagens
Esta proposição também é falsa, pois vemos o próprio Deus ordenando a fabricação de imagens no Antigo Testamento:
"Farás dois querubins de ouro polido, nas duas extremidades do propiciatório: um de um lado e outro de outro lado, de modo que os querubins estejam nos dois extremos do propiciatório. Os querubins, com as asas estendidas por cima, estarão encobrindo o propiciatório, um em frente ao outro, voltados para o propiciatório" (Ex 25,18-20).
"O Senhor lhe respondeu: 'Faze uma serpente venenosa e coloca-a sobre um poste. Quem for mordido e olhar para ela, ficará curado'. Moisés fez uma serpente de bronze e a colocou sobre um poste. Quando alguém era mordido por uma serpente, olhava para a serpente de bronze e ficava curado" (Nm 21,8-9).
Ver também 1Rs 6,23-35; 7,25.29.36.
Alegam alguns protestantes que estas ordens são exceções permitidas por Deus, mas que a norma da proibição absoluta prevalece. Neste caso, perguntamos: de onde vem tal conclusão? As passagens citadas não afirmam, em nenhum momento, que Deus estivesse abrindo uma exceção extraordinária à norma de Ex 20,4. É com grande naturalidade que o Senhor ordena a fabricação de imagens. Se a fabricação de imagens é algo mau em si mesmo, então Deus estaria agindo mal, ordenando uma má ação.
Basta ler o seguinte versículo para compreender melhor o sentido da proibição de imagens:
"Não terás outros deuses além de mim" (Dt 5,7).
O que Deus proíbe ao povo israelita é a confecção de ídolos, ou seja, a adoração de representações figurativas, a ido-latria freqüente entre os povos que moravam em Canaã e em todo o mundo antigo. Havia um risco muito grande de Israel ser contaminado pelos povos pagãos, os quais imaginavam que a divindade podia ser capturada e controlada por meio de imagens. É este hábito idolátrico que é severamente condenado por Deus na Bíblia, especialmente nos profetas e nos livros sapienciais:
"São todos insensatos ao extremo, e mais infelizes que a alma de uma criança, os inimigos do vosso povo, que o oprimiram. Consideraram como deuses todos os ídolos das nações, que não podem usar dos olhos para ver, nem do nariz para respirar, nem dos ouvidos para ouvir, nem dos dedos da mão para tocar, e cujos pés são inúteis para caminhar" (Sb 15,14-15).
"Acaso troca uma nação de deuses? - e esses não são deuses! No entanto meu povo trocou a sua glória pelo que nada vale. Espantai-vos, ó céus, com isto! Horrorizai-vos e abalai-vos profundamente - oráculo do Senhor! Porque meu povo cometeu dois crimes: Eles me abandonaram, a fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas que não podem reter água" (Jr 2,11-13).
Deus é o primeiro a fazer imagens: "Deus disse: 'Façamos o homem à nossa imagem e segundo nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos e todos os animais selvagens e todos os répteis que se arrastam sobre a terra'. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, macho e fêmea ele os criou" (Gn 1,26s). Cristo é a "imagem do Deus invisível" (Cl 1,15). A criação é uma espécie de "imagem" de Deus: "De fato, desde a criação do mundo, o invisível de Deus - o eterno poder e a divindade – se torna visível à inteligência de suas obras" (Rm 1,20).
O segundo mandamento não implica na proibição total de qualquer forma de arte figurativa. Do século I d.C. e de séculos posteriores se conservam vários túmulos (p. ex., as catacumbas cristãs) e sinagogas decoradas com pinturas de temas do Antigo Testamento. No século VIII d.C. tem início, no Oriente, a querela dos iconoclastas, que pregavam a destruição das imagens sagradas. Através do concílio de Nicéia (VII Ecumênico), em 787 d.C., o culto das imagens foi solenemente legitimado pela Igreja.
Conclusão:
Foi demonstrada a completa inconsistência das acusações protestantes contra o uso de imagens por parte da Igreja Católica. Os argumentos de nossos irmãos "evangélicos" estão apoiados sobre a interpretação errônea de certas passagens bíblicas, o preconceito, a ignorância da doutrina católica e os excessos lamentáveis da piedade popular.
Nós, católicos, não adoramos imagens. Deus não proibiu absolutamente o uso de imagens, mas sim a idolatria. A Igreja, consciente de que Deus se revela freqüentemente aos homens através de sinais visíveis, permite o uso de imagens para estimular a piedade. Ao mesmo tempo, sabendo que os costumes mais legítimos estão sujeitos ao abuso, exorta e previne os fiéis para que não caiam em superstições tolas e sejam equilibrados no uso das imagens sagradas.
Ewerton Wagner Santos Caetano