ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA

 

Acusação protestante:

Maria, como todos os seres humanos, experimentou a morte e sofreu a corrupção em seu corpo. A Assunção de Maria é uma doutrina falsa, inventada por homens e que não está na Bíblia.

Refutação:

A Assunção de Nossa Senhora é uma doutrina que ilustra bem o modo como a Igreja interpreta as Escrituras e a Tradição: não como se fossem um manual dogmático preciso e detalhado, com todas as verdades resumidas em fórmulas teológicas bem lapidadas, mas como um depósito que deve ser objeto de pesquisa, estudo e aprofundamento.

Os protestantes, por sua vez, fazem da Bíblia a única regra de fé e, o que é pior, interpretam o Livro Sagrado de acordo com seus preconceitos individuais. Apesar de alardearem a soberania da Escritura, os protestantes, na verdade, colocam a própria interpretação acima da Palavra de Deus. A Bíblia é refém de cada crente, que "recebe do Espírito Santo" a capacidade de interpretar seus textos sem errar. Daí nascem as infindáveis divisões, seitas e denominações "evangélicas".

No entanto, como já demonstramos em outro lugar (ver o número 2 deste folheto), nem o "Só a Bíblia", nem o livre exame encontram sustentação na Escritura. Quem possui autoridade para interpretar autenticamente a Bíblia é a Igreja, "coluna e sustentáculo da verdade" (cfr. 1Tm 3,15). A interpretação pessoal dos textos sagrados é ilícita (cfr. 2Pd 1,20; 2Pd 3,15s).

Não nos devemos espantar ao saber que a Bíblia não afirma, explicitamente, a Assunção da Virgem Maria. Embora esta doutrina se encontre radicada na Escritura, ela não pode ser deduzida pelos critérios protestantes ou através de uma exegese científica. A Bíblia apresenta pistas e indicadores que apontam para esta verdade. A Igreja, assistida pelo Espírito Santo, soube discernir estas pistas, e encontrou elementos suficientes para definir a Assunção de Nossa Senhora como doutrina revelada, a ser crida por todos os fiéis.

1. Fundamentos Bíblicos

"Anunciamos, declaramos e definimos como dogma divinamente revelado que a Imaculada Mãe de Deus sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrena, foi levada em corpo e alma para a glória celeste" (Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, 1o de novembro de 1950 - Definição do dogma da Assunção).

Em 1950, o papa Pio XII definiu a Assunção como dogma de fé. Não foi uma decisão tomada de um dia para o outro, mas o fruto maduro de um longo processo de aprofundamento da Escritura e da Tradição.

"Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua linhagem e a linhagem dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3,15). Este trecho do Gênesis, chamado de protoevangelho, é o primeiro anúncio do triunfo de Cristo sobre o Diabo e, juntamente com Cristo, do triunfo de Maria, a mulher que esmaga a cabeça da serpente. Como nova Eva, a Virgem Maria está estreitamente unida ao novo Adão na sua luta contra o pecado e no seu triunfo sobre a morte.

"Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que Iahweh teu Deus, te dá" (Ex 20,12). Sabemos que Cristo foi o mais perfeito cumpridor dos mandamentos. Portanto, além de honrar o Pai, deveria também honrar a mãe. Qual o filho que, tendo o poder de livrar sua mãe da morte e da corrupção, não o faria? Um filho que abandonasse a própria mãe desta forma não a estaria desonrando?

"Entre as tuas amadas estão as filhas do rei; à tua direita uma dama, ornada com ouro de Ofir. Ouve, ó filha, vê e inclina teu ouvido: esquece o teu povo e a casa do teu pai, que o rei se apaixone por sua beleza: prostra-te à sua frente, pois ele é o teu senhor! Vestida com brocados, a filha do rei é levada para dentro, até o rei, com séquito de virgens. Introduzem as companheiras a ela destinadas, e com júbilo e alegria elas entram no palácio" (Sl 45(44),10-12.14b-16). Neste texto os Santos Padres viram a Virgem Maria em sua entrada triunfal na glória, aproximando-se do trono do Rei imortal, Cristo Senhor.

"Levanta-te, Iahweh, para o teu repouso, tu e a arca da tua força" (Sl 132(131),8). A arca da aliança, segundo muitos teólogos, pregadores e doutores, é figura do corpo puríssimo da Virgem Maria, que portou a Nova Aliança entre Deus e os homens, Jesus Cristo. Assim como a arca, feita de madeira incorruptível, o corpo da Virgem não poderia conhecer a degradação do sepulcro. Antes, foi levado para o Santuário Celeste, para junto de Deus.

Acreditam os judeus que o Senhor protegeu a arca do saque do Templo, efetuado pelos babilônios sob a liderança de Nabucodonosor, no século VII a.C. O Apocalipse de Baruc, do final do século I d.C., menciona um anjo que removeu os objetos sagrados do Santuário, escondendo-os em lugar secreto antes da chegada dos babilônios. O Apocalipse de João nos mostra a antiga arca no Céu: "O templo de Deus que está no Céu se abriu, e apareceu no templo a arca da sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e uma grande tempestade de granizo" (Ap 11,19).

Se a arca que continha a antiga Lei foi preservada, quanto mais a novíssima arca que trouxe em seu seio não tábuas de madeira, mas o Verbo Santo de Deus!

"Que é aquilo que sobe do deserto, como colunas de fumaça perfumada com incenso e mirra, e perfumes dos mercadores?" (Ct 3,6). A esposa dos Cânticos é figura de Maria, esposa celeste que, com o divino Esposo, sobe ao Céu.

"Entrando onde ela estava, disse-lhe: ‘Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!’" (Lc 1,28). A Assunção é mais uma graça concedida por Deus a Maria, uma benção que se opõe à maldição lançada sobre Eva (cfr. Gn 3,19).

"Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas; estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz. Apareceu então outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres e sobre as cabeças sete diademas; a sua cauda arrastava um terço das estrelas do céu, lançando-as para a terra. O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho, tão logo nascesse. Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono, e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar em que fosse alimentada por mil duzentos e sessenta dias. Ao ver que fora expulso para a terra, o Dragão pôs-se a perseguir a Mulher que dera à luz o filho varão. Ela, porém, recebeu as duas asas da grande águia para voar ao deserto, para o lugar em que, longe da Serpente, é alimentada por um tempo, tempos e metade de um tempo. A Serpente, então, vomitou água como um rio atrás da Mulher: a terra abriu sua boca e engoliu o rio que o Dragão vomitara. Enfurecido por causa da Mulher, o Dragão foi então guerrear contra o resto dos seus descendentes, os que observam os mandamentos de Deus e mantêm o Testemunho de Jesus" (Ap 12,1-6.13-17).

A Mulher vestida de sol em Ap 12 é, primeiramente, a Igreja. Também identificamos esta Mulher com a Mãe do Senhor, que esmaga a cabeça da Serpente (cfr. Gn 3,15). Convém lembrar aqui as várias vezes em que Jesus se dirige à sua mãe chamando-a de "Mulher" (cfr. Jo 2,4; 19,26). Maria é, assim, tipo da Igreja, o novo Israel de Deus, lavada e santificada no sangue do Cordeiro, imaculada e incorruptível (cfr. Ef 5,25-27).

A morte e a corrupção do corpo são conseqüência do pecado (cfr. Gn 3,19; Sl 16(15),10). "Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram" (Rm 5,12). "Porque o salário do pecado é a morte, e a graça de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Rm 6,23). "Com efeito, visto que a morte veio por um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos. Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida" (1Cor 15,21-22). A Lei do pecado atinge a todos, exceto o Cristo e sua mãe. Se a carne de Cristo não conheceu a corrupção do sepulcro, então a carne de Maria, que é a mesma carne de Cristo, também não pode ter se corrompido. Maria foi levada para junto de seu Filho em corpo e alma.

Não é demais lembrar que a Escritura apresenta precedentes para a assunção corporal. Os casos de Henoc, Elias e Moisés são bem conhecidos (cfr. Gn 5,24; Hb 11,5; 2Rs 2,1.11; Jd 2,9, que cita o apócrifo Assunção de Moisés). Paulo foi arrebatado até o terceiro céu (2Cor 12,2-4). No fim dos tempos, depois da ressurreição dos mortos, os que estiverem vivos serão arrebatados (1Ts 4,15-17). Alguns poderiam objetar citando 1Cor 15,23: "Cada um, porém, [ressuscitará] em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda" (1Cor 15,23). O Evangelho, porém, relata que muitos mortos reviveram depois da ressurreição de Jesus: "Abriram-se os túmulos e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram. E, saindo dos túmulos após a ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e foram vistos por muitos" (Mt 27,52-53). Os últimos tempos, que marcam o retorno de Cristo, já começaram.

É preciso deixar claro aqui que Maria não subiu ao Céu por seu próprio poder, como ocorreu com Cristo na Ascensão, mas foi elevada pelo poder de Deus. Aquela que, durante a vida, foi toda graça e gratuidade, recebeu no fim de sua peregrinação terrestre a sublime graça de entrar íntegra na glória eterna.

Podemos nos perguntar, de passagem, se a Virgem experimentou a morte ou foi imediatamente transfigurada. Não existe nenhuma posição oficial da Igreja a respeito. Isenta do pecado, a Mãe do Senhor certamente é imune às suas nefastas conseqüências, entre elas a morte corporal. Porém, com a intenção de se associar mais perfeitamente a seu Filho, o qual deu a vida pelos pecadores, é razoável supor que ela quis passar por esta experiência.

2. Dados da Tradição e da Liturgia

No final do século IV d.C. e no começo do século V d.C., temos as primeiras evidências da crença na Assunção de Maria. Segundo Santo Efrém, o Sírio (+ 373 d.C.), o "corpo virginal de Maria não sofreu corrupção". Timóteo de Jerusalém afirma que a Virgem tornou-se imortal, e que Cristo a levou para "os lugares de sua Ascensão". Segundo Santo Epifânio, o fim de Maria foi "pleno de prodígio" e que, quase certamente, Maria possui o reino do Céu ainda com a carne. Na obra síriaca Obsequia B. Virginis, diz-se que a alma de Maria uniu-se novamente ao corpo. No fim do século V d.C. surgem os primeiros apócrifos sobre o Trânsito de Maria, que alimentarão a devoção popular. No século VI d.C., nasce no Oriente a celebração litúrgica do Trânsito ou Dormição de Maria, que tem a data fixada no dia 15 de agosto pelo imperador Maurício. Entre os séculos VII d.C. e X d.C., são incontáveis os padres orientais que falam da Assunção: São Modesto de Jerusalém (+ 634 d.C.), São Germano de Constantinopla (+ 733 d.C.), Santo André de Creta (+ 740 d.C.), São João Damasceno (+ 749 d.C.), São Cosme Melódio (+ 743 d.C.), São Teodoro Studita (+ 826 d.C.) e Jorge de Nicomédia (+ 880 d.C.). Ainda assim persistem incertezas em muitos padres, orientais e latinos. Por exemplo, Santo Isidoro de Sevilha (+ 636 d.C.) e São Beda, o Venerável (+ 735 d.C.). Nas Astúrias, em pleno século VIII d.C., acreditava-se que Maria teria tido uma morte comum. Contudo, um século antes, em Roma, o papa Sérgio I já celebrava a festa da Dormição.

Entre o século X d.C. e nossos dias, consolida-se no Oriente e no Ocidente a convicção sobre a Assunção de Nossa Senhora. Professam esta crença os grandes doutores escolásticos, São Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino e São Boaventura. Com a Reforma Protestante, no século XVI, a Fé sofre fortes ataques. A Assunção é categoricamente negada pelos reformadores. Os apologistas católicos respondem às críticas, contribuindo para tornar a doutrina mais segura. No século XVIII apareceu o primeiro pedido para que a Assunção fosse definida de modo solene. Porém, foi somente em 1950, depois de consultar toda a Igreja, que Pio XII, usando sua autoridade como Sucessor de Pedro, definiu dogmaticamente a Assunção.

Uma última prova que merece nossa atenção é a total ausência de relíquias de Nossa Senhora. Não existe uma só cidade que reivindique para si a posse do corpo de Maria. Nem Éfeso, nem Jerusalém, tradicionalmente apontadas por uns e outros como local do passamento da Virgem, conservam os seus restos mortais. Considerando que o culto das relíquias era muito comum na Igreja Antiga, tal fato é bastante significativo.

Conclusão

Para a definição da Assunção, além da Tradição e da Escritura, foi muito importante o consenso de todo o povo de Deus. Levou-se em consideração o conteúdo global do dado revelado. Depois de um longo processo de amadurecimento, de desenvolvimento dogmático, a Igreja foi capaz de colher o seu fruto maduro. "Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena..." (Jo 16,13a). A assistência infalível do Espírito Santo está por trás de cada verdade de fé ensinada pela Igreja, incluindo aí a Assunção de Nossa Senhora.

"A Assunção da Virgem Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos" (Catecismo da Igreja Católica, n. 966). Em Maria, contemplamos a nossa esperança de ressurreição já realizada. Nela a Igreja já atinge o triunfo escatológico, a vitória definitiva sobre a morte e o mal. Unida indissoluvelmente a Cristo em sua vida, moral e fisicamente, a Virgem agora vive e reina com ele pelos séculos (cfr. Dn 22,27; Ap 1,5b-6; 2,26-27; 5,10; 20,6; 22,5).

"Podem os doutos discutir sobre a Assunção ao Céu de Nossa Senhora; para mim não parece incompreensível, porque ela já não pertencia ao mundo" (Sören Kierkegaard (+1855), filósofo protestante).

Ewerton Wagner Santos Caetano.

Voltar

1