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Los Hermanos

História


O grupo carioca Los Hermanos não trabalha com tantas influências latino-americanas assim. Mas herdou nas letras ­ e na intensidade dos vocais emocionados e passionais de Marcelo Camelo e Amarante ­ o dramalhão, essa verdadeira unanimidade continental. Seu som é basicamente um punk rock pra lá de melódico, com boas intervenções de teclados e sopros. Alguns barulhinhos eletrônicos batem ponto em partes mais ska ­ ou esquizofrênicas, como queiram. É impossível não cantar junto frases lacrimosas como "tire esse azedume do meu peito e com respeito trate minha dor" ("Azedume") ou "um alguém sem carinho será sempre um espinho dentro do meu coração" (do sucesso "Anna Júlia"). Parece piegas, mas não é. Destaque também para a bateria firme e sem firulas de Rodrigo Barba. O melhor disco de estréia de uma banda nacional em muito tempo. Uma banda pra casar ...

Críticos e leitores consagraram Los Hermanos como grande revelação de 1999. Românticos, sensíveis e bem-sucedidos, eles parecem os genros que mamãe pediu a Deus. Mas querem ser compreendidos como um grupo de hardcore

Somos bons moços, sim ! Rock está sempre ligado a uma postura de malvado, de superioridade. A gente é bonzinho, se ama e não tem problema de dizer isso. Abraçamos nossos amigos, tomamos café com leite, damos 'bom dia' pela manhã." Rodrigo Amarante, vocalista e flautista do Los Hermanos, confirma tudo aquilo que as revistas de comportamento femininas vinham abordando nas matérias sobre sua banda. Os cinco garotos cariocas que explodiram com a grudenta "Anna Júlia" se consideram românticos, sim, e três deles, que estão em relacionamentos firmes e estáveis, passaram toda a sessão de fotos para SHOWBIZZ encanados com a possibilidade de pegar um vôo muito tarde para o Rio, aumentando a saudade das amadas, que os esperavam por lá.

Sim, o amor e o sucesso são lindos, mas nem tudo são flores para Los Hermanos. Eles estão lançando uma campanha: "Somos uma banda de hardcore". Segundo o vocalista Marcelo Camelo, "Anna Júlia" era a música certa para apresentar apenas uma das facetas do grupo. "O ideal seria que agora nossa música de trabalho fosse algo mais pesado, como 'Quem Sabe', que o Amarante canta". Realmente, quem compra o disco de estréia do quinteto para ouvir músicas parecidas com "Anna Júlia" periga só achar mais uma: "Primavera", escolhida pela gravadora Abril Music para ser "trabalhada" em rádios e TVs. Todos os cinco Hermanos lamentam a decisão. "Podemos estar perdendo um público que não tem a noção de qual é o nosso som", explica Camelo.

É verdade: Los Hermanos fazem som pesado. Forjado na cena underground carioca, o grupo arregimentou fãs tocando em bibocas como o bar Empório (em Ipanema) e o finado pardieiro Garage (na Praça da Bandeira). O nome surgiu bem no início das atividades, há dois anos, quando a vontade de flertar com música latina era maior. Hoje, permanece a vontade de soar autêntico, como os argentinos Los Fabulosos Cadillacs, os chilenos Los Três e os mexicanos Café Tacuba e Molotov, grupos admirados por Camelo e cia.

O evento que definitivamente lançou a sorte do Los Hermanos foi o festival Abril Pro Rock de 1999 ­ ao qual eles chegaram por vias românticas. Os amigos Marcelo Camelo e Alex, atual empresário da banda, faziam fanzines no Rio e foram cobrir uma edição do Abril Pro Rock no esquema roubada. Conheceram o organizador Paulo André e deixaram com ele a demo Amor E Folia (com "Descoberta", "Azedume", "Eu Te Dei", "Vai Embora" e "Bárbara"). Após um tempo, Paulo convidou a banda para tocar na maratona pernambucana. Com um show convincente ­ todos de terninho ­, Los Hermanos chamaram a atenção e foram contratados pela Abril Music. "Emocionalmente foi bem legal ter tocado lá", define Amarante.

O 1º de muitos ...

Gravado logo em seguida, o disco Los Hermanos reaproveita nove das dez composições já presentes nas demos e traz cinco novas. A produção não agrada os Hermanos ­ "estávamos aprendendo, no próximo teremos mais experiência", diz Amarante ­, mas a crítica especializada recebeu o quinteto tecendo elogios que até hoje os meninos vêem com desconfiança. "Chegaram a dizer que era o melhor disco da década!", sorri Marcelo.

Los Hermanos ganharam o Prêmio Bizz de melhores de 1999 na categoria Revelação (com, aproximadamente, oito vezes mais votos do que o segundo colocado, o grupo Rumbora) e os ouvintes elegeram na rádio paulistana Brasil 2000, "Anna Júlia" uma das três músicas mais tocadas nas rádios.

A história da canção, que você já deve ter ouvido / lido mil vezes, é verídica. Alex, o amigo fanzineiro que virou manager, ficava tentando chamar a atenção de uma tal Anna Júlia sem lograr sucesso. Pagando uma de cupido, o fiel escudeiro Marcelo fez a música para ver se saía algo dali. O empresário conseguiu "ficar" com a menina, mas o rolo não evoluiu. Ironicamente, aquele amor todo da letra deu em menos que um casinho.

O inferno é que "Anna Júlia" tocou muito e eles sabem o quanto isso é decisivo para que um público que poderia estar curtindo Los Hermanos simplesmente deteste porque se encheu de ouvir o mesmo refrão. Por outro lado, se a baladinha não tivesse sido tão bem-sucedida, você não estaria lendo esta matéria.

"Me lembro de uma vez que a gente estava indo tocar no Teatro de Lona da Barra e não tínhamos ouvido a música tocar em nenhuma rádio ainda. Eu pedi para que ligassem o som do carro. Estava sem esperança, porque eu nunca tinha ouvido a música no rádio. Quando a gente chegou em frente ao lugar, começou a tocar. Isso me marcou, porque a minha ficha ainda não tinha caído", comenta Amarante. Outro momento é lembrado por Patrick: "As rádios no Rio colocam uma música contra a outra para que os telefonemas dos ouvintes decidam qual deve tocar inteira. E quando a gente ganhou dos Backstreet Boys eu fiquei meio... 'nossa'". Essa entrevista foi cedida um dia antes de o videoclipe de "Anna Júlia" (cujo resultado final também não deixou a banda satisfeita) alcançar, pela primeira vez, o topo da parada semanal da MTV.

 DESARMANDO JORNALISTAS

Na conversa com SHOWBIZZ, os cinco rapazes pareceram bastante escaldados. Depois de entrar e sair de várias saias justas em entrevistas para "revistas de meninas" e programas de televisão (no Programa Livre, a apresentadora Crystinnah Rocha insistiu em saber como tinha sido a primeira experiência sexual do vocalista Camelo, que, em outro momento, foi expulso do iglu de João Gordo quando revelou detestar Ramones), Los Hermanos são supercuidadosos ao responder perguntas menos óbvias ou de cunho mais pessoal. Pudera, dois são quase jornalistas e os outros três também tiveram sua passagem por universidades. Todos falam um pouco e quase nunca concordam em algo. Mas se respeitam bastante.

 INFLUÊNCIAS DISCUTÍVEIS

No caldeirão de influências, sempre citam o amor nerd da banda americana Weezer, a sonoridade esquizóide do Mr. Bungle (banda de Mike Patton, ex-Faith No More), os brothers cariocas do Acabou La Tequila, o Karnak de André Abujamra e os samba-canções de Noel Rosa. Na verdade, o que predomina no repertório dos Hermanos é o skacore (mistura de ska e hardcore), estilo de som que, tirando o Acabou La Tequila, nenhum dos artistas que eles enumeram como influência faz.

Mas a campanha está nas ruas. Los Hermanos é uma banda de hardcore. "Em todo programa de tevê que formos, vamos anunciar que somos uma banda de hardcore", avisa o baixista Patrick Laplan. Descontando o público do underground carioca, que os acompanha há tempos, vai ser difícil convencer o resto do país. Até porque, por mais paulada que seja o som dos caras, as letras falam de amor e de um jeito que o ouvido acostumado às escatologias de Raimundos, Charlie Brown Jr. e Rumbora estranha. Como curiosidade: não existe um palavrão sequer em toda a obra dos Hermanos. "A gente tá falando para um público-alvo que não entende que fazer hardcore misturado com Noel Rosa e ter nossa postura é ser subversivo. O moleque de 15 anos que tem que usar uma camisa preta para ir para a escola e precisa mostrar pro amigo ao lado que gosta de Metallica por respeito ou vai num show de hardcore pra dar porrada, essa galera não entende nosso discurso, fica muito distante, muito sutil, talvez...", conclui Marcelo. E arremata: "O que eu espero é que, com o tempo, a gente vá ser entendido. Ou não".

"Aparato de matérias pegas na revista Showbizz"


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