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Legião Urbana

Acústico MTV - 1999
Gravado em 1992 e lançado somente em 1999

Acústico MTV - 1999

No início de 1992 resolvemos que, em vez de produzirmos um "videoclip" para o lançamento do disco "V", iríamos aceitar o convite da MTV para a gravação do então "novo programa" acústico. -"Jóia! Não temos que fazer clip!", ouvia-se em coro, o que definitivamente se transformou em mais um estimulante desafio. Pensávamos em imagem, um mega videoclip se estendendo por mais de uma hora no ar, suprindo, assim, nossa dificuldade em cumprir obrigações em relação à promoção de nosso trabalho. Naquele momento, a marca "acústico" estampada na capa de um disco não tinha o "sentido" que tem hoje, não cogitávamos a possibilidade de se transformar o programa de televisão em disco. Felizmente não perdemos a oportunidade de registrar na íntegra o áudio da apresentação, o que nos traz de volta a Legião interpretando ao vivo, espontânea e surpreendentemente à vontade, as inesquecíveis canções também inéditas versões com apenas dois violões, bateria, percussão e uma grande e inigualável voz.

Dado Villa-Lobos
... com apenas dois violões, bateria, percussão e uma grande e inigualável voz ...

1. Baader-Meinhof Blues
2. "Índios"
3. Mais Do Mesmo
4. Pais e Filhos
5. Hoje a Noite Não Tem Luar
6. Sereníssima
7. O Teatro Dos Vampiros
8. On The Way Home / Rise
9. Head On
10. The Las Time I Saw Richard
11. Metal Contra As Nuvens
12. Há Tempos
13. Eu Sei
14. Faroeste Caboclo

Baader-Meinhof Blues

A violência é tão fascinante

E nossas vidas são tão normais

E você passa de noite e sempre vê

Apartamentos acesos

Tudo parece ser tão real

Mas você viu esse filme também.

Andando nas ruas

Pensei que podia ouvir

Alguém me chamando

Dizendo meu nome.

Já estou cheio de me sentir vazio

Meu corpo é quente e estou sentindo frio

Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber

Afinal, amar o próximo é tão demodé.

Essa justiça desafinada

É tão humana e tão errada

Nós assistimos televisão também

Qual é a diferença?

Não estatize meus sentimentos

Pra seu governo,

O meu estado é independente.

Já estou cheio de me sentir vazio

Meu corpo é quente e estou sentindo frio

Todo mundo sabe e ninguém quer mais saber

Afinal, amar o próximo é tão demodé.

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"Índios"

Quem me dera, ao menos uma vez,

Ter de volta todo ouro que entreguei

A quem conseguiu me convencer

Que era prova de amizade

Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Esquecer que acreditei que era por brincadeira

Que se cortava sempre um pano-de-chão

De linho nobre e pura seda.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Explicar o que ninguém consegue entender:

Que o que aconteceu ainda está por vir

E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Provar que quem tem mais do que precisa Ter

Quase sempre se convence que não tem o bastante

E fala demais, por não Ter nada a dizer.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Que o mais simples fosse visto como o mais importante,

Mas nos deram espelhos

E vimos um mundo doente.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três

E esse mesmo Deus foi morto por vocês

Só maldade então, deixar um Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.

Entenda – assim pude trazer você de volta para mim,

Quando descobri que é sempre só você

Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura para o meu vício

De insistir nessa saudade que eu sinto

De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Acreditar por um instante em tudo que existe

E acreditar que o mundo é perfeito

E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Fazer com que o mundo saiba que seu nome

Está em tudo e mesmo assim

Ninguém lhe diz ao menos obrigado.

Quem me dera, ao menos uma vez,

Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,

Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.

Entenda – assim pude trazer você de volta para mim,

Quando descobri que é sempre só você

Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura para o meu vício

De insistir nessa saudade que eu sinto

De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente –

Tentei chorar e não consegui.

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Mais Do Mesmo

Ei menino branco o que é que você faz aqui

Subindo o morro pra tentar se divertir

Mas já disse que não tem

E você ainda quer mais

Por que você não me deixa em paz?

Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim

E agora você quer que eu fique assim igual a você

É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?

Quem vai tomar conta dos doentes?

E quando tem chacina de adolescentes

Como é que você se sente?

Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.

Sempre mais do mesmo

Não era isso que você queria ouvir?

Bondade sua me explicar com tanta determinação

Exatamente o que eu sinto, como eu penso e como sou

Eu realmente não sabia que eu pensava assim

E agora você quer um retrato do país

Mas queimaram o filme

E enquanto isso, na enfermaria

Todos os doentes estão cantando sucessos populares

(e todos os índios foram mortos).

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Pais e Filhos

Estátuas e cofres e paredes pintadas ninguém sabe o que aconteceu.

Ela se jogou da janela do quinto andar. Nada é fácil de entender.

Dorme agora: É só o vento lá fora. Quero colo. Vou fugir de casa.

Posso dormir aqui com vocês? Estou com medo Tive um pesadelo

Só vou voltar depois das três.

Meu filho vai Ter nome de santo Quero o nome mais bonito.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque se você parar pra pensar, Na verdade não há.

Me diz porque é que o céu é azul? Me explica a grande fúria do mundo.

São meus filhos que tomam conta de mim.

Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar.

Eu moro na rua, não tenho ninguém. Eu moro em qualquer lugar.

Já morei em tanta casa que nem me lembro mais. Eu moro com meus pais.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã

Porque se você parar pra pensar, Na verdade não há.

Sou uma gota d’água. Sou um grão de areia.

Você me diz que seus pais não entendem, Mas você não entende seus pais.

Você culpa seus pais por tudo E isso é absurdo: São crianças como você.

O que você vai ser quando você crescer?

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Hoje a Noite Não Tem Luar

(Hoy Me Voy Para México : A. Monroe Fernandez / C. Villa de La Torre / Versão: Carlos Colla)

Ela passou do meu lado

"Oi amor" - eu lhe falei

"Você está sozinha"

Ela então sorriu pra mim

Foi assim que eu a conheci

Naquele dia junto ao mar

As ondas vinham beijar a praia

O sol brilhava de tanta emoção

O rosto lindo como o verão

E um beijo aconteceu

Nos encontramos à noite

Passeamos por aí

E num lugar escondido

Outro beijo lhe pedi

Lua de prata no céu

O brilho das estrelas no chão

Tenho certeza que não sonhava

A noite linda continuava

E a voz tão doce que me falava

O mundo pertence a nós

E hoje a noite não tem luar

E eu estou sem ela

Já não sei onde procurar

Não sei onde ela está

Hoje a noite não tem luar

E eu estou sem ela

Já não sei onde procurar

Onde está meu amor?

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Sereníssima 

Sou um animal sentimental

Me apego facilmente ao que desperta o meu desejo

Tente me obrigar a fazer o que não quero

E você vai logo ver o que acontece.

Acho que entendo o que você quis me dizer

Mas existem outras coisas.

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,

Tudo está perdido mas existem possibilidades.

Tínhamos a idéia, você mudou os planos

Tínhamos um plano, você mudou de idéia

Já passou, já passou – quem sabe outro dia.

Antes eu sonhava, agora já não durmo

Quando foi que competimos pela primeira vez?

O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe

Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.

Não estou mais interessado no que sinto

Não acredito em nada além do que duvido

Você espera respostas que não tenho

Não vou brigar por causa disso

Até penso duas vezes se você quiser ficar.

Minha laranjeira verde, porque está tão prateada?

Foi da lua desta noite, do sereno da madrugada

Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço

Enquanto o caos segue em frente

Com toda a calma do mundo.

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O Teatro Dos Vampiros 

Sempre precisei de um pouco de atenção

Acho que não sei quem sou

Só sei do que não gosto

E destes dias tão estranhos

Fica a poeira se escondendo pelos cantos.

Este é o nosso mundo:

O que é demais nunca é o bastante

E a primeira vez é sempre a última chance.

Ninguém vê onde chegamos:

Os assassinos estão livres, nós não estamos.

Vamos sair – mas não temos mais dinheiro

Os meus amigos todos estão procurando emprego

Voltamos a viver como há dez anos atrás

E a cada hora que passa

Envelhecemos dez semanas.

Vamos lá, tudo bem – eu só quero me divertir.

Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir

Já entregamos o alvo e a artilharia

Comparamos nossas vidas

E esperamos que um dia

Nossas vidas possam se encontrar.

Quando me vi tendo que viver comigo apenas

E com o mundo

Você me veio como um sonho bom

E me assustei

Não sou perfeito

Eu não esqueço

A riqueza que nós temos

Ninguém consegue perceber

E de pensar nisso tudo, eu, homem feito

Tive medo não consegui dormir.

...Comparamos nossas vidas

E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.

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On The Way Home / Rise

Neil Young John Lydon / Nill Laswell

When the dream came I held my breath with my eyes closed

I went insane, like a smoke ring day When the wind blows

Now I won't be back till later ron If I do came back at all

But you know me, and I miss you now. In a strange game

I saw my self as you knew me

When the change came, and you had a chance to see through me

Though the other side is just the same

You can tell my dream is real Because I love you can you see me now

Though we rush ahead to save our time We are only what we feel

And I love you, can you feel it now.

I could be wrong I could be right.I could be black I could be white

I could be right I could be wrong I could be white I could be black

Your time has come your second skin The cost so high the gain so low

Walk through the valley The written work is a lie

May the road rise with you Anger is an energy

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Head On

William Reid / James Reid

As soon as I get my head round you

I come around catching sparks off you

I get an eletric charge from you

That second hand living it just won't do

And the way I feel tonight

I could die and I wouldn't mind

And there's something going on inside

Makes you want to feel makes you want to try

Makes you want to blow the stars from the sky

I can't stand up I can't cool down

I can't get my head off the ground

As soon as I get my head round you

I come around catching sparks off you

And all I ever got from you

Was all I ever took from you

And the world could die in pain

And I would't feel no shame

And there's nothing holding me to blame

Makes you want to feel makes you want to try

Makes you want to blow the stars from sky

I'm taking my self to the dirty part of town

Where all my trobles can't be found

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The Last Time I Saw Richard

Joni Mitchell

The last time I saw Richard was Detroit in '68,

And he told me all romantics meet the same fate someday

Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe

You laugh, he said you think you're immune, go look at your eyes

They're full of moon You like roses and kisses and pretty men to tell you

All those pretty lies, pretty lies When you gonna realise they're only pretty lies

Only pretty lies, just pretty lies He put a quarter in the

Wurlitzer, and he pushed Three buttons and the thing began to whirr

And a bar maid came by in fishnet stockings and a bow tie

And she said "Drink up now it's gettin' on time to close."

"Richard, you haven't really changed," I said It's just that now you're

romanticizing some pain that's in your head

You got tombs in your eyes, but the songs

You punched are dreaming Listen, they sing of love so sweet, love so sweet

When you gonna get yourself back on your feet?

Oh and love can be so sweet, love so sweet Richard got married to a figure skater

And he bought her a dishwasher and a Coffee percolator

And he drinks at home now most nights with the TV on

And all the house lights left up bright I'm gonna blow this damn candle out

I don't want Nobody comin' over to my table

I got nothing to talk to anybody about

All good dreamers pass this way some day

Hidin' behind bottles in dark cafes Dark cafes

Only a dark cocoon before I get my gorgeous wings

And fly away Only a phase, these dark cafe days

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Metal Contra As Nuvens

1 - Não sou escravo de ninguém

Ninguém senhor do meu domínio

Sei o que devo defender

E por valor eu tenho

E temo o que agora se desfaz.

Viajamos sete léguas

Por entre abismos e florestas

Por Deus nunca me vi tão só

É a própria fé o que destrói.

Estes são dias desleais.

Sou metal – raio, relâmpago e trovão

Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Sou metal: me sabe o sopro do dragão.

Reconheço o meu pesar:

Quando tudo é traição,

O que venho encontrar

É a virtude em outras mãos.

Mas minha terra é a terra que é minha

E sempre será minha terra

Tem a lua, tem estrelas e sempre terá.

2 - Quase acreditei na sua promessa

E o que vejo é fome e destruição

Perdi a minha sela e a minha espada

Perdi o meu castelo e minha princesa.

Quase acreditei, quase acreditei.

E, por honra, se existir verdade

Existem os tolos e existe o ladrão

E há quem se alimente do que é roubo.

Mas, vou guardar o meu tesouro

Caso você esteja mentindo.

Olha o sopro do dragão.

3 - É a verdade o que assombra,

O descaso o que condena,

A estupidez o que destrói.

Eu vejo tudo que se foi

E o que não existe mais.

Tenho os sentidos já dormentes.

O corpo quer a alma entende.

Esta é a terra-de-ninguém

E sei que devo resistir –

Eu quero a espada em minhas mãos.

Sou metal – raio, relâmpago e trovão

Sou metal, eu sou o ouro em seu brasão

Sou metal: me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar –

Tenho ainda coração.

Não aprendi a me render:

Que caia o inimigo então.

4 - Tudo passa, tudo passará

E nossa estória não estará pelo avesso

Assim, sem final feliz.

Teremos coisas bonitas para contar.

E até lá, vamos viver

Temos muito ainda por fazer.

Não olhe para trás –

Apenas começamos.

O mundo começa agora –

Apenas começamos.

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Há Tempos

Parece cocaína, mas é só tristeza, Talvez tua cidade.

Muitos temores nascem do cansaço e da solidão.

E o descompasso e o desperdício herdeiros são agora da virtude que perdemos.

Há tempos tive um sonho não me lembro não me lembro.

Tua tristeza é tão exata e hoje o dia é tão bonito.

Já estamos acostumados a não termos mais nem isso.

Os sonhos vêm e os sonhos vão. O resto é imperfeito.

Disseste que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes

teu grito acordaria não só a tua casa mas a vizinhança inteira.

E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade.

Há tempos são os jovens que adoecem.

Há tempos o encanto está ausente e há ferrugem nos sorrisos

e só o acaso estende os braços a quem procura abrigo e proteção

Meu amor, disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza.

Ter bondade é Ter coragem.

E ela disse: - Lá em casa tem um poço mas a água é muito limpa.

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Eu Sei

Sexo verbal não faz meu estilo

Palavras são erros e os erros são seus

Não quero lembrar que eu erro também

Um dia pretendo tentar descobrir

Porque é mais forte quem sabe mentir

Não quero lembrar que eu minto também

Eu sei

Feche a porta do seu quarto

Porque se toca o telefone pode ser alguém

Com quem você quer falar

Por horas e horas e horas

A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você

Mas não, não vá agora, quero honras e promessas

Lembranças e estórias

Somos pássaro novo longe do ninho

Eu sei

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Faroeste Caboclo

Não tinha medo, o tal João de Santo Cristo,

Era o que todos diziam quando ele se perdeu.

Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda

Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.

Quando criança só pensava em ser bandido,

Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu

Era o terror da cercania onde morava

E na escola até o professor com ele aprendeu.

Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro

Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.

Sentia mesmo que era mesmo diferente

E sentia que aquilo ali não era o seu lugar.

Ele queria sair para ver o mar

E as coisas que ele via na televisão

Juntou dinheiro para poder viajar

E de escolha própria escolheu a solidão.

Comia todas as menininhas da cidade

De tanto brincar de médico, aos doze era professor.

Aos quinze, foi mandado pro reformatório

Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.

Não entendia como a vida funcionava –

Discriminação por causa da sua classe ou sua cor

Ficou cansado de tentar achar resposta

E comprou uma passagem, foi direto a Salvador

E lá chegando foi tomar um cafezinho

E encontrou um boiadeiro com quem foi falar

E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem

Mas João foi lhe salvar.

Dizia ele: - Estou indo pra Brasília,

Neste país lugar melhor não há.

Estou precisando visitar a minha filha

Eu fico aqui e você vai no meu lugar.

E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central

Ele ficou bestificado com a cidade

Saindo da rodoviária, viu as luzes da Natal.

Meu Deus, mas que cidade linda,

No ano-novo eu começo a trabalhar.

Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro

Ganhava cem mil por mês em Taguatinga.

Na Sexta-feira ia pra zona da cidade

Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador

E conhecia muita gente interessante

Até um neto bastardo do seu bisavô:

Um peruano que vivia na Bolívia

E muitas coisas trazia de lá

Seu nome era Pablo e ele dizia

Que um negócio ele ia começar.

E o Santo Cristo até a morte trabalhava

Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar

E ouvia às sete horas o noticiário

Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar

Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,

Como Pablo, ele ia se virar

Elaborou mais uma vez seu plano santo

E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.

Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:

Tem bagulho bom aí!

E João de Santo Cristo ficou rico

E acabou com todos os traficantes dali.

Fez amigos, frequentava a Asa Norte

E ia pra festa de rock, pra se libertar

Mas de repente

Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade

Começou a roubar

Já no primeiro roubo ele dançou

E pro inferno ele foi pela primeira vez

Violência e estupro do seu corpo

Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.

Agora o Santo Cristo era bandido

Destemido e temido no Distrito Federal.

Não tinha nenhum medo de polícia

Capitão ou traficante, playboy ou general.

Foi quando conheceu uma menina

E de todos os pecados ele se arrependeu.

Maria Lúcia era uma menina linda

E o coração dele

Pra ela o Santo Cristo prometeu

Ele dizia que queria se casar

E carpinteiro ele voltou a ser

Maria Lúcia pra sempre vou te amar

E um filho com você eu quero ter.

O tempo passa e um dia vem a porta um senhor de alta classe com dinheiro na mão

E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta.

Uma resposta de João:

Não boto bomba em banca de jornal, nem em colégio de criança

Isso eu não faço não

E não protejo general de dez estrelas que fica atrás da mesa com o cú na mão.

E é melhor o senhor sair da minha casa

Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião.

Mas antes de sair, com um ódio no olhar, o velho disse:

Você perdeu sua vida, meu irmão.

Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão.

Essas palavras vão entrar no coração

E eu vou sofrer as consequências como um cão.

Não é que o Santo Cristo estava certo

E seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar

Se embebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro trabalhando em sue lugar.

Falou com Pablo que queria um parceiro

E também tinha dinheiro e queria se armar

Pablo trazia o contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina.

Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome, apareceu por lá

Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo

E decidiu que, com João ele ia acabar.

Mas Pablo trouxe uma Winchester-22

E Santo Cristo já sabia atirar

E decidiu usar a arma só depois que Jeremias começasse a brigar.

(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha,

organizou a Rockonha

E fez todo mundo dançar.)

Desvirginava mocinhas inocentes

E dizia que era crente mas não sabia rezar.

E Santo Cristo há muito não ia pra casa

E a saudade começou a apertar

Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia

Já está em tempo de a gente se casar.

Chegando em casa então ele chorou

E pro inferno ele foi pela segunda vez

Com Maria Lúcia, Jeremias se casou

E um filho nela ele fez.

Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou

Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou

E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor

E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor

Santo Cristo não sabia o que fazer

Quando viu o repórter na televisão

Que deu notícia do duelo na TV

Dizendo a hora e o local e a razão

No Sábado então, às duas horas, todo o povo

Sem demora foi lá só pra assistir

Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo

E começou a sorrir.

Sentindo o sangue na garganta,

João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir

E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e

A gente da TV que filmava tudo ali.

E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali

E decidiu entrar de vez naquela dança

Se a via-crucis virou circo, estou aqui.

E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu.

Ela trazia a Winchester-22

A arma que seu primo Pablo lhe deu.

Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é.

E não atiro pelas costas não.

Olha pra cá filha da puta, sem-vergonha,

Dá uma olhada no meu sangue

E vem sentir o seu perdão.

E Santo Cristo com a Winchester-22

Deu cinco tiros no bandido traidor

Maria Lúcia se arrependeu depois

E morreu junto com João, seu protetor.

E o povo declarava que João Santo Cristo era santo porque sabia morrer

E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV

E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o Diabo ter

Ele queria era falar pro presidente,

Pra ajudar toda essa gente

Que só faz sofrer.

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