quinta-feira 05.10.2000 2:26 06-10-2000 Quinta é feriado por causa da proclamação da República. E também porque foi o dia em que Afonso Henriques «bateu na mãe e Portugal se tornou independente», me explica um fornecedor. O primeiro rei de Portugal teve de fazer guerra aos exércitos de sua mãe para libertar Portugal. Saio com a Aline e Juliana, amiga mineira da Aline que veio fazer mestrado em direito. Pegamos o bonde 28 para um passeio até o Castelo de São Jorge. Finalmente. Desçemos um ponto antes do Largo das Portas do Sol e subimos pela Travessa de Santa Luzia, Largo do Contador-Mor, Travessa do Funil, até a Rua do Chão da Feira, onde está uma das portas do Castelo, a de São Jorge (há mais duas -- a de Santo André e a de Martim Moniz, ambas do lado oposto). O castelo é uma fortificação costruída no século IX pelos mouros e tomada pelos cristãos em 1147. Afonso Henriques transformou-o em morada dos reis de Portugal. O terremoto de 1755 quase destruiu o castelo, que foi reformado a partir de 1938 a mando de Salazar. A estátua de Afonso Henriques foi colocada aqui durante essa reforma. A muralha foi construída em volta do castelo velho, que fica do lado oposto à entrada principal. Já dentro dos muros, há algumas ruazinhas com prediozinhos onde mora gente. Desconfio que ainda há visigodos escondidos nos porões, mas não tenho coragem de pedir para entrar. Como não li o guia antes de ir ao castelo, não visito a igreja de Santa Cruz do Castelo, erguida sobre a antiga mesquita árabe. Fica para a próxima. Damos uma volta pelo páteo principal, que é lindo, e pela beirada do passeio que servia de plataforma de observação e primeira defesa. A vista vale o dia. Os caminhos em torno do Castelejo são arborizados e agradáveis, com fontes, gatos e pavões... No passeio é que fica a Cova do Leão, um restaurantezinho com cara de requintes e os arcos que são os resquícios do Palácio de Alcáçova. O Castelejo, no entanto, é o espetáculo que as pessoas vêm buscar. Repleto de torres e caminhos de ronda por sobre os muros, tem até um posto avançado, a Torre de São Lourenço. Daqui se tem uma das vistas mais bonitas da cidade. E a construção é realmente militar. Reparo nas fendas para os arqueiros, na disposição dos postos de guarda e das áreas livres. De cada uma das torres pode-se ter uma visão privilegiada do complexo. O exército de mercenários de Dom Afonso Henriques demorou 17 semanas para tomar esse bicho dos mouros. Até que foi rápido... Quase saíndo do Castelo reparo nas colunas e na área que parece em construção. O guia do Lonely Planet me diz que a área não está em construção, mas se tornou sítio arqueológico. Ali os Portugueses esperam encontrar vestígios visigóticos, romanos e mouros. Desejo-lhes boa sorte. Na volta, saltamos perto da praça do comércio e andamos até o Largo do Chiado, para descobrir que aquelas pastelarias bonitinhas com mesas na calçada (eles chamam a isso de «esplanada») são armadilhas para turistas. A coca-cola, no balcão, já custa o absurdo de R$ 3,00. Na esplanada sai por R$ 4,00... Obviamente não comemos ali (mesmo ficando com vontade de ter Fernando Pessoa como companhia), mas numa sanduicheria qualquer, e subimos pela Avenida da Liberdade. Antes, porém, resolvo entrar na Virgin (é, eu sei que não posso, mas é difícil resistir). Na seção de jazz e clássicas, estão tocando alguma coisa que é jazz misturado com outros ritmos, com baixo e percussão muito boas, enquanto sola um sax. Pergunto o que é e o balconista diz que é Slang, e que eles vão tocar em Lisboa hoje. Pego o CD para escutar melhor e acabo comprando. É muito bom. Mesmo. No caminho, vemos os vendedores ambulantes de castanhas. Como estamos oficialmente no outono, eles já ocupam as ruas da cidade com seus forninhos, ainda que não esteja fazendo frio ainda. À noite, acabo indo até o Teatro Tivoli (na Avenida da Liberdade, ao lado do Tivoli Forum) assistir à primeira noite do Lx Meskla, festival de jazz mesclado com outras coisas. A atração principal é Lee Perry, que mistura jazz com dub, amanhã. Hoje são três bandas por um ingresso de 1500$00. Baratinho. A primeira banda é muito ruim. Muito. Uma tal de Sei Miguel. O pentelho do band-leader fica fazendo pose pra foto, faz um jazz experimental, daqueles que cada um da banda vai para um lado, mas a coisa é muuuuito chata. Musicalmente fraco, baseado no Manual do Artista Performático Pentelho. Escolha a frase da hipotética entrevista: a) Sua mãe sabe que você está na rua fazendo isso? b) Vocês realmente ensaiam para fazer isso? c) Whatever you think you're doing, it ain't cool, sonny... A segunda banda da noite é a Slang, motivo da minha vinda. Os belgas mesclam várias influências, africanas, americanas e européias, num som que vai beber em coisas modernosas-experimentais como Primus e Morphine. Aliás, a formação é baixo-bateria-sax. E o baixista chega a tocar com slide... O sax me lembrava, às vezes, do Maurício Pereira na época d'Os Mulheres Negras. E a masrturbação excessiva do elemento «fusion» não chega a preocupar. Eles estão ali para tocar músicas, não para ver quem é que improvisa melhor. É difícil prever se o Slang chega no Brasil, mas aí vai o endereço da gravadora. Vale a pena ficar de olho. O som ainda não está 100% maduro, mas vai pelo bom caminho. Valeu o ingresso. A primeira banda, porém, devia ter pago pra tocar... Fecha a noite a Akosh S. Unit. Fusion da pesada, com influências árabes e experimentalismo com instrumentos. Esse povo iria amar Hermeto Paschoal. A unit tem o Akosh tocando sax e regendo a banda, bateria, baixo acústico e um carinha que troca o violino pelo sax, pela flauta tranversal e por flautinhas tipo pífaros. O som é bom, eles improvisam bem e, quando vão cada um para um lado, chegam a algum lugar. Valeu. Muito melhor que o Smashing. |