
Uma
banda realmente estranha.
Veio
do "boom" de bandas novas de Brasília, todas aparentemente parecidas,
mas com sutis diferenças. De todas, foi a única que utilizou
elementos de samba -através de sacações geniais, diga-se
de passagem. Foram estas mesmas "sutis" diferenças que tornaram
a banda pouco "digerível" pelo público e crítica:
a mistura entre o pós-punk e o funk (neste ítem, herdeiros
do Clash); as letras muito abstratas (característica das mesmas
bandas pós-punk) e uma certa ingenuidade no trato com o show-biz.
Começaram com duas faixas na coletânea "Rumores", arrancando
elogios da crítica do eixo Rio-São Paulo. Depois, o amadurecimento
prosseguiu através da entrada de Eduardo de Moraes nos vocais e
o lançamento de um EP independente, lançado pela Sebo do
Disco, que foi o trampolim para a EMI-Odeon, onde gravaram seu único
LP, produzido por Mayrton Bahia (Legião Urbana, entre outros). Abrindo
com Deus Ateu, tem-se um trumpete gritando, um baixo estalando e
a voz de Eduardo clamando: "Deus deve ser ateu/Ou então ele está
morto/Ou então se esqueceu/De orar pelo teu corpo". O final apoteótico
contempla um festival de agogôs, tamborins, ganzás, cuícas
e repiniques, fundindo o funk ao samba de maneira magistral, enquanto Ronaldo
comanda a orquestra com um apito gutural. Segue-se Vícios,
grande baixo (ecos de Peter Hook?), super letra: "Caindo no abismo/Entendendo
essa vida de vícios que me fazem pensar em você" e uma cuíca
chorando. Vem Chiclete, explicando o quão tediosa pode ser
a sua vida e então, o êxtase: Mentiras, abusando da
fórmula mágica: Neto debulhando seu baixo; palavras profundas:
"Você não vai destruir os meus planos/Tudo o que sonhamos
não importa mais/Escondemos o medo pra sobreviver/Mais um dia ou
um ano, o tempo nada faz", interpretação contundente do "crooner"
que sempre me faz ensaiar algumas lágrimas... A última
do lado A continua sedimentando o estilo depressivo da banda. Depois,
Ask the Dust, seguramente uma das melhores do disco. A voz rouca
de Eduardo diz que "Roubaram as flores do meu reino/Roseiros murcharam
no jardim/As dores aumentam no meu peito/Teus olhos são tão
cruéis pra mim", enquanto Neto estraçalha no baixo, sempre
criativo, inventivo e contagiante. Ronaldo segurando a marcação
com muita categoria e emendando com Deserto, clima deprê:
"Tenho medo de te ouvir/Você vem me contar/Teus amores me fazem rir/E
por dentro desabar". O grande hit do disco, Armadilha, uma guitarrinha
"cool" e atabaques em contraponto à bateria, dando um tom incomum
à música, que é atropelada por Máquinas,
outra maravilhosa melodia, grande clima, teclado pontuando pérolas:
"Nosso suor se misturou demais/Em pensamentos indefesos". Círculos
começa quieta e vai, aos poucos, se enraivescendo, baixo nervoso,
vocal gritado, bateria forte, guitarra pungente, teclado obscuro: "Vivendo
em círculos circuncêntricos/Círculos excêntricos/Palhaços,
prostitutas, putas/Passam pelas ruas" e Inferno, um funk introspectivo,
fecha o álbum com a categoria peculiar: "Estamos sós e nos
distanciamos/Esperando um futuro que não acreditamos/Construímos
um muro através do tempo".
Armadilha
(Ao vivo)