Nunca imaginei que a chuva e a saudade pudessem ser tão parecidas. Na verdade, a semelhança entre as duas vem muito mais de uma constatação engendrada durante anos, proveniente de uma relação de amor e ódio, do que uma associação direta e impessoal.
"O
prenúncio da aparição da chuva já causa uma
sensação esquisita, algo próximo da indignação.
Infelizmente, na maioria das vezes, a chuva vem sem avisar. E quando a
chuva finalmente começa, é uma tristeza só. Uma letargia
toma conta do corpo, e aquelas decisões mais enérgicas como
‘vou enfrentar a chuva!’, ou ‘vou me conformar com a chuva...’ ficam postergadas
até um momento mais sensato. Que não tarda.
De estático passo a conformado. Sinto que a chuva pode nunca acabar e começo a imaginar formas de conviver com ela. ‘Aceitar sempre, render-se jamais’ é a única frase que aparece na minha mente. Porém, quando finalmente parecemos estar gostando da idéia de aceitar a chuva e tentar tirar dela o que há de bom, muitas vezes a chuva aperta e deixa o corpo frio, mais uma vez ávido por uma mudança de estado.
Enfrento
a chuva. Respiro fundo e saio para a rua, onde a chuva inunda o meu corpo
incontestavelmente. Depois de algum tempo, embriagado pela chuva, reconheço
que "ter enfrentado fora o melhor remédio". O corpo fica quente,
se anima, e finalmente revive. Pede por mais algumas gotas de chuva. Sem
remorso de ter enfrentado a chuva, fico satisfeito por ter ido fundo e
vivido a emoção de reconhecer que aquela depressão
que se instalou não podia mesmo ser levada a sério e que
a chuva merecia, no mínimo, respeito.
Enfim, após algum tempo, a chuva acaba, e lá no fundo, sinto que até tenho saudade da chuva!"
Bom, agora leia o texto entre aspas de novo e troque todas as palavras "chuva" por "saudade" e veja se continua fazendo sentido...
Agora faz mais sentido ainda???