Os
cestinhas do lixo
Em
março de 1999, a prefeitura de Curitiba produziu uma propaganda
um tanto até interessante.
Esta
propaganda mostra um homem sentando em um banco em uma praça,
com um copo de suco na mão. Segundos depois começa um
espetáculo dignos dos melhores cestinhas da NBA. As pessoas
jogam o lixo nas lixeiras com uma pontaria excelente, de deixar o
Michael Jordan de queixo caído. E o cara do banco extremamente
espantado.
Quando
o show termina, o cara no banco tenta fazer o mesmo com o copo de
suco que havia acabado de esvaziar. Ele mira a cesta de lixo, poucos
metros à frente, e joga o copo, que acerta a borda da cesta
e cai no chão. O senhor de idade que está ao seu lado
pergunta-lhe então: "O senhor não é daqui,
é?", o homem balança a cabeça em um sinal
negativo, significando: "Não sou daqui, sou de outra cidade".
O senhor de idade solta uma interjeição como se quisesse
dizer: "Ai meu Deus!" O cara então se levanta, ajunta
o copo e joga-o no lixo, mostrando completa vergonha.
Agora
você deve estar perguntando: e o que tem de mais? É só
mais uma propaganda. Curitiba é cidade de primeiro mundo, etc....
Para
quem olha para o chão de Curitiba sem os filtros óticos
impostos pelas cabeças governantes, a propaganda é de
um mau gosto completo, e ofende o resto da humanidade.
Ela
coloca um dilema no ar: ou a prefeitura está mentindo descaradamente
ao tentar mostrar que o povo curitibano não joga lixo no chão,
ou não existem curitibanos em Curitiba.
As
calçadas e ruas de Curitiba são sujas, cheias de lixo.
Se a propaganda mostra que o curitibano nunca joga lixo no chão
só pode significar uma coisa: não existem curitibanos
em Curitiba, se levar em consideração a sujeira. Ou
seja, aqui só vivem paulistas, cariocas, baianos, alemães,
norte-americanos, japoneses, que, de acordo com a mensagem passada,
são sujos, e não conseguem jogar o lixo dentro da lixeira,
como o homem do copo de suco.
Todos
os dias o que vejo na cidade é uma quantidade enorme de lixo
espalhado pelo chão, e que deveria estar dentro das lixeiras
espalhadas pela cidade. E este lixo não brota espontaneamente,
ou cai do céu como chuva; ele é jogado nas ruas e calçadas
pelo povo que vive na cidade. Agora resta saber se esse povo é
curitibano ou estrangeiro.
Seria
bom que o povo de Curitiba parasse de acreditar em tudo o que o governo,
tanto municipal e estadual, anuncia. Nem tudo é verdade. Alías,
a grande maioria das palavras não são verdadeiras.
Infelizmente
o máximo que posso fazer é continuar vivendo nesta cidade,
vendo todos os dias pessoas jogando lixo no chão com a maior
naturalidade, como se fosse sinônimo de boa educação,
e, à noite, agüentar a propaganda da prefeitura.
Abril,
1999
Rashi,
an alien in Earth