Naquela noite,
a tempestade não deixou ninguém dormir na aldeia de Malafi. Na estação
das chuvas, era sempre a mesma coisa. Chovia torrencialmente dias e
noites sem parar. Malafi, encolhido na sua esteira, não se lembrava
de ter visto e ouvido tantos raios e trovões assim.
Ao amanhecer,
a trabalheira foi grande: tirar a lama de dentro das casas, providenciar
uma nova cobertura para as palhoças que tiveram os tetos arrancados
pela força do vendaval e, o pior, reunir o gado que, assustado com os
relâmpagos, tinha arrebentado os currais e fugido desesperado pelos
campos afora.
Mais tarde,
as crianças foram refugiar-se na palhoça de Vovô Ussumane e, enquanto
a chuva ainda caía fininha, o vovô ia desfiando outra de suas intermináveis
histórias.
No tempo em
que os gatos e ratos ainda eram amigos, aconteceu uma grande enchente.
Os rios transbordaram inundando os campos as florestas.
Um gato e um
rato foram pegos de surpresa pela chuvarada enquanto colhiam mandioca.
Ficaram ilhados no alto de um morro, não sabendo como voltar para a
aldeia onde moravam.
- E agora? -
perguntou o gato.
- Tenho uma
idéia - respondeu o rato. - Que tal construirmos uma jangada com os
talos de mandioca?
O bichano aprovou
a proposta do companheiro e começaram imediatamente a preparar a improvisada
embarcação com os talos de mandioca que haviam colhido durante o dia
inteiro de trabalho.
Logo que a jangada
ficou pronta, os dois lançaram-na à água e puseram-se a caminho de casa.
Como o rio estava muito cheio tinham de ir remando devagarinho.
Remaram e remaram
até que o rato, morto de fome, resolveu comer um pedacinho da jangada.
- O que você
está fazendo? - perguntou o felino.
- Estou com
fome e por isso vou roer um bocadinho da jangada - respondeu o rato.
- Nada disso!
- gritou o parente da onça. - Continue a remar!
Quando anoiteceu,
cansado também de remar, soltou um miado e acabou dormindo. O dentuço
aproveitou-se do sono do colega e começou a roer. Roeu tanto, que terminou
fazendo um buraco bem no meio da jangada e catimbum: afundaram! Por
sorte estavam perto da margem. Com muito esforço chegaram em terra firme,
e então, o dorminhoco, enfurecido, falou para o roedor:
- Agora quem
vai te comer sou eu, seu desastrado!
- Mas estou
todo enlameado. Espere aqui um pouquinho que eu vou me lavar - disse
o comilão ao mesmo tempo que desaparecia pela sua toca adentro.
Para se vingar,
o outro esperou um tempão até perceber que tinha sido enganado. E é
por causa desta briga que eles são inimigos até hoje.