O
extraordinário raio de luz que pode, segundo alguns especialistas,
criar toda uma colossal indústria nova.
Condensado
de National Geografic - Thomas Meloy
Seleções
do Reader´s Digest - Junho de 1967
Na Guerra dos
Mundos, escrita antes do início do século, H. G. Wells
conta uma história fantástica de marcianos que invadiram
e quase conquistaram a Terra. Sua arma era uma misteriosa "espada
de calor", da qual saia o "o espectro de um raio luminoso".
Derrubava homens instantaneamente, fazia o chumbo escorrer como água
e transformava qualquer coisa combustível em massas de labaredas.
Hoje a espada de calor de Wells aproxima-se da realidade no laser,
o novo e maravilhoso aparelho que emite finos raios de luz altamente
concentrados - a luz mais penetrante, mais pura e mais intensa que
já se conheceu. Dentro de áreas extremamente pequenas
- incrivelmente - ele arde com uma intensidade bilhões de vezes
superior à da luz na superfície do Sol; ele pode, com
efeito, fazer chumbo escorrer como água ou, quando focalizado
de perto, vaporizar qualquer substância da Terra.
Embora tenha apenas sete anos de idade, o laser já causou tremendo
impacto. Tem aparecido em filmes (Goldfinger usou-o contra James Bond)
e em histórias em quadrinhos (Dick Tracy). Os fins para que
o laser pode ser aplicado no mundo industrial e científico
são tantos e tão variados que até parece coisa
de magia. Tão rapidamente se está desenvolvendo este
campo, que alguns especialistas prevêem que por volta de 1970
a indústria do laser terá atingido entre meio bilhão
e um bilhão de dólares só nos EUA.
A agitação principiou em 1958, quando dois cientistas
norte-americanos, o Dr. Charles H. Townes e o Dr. Arthur L. Schawlow,
então dos Laboratórios Bell, publicaram o primeiro trabalho
descrevendo como se poderia fazer um laser. (o nome compõe-se
das iniciais de light amplification by stimulated emission of radiation,
"ampliação da luz por emissão estimulada
de radiação".) Em 1960, o Dr, Theodore H, Maiman,
então na Hughues Aircraft Co., em Malibu, Califórnia,
extraiu de um rubi artificial o primeiro raio laser do mundo - um
clarão de brilhante radiação vermelha. A luz
fantástica havia nascido.
Elétrons Saltantes. Quem vir o laser de rubi funcionar
ficará surpreendido com a aparente simplicidade de um artefato
capaz de tal energia. Verá duas caixas de aço esmaltado
- uma pequena contendo o laser, e outra maior, com um painel de comando,
contendo capacitores, ou condensadores, para armazenar uma elevada
carga de corrente elétrica.
Um técnico liga um interruptor e um guincho enche a sala enquanto
os capacitores são carregados. Então um técnico
aponta-nos um cartaz na porta com os dizeres "Cuidado - Perigo
Para os Olhos", e entrega-nos óculos industriais escuros
para filtrar a maior parte da luz. Mesmo os raios refletidos dos laser
podem abrir buracos na retina dos nossos olhos.
O laser está pronto. O técnico dirige-o para um pedaço
de aço de espessura de uma moeda grossa. Quando ele aperta
o botão, ouvimos um estouro seco como um tiro de fuzil. Um
raio de luz vermelha, pequeno mas deslumbrante, sai da máquina;
do pedaço de aço salta uma chuva de fagulhas incandescentes.
O aço foi completamente trespassado pelo terrível jato
de luz.
O princípio em que se baseia é relativamente simples.
no âmago de um laser de rubi típico há uma fina
vareta feita de cristal de rubi sintético, com as pontas polidas
e prateadas como espelhos, uma completamente refletora e a outra em
parte transparente. Em torno dessa vareta espirala uma possante pilha
de flash do tipo empregado para fotografia ultra-instantânea.
Quando o tremendo raio de energia elétrica da pilha do flash
é descarregado, os átomos de cromo dentro da vareta
de rubi são altamente ativados. Os elétrons desses átomos
ficam tão agitados que saltam a nível de energia superior
à normal. Então, quando os elétrons excitados
voltam ao nível normal, cada um desprende um fóton,
a unidade básica de luz, e tem início o processo de
lasing. Os fótons percorrem todo o comprimento da vareta, pulando
para trás e para frente entre os espelhos estimulando outros
elétrons excitados a desprenderem luz na mesma maneira, até
que uma cascata de luz corre entre os espelhos, fazendo o percurso
de ida e volta vários milhões de vezes. Por fim, a torrente
de luz vermelha torna-se tão intensa que irrompe através
do espelho parcialmente transparente sob a forma de uma poderosa pulsação
de radiação laser. Tudo isso ocorre em uns poucos milésimos
de segundo.
Soldados em Passo Curto. Para entender porque a luz do laser
é tão concentrada, devemos lembrar que a luz se propaga
em ondas, como as ondulações numa lagoa. A distância
da crista de uma onda até à crista seguinte é
o comprimento da onda. A luz branca comum compõe-se de muitos
comprimentos de onda propagando-se em todas as direções.
Isso é conhecido como luz incoerente.
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A luz
comum é "incoerente": as ondas são de
comprimento variável e propagam-se em direções
diferentes. |
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A luz
laser é "coerente": essencialmente de um só
comprimento de onda, viajando todas as ondas na mesma direção. |
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A luz laser, por
outro lado, é coerente. Ela é essencialmente de um único
comprimento de onda, com todas as ondas andando na mesma direção.
Como os comprimentos de onda laser se reforçam uns aos outros,
eles podem conservar-se em um raio incrivelmente estreito e reto por
longas distâncias em vez de se abrirem em leque como a luz de
uma lanterna portátil.
Quase qualquer substância pode ser forçada a emitir luz
laser, desde que seja convenientemente trabalhada. Os lasers de gás
emitem feixes contínuos de luz laser - em contraste com as
vivas pulsações do laser de rubi. Minúsculos
lasers semicondutores, feitos de pedacinhos de material como arsenieto
de gálio, funcionam melhor a temperaturas ultra frias. Menores
que uma cabeça de alfinete, eles podem ser úteis especialmente
em computadores para transmitir sinais, evitando o uso de cabos que
tomam espaço. Muitos lasers emitem radiação invisível
infravermelha ou ultravioleta. O laser de dióxido de carbono,
um dos mais poderosos já inventados, dispara um raio contínuo
de "luz" infravermelha quente, como o canhão de raios
marciano descrito por Wells. Poderá ser empregado um dia contra
mísseis hostis, senão contra marcianos.
Cada vez mais o laser afetará nossa vida à medida que
forem sendo encontradas tarefas que ele possa desempenhar melhor ou
mais barato do que outros aparelhos. A Western Eletric Co., usa um
laser de pulsação de rubi para abrir orifícios
em minúsculos diamantes. Como o diamante é a substância
mais dura do mundo, isso antes constituía um tedioso processo
de dois dias, usando-se alfinetes de aço recobertos de azeite
de oliveira e pó de diamante. Mas o laser pode abrir num diamante,
em pouco minutos, orifícios por onde se pode puxar um fio de
cobre tão fino como um fio de cabelo humano. Em um ano a Western
Eletric produziu 48 milhões de quilômetros desse fio
delicado para emprego telefônico, gastando milhares de diamantes
no processo.
Variedade de Proveitos. Na Jarrell-Ash Company, em Massachusetts,
Frederick Brech criou um instrumento laser chamado microssonda, que
serve para análises químicas com fins industriais, diagnósticos
médicos - e como investigador de arte. Durante a minha visita
ao laboratório de Brech, William J. Young, diretor científico
do Museu de Belas Artes de Bóston, trouxe um retrato supostamente
pintado por um artista do século XVI conhecido como o Mestre
de Burges. O curador desconfiou de sua autenticidade. O quadro foi
colocado sob a microssonda, depois tocado por um jato de laser cuidadosamente
calculado, que vaporizou uns 28 milionésimos de grama de sua
tinta, deixando uma depressão minúscula, quase invisível,
na pintura. Vaporizado, o material resultante foi "lido"
por um espectógrafo que decompõe a luz em suas cores
para identificar os elementos químicos do objeto examinado.
- Eis a resposta - disse o Sr. Young, apontando uma série de
linhas escuras no espectograma. - Essas linhas revelam a presença
de zinco, e os pintores não começaram a usar pigmentos
com base de zinco antes de 1820!
Provavelmente o laser produzirá uma variedade de benefícios
médicos. O fotocoagulador laser, por exemplo, já está
sendo usado por oftalmologistas para consertar retinas rompidas, as
quais, se não cuidadas, poderão resultar em deslocamento
e cegueira. O Dr. H. Christian Zweng, da Faculdade de Medicina de
Universidade de Stanford, mostrou-se com que facilidade funciona o
fotocoagulador laser. o paciente ficou sentado numa cadeira com a
cabeça inclinada para trás enquanto o Dr. Zweng apontava
com um pequeno instrumento manual para a pupila dilatada. Dirigindo
uma série de pulsações laser muito fracas para
a região em torno da orla dilacerada da retina, ele criou minúsculas
cicatrizes que "soldaram" a retina em seu lugar. A operação
toda foi concluída em 20 minutos.
Em Cincinnati, o Dr. Leon Goldman está fazendo experiências
com o laser para cauterizar certos tumores e imperfeições
da pele. Ninguém, e muito menos o Dr. Goldman, afirma que o
laser é uma panacéia para o câncer. Não
obstante, certos canceres - manchas negras conhecidas como melanomas
- têm-se transformado em pele branca em áreas tocadas
pelos raios laser.
Que se sente quando uma pulsação laser bate na carne
humana?
- É como cera de vela quente caindo na pele - disse-me um dos
pacientes do Dr. Goldman.
O mal-estar dura apenas um momento, e não há dor depois.
Reto Como Um Laser. A enorme vantagem do laser reside em sua
radiação quase perfeitamente paralela. Quando passado
através de um telescópio em sentido inverso, o raio
apenas diverge meio centímetro por quilômetro de percurso,
dissipando assim sua energia muito lentamente. Há cinco anos,
um laser de rubi disparou uma série de pulsações
para a Lua, a 4000.000 quilômetros de distância. Os raios
iluminaram uma região de uns 32 quilômetros de largura.
Um projetor de luz suficientemente possante teria seu feixe espalhado
por várias vezes o diâmetro da Lua, que é de 3.476
quilômetros. Uma capacidade de direção tão
fantástica, combinada com o brilho, dá ao laser valor
incalculável para uma infinidade de objetivos.
No Novo México, por exemplo, a Força Aérea dos
Estados Unidos está utilizando um laser na busca de mísseis
e satélites. Como se dá com o radar de microondas, o
tempo gasto por um sinal para alcançar o alvo e retornar revela
a distância. A 800 quilômetros, o radar pode determinar
a distância de um objeto não identificado com uma margem
de erro de uns 30 metros; o laser reduz a margem de erro para cerca
de oito metros. Além disso, o telêmetro laser exige uma
antena bem menor e seria difícil para um inimigo localizá-la
ou interferir.
A potencialidade mais importante do laser talvez seja o seu uso nas
comunicações. Um raio laser, vibrando um bilhão
de vezes mais rápido que as ondas de rádio comuns, poderia
conduzir todas as mensagens de rádio, TV e telefone do mundo
simultaneamente. Em apenas uma fração de segundo, por
exemplo, um raio laser poderia transmitir o texto inteiro de uma enciclopédia
de 40 milhões de palavras.
Submarinos estão experimentando a potente luz azul-verde de
lasers de argônio, que podem atravessar mais de 600 metros de
negras águas do oceano para iluminar o fundo do mar. Outros
lasers estão sendo aperfeiçoados como meio de enviar
mensagens rápidas e eficientes para a Terra, de veículos
muito distantes no espaço; como giroscópios ultra-sensíveis
destinados a detectar ligeiras mudanças no movimento de um
navio, um avião ou um míssil; como sismômetros
para indicar movimentos da Terra; como medidores de deformação
para prognosticar terremotos.
Falar de um laser como apagador para máquina de escrever, a
esta altura, poderá parecer ligeiramente ridículo. Entretanto,
o Dr. Schawlow está patenteando um invento assim. Seu rápido
lampejo literalmente destrói o pigmento preto de um sinal de
máquina, que absorve o calor, sem tisnar o papel branco que
reflete o calor. De sonda do espaço longínquo ao apagador
é um grande pulo. Mas se alguma coisa puder fazê-lo,
o laser, com sua infinita magia, o fará.