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as duas fotos constantes nesta matéria foram tiradas no Rio
de Janeiro, Brasil, em 1938, quando o dirigível Zepellin esteve
fazendo uma de suas viagens através do Atlântico. Para
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Na noite de 6
de maio de 1937, apesar do mau tempo, uma multidão se reunia
no aeródromo de Lakehurst, a pequena distância de Nova
York. Entre os presentes, diversos fotógrafos e cinegrafistas
aguardavam o momento de documentar a chegada do Hindenburg, o imenso
dirigível alemão que naquele dia completava mais uma
travessia do Atlântico, trazendo a bordo 97 pessoas, procedentes
de Frankfurt, Alemanha.
As manobras transcorerram normalmente. Os cabos de atracação
foram lançados e a gigantesca aeronave já iniciava a
operação de pouso, quando surgiram as primeiras labaredas.
Em poucos instantes, o fogo tomou conta da fuselagem, que logo se
precipitou ao solo, reduzida a um esqueleto metálico, retorcido
e incandescente. Salvaram-se 61 pessoas. Mas as outras, inclusive
o capitão Lehmann, veterano piloto que comandava o aparelho,
morreram queimadas. Jornais, rádio e cinema divulgaram imediatamente
as cenas da catástrofe, que estarreceu o mundo inteiro e liquidou
de um só golpe o prestígio dos "zeppelins".
A tragédia do Hindenburg marcou o fim da era dos dirigíveis
de passageiros. Esse capítulo da história da navegação
aérea iniciara-se 85 anos antes, com um pequeno balão
em forma de fuso, de 44 metros de comprimento - o já esquecido
Giffard I.
Construída pelo mecânico francês Henri Giffard,
essa aeronave pioneira era muito simples: consistia num invólucro
flexível,infladocom hidrogênio, do qual pendia uma trave
que sustentava uma barquinha e um motor de 3 cv que devia movimentar
a hélice. Uma espécie de vela funcionava como leme.
Pilotado por seu próprio construtor, o Giffard I ergueu-se
do solo pela primeira vez a 24 de setembro de 1852. E, cruzando à
expressiva velocidade de 7 km/h, conseguiu cumprir honrosamente o
percurso de 28 km entre as cidades de Paris e Trappes, na França.
A despeito do êxito do vôo, Giffard suicidou-se algum
tempo depois. Mas sua morte não deteve a evolução
do dirigível. Com a invenção do motor a gasolina,
os entusiastas da aeronáutica se lançaram à construção
de balões de autopropulsão, para estudar a dirigibilidade.
Já no ano de 1898, o brasileiro Santos Dumont realizou com
sucessos vôos dirigidos em seu balão a motor. E três
anos mais tarde, pilotando um modelo mais aperfeiçoado - o
Nº 5 - , batia o recorde mundial de velocidade aérea:
70 km/h. Essas façanhas transformaram os dirigíveis
no assunto do momento.
A maioria dos dirigíveis construídos entre a metade
do século XIX e o começo do século XX observava
o princípio da estrutura semi-rígida: uma espécie
de rede de arame presa à parte inferior do invólucro
assegurava resistência às forças longitudinais
- que eram grandes, pois os balões geralmente tinham o formato
de charuto.
Seus invólucros eram feitos de seda ou lona impermeabilizada.
Mas certos construtores preferiam outras fórmulas. Assim, no
ano de 1898, um grupo de aeronautas alemães construía
um dirigível inteiramente metálico: seu envoltório,
formado de folhas de alumínio superpostas, aplicava-se sobre
uma carcaça do mesmo metal.
O gás contido nos invólucros - geralmente o hidrogênio
- solucionava satisfatoriamente o problema de sustentação
dos dirigíveis, mantendo-os no ar com segurança durante
longos períodos.
Mais difícil, porém, era resolver a questão da
propulsão. Os motores de combustão interna desenvolvidos
por Daimler constituíam um recurso muito conveniente, pois
eram leves e produziam bastante energia. Ofereciam, no entanto, certos
riscos: o calor do seu escapamento costumava incendiar o hidrogênio
dos balões. Por causa disso, muito dos pioneiros da dirigibilidade
se negavam a empregá-lo em seus veículos.
Com a adoção do gás hélio para a inflação
dos invólucros os dirigíveis passaram a oferecer maior
segurança. Mais pesado que o hidrogênio, o hélio
fornecia menor poder de sustentação, porén não
era explosivo. Entretanto, por ser de difícil obtenção
na época, o gás hélio não interessou ao
Conde Ferdinand von Zeppelin, general reformado da cavalaria alemã,
inventor e aeronauta. No dirigível que construiu em 1900, von
Zeppelin preferiu empregar o tradicional hidrogênio; pois, praticamente,
era o único elemento convencional utilizado em aeronaves que,
em tudo mais, revolucionava os padrões de construção
aeronáutica da época. Sua estrutura rígida era
formada por uma carcaça em treliça de alumínio
e recoberta de tecido impermeável. Com um comprimento de 128
metros, seu bôjo se compunha de 17 balões menores, cuja
capacidade somada equivalia a 11.500 metros cúbicos de gás.
Sob a fuselagem, localizavam-se a cabine de comando e dois compartimentos
separados, cada qual com um grande motor Daimler acionando duas hélices.
Condenado por todos os peritos em aeroestação que dele
ouvriam falar, o dirigível de Zeppelin deixou seu hangar flutuante
sobre o lago Constanza, na fronteira com a Suíça, e
realizou sem acidentes três ascenções. Não
era fácil de manejar, mas mesmo assim o conde ficou satisfeito:
provara aos incrédulos que um balão rígido podia
voar tão bem quanto os outros. Restava agora demonstrar que
podia também voar melhor. Nos anos seguintes, von Zeppelin
lançou-se à construção de rígidos
ainda maiores e mais potentes que o primeiro. E por volta de 1909
a reputação das suas grandiosas máquinas voadoras
estava consolidada: os zeppelins passaram a ser usados no transporte
de passageiros em rotas comerciais importantes e, quando um deles
- o Nº 4 - se incendiou, uma subscrição pública
realizada em toda a Alemanha levantou os recursos para que o inventor
pudesse construir novas aeronaves.
Enquanto na Alemanha os zeppelins desfrutavam de fama crescente e
tornavam-se cada vez mais dignos de confiança, noutros países
nem tudo corria tão favoravelmente para os dirigíveis.
Em 1907, o balão francês Patrie, pousado no aeródromo
da cidade de Verdun, desprendeu-se de suas amarras, decolou sem tripulação
e tomou rumo ignorado. Foi avistado mais tarde sobre a Irlanda, onde,
aliás, deixou cair uma de suas hélices. Depois desapareceu
e dele não se teve mais notícia.
Outro dirigível frânces - o Republique - foi responsável
por um acidente que abalou profundamente a opinião mundial
a respeito da segurança dos balões. No ano de 1908,
durante uma ascensão rotineira, uma das hélices do motor
do dirigível desprendeu-se, rompendo o seu invólucro
e provocando um escapamento de gás que resultou na queda do
aparelho e na morte de todos os viajantes.
Uma constante adversidade parecia perseguir os dirigíveis construídos
na França. Em 1909, o explorador americano Wellmann partiu
rumo ao Pólo Norte a bordo de um balão construído
sob encomenda em Paris, três anos antes. Parte da jornada transcorreu
normalmente. Depois, o mau tempo e os defeitos de funcionamento do
dirigível fizeram malograr o projeto, obrigando Wellmann a
um pouso forçado numa geleira. A muito custo, o explorador
conseguiu reciperar o aparelho e decidiu emoreender com ele a travessia
do Atlântico. Esta nova empreitada também fracassou e,
depois de permanecerem perdidos no oceano durante 68 horas, Wellmann
e a tripulação do dirigível tiveram que ser resgatados
por um navio.
Com o fim da guerra, iniciou-se para os dirigíveis uma verdadeira
era de recordes. Em julho de 1919, um dirigível inglês
realizou a primeira travessia aérea - ida e volta - do oceano
Atlântico. Em 1925, após ter tentado inutilmente sobrevoar
o Polo Norte num hidroavião, o explorador Norueguês Roald
Amundsen resolveu fazer nova tentativa e desta vez com exito. A bordo
do Norge, balão fabricado na Itália e com uma capacidade
de 19.300 metros cúbicos de gás, Amundsen e seus companheiros
atravessaram a calota polar, cobrindo 5.500 km de percurso sobre as
geleiras, até chegar ao Alasca.
Procurando repetir a façanha de Amundsen, o italiano Umberto
Nobile empreendeu uma expedição ao Polo Norte em maio
de 1928. Como seu antecessor, utilizou um dirigível. Embora
muito parecido com o Norge de Amundsen, o Itália de Nobile
não conseguiu completar a jornada. Chocando-se contra uma geleira,
matou um dos tripulantes e ficou inutilizado. Nobile e os demais sobreviventes,
porém, acabaram sendo salvos.
A volta ao
mundo em 21 dias
Seis meses após
as peripécias da expedição italiana no polo,
um gigantesco dirigível de 236 metros de comprimento redimia
o malogro do Itália com uma reafirmação das qualidades
do dirigível como veículo de transporte, cruzando o
Atlântico desde a Alemanha até Nova Iorque em 110 horas,
com 55 pessoas a bordo. Seu nome: Graff Zeppelin.
Em sua viagem de retorno à Europa, essa aeronave - que era
o caçula dos dirigíveis construídos pelo Conde
von Zeppelin - conseguiu bater o seu próprio recorde, realizando
a travessia em apenas 75 horas. No ano seguinte, o Graff Zeppelin
conquistou um novo êxito, ao efetuar a primeira viagem aérea
de volta ao mundo, sem escalas. Conduzindo 54 passageiros, permaneceu
no ar durante 21 dias, 7 horas e 34 minutos, tendo percorrido 33.000
km.
Empregado
inicialmente apenas na rota do Atlântico Norte, a partir de
1931 o Graff Zeppelin passou a fazer o trajeto Alemanha-Brasil, com
desembarque no Recife. Um ano depois a linha foi estendida até
o Rio de Janeiro e os vôos continuaram realizando-se regularmente
até o ano de 1937, quando a organização prorietária
decidiu conceder-lhe a bem merecida aposentadoria.
Com o afastamento do Graff Zeppelin e o acidente que destruiu o Hindenburg,
chegou ao fim a era dos grandes dirigíveis de passageiros.
Os dois gigantes dos ares haviam registrado 634 ascensões,
das quais 181 travessias oceânicas, num total de 1.920.000 quilômetros
percorridos e 20.389 passageiros transportados.
Viajar por Zepellin tornou-se um hábito elegante. Seis cidades
alemãs eram servidas por linhas regulares e os vôos se
repetiam, tranqüilos e sem contratempos. Mesmo os eventuais acidentes
serviam para reforçar o prestígio dos dirigíveis
como meio de transporte. Assim foi que, em 1909, no curso de uma viagem
extensa, uma das aeronaves do conde teve que fazer um pouso forçado
na região de Goppingen e, durante a aterragem, sua parte da
frente ficou seriamente danificada.
Von Zeppelin, que comandava o vôo, não viu nisso grande
problema. Sem hesitar, "amputou" o setor dianteiro do bôjo
do veículo, retirou um dos motores, decolou sem contratempos
e retornou serenamente ao ponto de partida, numa demonstração
incontestável de sua habilidade como piloto e da segurança
do seu dirigível rígido.
Com o início da I Guerra Mundial, todos os dirigíveis
civis da Alemanha - que já eram bem numerosos - foram requisitados
para uso militar. Somados aos 62 outros que foram construídos
especialmente para fins bélicos, serviram durante quatro anos
no patrulhamento do Mar do Norte e até mesmo em missões
de bombardeio na Inglaterra.
Bibiliografia
Enciclopédia
Conhecer. 1973, São Paulo-BR, Abril Cultural. Pag. 977-979.