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BB-Educar - Experiência da comunidade de N. S. dos Navegantes
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1ª Semana - 09 a 10 de agosto de 1999

Nesta semana, tivemos contato pela primeira vez com os alfabetizandos no salão da igreja de Nossa Senhora dos Navegantes. No horário estabelecido, 19:00h, só compareceram 02 alfabetizandos, mas às 19:30h estávamos com 17.

Iniciamos os trabalhos com a chamada dos nomes presentes na relação elaborada pelo pessoal da paróquia. Depois, seguiu-se a discussão acerca do funcionamento do curso,  horário, local, previsão de término, etc.

Ficou acertado que o curso aconteceria às segundas e terças-feiras, sempre das 19:30h às 22:00h, pois informaram ter dificuldade em chegar às 19:00h. Explicamos que era nosso desejo a alfabetização da turma até o mês de dezembro, mas que poderíamos ter necessidade de trabalharmos até fevereiro ou março de 2000.

O local seria no salão da igreja, para o que o pessoal da paróquia deveria providenciar carteiras e quadro-negro.

Após essas definições, pedimos que dissessem alguma coisa, pois até então havia somente a anuência de todos, fosse por balançar de cabeça, fosse pela repetição do que tínhamos sugerido. Para nosso espanto, uma senhora de pé disse que estava muito "boa a minha palestra". Nesse instante, percebemos que não seria exortando-o que conseguiríamos sua falas. Haveria de ser mediante atividades, dinâmicas, que seriam  criadas as condições necessárias para a expressão de todos.

Terminado o primeiro dia, um medo perpassou nosso peito: o medo da volta para casa, o medo do assalto, do roubo, às 22:00. Até então não havíamos pensado nisso.

Seguimos de volta acompanhados por diversas pessoas. Uma senhora disse que havia tentado o MOBRAL, mas o abandonou por a professora ser uma "meninazinha". Ela sentia-se muito humilhada no meio de jovens e disse que quando errava havia muito riso. Chamou-nos a atenção um garota de uns 8 anos. O que você faz aqui? Perguntamos a ela. Resposta? Eu vim acompanhar o meu pai, para quando ele tiver dúvidas perguntar a mim, pois tem vergonha do senhor.

Assim... terminou o primeiro dia!

Para o segundo dia da semana, início propriamente das aulas, planejamos as seguintes atividades.

  • Chamada, onde o aluno, em vez de responder "presente", pronunciasse uma palavra que tivesse o som inicial semelhante ao do seu nome;
  • Apresentação dos educandos. Aqui utilizamos a seguinte dinâmica. Como eram vinte alunos, providenciamos pares dos números de 1 a 10 escritos em pedaços de papel, que depois de enrolados, foram retirados por eles. Deveriam então encontrar o seu par, conversar com ele, e depois voltar para o grupo fazendo a apresentação do  seu parceiro com quem conversaram, informando seu nome, de onde veio, onde mora, etc.
  • Trabalho com Crachá;
  • Leitura e escrita a partir de seus documentos;
  • Contagem e escrita do número de seus familiares;
  • Identificação no mapa do Brasil do estado de onde vieram.

Na prática, aconteceu que, durante a chamada, dos vinte alunos presentes, somente dois conseguiram pronunciar uma palavra, que iniciasse com um som semelhante ao som inicial do seu nome.

A identificação dos pares foi bastante rápida, , mas, salva uma ou outra dupla, não aconteceu o diálogo esperado entre eles. Quando voltou-se para o grupo, o parceiro muitas vezes não sabia sequer o  nome daquele com quem tinha ficado por 10min. Arriscamos perguntar o porquê disso. Uma senhora justificou dizendo que ali todas as pessoas se conheciam de "passar umas pelas outras". Uma outra explicou que "não falava com seu par".

De qualquer forma, o exercício indicava que os alunos tinham um certo conhecimento dos números. Partimos então para nos certificarmos dessa hipótese, pedindo que anotassem em seus cadernos o número de filhos, de irmãos, a idade e o número da casa. Somente duas pessoas não conseguiram, tendo uma delas chorado bastante e mantido a cabeça baixa por longo tempo.

Propousemos, em seguinda, o trabalho com o mapa do Brasil. Entregamos a cada um o mapa e pedimos que hachurassem o estado do Maranhão. Houve uma certa confusão com o estado do Amazonas, mas a grande maioria conseguiu identificar corretamente.

Concluímos o trabalho com todos de pé numa grande roda. Ali fez-se a avaliação daquele dia e rezaram-se o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Era véspera do "fim do mundo" (11 de agosto)! Declararam estar muito satisfeito com o trabalho desenvolvido e, após as rezas, uma senhora disse que "aquilo de fim de mundo era uma besteira, pois Deus havia dito que ninguém sabia a hora nem o lugar do fim". Fiquei mais uma vez surpreso. Eu mesmo não tinha tanta certeza!

 

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