11a aula

Festa do Mel e Arte Plumária

Julio Cezar Melatti

Março de 2001

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Mitos Indígenas
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"Página do Melatti"

Origem da festa do mel

Nas pp. 148-9 de seu livro Os Índios Tenetehara, Charles Wagley e Eduardo Galvão apresentam um mito com que os guajajaras explicam como começou a sua festa do mel. Os guajajaras são o ramo dos teneteharas que vivem no Maranhão; o outro ramo, os tembés, vivem no Pará.

Um homem chamado Aruwê construiu um esconderijo no alto de uma árvore para matar araras. Matou muitas delas. Quando se preparava para descer, percebeu que as onças se aproximavam da árvore para colher mel das muitas colmeias que aí existiam. Ele se escondeu e só foi embora depois que elas já se haviam retirado. No dia seguinte ele foi à árvore e aconteceu a mesma coisa.

O irmão de Aruwê, entusiasmado com o sucesso dele, pediu que lhe emprestasse o esconderijo na árvore, pois ele queria conseguir penas para fazer um ornato de cabeça. Aruwê aquiesceu, mas recomendou-lhe que somente se retirasse depois de as onças terem deixado a árvore. O irmão, porém, depois de matar araras, decidiu enfrentar as onças que chegavam. Disparou várias flechas sem conseguir atingir nenhuma delas. Uma onça, porém, subiu na árvore e matou o rapaz.

Aruwê, depois de esperar algum tempo, foi à procura do irmão, e junto à árvore achou sangue e vestígios de luta. Seguiu os rastros e viu que desapareciam junto a um formigueiro. Aruwê, que era pajé, retornou à maloca, preparou um cigarrão de tabaco e tauari, e, voltando à abertura do formigueiro, transformou-se em formiga e penetrou no buraco. Chegou assim a uma grande aldeia, habitada pelas onças. Encontrou uma mulher, que o convidou a morar com ela. Os parentes dela gostaram muito de Aruwê. Fora o pai dela que matara o irmão dele.

Aruwê observou que diariamente as onças deixavam a aldeia para voltarem de tarde com cabaças cheias de mel que penduravam nos esteios de uma casa. De noite entoavam cânticos muito bonitos junto à mesma casa. Depois de estocarem uma boa quantidade de mel, reuniram-se para fazer a Festa do Mel. A festa durou dias seguidos, do amanhecer ao pôr-do-sol; as onças cantavam e dançavam e bebiam o mel misturado com água. Só terminou quando o mel acabou. Aruwê aprendeu todo o cerimonial e os cânticos.

Com saudades de sua mulher e de seu filho, Aruwê pediu às onças consentimento para partir. Sua mulher-onça o acompanhou até à aldeia guajajara e ficou esperando por ele nas vizinhanças, enquanto ele a visitava. Sua esposa guajajara o recebeu com muita alegria e foi preparar um mingau de mandiocaba. Como demorou demais, quando Aruwê foi procurar pela mulher- onça, ela já havia partido e ainda tinha tido o cuidado de tapar a abertura do formigueiro, para que ele não mais a encontrasse.

Então Aruwê voltou a viver na aldeia com seus companheiros humanos e lhes ensinou a festa a que tinha assistido na aldeia das onças.

Comentário. Em minhas aulas no curso de graduação, ao apresentar aos alunos a maneira de trabalhar com o método estruturalista, eu costumava fazer com que lessem em classe o mito que acabo de resumir e depois lhes pedia que o comentassem. Na discussão que se seguia, chamava-se a atenção para o fato de Aruwê atacar animais alados, as araras, assim como as onças, que tiravam o mel das abelhas. Já o irmão dele mostrava um comportamento ambíguo, atacando tanto animais de cima, araras, como de baixo, onças. Estas, estavam tão associadas à parte de baixo que moravam numa aldeia subterrânea. Aruwê, transformando-se em formiga e depois casando-se com uma onça, estava indiscutivelmente associado também à parte de baixo.

Apontava-se também a estranheza do esquecimento de Aruwê, que, tendo ido em busca do irmão, não somente o esquece quando entra na aldeia das onças como ainda se casa com a filha daquele que o matou.

A filha do gavião

Pedia então aos alunos que lessem com atenção um outro mito, tirado do mesmo livro, das pp. 151-2, que vou apresentar agora.

Dois irmãos construíram um andaime numa árvore para roubar o filhote de um ninho de gavião. O irmão solteiro propôs ao casado que subisse primeiro. Enquanto este subia, a mulher dele se ofereceu ao solteiro. O marido percebeu, desceu e disse ao irmão que subisse na frente. Quando chegaram perto do ninho, o casado desceu, mas cortou os cipós que prendiam o andaime, deixando o irmão solteiro preso no alto da árvore.

O solteiro ficou lá chorando, até que chegou o gavião trazendo uma preguiça para dar de comer ao filhote. O gavião ouviu sua história, chamou sua esposa e ambos decidiram que o rapaz ia criar o filhote, que era fêmea, e mais tarde casar com ele. No dia seguinte trouxeram um guariba e encarregaram o rapaz de alimentar o filhote, mas como este não tinha bico e garras para rasgar a caça, o casal de gaviões começou a bater asas ao redor do rapaz, até que este se transformou também num gavião. Ele então passou a caçar para dar de comer a sua pequena companheira. Até que ela cresceu e os dois se casaram. O casal mais antigo os deixou e voou para sua aldeia, lá no céu.

Um dia o jovem estava voando com sua mulher-gavião quando avistou a aldeia onde morara. Decidiu matar o irmão que o abandonara no alto da árvore. Transformou-se num gaviãozinho e pousou junto à casa dele. A mulher chamou o marido para flechá-lo, mas ele, apesar de sua excelente pontaria, errou o alvo. Então o gaviãozinho transformou-se no gavião maior e carregou o irmão com suas garras, levando-o para seus cunhados-gaviões, que o reduziram a pedaços e atiraram os ossos sobre a aldeia.

Os pais guajajaras ficaram muito tristes por ter perdido seus dois filhos. O guajajara-gavião voltou à aldeia em forma de gente e apresentou-se aos pais mandando que chamassem todos os moradores para acompanhá-lo a um lugar que só ele conhecia. De manhãzinha ele começou a cantar e insistiu que todos acompanhassem as cantigas. Mas só os pais o fizeram. Ao pôr-do-sol, a casa levantou-se do chão e os levou para a aldeia dos gaviões, no céu. A aldeia foi inundada e os guajajaras que haviam se recusado a cantar se transformaram em passarinhos para serem caçados pelos gaviões.

Comparação com o mito anterior. Eu então comparava com os alunos os dois mitos, procurando as semelhanças e contrastes como no quadro abaixo, e mostrava como no segundo a relação de indiferença entre os irmãos passava a franca hostilidade.
Origem da festa do mel A filha do gavião
Animais caçados pelos irmãos: araras, aves vegetarianas. Animais caçados pelos irmãos: gaviões, aves carnívoras.
Produto animal extraído pelas onças: mel. Animais caçados pelos gaviões: preguiça, guariba, quadrúpedes arbóreos e vegetarianos.
Irmão, provavelmente solteiro, é morto pelas onças. Irmão solteiro é salvo pelos gaviões.
Irmão já casado se casa também com onça. Irmão solteiro se casa com gavião.
Esquecimento do irmão, provavelmente solteiro, morto pelo sogro-onça. Entrega do irmão casado para ser despedaçado pelos cunhados-gaviões.
Aldeia ganha a festa do mel, oriunda do mundo subterrâneo. Aldeia se recusa a transferir-se para o céu.
Aldeia humana e aldeia das onças permanecem, e mantêm distância e respeito. Aldeia humana é destruída pela enchente e seus moradores viram passarinhos para serem comida dos gaviões da aldeia celeste.

Origem do cocar

O Apêndice 2 (pp. 275-7) do livro de Roque Laraia, Tupi: Índios do Brasil Atual (São Paulo: USP-FFLCH, 1986), contém o "Mito de Aé", contado pelos índios caapor, do Maranhão. Como o leitor poderá averiguar pelo resumo a seguir, trata-se de uma variação do mito da origem da festa do mel, dos guajajaras, aliás seus vizinhos. Entretanto, ao invés da festa do mel, com ele os caapor explicam a origem do cocar.

Um homem sabia matar e dos ossos de um deles, que parecem contas, fez um colar para sua mulher. Sua cunhada viu o colar e quis que o marido dela também matasse um . Este então saiu numa noite de luar, que é quando os andam como o vento sobre a copa das árvores, e foi esperá-los debaixo de um pé de ypu?y, de onde tira o mel das flores com pequenas cabaças. À meia noite veio o , e o homem atingiu-o com duas flechas, uma em cada ombro. Mas ele não morreu; pelo contrário, o é que matou o homem.

No dia seguinte, como não retornasse, o irmão foi a sua procura e achou apenas uma poça de sangue debaixo do pé de ypu?y. Ele chorou muito e foi procurar um pajé, que lhe ensinou como achar o caminho para o lugar onde mora o , debaixo da terra: seria um buraco muito fino sobre um morro. Depois de muito o procurar, encontrou o buraco. Chamou outros índios, que cavaram bastante e depois o desceram por uma corda muito comprida. Lá embaixo encontrou o caminho de e seguiu-o até a aldeia.

estava sozinho; as onças estavam caçando. Ele ofereceu um banco ao homem e conversaram. Depois de algum tempo o homem perguntou- lhe se ele tinha matado um índio. confirmou e mostrou uma grande panela onde seus pedaços estavam sendo cozidos. O homem viu com horror que era a cabeça de seu irmão que boiava por cima. convidou-o para dançar, e colocou o cocar, empunhou o tacape e cantou e dançou. O homem pediu-lhe o cocar e o tacape para dançar também. E os emprestou. O homem cantou e dançou, aproximando-se cada vez mais de , e de repente o matou com o tacape.

Nesse momento as onças chegavam da caçada e o perseguiram. E fugiu, alcançou a ponta da corda, seus companheiros o içaram rapidamente. Uma onça ainda chegou a arranhar-lhe as pernas. Despejando várias panelas de água fervente, os companheiros detiveram as onças que subiam pelo buraco. O homem morreu, mas o pajé soprou-lhe baforadas de fumo e ele viveu novamente, e contou que tinha matado . O pajé mandou colocar paus sobre o buraco e sobre estes pôs terra. Depois soprou e ficou parecendo chão novamente.

O homem estava com o cocar de . Assim os índios aprenderam a fazer cocar.

Comparação com o mito da festa do mel. No mito que acabo de resumir há um tipo de ser, , que também tira mel. Mas tira mel das flores e não das colmeias, como fazem as onças do mito guajajara. O anda de noite, como o vento pela copa das árvores, mas mora em aldeia subterrânea, junto com onças. Seria o algo como uma abelha ou será também uma onça? De qualquer modo, o mito nada diz do destino dado ao mel.

Diferentemente do mito guajajara, no caapor o homem vai procurar o irmão e não se esquece dele. Vinga-o, mata mesmo o e não se casa com nenhuma mulher do mundo subterrâneo.

Ao invés do conhecimento da festa do mel, como no mito guajajara, neste o homem traz um cocar, a partir do qual os caapor aprendem a fazê-lo. A propósito, convém notar que os caapor são muito conhecidos pela beleza e delicadeza de seus adornos plumários, uma arte na qual os guajajaras não se destacam, o que em parte se explica pelo fato de estarem em contato com os civilizados há muito mais tempo, podendo terem perdido muito da mesma. Se os delicados enfeites de penas dos caapor são inconfundíveis, a festa do mel, já decadente no tempo da pesquisa de Wagley e Galvão, não parece ter, salvo engano, paralelo entre outras sociedades tupis.

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