9a aula

Conquista e Perda do Fogo

Julio Cezar Melatti

Março de 2001

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Há muitos mitos da origem do fogo. Mas aqui vou tratar apenas de dois: um, dos craôs, e dos demais timbiras, que admitem ser a onça a dona original do fogo; o outro, dos marubos, que mostra como os homens, ao perderem o fogo, viraram onças. Ou seja, um é o inverso do outro.

Versão craô do mito do fogo

Nas pp. 325-7 do livro Ritos de uma Tribo Timbira (São Paulo: Ática, 1978) eu apresentei uma versão craô da origem do fogo, que vou resumir.

Os índios antigos não tinham fogo; comiam carne crua seca ao sol. Um deles viu um ninho de arara num buraco de uma encosta e levou o irmão da esposa, que era novinho, para apanhar os filhotes. Cortou um pau comprido e fez escada para o menino subir. Este, entretanto, ficou com medo da arara, que estava brava. O marido da irmã recomendou-lhe que fizesse um ganchinho com um ramo para puxá-la pelo pescoço. Mas a arara quebrou o ganchinho. Apesar da insistência do cunhado, o menino não conseguia puxar a arara e jogá-la pra baixo. Por isso, aquele se zangou, fez cair a escada e deixou o irmão da esposa lá em cima. Foi embora, nada contou em casa e nem a mulher perguntou pelo irmão.

O menino ficou passando fome e sede. Aos poucos a arara que trazia alimento para os filhotes se acostumou com ele, e o menino comia o buriti que ela trazia. E assim agüentou por dois meses.

Então, um jaguar que estava caçando chegou ao pé da encosta. O jaguar, vendo sua sombra projetada no chão, tentou por duas vezes pegá-la, até que se deu conta que era do menino que estava no alto. Tendo lhe perguntado por que lá estava, o jaguar ouviu-lhe a história e depois ofereceu-se para apará-lo, se ele de lá pulasse. O menino se recusou, alegando que o jaguar o comeria. O jaguar então pediu-lhe que jogasse os filhotes de arara. O menino jogou um e depois outro, e o jaguar os comeu. Então insistiu que o menino pulasse e assegurou que não o comeria, pois já tinha comido as araras. O menino fechou os olhos e pulou.

O menino estava com fome, sede e todo sujo de excrementos de arara. O jaguar o levou a um brejo, onde ele bebeu e se lavou. Depois o jaguar o levou para casa, onde o apresentou à esposa, que queria comer logo o menino. O marido, porém, disse que iriam criá-lo.

Depois de uns dias, o jaguar saiu para caçar e deixou o menino com a mulher. A onça o ameaçou com as garras e os dentes e o menino fugiu em busca do jaguar, que teve de voltar da caçada sem nada e recomendar à esposa que não fizesse mais assim. E saiu de novo. Porém, por mais por duas vezes teve de voltar porque sua mulher de novo assustava o menino e ele corria em busca de seu socorro. Só conseguiu trazer um tatupeba, que mal serviu para a refeição.

No dia seguinte o jaguar foi caçar de novo, e mais uma vez teve sua atividade interrompida pela fuga do menino ameaçado pela onça. O marido então endireitou flechas no fogo, fez um arco para o menino e recomendou-lhe que, se fosse ameaçado, flechasse a onça bem na mão e corresse para sua aldeia, que era logo depois do morro e do riacho; a onça não o persegueria porque estava grávida. Uma vez ausente o jaguar, a onça ameaçou novamente o menino, que a flechou em ambas as mãos e correu para sua aldeia.

Na aldeia, o menino contou ao pai que a onça tinha o fogo. Os moradores foram então à casa da onça e roubaram-lhe o fogo, que ficou gritando que pelo menos deixassem uma brasinha para ela.

A perda do fogo, na versão marubo

Vou aqui fazer um resumo da versão que publiquei nas pp. 160-2 de "A origem dos brancos no mito de Shoma Wetsa" (Anuário Antropológico/84, 1985, pp. 109-73). Nesse resumo vou incorporar entre colchetes esclarecimentos e dados tomados de outras versões, mais obscuras ainda do que esta, de modo a chegar a um resultado um pouco mais compreensível.

Os Inovakenáwavo ou Inonáwavo (gente da onça, nome de uma seção) dormiram entre as sapopemas da samaúma e tiveram seus olhos extraídos por Ino Rĩki [ou Rẽki, que era um macaco-prego. Os cegos, dando-se as mãos, foram para um igapó, onde viraram buritis]. Os que foram poupados encontraram a mulher Rovoshavo [a qual, não tendo querido seguir o irmão, Võnea Shane, este apagou o fogo, abandonou-a, e virou capivara]. Ela mandou o macaco-preto que criava ir buscar o fogo e ele o trouxe. [Mais detalhadamente, ela primeiro mandou o periquito (txoké) ir buscar o fogo, mas ele queimou o bico e deixou-o cair no mato; o periquito, que tinha bico grande, hoje tem bico pequeno. Então ela mandou o macaco barrigudo, que o trouxe com o rabo, que queimou, passou-o para a mão, mas o fogo queimou-lhe as mãos e os polegares; por isso ele tem as mãos pretas e sem os polegares. Então ela mandou o macaco preto, que também queimou o rabo, que hoje é mais curto, e queimou os polegares, mas conseguiu entregar o fogo à mulher.] Os Kamanáwavo (a mesma gente da onça) nela puseram o nome de Tome [na verdade outra mulher, havendo também as chamadas Taokaté e Rami].

Os Inonáwavo foram caçar e deixaram Taokaté cuidando do fogo. Chegaram com queixada. Depois de cozido, deram para Taokaté um pedaço do fígado e o focinho.

Os Inonáwavo encontraram um surubim. Acharam bonita a sua pintura e resolveram se pintar do mesmo modo. Por isso é que a onça é pintada.

Saíram outras vezes para matar queixada, deixando Taokaté para cuidar do fogo e, quando voltavam, davam às mulheres um pedaço do fígado, o pé, o mocotó ou o focinho.

As mulheres pintaram os homens com o desenho do surubim. O primeiro que acabou de ser pintado foi Ino Wirẽ. Ele foi secar sua pintura no sol e encontrou um bando de queixadas. Voltou para chamar os outros, que iam começar a ser pintados. As mulheres então recomendaram a estes que se pintassem no caminho com a flor bem novinha do urucu.

Enquanto os homens perseguiam os queixadas, as mulheres resolveram apagar o fogo. Rovoshavo virou bacurau; Tome, cutiara (ou quatiara?); Rami, cutia. Taokaté virou maracanã e levou o fogo. O fogo restante foi apagado.

Os homens voltaram depois de matarem queixada e não encontraram ninguém. Chamaram Rovoshavo, perguntando-lhe pelo fogo, mas a viram voar na frente deles já transformada em bacurau. Eles caçoaram dela, aludindo a seus olhos protuberantes. Viram Taokaté já transformada em maracanã pousada numa árvore.

[Os homens pedem ao macaco preto para roubar o fogo de Taokaté. Ele subiu na árvore e pediu-lhe o fogo. Ela negou, mas ele mesmo foi apanhar. Ela então lhe arrancou os dedões; por isso o macaco tem quatro dedos. Ele foi embora e não voltou aos homens.]

Ino Wirẽ pôs a carne de queixada no terreiro para secar ao sol. A carne secou e ele cortou-a com a faca e comeu. E disse que tinham de se transformar em algo diferente, pois já não tinham fogo e tinham de comer cru. Foi embora chorando pela beira do barranco, chegou à raiz da ayahuasca e ficou morando lá. Os outros homens fizeram o mesmo, saíram chorando pela beira do barranco e foram morar em outro lugar: Ino Namã, na raiz da árvore tĩpa; Ino Kene, na raiz da samaúma; um outro Ino Namã, também na samaúma; Ino Tae, na raiz da taboca; Ino Metsa, também junto à taboca; um outro Ino Tae, em cima do capim. Ino Kene resolveu ir morar no Ino kenã teké. Um outro foi morar em cima da raiz do tabaco. [Ino Wirẽ virou onça pintada; os demais, onças vermelhas].

Por conseguinte, esse mito marubo insiste na focalização da perda do fogo: primeiro é a mulher Rovoshavo que o perde quando abandonada pelo irmão, mas o recupera com ajuda do macaco preto. Depois são os homens que o perdem quando as mulheres os abandonam e dessa vez nem mesmo o macaco preto consegue trazê-lo de volta.

Se, o mito craô ensina que o homem tomou o fogo da onça, o mito marubo ainda vai mais longe, mostrando que homem sem fogo é onça.

Os mitos marubos mostram ainda um antagonismo entre onça e fogo. A mulher canibal Shoma Wetsa, identificada com a onça, de corpo invulnerável, somente pôde ser destruída pelo fogo (13a aula). Um outro mito também publicado nas pp. 157-8 do meu referido trabalho "A origem dos brancos no mito de Shoma Wetsa" termina com a quase total destruição das onças pelo fogo.

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