Voltar ao Sumário de Mitos Indígenas |
Voltar ao Índex da "Página do Melatti" |
---|
O mito da grande árvore está presente no repertório de muitas sociedades indígenas. Pode ser uma árvore que sustenta o firmamento, ou então que dá origem ao milho ou outra planta importante para o grupo social que o narra. Vou passar aqui por alguns exemplos desse mito.
No mito timbira do Sol e Lua, já apresentado (4a aula), há um episódio em que o segundo quer um enfeite, um cocar, igual ao que o primeiro tem. Esse enfeite foi conseguido do pica-pau. E o Sol leva Lua até o pé-do-céu, para conseguir do pica-pau um enfeite também para ele. É possível acrescentar alguns detalhes não explicitados naquela versão. O pé-do- céu fica a leste. O pica-pau quer derrubá-lo. Mas quando sai para comer ou para beber, a parte já escavada se recompõe, e assim, nunca consegue derrubá-lo. Há quem admita que são vários os pés do céu, e mais de um pica-pau trabalham a perfurá-los.
Um craô disse que o pé-do-céu é como o pé de milho, duro por fora e macio por centro. Essa comparação o torna equivalente à árvore do milho, do mito da mulher-estrela, também já apresentado (6a aula). Se o pica-pau tenta em vão derrubar o pé-do- céu, a árvore do milho, por outro lado, é efetivamente derrubada.
No seu livro Nomes e Amigos (São Paulo: USP- FFLCH, 1986), Aracy Lopes da Silva diz que a atribuição dos nomes femininos xavantes segue regras distintas da atribuição dos masculinos. A mulher só recebe um nome verdadeiro, um nome de adulto, após o casamento. Qualquer nome feminino é precedido por um de cinco radicais, conforme a categoria de idade masculina que o confere, que significam "macaco" (dado pelos moradores da casa dos solteiros), "periquito" (dado por uma parte dos iniciados), "quero-quero" (dado por outra parte dos iniciados), "guanandi" (dado pelos patrocinadores de iniciação) e "peixe" (dado pelos homens maduros). A autora associa o rito de atribuição de nomes às mulheres ao ciclo do milho, à estação chuvosa e à fertilidade. Na resenha que fiz desse livro no Anuário Antropológico/87 (pp. 281-284) defendi a idéia de que encontraríamos uma correspondência entre a árvore do milho e os nomes femininos se fossem dispostos num quadro as categorias de idade masculinas, das mais novas para as mais velhas (excluídas aquelas não envolvidas na transmissão dos nomes femininos), os radicais dos nomes femininos que lhes correspondem, as características distintivas apontadas pelos índios referentes aos animais que significam e as características físicas das mulheres distribuídas segundo esses radicais.
Nesse quadro, conforme passamos das categorias de idade mais novas para as mais velhas, os animais e o vegetal que lhes correspondem parecem se dispor no sentido alto-baixo e arbóreo-terrestre-aquático. Não há dados suficientes para se saber se o quero-quero é a ave da família Charadriidae, que nidifica no chão, ou o papagaio-de-peito-roxo. Quanto ao guanandi ou landi, trata-se do Callophilum brasiliensis, também conhecido como jacareúba, vegetal de áreas pantanosas ou inundáveis. Os animais também se colocam em um continuum, conforme suas características somáticas, estando num dos pólos o de pêlos, no outro o sem pêlos, e nas posições intermediárias os de penas (e o vegetal, obviamente, de folhas), pondo-se em destaque as penas de uma região do corpo, a testa ou o peito. Finalmente, as mulheres passam de altas a pequenas, sendo as das extremidades gordas e as intermediárias magrinhas (o termo "grande" parece aqui sinônimo de "gorda").
Categorias de idade masculinas | Radicais dos nomes femininos | Características dos animais e vegetal | Características físicas das mulheres |
---|---|---|---|
moradores da casa dos solteiros | macaco | bicho bacana com cabelo bonito | altas e gordas |
iniciados | periquito | pena vermelha na testa bonita como urucum | altas | quero-quero | grita bonito, penas cinzentas no peito | pequenas e magrinhas |
patrocinadores de iniciação | guanandi | com folhas bonitas | pequenas e magrinhas |
maduros | peixe | sem cabelos, couro bonito | gordas, grandes |
Ora, lendo o mito xavante da origem do milho, publicado nas pp. 61-72 do livro Jerônimo Xavante Conta, de Bartolomeu Giaccaria e Adalberto Heide (Campo Grande: Museu Regional Dom Bosco, 1975), tenho a impressão de que há uma certa correspondência entre o quadro que montei e a disposição das partes e dos assediadores da fabulosa árvore do milho. Assim, no momento em que os homens se reúnem para recolher as espigas da árvore, os mais velhos ficam no chão apanhando os grãos que os periquitos já haviam deixado cair, enquanto os mais novos sobem, citando-se explicitamente duas de suas categorias de idade. Considerando-se que quanto menor a idade mais leve o indivíduo, podemos supor que as categorias de idade se disporiam na árvore conforme estão meu quadro, ordenadas de cima para baixo da mais jovem para a mais velha.
É certo que os únicos animais freqüentadores da árvore citados no mito eram os periquitos e que ela, muito provavelmente, não era um guanandi. Mas, tratando-se de uma árvore fabulosa, por que não admitir que o macaco, que figura no alto do quadro, e do qual se alude à beleza dos cabelos, não corresponde ao cabelo do milho? Que o periquito, o quero-quero e o guanandi, dispostos no meio do quadro, e dos quais se faz referência a certas penas ou à beleza das folhas, não corresponderiam às folhas da árvore, que seriam também as folhas do milho? Já o peixe, da base do quadro, de que se põe em destaque a ausência de cabelos e a beleza do couro, não corresponderia ao tronco da árvore, chamada no mito de "pau trançado", característica acentuada no desenho que acompanha o texto? Quanto à coluna das características físicas das mulheres, não estaria em relação com o fato de as espigas maiores darem nos galhos superiores, enquanto as menores crescerem nos galhos que saíam do meio do tronco?
Chama a atenção no mito da mulher-estrela dos timbiras que o milho tem uma origem diferente da dos outros vegetais cultivados. O milho dá numa árvore, nesta camada terrestre, junto a uma corrente d'água. Os demais vegetais são trazidos do céu. Essa origem separada do milho também ocorre na mitologia marubo, do sudoeste da Amazônia: o milho dá numa árvore; a origem das demais plantas é narrada em outros dois episódios do mito de Wenía (3a aula). Um deles conta que foi Oni Weshti que os criou, a partir de parte dos corpos dos animais que ele matava, e ensinou sua utilização aos marubos quando eles passaram pelo lugar onde vivia. O outro diz que o uso dos vegetais cultivados foi ensinado pelo mutum.
Uma versão sobre a árvore do milho, colhida por Delvair Montagner do marubo Firmino, conta que a árvore do milho foi cortada com ajuda de machado feito com âmago de madeira. Dá os nomes de quatro dos cortadores. Como eles paravam a tarefa ao entardecer para irem para casa dormir, no dia seguinte encontravam o tronco recuperado de novo. Resolveram então trabalharem todo o tempo, usando breu para iluminarem à noite. Na árvore estavam um mutum branco, uma arara. O periquito comia milho. E o cachorro olhava os homens a cortar o tronco. O pau disse aos cortadores que, quando caísse, iria lhes pôr nome. E dizia para uma outra árvore que, quando caísse, iria nascer de novo. A árvore caiu, no oeste. Os homens ficaram alegres. Num galho havia milho branco; em outro, milho amarelo; noutro, milho preto; noutro, milho do sangue. Depois os homens acharam filhotes de cachorro e levaram para casa. A casca da árvore foi embora para o poente, caiu na água e virou o peixe tambaqui. Os homens plantaram o milho e comeram.
Vemos aqui a mesma idéia do pé do céu do mito craô, que se recupera quando o seu corte é interrompido.
Conforme as pp. 32-3 do livro de Delvair Montagner, A Morada das Almas (Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1996), os marubos admitem também a existência de um loureiro, Torá Tama, situado entre duas camadas celestes: suas raízes estão no Claro das Árvores e o seu topo toca o Céu da Névoa. Essa árvore é um caminho percorrido pelos xamãs. Seus galhos têm potes de diferentes alucinógenos. Nas suas folhas moram espíritos benévolos, que cantam e curam. Sua copa é cônica e seus tronco é pintado com desenhos. Um desenho feito por um marubo acompanha o texto.
Na coletânea de Betty Mindlin, Tuparis e Tapurás (São Paulo: Brasiliense, EDUSP e IAMÁ) há duas versões do mito da árvore do amendoim, uma colhida por ela (pp. 48-52) e outra, mas antiga, por Franz Caspar (pp. 53-57). Eis, num resumo, a versão tomada por Mindlin:
Waledjat e Wap nasceram do estouro de uma pedra e foram criados por uma velha. Eles só comiam fruto de apuí, inadequado para alimentação, enquanto a velha comia amendoim cozido às escondidas. O amendoim vinha de uma árvore que segurava o céu, e a velha tinha medo que alguém viesse a cortá-la, fazendo o céu desabar. Toda vez que eles matavam uma anta, e a entregavam à velha para abri-la e destripá-la, ela o fazia, ao mesmo tempo em que comia, disfarçadamente, amendoim.
Um dia um dos irmãos encontrou uma casca de amendoim no chão, cheirou-a, gostou e mostrou-a ao outro. Procuraram até encontrar uma panelinha com amendoim cozido debaixo da lenha. Deixaram-na no mesmo lugar e resolveram espreitar a velha para ver de onde ela o colhia. Assim eles a encontraram a colher amendoins caídos da árvore. Araras e periquitos se fartavam com eles.
Resolvidos a derrubar a árvore, foram à procura do pica-pau, que tinha um machado. Para fazer o pica-pau soltar o machado, Wap virou mutuca e o picou nas costas, mas sem resultado. Então Waledjat fez o mesmo e picou-o com mais força. O pica-pau soltou o machado e caiu desmaiado. Os irmãos tiraram todas as penas do pica-pau. Este, ao voltar a si, ficou furioso e pediu ao fogo que o vingasse. Soprou o fogo até encostar no céu. O fogo queimou tudo.
Wap se refugiou no oco de uma embaúba; Waledjat, num buraco de aranha. A aranha tinha uma filha e estava fazendo rede. Ofereceram uma rede a Waledjat para se deitar. Enquanto ele cochilava, peidou, mas pela boca, pois não tinha ânus, somente rabo. Tomando conhecimento do comentário feito pela filha da aranha, Waledjat pediu para que elas lhe fizessem um ânus. A aranha estava com medo de fazer, pois temia que ele, com a dor, batesse nela com a mão e a matasse. A aranha cortou o rabo de Waledjat com os dentes e depois fez o orifício do ânus com o dedo; saiu uma grande quantidade de fezes.
Waledjat porcurou o irmão, encontrou-o e este reparou a mudança que se fez em seu corpo e quis também ter um ânus. Voltaram à casa da aranha e finalmente conseguiram que ela aceitasse repetir a operação, com a diferença que, desta vez, Wap, com a dor, bateu com mão na aranha.
Voltaram para casa e a velha chorava. E chorou ainda mais quando soube que eles iam derrubar a árvore. Choveu todo o dia, uma chuva fina. De tarde a árvore caiu, mas seu tronco dividiu-se em vários, escorando o céu, que não arriou de todo. E ficaram apanhando amendoim. Fizeram uma casa para cada um e as encheram de amendoim.
Waledjat resolveu fazer uma mulher, e a fez de madeira. Pintou-lhe o sexo por dentro com urucu. O irmão, ao ver a mulher, quis ter uma também. Waledjat fez uma para Wap, mas ficou feia, e não tinha sexo.
Waledjat pôs muitas onças para guardar o amendoim, no caminho da Via Látea. As onças tomam conta das crianças que vão nascer. Há onças pintadas, brancas, negras, vermelhas. As crianças que vão nascer ficam dentro da sapopema da árvore do amendoim, e brigam por causa dele. Cada estrela, que é um buraco do céu, é uma criança. Quando uma mulher não engravida, o pajé toma rapé e, por meio de sonho, faz a mulher engravidar, tirando uma criança lá de cima. Em retribuição, a mulher lhe dá presentes, como brincos e colares.
A versão tomada por Caspar, guardados os pequenos detalhes, diz o mesmo. Mas ela esclarece que a velha que criava os dois irmãos era um pássaro que Waledjat tinha transformado em mulher para ser a mãe deles.
Após o episódio da confecção da mulher, a versão de Carpar diverge. Diz da tentativa frustrada de Wap ter relações sexuais com a filha de um mago, o que Waledjat conseguiu facilmente. Diz também que, além do amendoim, Waledjat também trouxe (mas não diz de onde) a castanha-do-pará, a taquara, o milho e provavelmente outras plantas; descobriu o arco e flecha e a produção de resina.
Conta também que a mulher de Waledjat teve um filho. Ele o deixou com a grande serpente mansa enquanto ia colher castanha-do-pará. Mas a serpente mordeu o menino quando ele quis alimentá-la e ele morreu. Wap viu a serpente desaparecer no céu. O menino foi chorado e enterrado. De noite ele apareceu e chamou o pai e a mãe,. Estes porém não acordaram. E Wap o mandou embora.. Ao saber do ocorrido, Waledjat ficou furioso com o ato do irmão e tentou por magia trazer de volta o filho, mas em vão. Ele então fez chover muito, inundou a terra e muita gente afogou-se. Um relato alternativo desse episódio diz que Waledjat, um dia, numa caçada, encontrou o falecido filho. Mas ele o advertiu de que agora pertencia ao outro lado, ao oeste, e que não podia mais voltar para casa. Wap também achou que o garoto não devia voltar. E ambos retornaram sem o menino.
Um outro mago, então, resolveu desembarçar-se de Waledjat e Wap, para que não provocassem novos infortúnios. Convidou-os para apanhar resina no alto de uma árvore. O mago tapou-lhes os olhos, narinas e mãos e encarregou dois mutuns de os levarem embora, o que não conseguiram. Então incumbiu dois pássaros waikua, que os levaram para o norte, onde fizeram uma casa de pedra, onde moram até hoje. Toda vez que Waledjat fica furioso, chove.
Alguns episódios do mito de Waledjat e Wap lembram o mito de Sol e Lua dos timbiras. O pica-pau, por exemplo, que neste tenta derrubar o pé-do-céu, naquele tem um machado que, roubado, será usado para derrubar a árvore do amendoim. Também é o pica-pau que provoca o grande incêndio, em ambos os mitos: para vingar-se em um; porque Lua deixa seu cocar cair no chão, no outro. Ambos também relatam uma grande inundação: por chuva desencadeada por Waledjat em um; porque Lua retira a tartaruga que servia de tampa à água subterrânea, no outro. Decisões tomadas pelo menos por Wap, em um, e por Lua, no outro, instalam a morte entre os homens.
Já a confecção da mulher de madeira faz o mito tupari aproximar-se do mito xinguano do Kwarip, mas com uma diferença: Waledjat faz para si uma esposa, enquanto o herói xinguano faz substitutas das filhas para mandá-las para casar com o jaguar.
O mito tupari também se aproxima do mito da mulher- estrela dos timbiras, uma vez que, conforme a versão de Caspar, além da origem do amendoim, refere-se à origem dos outros vegetais cultivados.
Nas pp. 72-75 do livro Nosso Povo (Rio de Janeiro: Museu Nacional , 1985), escrito por índios ticunas, estão os episódios míticos "Como apareceu o dia" e "O coração da samaumeira", que resumo a seguir.
Como apareceu o dia. Naquele tempo era sempre noite. Os galhos da samaumeira cobriam o mundo, escurecendo tudo. Os irmãos Yoi e Ipi tentaram abrir um buraco na copa da árvore, jogando-lhe caroços de araratucupi, mas sem resultado. Chamaram o pica-pau, que tentou cortar o tronco com o bico, mas não conseguiu. Resolveram então tirar o machado da cutia. Ipi colou penas em todo o corpo e ficou deitado de boca aberta no caminho da cutia. A cutia estranhou a figura que encontrou no caminho e começou a fazer-lhe perguntas. Como Ipi não respondesse, ameaçou urinar na boca dele, cortar-lhe a língua, até que ele respondeu, dizendo que podia arrancá-la. Ela se aproximou e Ipi arrancou-lhe a paleta, a perna de trás, que era o seu machado.A cutia perseguiu Ipi mancando e gritou-lhe que, quando fizesse roça, não dissesse o nome dela, e que ela iria cobrar-lhe o roubo, furtando nas roças que fizesse. É o que a cutia faz até hoje. A cutia não pode mais plantar. Só cutia pequena ainda tem o machado.
De posse do machado, Ipi começou a cortar a árvore. Mas o corte se tornava a fechar. Yoi então tentou cortar e, onde ele batia, o corte se mantinha aberto. Quando se cansou, entregou o machado a Ipi, que continuou a cortar, mas agora o corte não se fechava mais. Apesar de o tronco estar bem fino, a árvore não caía. Olhando para cima, viram que era uma preguiça que a segurava. O quatipuru, convidado para subir e tirar a mão da perguiça do galho, foi até a metade e desceu, com medo da altura. O quatipuru pequeno aceitou subir com formigas de fogo para jogar nos olhos da preguiça. Ele subiu e conseguiu atingir os olhos da preguiça. Deu então um pulo para trás, e caiu, machucando o rabo no machado. Por isso o quatipuruzinho tem o rabo dobrado nas costas. A samaumeira caiu, e daí por diante se pôde ver o sol, o céu, as estrelas. Como recompensa, Yoi e Ipoi deram sua irmã para casar com o quatipuruzinho.
O coração da samaumeira. Depois de algum tempo Ipi foi até a árvore derrubada para ver se já tinha apodrecido. Mas ela estava viva, tinha começado a brotar de novo. Ipi ouviu batidas de coração e resolveu tirá-lo. E começou a cortar com o machado. Ipi e Yoi disputavam o machado, cada qual querendo a tarefa de tirar o coração da samaumeira. Finalmente um golpe de Yoi fez o coração pular fora. Um calango o engoliu e ele ficou parado na garganta. Ipi encostou um tição na garganta do calango e o coração pulou fora. Mas uma grande borboleta azul engoliu o coração. Ipi queimou a asa da borboleta com o mesmo tição e ela vomitou. Por isso as borboletas azuis de hoje têm manchas na asa. O coração caiu num buraco muito apertado. Yoi então mandou a cotia roer o coração pelo lado direito, trazer o caroço e plantar no terreiro. Passado algum tempo, daí nasceu a árvore de umari.
O mito da grande samaumeira e o de seu coração também estão divulgados em O Livro das Árvores (Benjamin Constant: OGPTB, 1997), um volume escrito e ilustrado pelos professores indígenas ticunas, que trata da importância das árvores na vida e cultura de seu povo. Entre as suas muitas ilustrações, há um desenho da árvore Tchaparane, que produzia terçados. Ela ficava em Cujaru, um lugar perto do rio Jacurapá, e as pessoas iam até lá e esperavam que caíssem no chão.
Nas pp. 172-4 de "Lendas dos índios Vapidiana" (Revista do Museu Paulista, Nova Série, vol. 4, 1950, pp. 165-216), Mauro Wirth apresenta dois mitos referentes a grandes árvores, e que vou resumir abaixo.
A árvore Tamoromu. O homem criou uma cutia que, enquanto era pequena, não saía de casa, mas depois que cresceu passou a andar pelo mato. Ela encontrou uma grande árvore carregada de frutos. Como ela não sabia subir, só comia os que caíam no chão. Desde então passou a recusar a comida de casa e só comia no mato.
Uma vez, indagada sobre o que fazia e comia no mato, ela negou que fizesse qualquer coisa. Mas ela adormeceu, peidou e sua bunda falou: "Bum! Amendoim! Bum! Banana maçã! Bum! Banana comprida! Bum! Mandioca! Bum! Cana! Bum! Banana najá! Bum! Banana cheirosa! Bum! Banana grossa! Bum! Milho! Bum! Arroz! Bum! Feijão! Bum! Cará! Bum! Abóbora! Bum! Inhame! Bum! Melancia! Bum! Banana São Tomé branca! Bum! Banana São Tomé roxa! Bum! Banana iaiá! Bum! Banana sapo!" O dono ouviu, chamou a mulher para ouvir e mandou seus filhos acordarem bem cedo para verem aonde ia a cutia. Os homens então não sabiam onde ficava essa árvore e só comiam frutos do mato.
As crianças levantaram-se antes do clarear do dia. Viram a cutia acordar e ir direto para o mato. As crianças então chamaram o pai, que foi atrás dela e a encontrou comendo. O homem viu que cada galho da árvore estava curvado e produzia uma espécie diferente. O homem retornou e contou o que vira a parentes e vizinhos.
Todos amolaram seus machados e foram derrubar a árvore para tirar as sementes e plantá-las. Ao meio-dia a árvore caiu. Eles apanharam os frutos, foram para a casa e depois plantaram as sementes. Depois apareceu Tuminikare, que lhes disse que eles não deveriam ter derrubado a árvore, pois agora teriam de trabalhar todo dia. O toco da árvore virou pedra.
A árvore Uaijána. Tuminikare plantou a árvore Uaijána, que tinha todos os frutos. Não havia então outra gente a não ser uma mulher, na idade de casar, e seus quatro irmãos. Ela encontrou a árvore, que estava ainda pequena, e tirou frutos dela. E contou a seus irmãos.
Estes, quando chegaram à árvore, ela já estava muito alta. Por isso, cortaram-na para comer-lhe os frutos. Dentro da árvore havia muita água doce, que se derramou. Eles a fecharam com uma tampa. O irmão mais novo viu um peixinho na água derramada e quis ver se havia outros peixes no interior da árvore. Levantou a tampa e a água saiu com força. Alagou o mundo todo. O céu escureceu. Não se podia ver o sol, a lua e as estrelas. Tudo acabou, nada ficou.
O mundo ficou enxuto. Tuminikare criou gente e animais novos. Havia toda espécie de frutos, que os homens podiam apanhar. Mas até hoje o monte Roraima é chamado Mãe da Água Doce.
Os índios uapixanas, cujos mitos referentes a grandes árvores acabei de resumir, falam uma língua da família aruaque. Eles são vizinhos de um conjunto de outras sociedades indígenas conhecidas como pemon (um nome pouco usado no Brasil), que fala uma língua da família caribe. Os pemons incluem os taulipang, os arecunás e os camaracotos. Esses três grupos vivem no sul da Venezuela, sendo que o primeiro também tem representantes no Brasil, no Estado de Roraima. No segundo volume de seu livro Vom Roroima zum Orinoco, Theodor Koch-Grünberg publicou mitos dos pemon, que foram trazidos para o português e publicados como "Mitos e lendas dos índios Taulipáng e Arekuná" (Revista do Museu Paulista, Nova Série, vol. 7, 1953, pp. 9- 202). Nessa coleção há duas versões do mito da grande árvore, um contado por um arecuná (pp.45-48) e outra narrada por um taulipang (pp. 48-50). Esta última é mais fácil de resumir e vou começar por ela.
Versão taulipang. Havia outrora cinco irmãos, um dos quais era Makunaíma e outro, o mais velho, era Ma'nápe. Este não valia nada. Os irmãos viviam com muita fome e nada tinham para comer. Um homem chamado Akúli achou na floresta uma árvore carregada com todas as frutas boas, todas as espécies de banana, mamão, caju, laranja e milho. Mas ele comia sozinho, sem dizer nada aos demais. Makunaíma, querendo saber por que todos os dias Akúli voltava de barriga cheia, levantou o lábio dele enquanto dormia e achou um pedacinho de fruta na boca de Akúli. Saboreou-o e descobriu que era banana. Akúli nada percebeu.
No dia seguinte, Makunaíma mandou um homem chamado Kalí para tentar achar as frutas. Ele chegou com Akúli até perto do lugar onde muitos periquitos e papagaios comiam as frutas, mas Akúli não quis mostrar a árvore. Então mandou também seu irmão acompanhar Akúli, mas este o enganou, deixando-o junto a uma outra árvore, enquanto ia somente com Kalí para a árvore verdadeira.
Embora Akúli recomendasse que ele só comesse as frutas do chão, pois nos galhos da árvore havia vespas, Kalí insistiu em subir. Mas foi picado por elas nas pálpebras e caiu da árvore. Makunaíma desconfiou porque viu as pálpebras inchadas de Kalí e recomendou a Ma'nápe que se escondesse no caminho para ver onde os dois escondiam as frutas que traziam da árvore. Mas foi em vão, pois, quando os dois passaram, já haviam escondido as bananas. Então Makunaíma recomendou a seu irmão mais velho que acompanhasse mesmo os dois até a árvore.
Ma'nápe assim fez e descobriu a árvore. Ele comeu muitas bananas e ainda encheu um cesto para levar para casa, apesar que Akúli tentar assustá-lo dizendo que tinha vespas. Em casa, Makunaíma comeu as bananas com seus irmãos.
Então Ma'nápe resolveu derrubar a árvore. Akúli, inteligente e que previa tudo, alertou que não deveriam derrubá-la, pois haveria uma grande enchente. Mas o teimoso Ma'nápe golpeou o tronco dizendo palavras que faziam o tronco amolecer, de modo que o machado penetrava cada vez mais. Akúli continuou advertindo e pegava cera de abelha e cascas de frutas para tapar todas as fendas que Ma'nápe ia fazendo. Mas este continuou golpeando e dizendo palavras para amolecer o tronco. Quando só estava faltando um pouquinho, um outro irmão de Makunaíma, chamado Anzikílan, disse o nome de uma árvore de madeira dura e o tronco endureceu, não permitindo o machado entrar. Mas Ma'nápe voltou a dizer as palavras que amoleciam e a árvore foi derrubada.
A árvore caiu para o norte (o lado da Venezuela). Por isso lá existem muitos bananais que ninguém plantou e que pertencem aos demônios mauarí, cujas casas são as montanhas, Roraima inclusive, como dizem os médicos-feiticeiros, que são os únicos que podem vê-los e falar com eles. O toco da árvore derrubada é o monte Roraima. Ao cair, também saiu uma grande quantidade de água e muitos peixes. Os maiores foram para o norte, uma espécie de traíra muito grande, piraíba, surubim. Para o sul (Brasil), somente peixes pequenos e poucos.
Versão arecuná. Não vou resumir esta versão, mas apenas compará-la com a taulipang. Na versão arecuná, Akúli é também o único que sabe da existência de uma árvore que dá frutas, Pupú, que, uma vez descoberta por Makunaíma e seus irmãos, é derrubada por eles. Encontram perto a árvore Ná-yég, de que comem também todas as frutas. E é então que Akúli, separando-se deles, encontra a árvore Wazaká, carregada de todas as frutas boas que existem.
O relato se interrompe para dizer como Macunaíma e seus irmãos roubaram o fogo do pássaro Mutúg (Prionites momota).
A versão continua mais ou menos da mesma maneira que a outra. Mas nela o irmão mais velho de Makunaíma se chama Jigué. É Makunaíma que quer derrubar a árvore, apesar do parecer contrário de Akúli, até que Jigué, cansado, concorda com o irmão. Mas, quando a árvore está sendo cortada, ele pronuncia o nome de uma madeira dura. Porém Makunaíma golpeava mais depressa, pronunciando o nome de bananeiras, o que fazia o tronco ficar mole. Finalmente a árvore caiu, para o norte. Seu toco é o monte Roraima e as duas outras árvores sobre as quais caiu formam outras montanhas da região. Os troncos das três árvores caíram transversalmente sobre o rio Caroni, afluente do Orenoco, formando os rochedos que fazem as quedas d'água desse rio.
Jigué tentou vedar o toco com um cesto e Akúli, com frutas e lenha. Mas Makunaíma pediu que fosse levantado o cesto para sair um pouco mais de peixes para os riachos. Então a água saiu com toda a força e não conseguiram mais tapar a saída.
A versão termina com dois episódios não presentes na anterior. Um é de como Jigué e Makunaíma criaram cada qual seu inajá. E o outro, de como Akúli se escondeu da enchente dentro do próprio tronco da árvore derrubada, onde tinha escondido bananas, mas o fogo que fez para se aquecer pegou no seu traseiro, o que explica por que hoje ele tem cabelos ruivos nessa parte do corpo (seria Akúli um animal? A cutia da versão uapixana?).
Na pp. 138-152 de sua tese de doutorado, O Corpo Cósmico (Brasília: UnB, 1999), Maria Inês Smiljanic se refere à árvore dos cânticos da cosmologia dos ianomaes, um ramo ianomâmi do alto curso do rio Toototobi, no Estado do Roraima. Essa árvore teria existido em tempos remotos no chão em que pisam os ianomaes, mas depois afastou e hoje está no "peito do céu". Ela cantava e dançava, sendo particularmente sensível ao canto das mulheres. Um grande galho da árvore é guardado pela preguiça, que cede seus ramos aos espíritos auxiliares dos xamãs, que assim podem entoar os cânticos que estão nesses ramos. A preguiça, entretanto, é muito sovina e nem sempre é convencida a conceder ramos da árvore. Os xamãs também podem tentar o acesso à própria árvore, uma vez que podem deslocar-se no espaço e no tempo.
Segundo o mito, numa grande festa o sapo coaxava e pensava estar entoando um belo cântico. A preguiça gigante irritou-se com a feiura do cântico e repreendeu o sapo por estar cantando tão mal. Então Yorixiriamori ensinou aos demais como se devia cantar. Seu canto era muito belo e as mulheres ficaram encantadas. Os outros homens, com inveja dele, tentaram matá-lo e por isso ele fugiu, transformado no pássaro yorixiri a. As mulheres, apaixonadas, correram atrás dele, mas não conseguiram atravessar o rio que ele cruzou. Ao fugir, Yorixiriamori jogou fora o galho da árvore dos cânticos e a preguiça o pegou.
A árvore dos cânticos sumiu deste mundo porque a aranha, ao aproximar-se dela, cobriu a cabeça e apontou o dedo. Por isso o som silenciou e ela desapareceu.
Voltar ao Sumário de
Mitos Indígenas |
Voltar ao Índex da "Página do Melatti" |
---|