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Para os craôs, do Estado do Tocantins, assim como para os demais timbiras, Sol e Lua são ambos do sexo masculino. O mito é o mesmo entre todos os timbiras, embora nem todos os narradores apresentem todos os episódios e a mesma riqueza de detalhes. Podem-se encontrar divergências acentuadas entre versões tomadas de um mesmo narrador em ocasiões diferentes. Por exemplo, a versão apresentada em seguida foi narrada em português por José Aurélio frente a um gravador em 1963. O mesmo José Aurélio, tempos depois, ditando este mesmo mito em língua craô, nele incluiu episódios da história de Pedro Malasartes, do folclore sertanejo. Isso é explicável, uma vez que os craôs identificam Lua com São Pedro, Pedro II e Pedro Malasartes (ver 15ª aula), ao passo que o Sol, também é chamado de Papam (nosso pai) ou Deus.
Diz-se que foi assim. Não havia gente nesses tempos, não havia povo nenhum. O Sol e a Lua, diz-se que eram gente mesmo. E Pït [Sol] fazia toda a coisa, fazia toda a coisa. Aí Pïdluré [Lua] chegava: "Não, não é assim, não é assim, vai ficar assim!" Então diz-se que o Sol estava comendo buriti, aí Pïdluré, diz-se que andava, andava também. Diz-se que Pïdluré é assim, por isso é que nós chamamos Pedro.
Não havia ninguém, aí foi conversar com o Sol: "Compadre, como é que nós vamos fazer, nós andamos assim sem mulher, é ruim, nós andamos sozinhos, assim está muito ruim para nós, é preciso que tenhamos mulher". O Sol respondeu: "Está bem, não direi nada para você não, daqui mais adiante você vai ver". O Sol foi fazer um buraco numa cabaça, uma cabaça bonita, apanhou-a e foi jogar dentro d'água; furou e jogou dentro d'água. Passou um pedacinho aí lá, banhando no ribeirão, assim como nós, banhando e tocando borá e cantando - e aí lá se vem mulher do Sol, primeiro. Diz-se que chegou a mulher do Sol, primeiro. Chegou a mulher do Sol, virada da cabaça. Pïdluré estava olhando: "Ah, já existe a mulher do compadre, agora sim, é mesmo, já existe mulher do compadre. Como é que eu vou ter também minha mulher? Eu preciso de uma mulher também; deixe estar. Eu vou pedir ao compadre". Aí o Sol já tinha mulher; já combinava a casa, a mulher dele já fazia de comer para ele. Depois é que Pïdluré foi lá: "Compadre, eu quero mulher também". E o Sol só ficou escutando e não dizendo nada para ele. Aí o Sol foi atrás de uma cabaça também, e diz-se que apanhou uma cabaça, assim feia, não era assim bonita não, como a mulher do Sol; uma cabaça assim feia já, por causa da broca, mas apanhou assim mesmo, mas estava bem. Aí furou e foi jogar dentro d'água. Aí foi embora. Quando passou pedaço, estava banhando também, e batendo, tocando borá e cantando. Aí Lua falou para o Sol: "Compadre, quem é que está tocando borá?" (Ah, esse é já no começo da mulher do Sol, Pïdluré perguntou no começo, que não sabia). Pïdluré ficou só esperando, só escutando, estava olhando toda a vida para o caminho, olhando toda a vida para o caminho. Aí daí a um pouco lá se veio a mulher do Pïdluré, mulher de Lua, vem chegando já perto. Aí diz-se que Lua falou, chamou-a: "Ei, mulher, chega cá, vem cá, aqui, aqui é que é minha casa, a casa de meu compadre é acolá, aqui é que é minha casa, pode vir para cá, eu estou aqui". Aí diz-se que chegou; ficou alegre, por causa da mulher, porque o Sol também fez mulher para ele, agora cada um deles tinha mulher, agora estavam passando, né?
Agora o Sol ficou assim pensando: "Como é que eu vou fazer, eu não vou trabalhar mais compadre assim de braço, não, eu vou fazer outra coisa". Aí o Sol ajuntou um bocado de ferro, machado, facão, levou e marcou um pedaço de chão, assim no mato mesmo, para fazer roça. Marcou um bocado de chão, assim vinte tarefas ou mais e aí botou o machado, o facão e aí foi embora. Com um pouco o machado estava trabalhando e o facão também estava trabalhando; o machado derrubando os paus, assim como a gente derruba, e o facão também ia roçando. Aí diz-se que Lua ficou assim assuntando: "Quem é que está trabalhando acolá, batendo machado, não sei o que, eu vou já olhar. Foi e aí, quando foi chegando as ferramentas, aí ficou tudo virado, caído, aí parou. Aí pronto: "Não!" Lua disse: "Não, não é assim não. A gente faz assim!" Diz-se que apanhou machado e foi descer no pau. Oh, mas atrapalhou tudo! Diz-se que se não fosse assim, diz-se que as ferramentas mesmo trabalhariam. Aí a gente não trabalharia com a força não, com o braço não. Diz-se que as ferramentas mesmo trabalhariam. Aí foram embora. Com um pouco o Sol ficou zangado com Lua: "Mas compadre, mas para que você foi fazer uma coisa dessa, agora é preciso de que nós mesmo trabalhemos, nós mesmos vamos trabalhar porque você foi parar o movimento acolá; pois nós precisamos de trabalhar de braço mesmo, com o braço mesmo; é preciso que saia o nosso suor do nosso corpo.
Aí lá se foi, lá se aquietou e foi indo, foi indo e disse que o Sol adoeceu, assim, com tanta tristeza de ter de trabalhar. Aí diz-se que imaginou diz-se que pensou: "Como é que eu vou fazer? Viver, eu não vou mais viver, não. Se morrer, o mundo vai se acabar, não vai haver mais não, não vai haver o mundo". Aí o Sol falou para Lua: "Compadre, vamos acolá, ao rio?" "Então vamos!" Foram lá para o rio. O Sol apanhou uma laranja e foi chupando, foi chupando, até que chegou ao rio. Aí o Sol falou para Lua: "Compadre, como é que nós vamos fazer, se nós morrermos, como é que faremos? Lua falou para o Sol: "Compadre, não sei como, não; pode fazer uma idéia, como nós vamos fazer". Aí o Sol falou para Lua: "Pois compadre, se nós morrermos, nós vamos fazer assim". Aí apanhou a laranja, jogou dentro d'água, dentro do rio. A laranja afundou e tornou a subir. Aí falou para Lua: "Olhe compadre nós vamos fazer assim, quando nós morrermos, nós vamos fazer assim, do jeitinho da laranja". Aí a Lua falou: "Não, compadre, assim não presta não; é bom é assim, você quer ver?" Apanhou pedra, jogou dentro d'água e a pedra afundou. "Pronto! Não sai mais". O Sol ficou assim triste, assim pensando: "Não sei não, acho que é isso mesmo. Compadre quer assim desse jeito, está certo". Aí diz-se que foram embora, lá para a casa, passou o dia, aí... Aí eles combinam outra vez: "Compadre, como é que nós vamos fazer?" "Não sei não, compadre, não sei não". "Compadre, eu estou doente, não sei como é que eu vou fazer não, não sei se eu morro, não sei não". Lua adoeceu; aí diz-se que Lua morreu. Morreu... e o Sol chegou lá e ficou assim com pena dele: "Não, não quero que o compadre vá ficar assim desse jeito não, que eu ando sozinho, eu preciso de meu companheiro, mas eu não vou deixar o compadre não voltar; eu vou fazê-lo voltar". Aí levou para o mato e o botou no pé de uma árvore, botou muita folha assim por cima dele e, não sei se é verdade que esse povo conta, de antigo, aí diz-se que cobriu com um bocado de folha, para o Sol não queimar, e foi embora; e daí a um pouco lá se veio Lua, diz-se que levantou, viveu outra vez; viveu. A Lua viveu outra vez e foi embora. Chegou. Aí falou para o Sol: "Compadre eu já cheguei, já voltei, não queria assim, não. Mas o compadre já me fez eu voltar!" Aí diz-se que foi passando muito tempo, passando muitos dias aí quando o Sol adoeceu outra vez, aí Pedro ficou assim, olhando-o, até que o Sol morreu. Lua apanhou: "Não sei como é que eu vou fazer com o compadre!" Apanhou o cavador, a enxada e levou. Fez sepultura. Levou o Sol para enterrar; enterrou e cobriu mesmo. Quando o Sol viveu, lá dentro do chão, da sepultura, aí não tinha por onde sair. Aí, virou aquele calanguinho miudinho; foi cavando, cavando, cavando, até que furou o buraco e saiu e foi embora; diz-se que foi embora. "Mas para que que o compadre fez assim comigo, eu não queria assim não, fosse com outro que não sabia, não teria voltado; mas é assim mesmo, não tem nada".
Pois bem, foram passando os dias, passando os tempos, outra vez, foi indo, aí diz-se que o Sol foi comer buriti. Havia só um pé de buriti; foi comer no pé de buriti. Aí foi comendo buriti e defecava só buriti; as fezes saiam assim com outra qualidade, aí Lua chegava olhava as fezes dele: "Mas as fezes do compadre são assim desse jeito, de outra qualidade, assim laranja e bonita, como é que é, que é que o compadre come?" Aí Lua chegou ao Sol e perguntou: "Compadre, que é que o compadre come, que fica com as fezes bonitas, assim desse jeito? Eu quero que o compadre me ensine esta comida para eu também comer, para que eu fique com as fezes assim do jeitinho das fezes do compadre". O Sol respondeu: "Compadre, olhe!" Apontou o dedo para Lua: "É aquela flor, é aquela flor de pau que eu estou comendo. Pode o compadre comer até que as fezes saiam como as minhas fezes saem. Aí Lua foi comer flor de pau; foi comendo, foi comendo... Aí, quando Lua foi defecar, as fezes saíram assim de outra qualidade, de outro jeito, feias, como Lua não queria que fosse; e aí foi falar: "Não, compadre, você me ensinou errado, não foi aquilo que você comeu não, foi outra coisa". Aí depois é que foi reparar, foi reparar Sol até que Sol foi comer buriti: "Ah, compadre, você me enganou, mas agora você não me engana mais não, eu também vou comer". Quando Sol foi embora, ele acompanhou o rastro do Sol, e foi chegar no pé de buriti. Lua apanhou buriti que não era bem mole como ele comia; era assim a metade mole, a metade dura e ficou assim até que Lua zangou: "Mas porque você não se amolece bem para eu comer assim como compadre come você; espera aí, é já que você amolece!". Diz-se que apanhou um buriti e atirou no pé de buriti. O pé de buriti alteou, assim como nós estamos vendo. Alteou o pé de buriti. Aí, quando o Sol chegou ele já estava lá em cima, e não podia chegar e não sei como que não cai assim no chão. Aí o Sol olhou e ficou zangado com Lua, mas não falou nada não.
(O narrador repete o episódio das ferramentas que trabalhavam sozinhas).
Aí chegou ficou assim pensando: "Como é que vou fazer?" Aí ficou assim sem fazer, sem pensar noutra coisa e foi indo, foi indo, foi indo, aí diz-se que chamou: "Compadre vamos caçar". Aí diz que foi embora (...) Quando foi para o mato, Lua falou para o Sol: "Compadre, eu quero que você me arranje um enfeite também para mim, como você tem enfeite, que estou gostando desse enfeite". Aí foram lá ao pé do céu. Aí lá se vai, pica-pau. Diz-se que quer derrubar o pé do céu. (Não sei se é verdade, que povo conta, de primeiro antigo). Foi indo, chegou lá, aí falou: "Oh compadre pica-pau, eu quero que você jogue aí um enfeite muito bonito para mim!" "Você quer?" "Eu quero". "Você quer enfeite?" "Quero enfeite, bem bonito!" Aí falou: "Pois bem, eu vou mandar, mas é última vez que eu mando esse enfeite, mas outra vez eu não mando; você pode assuntar e pode ficar ciente que eu não mando mais nenhum; eu já mandei um, agora vou mandar esse e mais nada, que eu não mando mais. E você, olhe lá, você pegue, você tenha coragem para pegar, se você não pegar, se cair no chão, aí nós vamos acabar, nós vamos acabar o mundo e o mundo vai se acabar, que o fogo pega mesmo, se você deixar cair..." Aí o Sol falou para Lua: "Olhe, compadre, agora você fique bem aí, deixe eu pegar para você, eu não vou ficar com o enfeite não, eu vou pegar e entrego para você, aí você toma conta de seu enfeite". "Não, não compadre, eu não quero que você pegue, eu mesmo vou pegar porque já é meu e eu mesmo pego. Não quero que compadre pegue, senão suja. Eu quero pegar eu mesmo". "Não compadre, você não pega não". "Não, compadre, eu pego!" "Olhe lá compadre, você pegue, se você não pegar, se ele cair no chão, se triscar no chão, aí vai levantar o fogo e nós vamos queimar, nós queimamos". Aí diz-se que o Sol foi ficou lá longe; Lua ficou no sol, aparando assim a mão, para pegar lá em cima. Aí o pica-pau soltou o enfeite, que veio já com fogo mesmo. Aí Lua ficou com medo de pegar. Quando caiu no chão, levantou fogo. Aí o Sol correu. Lua correu atrás também: "Eu morro, eu morro, eu queimo, eu não queimo, mas por que foi que eu não deixei nem o compadre pegar, eu podia ter deixado, o compadre mesmo pegaria para mim, mas é assim mesmo; sei que morro". Aí foi entrar no buraco do peba. Não sei como foi que não morreu assim lá dentro, assim de fumaça. Aí foi, o Sol foi embora e Lua entrou no buraco do peba. Aí o Sol foi se esconder lá na casa do marimbondo, aquele marimbondo da casa de barro, uma casa de marimbondo que é feita mesma de barro, aí foi esconder; quando o fogo passou, aí o Sol, falou assim: "Ele, meu compadre, queimou agora; agora eu vou ficar sem compadre". Aí foi gritando: "Compadre! Compadre!" Aí Lua respondeu. Lua respondeu, aí lá se veio Lua. Aí chegou: "Eh compadre, mas para que você deixou, compadre, quase nós morríamos, mas não tem mais nada não, vamos embora, agora nós vamos procurar carne, alguma caça sapecada nós vamos achar e nós vamos levar".
Aí foram indo, foram procurando, procurando, até que acharam capivara queimada, sapecada. "Compadre, esta é nossa caça, esta é boa; é caça boa, nós vamos levar esta caça. Arranjaram um lugarzinho, num olho d'aguinha, arrancharam e fizeram moquém. Foram tratar capivara. Aí o Sol falou para Lua: "Compadre, agora você tira a sua, pode tirar qualquer uma que você quiser, porque talvez eu dê uma que o compadre não queira; eu não quero assim não. Pode o compadre mesmo escolher, qual a que o compadre vai querer". Lua respondeu: "Eu vou ficar com a fêmea". Tirou, afastou. "Pode tratar!" Aí Lua tratou, tratou, diz-se que era assim meio gorda, não era assim gorda não, não tinha muita gordura. Aí achou de tratar, aí falou para o Sol: "Pronto, compadre, já pode o compadre tratar a dele". O Sol foi tratar a dele, mas era gordura demais. Lua ficou assim olhando-a: "Oh, podia eu ter ficado com esta aí, mas não tem nada não, vai ficar assim mesmo. (O Sol) tirou gordura, salgou e espetou e guardou. Quando foi moquear o moquém, Lua teve sono. Foi dormir. O Sol estava assando gordura, um pedaço de carne gorda, estava assado no jeito; quando já estava bem quente, bem quente mesmo, apanhou, levou ao Lua e botou bem na barriga: "Pega, compadre, levanta, vamos comer carne gorda!" Lua levantou assim avexado: "Compadre, você me queimou, porque o compadre fez assim comigo?" Oh, como é que eu me esfrio, eu morro de quente!" E foi assim cair no olho d'aguinha. Estava tudo rasinho; estava cavando, cavando, para afundar, para poder mergulhar. Diz-se que estava cavando, cavando, daí a um pouco achou uma tartaruga. Chamou o Sol: "Compadre, está aqui uma tartaruga, nós vamos tirar, vem cá, vamos tirar a tartaruga". "Não compadre, não tira não, senão nós acabaremos!" Mas Lua arrancou a tartaruga do olho d'água, aí lá se vai o rio. Saiu tudo de uma vez, foi uma água danada e foi no rio. Aí foi, carregou Lua, foi carregando, foi carregando. O Sol ficou assim esperando: "Não, eu preciso tirar, acudir meu compadre, senão eu fico sem companheiro!" Cortou um braço do buriti comprido, e foi ficar lá embaixo, foi tomar lá embaixo. Aí, lá se vem Lua, batendo água: "Ai compadre, ei compadre, eu morro compadre, me acode, compadre!" Aí o Sol jogou o braço de buriti, aí afastou até que saiu fora. Ficou cansado! Aí, quando descansou, foi embora para o riacho. "Vamos embora, vamos aonde está nossa casa". Aí foram, foram, foram, foram, foram, aí chegaram. Aí falou: "Meu compadre, quase eu morria ... mesmo cansadinho". "É, eu não mandei o compadre tirar tartaruga que ficou aí no olho d'água para criar água. Bem que compadre foi tirar. Agora está um rio. Quase você morria mesmo. Mas eu não mandei, eu não sou culpado, o culpado é o compadre mesmo". Aí levaram carne de capivara lá para a casa. Agora, quando chegaram à casa, acho que retalharam, não sei, retalharam não, porque já estava moqueada, estava assada.
(O narrador repete o episódio da origem da mulher).
Os episódios desse mito, nem todos presentes na versão que acabo de apresentar, quase sempre mostram o Sol querendo reter só para si aquilo que descobre ou cria. Lua só consegue o mesmo depois de lhe pedir ou de procurar insistentemente. Entretanto, nunca ouvi os craôs reprovarem a sovinice do Sol. Mas não poupam críticas ao comportamento desajeitado e desastroso de Lua. Mesmo assim, as escolhas de Lua não são de todo reprovadas: se a morte resulta de uma escolha de Lua, vale lembrar o argumento craô de que, se os homens não morressem, a população cresceria tanto e se tornaria tão pesada que o chão desabaria sobre o mundo subterrâneo.
Este mito sempre me evoca a peça de Jean Paul Sartre Entre Quatro Paredes, que se encerra com a conclusão de que "o inferno são os outros". É certo que Sol e Lua não estão encerrados num pequeno compartimento; pelo contrário, suas peripécias têm por palco a ampla superfície do mundo. Mas eles estão sozinhos e um só tem o outro para interagir. Para o Sol, e talvez também para quem narra e para quem ouve o mito, Lua é o outro, alguém que constantemente o observa, inveja e aborrece. Mas o mito vai além da referida peça e parece admitir também, como, se não me engano, Millor Fernandes disse em algum lugar, que "o paraíso também são os outros". De fato, apesar de às vezes agredir Lua, o Sol não deseja o seu desaparecimento, a julgar pelo seu brado, quando aquele é arrastado pela grande inundação: "Não, eu preciso tirar, acudir meu compadre, senão eu fico sem companheiro!"
O mito que aqui vou resumir está publicado nas pp. 83-86 do livro de Robert Murphy, Mundurucú Religion (Berkeley e Los Angeles: University of California Press,1958).
Karuetaouibö e Wakurumpö eram homens casados cada um com a irmã do outro. Karuetaouibö era tão feio que sua mulher não o queria mais, recusava peixe e caça que trazia, e ainda tinha relações com um outro homem.
Um dia, depois de uma pescaria coletiva com timbó, Karuetaouibö não retornou à aldeia com os outros e ficou no abrigo que havia lhes servido, a pensar na sua triste situação. O Sol e sua esposa chegaram e lhe perguntaram o que fazia ali. Karuetaouibö contou-lhes seu problema. Querendo averiguar a verdade, o Sol ordenou a sua esposa que tivesse relações sexuais com Karuetaouibö, de modo a saber se ele podia dar prazer a uma mulher. Ela tentou, mas o pênis dele continuou flácido e ele nada conseguiu. Ela relatou ao Sol o ocorrido e este examinou bem o corpo da esposa, mas nenhum vestígio de sêmen encontrou.
Querendo ajudá-lo, o Sol tornou o corpo de Karuetaouibö muito pequeno e o introduziu no útero da esposa. Após três dias ele voltou a nascer como um homem extremamente belo. O Sol entregou-lhe um cesto cheio de peixes e recomendou-lhe que retornasse à aldeia, mas não voltasse para sua mulher, mas procurasse uma viúva que vivia a chorar por seu marido que morrera em combate.
Na aldeia todos se admiraram da beleza de Karuetaouibö. Sua esposa começou a lhe mostrar atenção, mas ele a repudiou e foi propor casamento à viúva, que o aceitou.
Apesar de Wakurumpö não ser feio e de ser querido pela esposa, invejou a beleza de Karuetaouibö e quis saber como ele conseguira mudar tanto. Este não quis contar, mas Wakurumpö tanto insistiu que o outro lhe contou tudo o que lhe sucedera. Wakurumpö deixou-se então ficar sozinho depois de uma pescaria coletiva com timbó, como se fosse feio e desprezado pela esposa. O Sol chegou e tudo se repetiu. Ofereceu-lhe sua esposa para copular, e Wakurumpö teve com ela relações sexuais satisfatórias (pois Karuetaouibö não lhe tinha narrado essa parte de sua história). O Sol então o fez bem pequenino e o colocou no útero de sua esposa. Três dias depois ele renasceu, mas muito feio e corcunda. O Sol ordenou que ele voltasse para sua esposa, mas não lhe deu peixes e ele mesmo teve que pescá-los. Todos os que o viam chegar estranhavam a sua feiura. Mas sua esposa o aceitou de volta. Quando ele foi dependurar sua rede na casa-dos-homens, lá estava Karuetaouibö, que tocava flauta e entoava um cântico que fazia alusão à curiosidade de Wakurumpö pela vagina da mãe.
Wakurumpö, que era um poderoso xamã, resolveu um dia esconder o sol. Por meio de feitiçaria, pintou com jenipapo a face do sol. Também provocou fortes chuvas simplesmente girando seus dedos na direção do sol. Assim, estava todo o tempo escuro, ou chuvoso. Os outros xamãs se reuniram e tentaram fazer o sol brilhar, usando para isso penas de arara. Mas só conseguiram que se iluminasse o lugar onde estavam sentados. Todo o restante continuava escuro. Então, Wakurumpö fez uma faca de bambu e enviou-a ao céu para raspar o jenipapo da face do sol. E este voltou a brilhar outra vez.
Wakurumpö e Karuetaouibö foram mortos pelos inimigos e tiveram suas cabeças colocadas no topo de postes. Um menino gordinho foi encarregado de vigiá-las. Ele tinha herdado poderes xamânicos, mas ninguém sabia, nem mesmo ele. Um dia ele viu e ouviu as cabeças conversarem e se perguntarem quando subiriam aos céus. Ele gritou para os mais velhos, avisando-os, mas ninguém acreditou. Isso se repetiu várias vezes, mas os velhos achavam que o menino estava mentindo. Os homens enfeitaram as cabeças com urucu e penas. Alguns dias depois, elas disseram uma para a outra que naquele dia iriam subir. O menino deu o alarme, mas debalde. Ao meio-dia, elas começaram a subir, acompanhadas de suas esposas. Karuetaouibö e sua esposa subiram rapidamente, mas Wakurumpö ia devagar, porque sua esposa estava grávida. Os homens atiraram flechas contra os fugitivos, mas só a disparada pelo menino atingiu Wakurumpö, nos olhos.
Hoje, Karuetaouibö e Wakurumpö são o sol que percorre os céus. A lua é a esposa de Wakurumpö. Nos dias claros, é Karuetaouibö que está nos céus, bonito e de olhos vermelhos fulgurantes. Nos dias nublados é Wakurumpö, que se esconde envergonhado de sua feiura e de seus olhos opacos.
No mito que acabo de resumir, vale a pena sublinhar alguns aspectos. O primeiro é o caráter explicitamente edipiano de Wakurumpö: ele tem relações sexuais com a mulher que vai ser sua segunda mãe, aliás de modo curioso, pois o incesto precede a relação de parentesco; o cântico de Karuetaouibö chama a atenção para esse incesto. E tal como Édipo, Wakurumpö tem os olhos atingidos no final.
Em segundo lugar, o mito reitera a associação de Wakurumpö com os dias escuros: como xamã ele escurece o disco solar e mais tarde é sua própria cabeça que vai se transformar no sol dos dias nublados.
Em terceiro lugar, o sol se apresenta de quatro maneiras: o que brilha no céu inicialmente; o personificado que transforma Karuetaouibö em homem bonito e Wakurumpö em homem feio; e esses dois heróis cujas cabeças vão tomar o lugar do astro.
Finalmente, Lua tem aqui um lugar discreto: é apenas a esposa de Wakurumpö, o que veio a ser o sol dos dias nublados; mas que antes usou o jenipapo para escurer o disco solar, tal como Lua em outros mitos indígenas teve seu rosto manchado por jenipapo, quando sua irmã tentava identificar quem era seu amante. Ou seja, se em outros mitos Lua é o incestuoso, aqui é a esposa de um homem incestuoso.
O par Sol e Lua não é considerado pelos marubos, do sudoeste da Amazônia. O Sol (Vari) dá nome a uma de suas seções, componente de um grupo exogâmico: a dos Varináwavo. Mas não aparece em nenhum mito. Somente Lua (Oshe) tem lugar na mitologia, e apresento a seguir uma versão do mito de sua origem. É a mesma que foi publicada nas nas pp. 107-110 do "Relatório sobre os Índios Marubo", de Delvair Montagner e de Julio Cezar Melatti, Série Antropologia 13 (Brasília: FUB, 1975). Não está exatamente igual à citada publicação, porque fiz aqui pequenas modificações de modo a tornar o texto mais claro e contornar algumas obscuridades do português do prestimoso marubo, César, que a traduziu.
Primeiro Lua (Temitxóki) era gente. Queria fazer sopa de urucu. "Quem acabou meu urucu?" disse Temitxóki. Fez um tapiri para cuidar urucu. Ele viu do rio abaixo virem Nomã Sheta e suas irmãs Nomã Peko, Nomã Eva e Nomã Mashe. Viu-as chegando. Temitxóki pensara que era bicho que pegara seu urucu. Mas apareceu gente. Temitxóki estava sentado no tapiri. Tinha um galho de urucu curvado, baixinho. Mashe tirou aquele urucu. Tinha flor. Pintou a perna. Pintou dos lados dos olhos. Nomã Peko subiu no urucuzeiro. Eva, Mashe e Sheta estavam no chão. Temitxóki pegou Peko. Peko falou para Temitxóki: "Sai daí do chão, eu vou descer." Queria descer, mas Temitxóki correu para junto do urucuzeiro. Quando desceu, pegou Peko. Ela não correu. Falou para Temitxóki: "Pode me pegar, se não tem esposa. Se tiver esposa, não quero você não. Então eu vou catar seus piolhos." (Se Temitxóki não tivesse piolho, seria sinal de que tinha esposa). Quando mexeu no cabelo dele, tinha um piolho. O piolho tinha asa. Estava voando. O piolho foi aonde o urubu (chete vorokéne) está voando. Entrou embaixo da pena do urubu e ficou lá. Virou piolho de urubu. Então Peko falou para Temitxóki: "Vou casar com você, pois não tem mulher." "Sem mulher eu não tenho quem faça comida para mim", lhe disse Temitxóki.
Nomã Peko era mulher sabida. Ninguém via o que ela fazia. Fez uma pulseira de aruá, fez um colar, fez pendentes de orelha. Temitxóki mandou: "Você faz uma caiçuma." Ela não fez nada, mas tinha uma panelona, fechou com uma peneira. Pegou uma casca de banana madura e esfregou lá dentro da panelona. Pegou um caroço de milho, mastigou e jogou dentro da panelona. Fez e fechou com a peneira. Quando Temitxóki foi caçar, entrou e falou para ela: "Já fez caiçuma?" "Já, eu fiz." Quando levantou a peneira, viu caiçuma boa, com uma nata rachada na superfície. As velhas disseram: "Ela não fez nada, mas como será que conseguiu? Será possível que ela trabalhou?" Não sabiam ainda como ela fazia. "Eu não fiz nada desse trabalho", ela falou para outra mulher. "Nós fazemos muito serviço. Ela não fez nada, como que ela fez assim?"
Peko ficou grávida. Nasceu o filho dela. "Eu vou tomar banho", ela disse, "vocês cuidem do meu filho." Ela deu o filho a outra mulher. A criança chorou. A mãe do menino foi tomar banho no terreiro, mas a outra pensou que ela fora longe. "Não chora criança, você não é mulher, você é homem, mas como você criou sobrancelha de sua mãe. A criança não tem o rosto do pai, só o da mãe dela." A mãe da criança escutou essas palavras. Falou para a criança: "Vem para cá, meu rosto, não tem rosto do seu pai." A criança estava chorando; pegou o filho, foi brincando com ele. Ela foi pelo mesmo caminho pelo qual o marido tinha ido caçar. Estava brincando com a criança. Enquanto esperava o marido dela, atravessou o rio para o outro lado, que tinha praia. Estava brincando com a criança na praia. Quando ela atravessou, entrou o marido dela na casa. Perguntou: "Aonde foi minha mulher?" "Não sei, nós vimos quando estava aqui brincando com o filho dela." Ele foi procurá-la e viu-a do outro lado, sentada na praia. Falou para a mulher: "O que você foi fazer aí?" "Eu trouxe meu filho", disse a mulher, "porque disseram que ele não tem o rosto do pai, só tem o da mãe. E eu fiquei com vergonha. Eu já vou-me embora, onde meu pai está, eu tenho vergonha de entrar em casa. Se você quiser, vamos comigo até lá, na casa de meu pai. Tem no toco do pau uma folha de sanivotxosti. Eu deixei no toco do pau. Pega aquela folha, esfrega, pinga nos olhos, fecha os olhos, pensa aonde eu estou". Ele pegou a folha, esfregou, pingou em cada olho e pensou. A mulher estava longe. Quando pingou, fechou os olhos. Quando olhou, ele estava pertinho da mulher. "Vamos embora olhar minha mãe e meu pai."
Ela viu um verme, tirou-o. Ela disse que a minhoca era boa para preparar com sopa de milho. O marido fez paneiro de folha de açaí para a mulher. Botou dentro dele a minhoca. Chegaram lá aonde o pai dela está. A mãe dela ficou animada. "Mãe, cozinhe o poraquê, faça sopa para nós comermos." Ela chamava a minhoca de poraquê. "Eu procurei, mas não achei desse poraquê", o pai falou para ela. Fizeram sopa de poraquê e a tomaram. A mãe falou para ela: "Será que ele (Temitxóki) come?" "Ele não come, ele tem muito medo de poraquê", disse ela. Acabaram de tomar a sopa.
Ele viu Neã Tove, Neã Rasi e Neã Sina. Vêm brigando, cortando-se ao meio; quem era cortado, era emendado pelos outros. "Saia do meio você, pois eu não morro", disse a mulher para ele. "Eu já estou acostumada com isso", ela falou para seu marido. E fechou o marido dela dentro da casa. Quando ele viu cortarem sua mulher, ele correu com pena dela, queria olhá-la. Cortaram-no também. Quando cortaram, ele caiu; sua mulher correu e o emendou. "Vá embora, eu já estou acostumada com essa briga", disse a mulher para ele. A mulher o botou dentro de casa. Cortaram-no de novo. Cortaram a perna e pegaram-na. A mulher dele não o emendou mais. Os três levaram a perna de Temitxóki. Tiraram os testículos. Levaram da cintura para baixo. Botaram no ombro e levaram. Jogaram num lago. A perna de Temitxóki virou poraquê. Os testículos viraram caramujo aruá. A outra perna virou sucuriju. Ficou só o tronco da cintura para cima, com braços e cabeça. Assim reduzido, Temitxóki voltou. Caiu na água, foi embora para o fundo. Quando um peixe veio comer a perna dele, Temitxóki pegou-o.
Chegou lá na casa da mãe dele. Quando falou "Mãe!" ela abriu a porta. A mãe viu só tronco, sem pernas. Tinha peixe seguro na mão. Falou para a mãe: "Pega o peixe, mamãe; me mataram. Neã Rasi e Neã Tove é que me mataram." A mãe só ficou com o peixe. Ele lhe deu o peixe. "Meu filho está cortado". "Só peixe que eu trouxe."
Ele estava sentado no terreiro. Fez sopa de peixe. Acabou de comer. Sentado, Temitxóki falou: "Mamãe, o que eu viro?" Pensando nisso, falou: "Eu vou virar uma cabeça de terra. O que eu vou virar? Mãe, pensa para mim. Eu vou virar remanso. Eu vou virar um pau duro. Eu vou virar uma terra." Assim ele falava.
Andava "namorando" com cachorro, com mãe, irmã, tudo ele queria "mexer". Quando a pessoa dormia, ele ia cutucar e pegar o "negócio" da mulher. A irmã dele fez jenipapo misturado com água. Por isso que Lua tem meio sujo assim, de um tapa que levou.
Até que disse: "Mãe, eu vou virar Lua." Matou anta, cortou perna, colocou-a nele próprio, cortou pênis da anta e colocou nele. Matou uma arara e com o rabo fez uma picunha. Tinha um açaizeiro, subiu nele. Passou por um caminho (Nei Maspõ). Subiu, ficou lá no céu. Virou Lua.
Primeiro ele era gente. Cortaram-no. Virou outro jeito. Assim que virou Lua. Com toda a gente ele copula; cachorro, anta, veado, também ele "namora". Dentro da água tem gente que ele "namora".
Noma, termo que compõe o nome das moças que colhiam frutos no urucuzeiro de Temitxóki, quer dizer "juriti" e denomina uma desaparecida seção dos marubos, a dos Nomãnáwavo. Por sua vez, Nea, que compõe o nome dos três estranhos personagens que se decepavam mutuamente e depois tinham seus corpos emendados, quer dizer "jacamim", mas não dá nome da nenhuma seção marubo, do presente ou do passado.
No mito marubo, o caráter incestuoso, para não dizer totalmente promíscuo, de Lua contrasta com o dos personagens correspondentes nos mitos mundurucu (em que Lua é mulher, mas esposa de um incestuoso sui generis) e craô (em que Lua não comete incesto, mas está relacionado à menstruação). Entretanto, na versão apresentada, o episódio, comum a várias mitologias indígenas, da mulher que suja o rosto do amante desconhecido com jenipapo para descobrir no dia seguinte que ele é o seu irmão, está demasiadamente sucinto.
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