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Nesta aula serão focalizados os mitos de duas regiões referentes ao aparecimento dos seres humanos: um do alto rio Negro (noroeste da Amazônia), representado pelos dessanas; outro, dos panos do sudoeste da Amazônia, representados pelos marubos. Alto rio Negro
Retomarei aqui o resumo do mito que inicia o livro Antes o Mundo não Existia, apresentado na aula anterior. O que será apresentado agora está nos Capítulo II e III.
A viagem no trovão-cobra-canoa até a cachoeira de Ipanoré. Resumindo o Capítulo II:
Uma vez conseguidas as riquezas na casa do terceiro trovão, Ëmëkho sulãn Palãmin retornou a sua morada e depois subiu ao patamar correspondente à superfície da terra e chegou a um grande lago que deve ser o oceano. O terceiro trovão, por sua vez, desceu até atingir esse lago e aí se transformou numa cobra gigantesca, a canoa transformadora da humanidade. Ëmëkho sulãn Palãmin e Ëmëkho mahsãn Boléka eram os comandantes dessa cobra-gigante-canoa.
A canoa encostou na casa do primeiro trovão, onde os dois heróis entraram e agiram conforme o terceiro trovão havia ensinado. Repetiu-se o que havia acontecido anteriormente (os enfeites transformaram-se em seres humanos). E daí subiram, colocando casas de transformar gente. Na outra margem do lago, sem o conhecimento do irmão, Ëmëkho mahsãn Boléka, o primeiro grande pajé, colocou a morada guardiã do paricá, que viria a ser a sua própria casa e a de outros pajés que o sucederiam. Na mesma margem em que haviam estabelecido a 1a casa, os dois heróis povoaram outras três. Faziam sempre da mesma maneira: ao chegarem a uma casa, abriam a esteira que continha os enfeites e eles se transformavam em gente. A canoa navegava por debaixo d'água e as casas continuavam submersas, de modo que os seres humanos surgiram como peixes. Saindo do lago, a 5a casa foi instalada no que seria o litoral brasileiro, tal como as subseqüentes. Entrando pelo rio Amazonas, chegaram à 13a casa, que estaria onde hoje se ergue Manaus.
Entraram pelo rio Negro e a 15a casa se localizava onde hoje é a cidade de Barcelos. Na 16a casa Ëmëkho mahsãn Boléka se separou de seu irmão em meio a visões de caapi (ayahuasca, yagé) e passou a fazer a viagem fora da canoa, com sua gente, dessana. Ele ia estabelecendo as casas dessanas, enquanto seu irmão, que ia atrás, na canoa, instalava as casas dos tucanos.
E assim Ëmëkho mahsãn Boléka foi entrando nas casas desde a 17a até a 30a, sendo que a 19a ficava onde hoje é a Missão Salesiana de Tapuruquara; a 21a, 22a e 23a estavam onde atualmente se ergue a cidade de São Gabriel da Cachoeira; a 24a no atual povoado da ilha das Flores, na foz do rio Uaupés; a 26a, em Itapinima, no rio Uaupés.
Na 30a casa ocorreram grandes acontecimentos. Ëmëkho sulãn Palãmin havia resolvido que era tempo da humanidade começar a falar. Por isso, enviou seu bastão invisível para deter seu irmão, que ia na frente, de modo a fazer com que ele voltasse para essa casa. Os dois fizeram um rito para as duas mulheres que haviam sido originadas dos vômitos deles. Uma delas fumou um cigarro e deu à luz Gahpi (caapi, ayahuasca, iagé) mahsãn (pessoa). A outra mascou ipadu e deu à luz araras, japus e outras aves que têm penas coloridas de modo a proporcionar a todos bonitos enfeites.
Quando a mulher que gerou Gahpi mahsãn começou a sentir as dores do parto, suas pernas tremeram e acendou fogo para esquentar-se; seu tremor, seu arrepio e o calor do fogo passaram aos homens que estavam na 30a casa. Para receber a criança, colocou no chão trançados de arumã de diversas cores. A multiplicidade dos desenhos desses trançados penetrou nos olhos da humanidade. Enquanto tomavam o caapi, o mestre de canto, o kumu e os dançarinos viam os desenhos; e o kumu recitava os nomes deles, para que fossem lembrados. O sangue que a mulher perdeu impregnou os olhos da humanidade; o cordão umbilical cortado lhe apareceu sob a forma de pequenas cobras. Quando a criança estremeceu de frio no banho, o tremor passou para o homens. Quando a mãe pintou o rosto da criança com branco, vermelho e amarelo, essas cores apareceram na visão dos homens. Quando a mãe entrou com o filho na maloca onde estava a humanidade, as visões eram tantas que não viam mais nada, não podiam reconhecer-se. Cada qual começou a falar uma língua diferente.
Nesse preciso momento, Ëmëkho sulãn Palãmin chamou pela primeira vez Ëmëkho mahsãn Boléka de cunhado, embora fossem irmãos. E estabeleceu que os tucanos poderiam casar com os dessanas, ou melhor, estabeleceu as regras de exogamia e descendência.
Continuaram a subir, entrando nas casas, desde a 31a até a 39a, quando entraram no rio Tiquié. Aí, na 40a casa, as mulheres tiveram a primeira menstruação. Elas tinham chegado à adolescência. Ëmëkho sulãn Palãmin cercou a casa com um pari e manteve as mulheres atrás dele.
Só os homens continuaram a subir. Na 41a casa, Ëmëkho sulãn Palãmin açoitou os meninos, para que crescessem e ficassem fortes. Na 43a, ele cortou o cabelo das moças que tinham tido a primeira menstruação.
Continuaram a subir, entrando nas casas, da 44a até a 52a. A 47a ficava no lugar chamado Uirá-Poço. A 52a, na atual Missão de Pari-Cachoeira. Nesse ponto Ëmëkho sulãn Palãmin fez descer da canoa os tuiucas, cubeus, barassanas, caviries, yepá mahsá, mucuras e outras tribos, que subiram sozinhas, colocando suas casas. Em Cachoeira Comprida emergiram e subiram à superfície da terra.
A canoa-transformadora submergiu novamente e com ela desceram o rio os dessanas, tucanos, pirás-tapuias, sirianas, macus e os brancos, retornando à 40a casa, onde haviam ficado as mulheres. Elas foram levadas até à 43a casa, onde tiveram seus cabelos cortados. A humanidade tinha até então cabelos brancos; na 45a, Ëmëkho sulãn Palãmin deu a todos cabelos pretos.
Voltaram então à 39a casa, em frente à foz do rio Tiquié. E foram entrando nas casas, desde a 53a até a 56a. A 53a ficava onde é atualmente a Missão de Taracuá. Foi na 56a, situada na grande cachoeira de Ipanoré, que pisaram na terra pela primeira vez, pois tinham viajado até aí debaixo d'água.
Da cachoeira de Ipanoré para cima. Resumindo o Capítulo III:
À medida que a humanidade ia saindo para a superfície da terra, Ëmëkho sulãn Palãmin a ia dividindo. Por isso em Ipanoré há tantos buracos nas pedras.
Cada qual saiu acompanhado de sua mulher. O primeiro a sair foi Waúro, chefe dos tucanos. O segundo foi Ëmëkho mahsãn Boléka, chefe dos dessanas. O terceiro foi o pirá-tapuia; o quarto, o siriana. O quinto, o baniua. Este saiu com arco e flecha, e logo retesou o arco para experimentá-lo. Por isso os baniuas são bravos. O sexto foi o macu. A todos Ëmëkho sulãn Palãmin dava as riquezas das quais nasceram, recomendando-lhes serem mansos, fazerem grandes festas com danças e reunindo muita gente, não fazerem a guerra.
O sétimo a sair foi o branco, com a espingarda na mão. Ëmëkho sulãn Palãmin lhe disse: "Você é o último; dei aos primeiros todos os bens que eu tinha. Como é o último, deve ser uma pessoa sem medo. Você deverá fazer a guerra para tirar a riqueza dos outros. Com isso encontrará dinheiro." Depois de ouvir isso, o branco virou as costas, deu um tiro com a espingarda e foi para o sul, para a 21a casa, em São Gabriel da Cachoeira. Aí mesmo começou a fazer guerrra. Para o branco, a guerra é como uma festa. O oitavo a sair foi o padre, com o livro na mão, e Ëmëkho sulãn Palãmin mandou que ele ficasse com o branco.
Ainda saiu mais um ser invisível. Como os outros dissessem que era wahtin, ele não é como os seres humanos, é um fantasma ou demônio da mata.
Ëmëkho sulãn Palãmin e o terceiro trovão voltaram para suas habitações originais. A humanidade prosseguiu rio acima, após ter saído em Ipanoré. Entraram na 57a, 58a e 59a casa, mas já eram gente madura e faziam poucos ritos. A 59a casa era na cachoeira de Iauareté, onde hoje é a sede da Missão do mesmo nome, na foz do rio Papuri. Nesse ponto entraram no rio Papuri os dessanas, sirianas, tucanos e pirás-tapuias. Os baniuas, cubeus e uananas subiram o Uaupés a partir de Iauareté.
Os que subiram o Papuri, continuaram a entrar em casas, da 60a à 64a. A 61a ficava em Terezita, na Colômbia. Aí entraram no rio Macu, em cujas cabeceiras estava a 62a casa. As outras seguintes estavam no meio da mata. Caminhavam por dentro da terra.
Cruzaram a mata e chegaram de novo ao Uaupés, ingressando na 65a casa, na altura da atual povoação de Santa Cruz de Aracapuri, na fronteira com a Colômbia, acima da foz do rio Querari. Então desceram o Uaupés, entrando na 66a e 67a casa, esta na grande cachoeira de Caruru, acima de Iauareté. E daí voltaram à cachoeira de Ipanoré, passando pela 59a, 58a, 57a e 56a casa.
Depois disso houve três grande desastres: dois incêndios e um dilúvio. A cada um deles corresponde uma destruição e uma nova criação da humanidade. A que existe atualmente é a quarta, que não será mais castigada por Ëmëkho sulãn Palãmin, pois dá muito trabalho começar tudo de novo.
Comentário. Esta versão do mito, como qualquer outra, é narrada de um ponto de vista. Neste caso, do ponto de vista dos dessanas ou mais precisamente, do grupo patrilinear Tolaman Kenhíri, a que pertencem os narradores, e que tem por sede a povoação de São João, no rio Tiquié, lugar em que se erguia a 50a casa do mito. Por isso a versão deixa em aberto a dispersão de outras etnias por lugares afastados deste ponto. Nada diz do rio Içana, onde se concentram os baníuas. Refere-se ao desembarque dos tuiucas, cubeus, barassanas, caviries, yehpá mahsá e mucuras, que deixam o trovão-cobra-canoa em Pari Cachoeira (52a casa) e caminham por debaixo da água, emergindo na cachoeira Comprida, que fica no rio Tiquié, justamente no ponto em que entra no Brasil. Mas, nada mais informa sobre eles: "Os nomes de suas casas, somente eles é que conhecem" (p. 69). Da mesma maneira são tratados os baníuas, cubeus, uananas que sobem o rio Uaupés a partir de Iauareté (59a casa): só eles conhecem os nomes delas (p. 75).
Na direção oposta, rio-abaixo, o mito foi certamente adaptado a conhecimentos recentes relativos a regiões distantes conseguidos no contato com os brancos. As quatro primeiras casas são colocadas num lago de leite e as sete seguintes num rio de leite que com ele se comunica. Nenhuma delas tem uma referência geográfica moderna; estão num espaço puramente mítico. A primeira correspondência com locais hoje reconhecíveis ocorre com a 12a casa, que ficava junto à foz do rio Amazonas. Entretanto, toda a extensão deste rio desde o mar até a confluência com o rio Negro é ignorada, pois a 13a casa corresponde a Manaus. A partir desta cidade, bem conhecida, freqüentada e alvo migratório dos atuais índios do noroeste da Amazônia, a distância entre cada casa mítica e a seguinte diminui.
"A futura humanidade se transformava, crescendo, casa por casa, como a criança cresce, ano trás ano" (p. 62). De fato,
Casas míticas no noroeste da Amazônia |
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Esse crescimento físico é marcado ritualmente. O trovão-cobra-canoa interrompe a subida do rio Uaupés para entrar no rio Tiquié no qual faz um certo movimento de vaivém. É nas casas que se dispõem ao longo do rio Tiquié, desde a foz até o alto curso, numa série que tem a casa inicial e a final com o mesmo nome, "gaviões" (a 39a e a 51a), que ocorrem os eventos que sugerem a iniciação dos rapazes e moças. Só depois delas, na 52a, é que se dá a primeira saída do trovão-cobra-canoa. Mais precisamente, enquanto as mulheres, que tinham tido a primeira menstruação, permanciam reclusas na 40a casa atrás de um pari (cerca de talas e varas para apanhar peixes), só os homens subiram o rio, sendo os rapazes açoitados na 41a casa. Quando os homens retornam do alto curso do Tiquié, as jovens são então levadas à 43a casa para terem seus cabelos cortados. E daí é que foram todos à 45a casa para ganhar cabelos pretos.
Antes mesmo da iniciação, a humanidade começa a se diversificar socialmente; na 30a casa, no rio Uaupés, pouco abaixo da foz do Tiquié, ocorre a diferenciação das línguas e o estabelecimento das relações de afinidade.
Uma outra volta dão os seres humanos depois de formados, saindo de Ipanoré (56a casa) e para aí retornando, depois de subir o rio Papuri, o rio Macu, atravessando por terra para o Uaupés e descendo-o. Mas não há como dizer se tal percurso corresponde a alguma outra etapa do ciclo de vida individual.
Cada uma dessas 67 casas (ou mais, pois aquela criada por Boléka no lago de leite sem o conhecimento de Palãmin, e uma outra, entre a cabeceira do rio Macu e o curso do Uaupés, não foram numeradas) tem um nome que sugere algo, claramente ou não. Valeria um trabalho etnográfico em que o pesquisador percorresse os locais atuais a elas correspondentes, ouvindo o que têm os indígenas a falar sobre eles.
Quando fiz pesquisa entre os índios marubos, no entre 1974 e 1983, tive como co-participante a etnóloga Delvair Montagner, que depois desse período continuou a visitá-los. Tomamos então três versões do mito de Wenía, que é constituído de vários episódios. Também colhemos versões de episódios narrados isoladamente.
Fiz uma análise deste mito no trabalho "Wenía: a origem mitológica da cultura marubo" (Série Antropologia, n° 54. Brasília: UnB-Departamento de Antropologia, 1986), no qual foram consideradas todas as versões e também os episódios narrados isoladamente. Nenhuma versão, entretanto, foi apresentada por inteiro e foram utilizados fartamente quadros para resumi-las.
Na verdade, há tantos detalhes nesse mito que é impossível resumi-lo. Vou simplesmente comentar seus episódios. O mito de Wenía conta como surgiram os marubos e como aprenderam durante a sua caminhada ao longo de um grande rio, da foz para a cabeceira, importantes itens de sua cultura: os nomes pessoais e a maneira de transmiti-los, a aplicação dos termos de parentesco, a prática do parto, a proibição do incesto, o modo correto de chorar, a comestibilidade da pupunha, a "injeção de sapo", a origem das plantas, a maneira de cultivá-las.
As seções saem do chão. Os marubos estão divididos em unidades exogâmicas matrilineares. Cada uma dessas unidades se divide em duas seções, as quais são compostas pelas gerações alternadas da unidade. Apesar disso, os marubos tratam as seções como autônomas, como exemplifica o próprio episódio de sua origem, em que cada qual sai sozinha de um buraco. O afloramento de cada uma segue o padrão das demais: as flores de um vegetal, pedacinhos de seu tronco picados ou roídos por um animal, penas ou fezes de uma ave, ou outros fragmentos, se espalham pelo chão, às vezes movidos pelo vento: não raro o solo é embebido pelo "sangue" de um vegetal. Dentro do chão, por debaixo desses fragmentos espalhados, os membros da seção começam a gemer. E saem por um buraco, subindo por uma escada feita de osso de anta. Homens e mulheres saem enfeitados com contas e diademas de penas que como que iluminam tudo. Acompanha-os um líder e às vezes sua irmã. Dirigem-se para um campo e aí dançam. A movimentação de cada seção estimula uma outra a sair.
Início da caminhada, visagens. É um episódio obscuro. Conta como as seções vão encontrando certos seres - vegetais, animais, lagos - que falam ou cantam. Mas, quando os caminhantes chegam perto deles, ou ordenam as mulheres que conversem com eles, tais seres se deslocam, indo para o norte, o leste, o oeste, ou então mostram que não passam de um simples vegetal, sem capacidade de fala ou cântico.
Descoberta da pupunha comestível. Ordena-se a uma velha que experimente cada um de vários vegetais que vão sendo encontrados. Em cada experiência ela padece de algum dano: inflama a garganta, a fruta se prende na goela, parte o lábio. Até que encontra a verdadeira pupunha comestível.
Aprendizado dos termos de parentesco. As seções vão encontrando sapopemas, sapos cururus, montes de terra, açaizeiros, pupunheiras, a que chamam por termos de parentesco, conversam com eles, reconhecem se são membros ou não da mesma seção, oferecem-lhes ornamentos.
Disposição dos cadáveres. O episódio se resume numa série de casos semelhantes em que um velho ou velha se cansa e não pode mais andar, o que significa dizer que morreu. Seu corpo é então colocado entre as sapopemas, isto é, raízes tabulares de uma árvore, transformando-se numa casa de tapiba, uma espécie de cupim; ou num buraco raso, virando embaúba.
Dizimação por ferroadas e choques elétricos. Membros das diferentes seções são ferroados por tocandeiras, formigas de fogo, ou levam choques em pontes de tronco de palmeira, e viram macacos pregos, balseiros. Muitos foram os que saíram do chão, mas foram aí dizimados.
Aprendizado dos cânticos de cura e feitiço. Os cânticos de cura e de "maltratar" são ensinados a cada seção por sucurijus, chamadas Ĩpe ou por camaleões (Kẽchi). Enquanto cada um deles ensina, um outro ser chamado Osa Rono Yochĩ (rono é termo genérico para cobra; yochĩ é nome dado a espíritos geralmente malévolos), coloca-se atrás, dizendo besteiras e manipulando o próprio pênis, provocando o riso dos aprendizes.
Descoberta da "injeção de sapo". Os marubos, como vários outros grupos indígenas da sua região, usam a secreção da perereca Phyllomedusa bicolor como remédio contra a preguiça e o panema. Ela é aplicada sobre um par de pequenas queimaduras feitas com as pontas em brasa de cipó titica, provocando vômitos imediatamente, que somente cessam com um banho. Diz uma versão do mito o que segue. Encontraram Noa irí (irí = sapo parecido com o cururu). Aí tiraram leite do sapo e a velha experimentou para tomar injeção de sapo. Aí ela caiu. Estava morta. Até que ela acordou de novo. Quando ela se levantou: "Esse remédio não é bom, meu filho, quase vou para o céu. Não faz mais isso, não é bom." Continuaram para a frente. Experimentaram também o sapo Noa Kãpo. Aí a velha experimentou de novo. Tomou injeção de sapo e caiu no chão. "Agora esse kãpo pode usar, esse é bom. Eu estou velha, mas fiquei leve; deu mais saúde". Era assim que falava a velha.
Origem dos nomes pessoais. As seções encontram um homem chamado Wa Mãni e sua esposa, Wa Maya. Cada seção sentou-se num tronco caído e recebeu os nomes pessoais para seus membros. Os homens receberam-nos de Wa Mãni; as mulheres, de Wa Maya.
Remédio para a menstruação. Os homens pensavam que a menstruação era o resultado de um ferimento. Por isso, tiravam raspas de uma árvore chamada shai mashó para fazerem curativos nas mulheres.
Aprendizado do ato sexual. Os membros de uma seção encontraram Tama Kãke, que era um macaco-prego (chino). Perceberam que estava brincando, achando graça. Foram observá-lo devagarinho. Viram que estava copulando com sua companheira. Tendo assim aprendido o que não sabiam fazer, voltaram correndo. Uma mulher estava varrendo o terreiro e um deles logo pegou-a de teve relações sexuais com ela. Mas passaram a copular indiscriminadamente, pois não sabiam que certas parentas deviam ser evitadas. Os chefes Võko Kama, Vari Rare e Shane Rare observavam; eles sabiam como devia ser feito.
Relações sexuais com seres estranhos. Algumas mulheres-vegetal foram encontradas. Elas estavam nuas e tinham abundantes pêlos no que corresponderia à púbis. Para serem penetradas fazia-se necessário manter suas vulvas abertas com auxílio de uma cunha ou estaca. Mesmo assim, elas quase sempre se fechava, prendendo os homens pelo pênis. Os assim apanhados eram transformados em vegetais e eram abandonados pelos demais. Alguns se casaram com corujas, como no trecho a seguir de uma das versões.
Continuaram abeirando o rio. Continuaram para a frente. Chegaram lá a Vari Chichi (coruja). Casaram com ela. Chichi Shavo chorava na boca da noite. Chorava quando gente ia morrer. Ela sabia que gente morreu. Assim que todo dia ela fazia.
Shanevakenáwavo também casou com Shane Chichi Shavo, que também chorava. Aí passaram e continuaram para a frente.
Tribo de Varivakenáwavo casou com Shao Txori Shavo (coruja). Chorava de noite também. Aí deixaram e continuaram para a frente.
A tribo de Inovakenáwavo também. Casaram com Vari Popo Shavo (coruja). Casaram com ela e aí ficaram lá. Ela tirava o couro da cabeça, botava no joelho e aí comia piolho. Aí ela falou para ele, ensinou para ele: "Quando você vier chegando perto, chega aí e bate sapopema para mim." Para ela saber e colocar o couro na cabeça. Todo o dia ela fazia isso. Aí quando ele chegava na sapopema, batia na sapopema. Aí ela colocava o couro na cabeça. Assim que ela fazia. Aí o marido pensou: "O que que ela tem?" Quando ele foi para o mato, quando voltou, não bateu, veio devagar para saber como ela fazia. Viu ela tirar o couro da cabeça, botar no joelho e comer piolho. Aí chegou lá, vindo devagar, chegou até ela. Ela se espantou, pegou o couro e "calçou" ao contrário (a orelha ficou ao contrário). Por isso é que coruja tem orelha assim, ao contrário. Aí continuaram para a frente, e a coruja ficou. Continuaram a andar, abeirando o rio.
A ponte-jacaré e a eliminação dos incestuosos. Sobre a dramática travessia vou transcrever uma das versões do mito.
Continuaram de novo para a frente. Rovovakenáwavo aprenderam o que Tama Kãke fazia e aí fizeram em todo o mundo. Aí foram namorando com irmã, irmão. Quando fizeram isso, Vari Rare viu. Vari Rare falou para eles: "Não façam isso, vocês estão fazendo errado." Aí, quando falou isso, não ouviram nada. Vari Rare pensou, falou com outro chefe irmão (Vari Võkó): "Esse povo que está fazendo errado, e agora, o que nós fazemos?" E Waka Veka também falou com a mulherada, mas não ouviram suas palavras. Vari Veka e Mema Nia também falaram com a mulherada. Falaram também, mas não as ouviram. Pensaram: "Nós falamos, mas elas não ouviram nada. Võkó Kama e Waka Võkó pegaram e deram (bateram) neles, naqueles que não ouviam a palavra. Fugiram, andando na beira do rio.
Aqueles que estavam andando na beira do rio ouviram aquela zoada de água. Viram uma ponte atravessada no rio. Viram aquela ponte e voltaram para trás. Voltaram, correndo, atrás do chefe. Chegaram lá com ele e contaram: "O que nós fazemos? É uma ponte atravessada no rio." O chefe falou para eles: "Aquele que falava é ponte de jacaré (Kapé Tapã)." O chefe foi olhar. O chefe falou para eles: "Bem, vamos limpar essa ponte, nós vamos atravessar para o outro lado do rio."
Acharam outro tapã também: Rovo Sheke Tapã, encontrado por Rovovakenáwavo. Esta ponte não agüentava peso e arriava quando a gente subia.
Só acharam Rovo Kapé Tapã (a primeira a que se referiu). O chefe falou: "Esse é Kapé Tapã." Tem também uma embaúba (tsãtse võkó) na bunda de Kapé Tapã. No meio também pimenta (kapé itsa yotxi = pimenta catinga do jacaré; antigamente se chamava võkó toá). Tem outra pimenta, chamada toro yotxi (toro = redondo). No ouvido de Kapé Tapã tem uma abelha (ino teva). Viram ino teva. No nariz de Kapé Tapã também tinha caba; chamava-se sheta vina.
Shanevakenáwavo, Varivakenáwavo, Rovovakenáwavo, o chefe os mandou, todas as tribos, limpar o Kapé Tapã. Aí os parentes deles capinando por cima do jacaré (Kapé Tapã), e Waka Veka e Vari Veka atrás dos homens, varrendo. Shane Veka também (todas três, mulheres). Varrendo em cima do Kapé Tapã.
Assim, trabalhando, e mulheres também, todas doidas, namorando todo o mundo na frente do Kapé Tapã. Namoravam com tia e sobrinha, e mulherada namorando tio, irmão, tudo isso na frente do Kapé Tapã. Quando fizeram isso, fazendo errado, o chefe não olhou para eles não, só olhando para a frente. Ele não disse nada. Ele pensou: "Fica guardando aí, depois o que que eu faço?"
Terminaram o trabalho de limpar Kapé Tapã. Aí, quando quer atravessar para o outro lado, o chefe procurou tribo de Varináwavo, aquele que era mais sabido passava. O chefe é que estava ajuntando gente boa, que não estava fazendo errado. Tribo de Shanenáwavo, Varináwavo, também o chefe procurava qual que errado. Aquele errado fica lá, aí na beira. Rovovakenáwavo está aí também fazendo errado, aí na frente de Kapé Tapã. Inovakenáwavo, Satavakenáwavo, Txonavakenáwavo, Wanivakenáwavo, dessas tribos também procurou qual gente boa.
Queria atravessar, pegaram arame (mane sheo). Pegaram jacaré (Kapé Tapã) e amarraram a boca, para não morder. Kapé Tapã falou para eles: "Vocês querem atravessar em cima de mim; eu estou sentindo fome." Pegaram um [daqueles que faziam coisa errada] da tribo Varináwavo e jogaram para Kapé Tapã comer. Kapé Tapã falou: "Eu não enchi nada." Mataram txasho também e deram para Kapé Tapã comer. Aí ele comeu e depois falou: "Eu não enchi. Eu quero comer irmão de vocês mesmo." Aí pensaram: "O que nós fazemos?" Quando Kapé Tapã falou isso, pegaram Awá Nawa Mavi e deram para o jacaré comer. Pegaram-no, fazendo força mesmo, arrastando-o. Até que abriu a boca do jacaré. Quando abriu, jogaram lá dentro da boca do jacaré. Quando abriu a boca do jacaré, viram que lá dentro tinha fogo. Chamava-se txi rãta. O jacaré falou de novo: "Eu não enchi nada." Pegaram também Tsitsa Nawa Mavi, pegaram arrastando, fazendo força, até que jogaram lá dentro do jacaré. "Agora eu já enchi", o jacaré falou.
Quando acabou de comer, aquele Kapé Tapã falou: "Podem atravessar por cima de mim." Mama Nia (chefe de mulheres) animou a mulherada. Dançaram na frente de Kapé Tapã. Varivakenáwavo, Txonavakenáwavo, Satavakenáwavo, continuaram para atravessar. Mulherada também, foi saindo dançando em cima de Kapé Tapã. Atravessou muita gente. Atravessaram para o outro lado, dançando.
Aí o chefe falou para aqueles errados: "Vocês ficam aqui, depois vocês atravessam; agora nós vamos na frente." Quando atravessaram, aqueles Varináwavo, Wani; aí Rovovakenáwavo, aqueles errados, vinham atrás. Quando os errados estavam no meio, Waka Võkó e Waka Panã pegaram o machado e deram com o machado no Kapé Tapã. Rolaram Kapé Tapã e este virou. Quando virou, a gente caiu toda na água. Acabaram-se aqueles errados.
Quando caíram na água, as piranhas comeram-nos todinhos; ene kewã (piraíra?) também. Quando rolaram, o Kapé Tapã foi na água e misturou com sangue dos Rovonáwavo. [Não havia apenas Rovonáwavo errados; de outros grupos também]. Rovõvakeshávovo tiraram aquele sangue da água. Tiraram o sangue da água, tocaram na boca, sopraram e falaram: "A nossa tribo acabou, e por isso que pegamos aquela água." Sopraram para o oeste. Quando aquelas sopraram, o sangue foi embora para o lugar que chama Veno Pei (veno = coruja). Caiu aí; não gostou do lugar, levantou de novo e foi embora para o lugar do Roe ika (tribo de branco, americano, por aí assim, no oeste, onde é fábrica do machado) (são os incas). Virou Roe Isko (virou branco).
Pegaram o sangue e sopraram para o fundo da água. Foi para uma árvore que chama ene voá potache (árvore dentro da água; ene = água). Virou ene isko. Assim que fizeram.
Tiraram sangue e sopraram. O sangue foi para Noa Mató Wetsa. Virou Rovo isko (é branco).
Os espíritos dos mortos também saíram e foram para Noa Mató Wetsa. Viraram chino (não é chino não, é civilizado, porque pintaram com vepache, apagado, passando na testa). Os espíritos dos mortos foram embora para o Noa Mató Wetsa e viraram outro Rovo chino.
Acabaram de fazer isso, dançaram.
Aprendizado do parto. Se foi o macaco-prego que ensinou aos primeiros homens o ato sexual, foi a mulher do macaco-prego (Tama Kãke aivo) que ensinou a fazer o parto. Quando a mulher estava a ponto de dar à luz, seus parentes choravam. Depois cortavam-lhe o ventre, tiraram a criança e a mulher morria. Tama Kãke aivo então se apresentou com uma criança em cada braço e lhes ensinou como fazer o parto, fazendo a mulher apoiar-se num pau e, colocando-se atrás dela, segurou-a por debaixo dos braços e mandou que fizesse força.
Como é comum que cada um desses episódios seja repetido para cada seção, aparecem também outros personagens que ensinam o parto: Shane Makõ Aivo, Nane Makõ Aivo, Ino Makõ.
Aprendizado dos remédios para crianças. É um casal de velhos que ensina os remédios para curar os males que afetam as crianças. Procuram-nos no mato e os ensinam. Esses remédios servem para curar disenteria, côr amarela e doenças provocadas pelo sereno, por visagens e pelo consumo de animais como porco-queixada, tatu, jacu, mutum, inhambu, cujubim, jacamim.
Aprendizado do choro e da cremação dos cadáveres. Cada seção aprendeu a chorar de maneira correta com um ser diferente: os Varináwavo, com a mãe-da-lua; os Rovonáwavo, com o grilo; os Inonáwavo, com o cujubim; os Txonavo, com o mutum. Um ser chamado Koá Koá Sheni (koá é queimar, sheni é velho) ensinou a cremar os mortos e também como se chora.
O mutum dá a conhecer as plantas cultivadas. Os homens não sabiam qual era caça boa, só comiam passarinho. Cozinhavam embira para tirar banha. E queimavam casca do vegetal agarra-pé para comer com anta. Um homem que foi procurar agarra-pé, escutou um mutum e resolveu flechá-lo. O mutum lhe disse que ele não podia fazer isso e perguntou-lhe o que fazia. Quando soube que ele procurava agarra-pé para comer, o mutum levou-o para a casa dele e lá lhe deu milho, macaxeira, maniva, banana, muda de banana e lhe recomendou a fazer roça e plantá-los.
A versão desse episódio incorre em contradições, pois começa dizendo que os homens só comiam passarinho e em seguida diz que tiravam agarra-pé para comer com anta e mostra o homem a tomar o mutum como caça.
Oni Weshti cria as plantas cultiváveis. Os caminhantes continuaram para a frente. Chegaram lá aonde estava Oni Weshti, sentado em cima de um toco de kapi. Oni Weshti recusou-se a conversar com os membros das seções à quais ele não pertencia. Recebeu bem os Varináwavo e os Shanenáwavo, dizendo-se parente deles.
Oni Weshti era casado com quatro esposas: uma mulher-cururu, uma mulher-caranguejo (era Shoma Wetsa), uma mulher-inhambu e uma mulher sapo (achá). Todas elas preparam bebida para os recém-chegados.
Depois, respondendo às perguntas dos visitantes, Oni Weshti contou como criou os vegetais cultivados, como está no trecho de uma das versões, a seguir.
(Os Varivakenáwavo) Perguntaram: "O que é a plantação de você? Oni Weshti disse que matou um tiçu-açu (shoa sheke, um calango). Matou-o, plantou o tronco. Virou mamão (shõpa). Quando carregando fruta, a gente que quiser, cozinha, faz caiçuma. Outro que quiser come cru, quando maduro. Assim que ensinou.
Plantou chona awá (anta). Matou anta, plantou tronco, nasceu banana (awá mani). Quando carrega cacho, quando madura, a gente que quiser come crua; tira verde, come assada. Quando tem muito madura, a gente faz caiçuma. "Essas plantas, banana, vocês podem criar com seus filhos, é alimento bom."
Perguntaram: "Como você plantou essas plantas?" Aí Oni Weshti falou que que matou chona yawa (queixada), plantou, nasceu macaxeira (yawa mato atsa). Quando tira batata, gente que quiser faz, cozinha aquela batata, faz caiçuma também.
Perguntaram os Varináwavo e os Shanenáwavo: "Como você plantou isso, nosso velho?" Ele falou: "Matei chona iso, plantei o tronco, virou macaxeira (iso ina atsa). Todas as plantações contou para eles, para saberem.
Perguntaram sobre outra macaxeira: "Como você plantou isso?" "Tirei um galho de pai komã (uma árvore), plantei aquele galho. Virou koma atsa."
Matou vata nawa (tribo), plantou osso do vata nawa e virou macaxeira (vata atsa).
Matou queixada (chona yawa), tirou osso de queixada, plantou e virou macaxeira (vochni atsa; vochni = o cabelo da nuca do queixada). Assim que ensinou.
Falou Oni Weshti: "Essa planta é veroch atsa (veroch = olho, parece). Quando tem batata, a gente come cozida." Ensinou todas as plantas que a gente precisa comer.
Perguntaram de novo: "Oh nosso velho, como você plantou isso aí." "Matei chona pano, tirei tronco, plantei, nasceu banana (pano shavá mani) [bananeira baixinha, de folha graúda]. Quando madura, come-se crua." Ensinou a plantação. Assim que ele fazia.
Matou poraquê (chona koní), plantou o tronco, nasceu banana (chiko mani).
Matou anta magra (txo awá), plantou, nasceu banana (txo mani). Ensinou plantação.
Matou macaco careca (mãko chino), plantou, virou koro yovi. Ensinou plantação.
Matou chona kai. Plantou tronco, nasceu banana (kai mani = banana roxa, banana-guariba). Ensinou planta. "Quando tem madura, a gente come crua." Ensinou planta.
Matou chona mapi. Tirou a criança que tinha dentro do mapi (camarão), plantou, nasceu mapi kari. Aí lhes ensinou.
Matou traíra (Noa tismã), tirou criança da traíra, plantou, nasceu tismã poa. Ensinou planta.
Matou chona awá. Tirou pá, ombro, plantou, virou poa (awá pesho poa; pesho = pá ou ombro).
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