1a aula

Introdução

Julio Cezar Melatti

Retocado em abril de 2003

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Mitos Indígenas
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Este curso tem por objetivo oferecer um panorama dos mitos das sociedades indígenas que vivem no Brasil. É breve e pouco tem de sistemático. Apoia-se sobretudo em minha experiência com o tema. Por isso, retira seus exemplos sobretudo das sociedades craô e marubo, com as quais tive contato direto.

Antes de passar à interpretação dos mitos, convém dizer algumas palavras sobre dois autores que tiveram grande influência nos estudos sobre mitos da segunda metade do século XX.

Malinowski

Um desses autores foi Bronislaw Malinowski. Ele reuniu suas idéias sobre mito no ensaio Myth in Primitive Psychology, publicado pela primeira vez em 1926, e do qual existe tradução para o espanhol no volume Estudios de Psicologia Primitiva (Buenos Aires: Paidos, 1949).

Malinowski inicia esse trabalho distinguindo três conjuntos de teorias referentes a mitos. Um deles seria a escola de mitologia da natureza, segundo a qual os mitos constituiriam tentativas de explicar os fenômenos naturais. Dentro dessa escola havia divergências, admitindo certos pesquisadores que a Lua seria o principal motivo estimulador dos mitos; entre eles se contaria Paul Ehrenreich (que no século passado esteve no alto Xingu, na ilha de Bananal e no rio Purus). Outros, entre os quais o africanista Leo Frobenius, tinham o Sol como foco da atenção dos mitos. E havia ainda os estudiosos que associavam os mitos a fenômenos meteorológicos. Esses pequisadores faziam parte da Sociedade de Estudos Comparados do Mito, fundada em Berlim em 1906.

Havia também uma escola histórica, presente na Alemanha e nos Estados Unidos, e da qual Rivers seria o representante na Inglaterra, que tomava o mito como um relato sagrado equivalente a um repositório verídico do passado.

Malinowski se coloca num terceiro conjunto de pesquisadores, que faz uma íntima associação entre mito e ritual, entre a tradição sagrada e as normas da estrutura social, ao qual também pertenceriam o psicólogo Wundt, o sociólogo Durkheim, o antropólogo Mauss, o historiador Hubert, todos de algum modo influenciados por James Frazer. Porém, Malinowski quer mais, quer trazer a atenção do leitor para as contribuições do trabalho de campo, no caso o seu, nas ilhas Trobiand, para o cotidiano da vida dos nativos que contam os mitos.

Um dos trechos de grande interesse do ensaio de Malinowski é a apresentação de uma classificação das narrativas feita pelos próprios trobiandeses. Elas se distribuem em três categorias:

Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss, sem negar a contribuição de Malinowski, uma vez que também ele admite a relação dos mitos com a organização social e os outros aspectos da cultura do povo que os guarda, abriu uma nova janela para o exame dessas narrativas.

Quero aqui pôr em destaque algumas das propostas de Lévi-Strauss, feitas no seu artigo "A estrutura dos mitos", publicado pela primeira vez em inglês no Journal of American Folklore (vol. 28, nº 270, pp. 428-444, 1955) e divulgado em português no volume Antropologia Estrutural (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967), que mais contribuiram para dar um novo rumo à análise dos mitos:

  1. A interpretação dos mitos deve estar mais voltada para os seus aspectos cognitivos do que para os emocionais.
  2. Não há versões autênticas ou originais de um mito, umas completam as outras e a análise deve levar em conta todas elas.
  3. Mito de Édipo
    Quadro dos mitemas
  4. Além das unidades lingüísticas que podem ser isoladas a partir dos enunciados emitidos em uma língua — fonemas, morfemas, tagmemas —, o mito se compõe de unidades mais abrangentes, a que Lévi-Strauss deu o nome de "mitemas". Para explicar o que são mitemas, ficou famosa analogia feita por Lévi-Strauss do mito com uma partitura de orquestra. Tomando como exemplo o mito de Édipo, ele o dispõe em mitemas conforme o Quadro anexo.
  5. Todo mito, considerado como o conjunto de suas versões, se reduz a uma relação do tipo:
    Fx (a) : Fy (b) :: Fx (b) : F1/a (y)

Esta fórmula é conclusão da parte mais difícil do artigo de Lévi-Strauss porque se apóia em várias versões de um mito do sudoeste norte-americano, nenhuma das quais é resumida para o leitor. Na verdade, nos trabalhos subseqüentes, Lévi-Strauss não aplica sistematicamente essa fórmula, que é apenas vez por outra lembrada, quando ele quer mostrar que ela funciona.

Um texto bem didático e que não faz menção essa fórmula é "A gesta de Asdiwal", cuja tradução para o português está em duas publicações distintas: Mito e Linguagem Social (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970 ) e Antropologia Estrutural Dois (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976 ). Ele mostra como esse mito, tomado de sociedades indígenas do litoral noroestino da América do Norte, se desdobra em quatro aspectos que se apresentam simultaneamente, uns em relação direta e outros inversa com a realidade: o geográfico, o cosmológico, o econômico e o sociológico.

O exemplo mais rico da análise estrutural dos mitos é a coleção de quatro volumes que Lévi-Strauss denominou de Mythologiques, da qual o primeiro volume, O Cru e o Cozido, está traduzido para o português (São Paulo: Brasiliense, 1991). Nela são encadeados um grande número de mitos, a partir de mito bororo até alcançar o noroeste da América do Norte.

Análise com foco no discurso

Uma outra maneira de abordar os mitos pode ser exemplificada pelos dois livros de Ellen Basso, A Musical View of the Universe (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1985) e In Favor of Deceit (Tucson: The University of Arizona Press, 1987), nos quais examina as narrativas dos calapalos, do alto Xingu.

Além do conteúdo do mito, nesta abordagem leva-se me consideração a maneira de contá-lo. No caso particular dos calapalos, quem conta, quando, em que situações; a modulação da voz; as repetições das frases, de modo idêntico ou com ligeira variação; a indispensabilidade de um ouvinte privilegiado, que faz perguntas, pede esclarecimentos; a atenção às onomatopéias; a predominância da reprodução dos diálogos entre os personagens; a entrega da palavra pelo narrador a uma mulher, quando um cântico a ser reproduzido é entoado por um personagem feminino.

Ao invés de se fixar apenas nos aspectos cognitivos da narrativa, esta abordagem abre caminho ao exame das manifestações emotivas, seja dos ouvintes, seja dos próprios personagens.

Suponho ser essa abordagem uma revalorização das preocupações do velho Malinowski acrescida de um aprimoramento das técnicas de análise. Ela exige cuidados muito especiais de gravação e transcrição dos mitos e um bom conhecimento da língua dos nativos.

Mas, dadas as minhas preferências pessoais e o fato de melhor se adaptar a mitos coletados nem sempre com as técnicas mais aprimoradas, como muitas das versões aqui referidas, inclusive as colhidas por mim, neste curso a abordagem de Lévi-Strauss será a privilegiada.

A divulgação dos mitos indígenas no Brasil

São raras, no Brasil, as publicações de mitos indígenas para o grande público. Das que têm um caráter mais geral vale lembrar o volume Estórias e Lendas dos Índios, com seleção e introdução de Herbert Baldus e ilustrações de J. Lanzellotti (São Paulo: Literart, 1960). Há também Lendas do Índio Brasileiro, organizado por Alberto da Costa e Silva (Rio de Janeiro: Ediouro). Com foco em regiões específicas se contam as coletâneas publicadas por Orlando e Claudio Villas Boas, como Xingu — Os Índios, Seus Mitos (Rio de Janeiro: Zahar, 1970). E também as mais recentemente publicadas publicadas por Betty Mindlin, relativas aos pequenos grupos indígenas do centro-sul de Rondônia: Tuparis e Tarupás (São Paulo: Brasiliense, EDUSP e IAMÁ, 1993), Moqueca de Maridos (Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos [Record], 1997), Terra Grávida (Rio de Janeiro: Rosa dos Ventos [Record], 1999). Os organizadores desses volumes não se ocupam, entretanto, em comentar os mitos que apresentam.

Dentre as coletâneas voltadas para povos específicos, deve-se contar agora também com aquelas redigidas pelos por autores pertencentes ao grupo étnico de cujo acervo elas fazem parte. Elas tiveram início com o volume Antes o Mundo não Existia, redigido pelos dessanas Umúsin Panlõn Kumu e Tolamãn Kenhíri, com uma introdução de Berta Ribeiro, que providenciou a publicação (São Paulo: Livraria Cultura Editora, 1980). O Instituto Socioambiental abrigou a segunda edição dessa obra e passou a estimular a autores da mesma e de outras etnias indígenas do alto rio Negro a redigirem também suas coletâneas. E publicou com o apoio da ORSTOM A Mitologia Sagrada dos Antigos Desana do Grupo Wari Dihputiro Põrã, redigido por Diakuru e Kisibi (Povoado Cucura: UNIRT e São Gabriel da Cachoeira: FOIRN, 1996; e com o apoio da IIZ, Waferinaipe Ianhere - A Sabedoria dos Nossos Antepassados — Histórias dos Hohodene e dos Walipere-Dakenai do Rio Aiari, de diversos narradores (Rio Aiari: ACIRA e São Gabriel da Cachoeira: FOIRN, 1999).

No mais, os mitos são geralmente encontrados em trabalhos referentes a povos específicos, seja na forma de pura e simples reprodução das narrativas em periódicos de etnologia, seja em meio a descrição e análise de uma cultura como um todo em mografias etnográficas. Dos trabalhos voltados para leitores com alguma formação na área de humanidades, e que reúnem textos ou análise de mitos de várias regiões, há, além da já referida tradução do primeiro volume das Mythologiques de Lévi-Strauss e do já aludido Mito e Linguagem Social (em que Roberto Cardoso de Oliveira, Roque Laraia, Roberto DaMatta e eu contribuímos cada qual com um artigo); e não se pode esquecer de A Mitologia Heróica de Tribos Indígenas do Brasil, de Egon Schaden (Rio de Janeiro: MEC-Serviço de Documentação, 1959).

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