Apêndice II

Mitos

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O Messianismo Craô

 

1 — Lenda de Aturuaroddo

(dos índios bororos, segundo Colbacchinni e Albisetti, 1942, pp. 197-199)

Antigamente, uma mulher, chamada Aturuaroddo, foi ao encontro do marido que voltava da caça com um jure, "serpente anaconda ou sucuri", e colocou sobre as costas um grande pedaço ensangüentado da serpente para levá-lo à casa, mas colocou-o tão mal que o sangue escorrendo-lhe pelo corpo entrou nela.

Andando pelas selvas à procura de frutas com aquele sangue no corpo, chegou aos pés de um majestoso bie e, "jenipapeiro". Vendo as frutas maduras disse:

— Quem colherá as frutas que serão meu alimento? — Então, o gerado pelo sangue respondeu de dentro:

— Minha mãe, eu subirei para colher o teu alimento.

Então, o sangue saiu da mulher em forma de sucuri e subiu à árvore. A mulher, assustada, porque seu filho não era da espécie humana, quis fugir da serpente, mas não o conseguiu, porque a sucuri desceu da árvore e voltou na mulher novamente. Chegando à aldeia, encontrou seus irmãos maiores:

— Meus irmãos, gerei um filho que não é da espécie humana, mas é um aroe, "um espírito".

Seus irmãos disseram-lhe que voltasse à árvore, e ela voltou acompanhada por eles. Chegando embaixo, disse:

— Quem colherá as frutas que serão meu alimento? — A serpente que lhe estava dentro, disse:

— Minha mãe, eu subirei na árvore e apanharei tuas frutas.

Então, saiu da mulher e subiu na árvore e colheu as frutas maduras; e vendo que a mulher fugia, desceu para voltar nela mas não conseguiu, porque os irmãos da mulher mataram-na a pauladas.

Recolheram lenha, acenderam um fogo e jogaram nela a serpente morta, para que fosse queimada, e regressaram à aldeia. Voltaram depois ao lugar onde fora queimada a serpente e viram que, de sua cinza, nascera o urucuzeiro (nonogo), a resina (kiddoguro), o fumo (), o milho (kuiadda) e o algodão (akigo).

É por esse motivo que hoje os índios usam kiddoguro e nonogo para embelezarem-se e fumam o tabaco, comem do milho e fazem seus colares de algodão.

Quando os antepassados viram o monogo, abriram o fruto, tiraram-lhe as sementes, misturaram com água e cera de abelha (miawe), acrescentaram gordura e obtiveram uma pasta vermelha de que se servem para pintar o corpo.

Quando os antigos viram o algodão, disseram:

— Que faremos disso? — Fabricaremos fios que servirão para prender as penas na extremidade de nossas flechas e fazer pulseiras para o braço e ante-braço. É por isso que os orarimogodogue fazem de algodão suas ligaduras.

Quando viram o fumo (), tiraram-lhe as folhas, secaram-nas, enrolaram em forma de cigarro; acenderam depois a ponta no fogo e começaram a fumar; quando o fumo era forte, diziam: "Este é forte! Este é bom!". Mas, quando não era forte, diziam: "É mau! Não é picante!".

Vendo o milho, cortaram-no; depois tiveram medo de comê-lo; porém não foi todo milho que lhes incutiu medo; temeram apenas o milho negro, que deram aos baire para que o comessem e oferecessem aos bope e aos maeréboe.

Quando viram a árvore da resina, almécega, kiddoguru, disseram:

— Eis a árvore da resina; a resina está sobre ela, extraí-la-emos para nos ornar.

Por esse motivo, é hoje o kiddoguru usado como ornamento.

2 — Origem dos cristãos

(dos índios caiapós, segundo Métraux, 1960, pp. 32-33)

Era um pouco antes da festa de kurukãgo. Todos os homens estavam na caçada. Um lagarto, pino, aproximou-se de uma jovem que havia ficado na aldeia com seu pai e sua mãe. De noite, ele retornou e fez amor com ela e assim, durante várias noites seguidas. A mãe da jovem, ouvindo o barulho, perguntou-se sobre quem falava a sua filha. Na noite seguinte, ela não dormiu e escutou. Ela se convenceu de que um homem vinha cada noite dormir com sua filha, mas ela não conseguia ver seu rosto. Ela se levantou na alba e se escondeu perto da porta. Ela ouviu bem alguém sair, mas não viu nada. Ela olhou para todo lado e percebeu um lagarto que subia ao longo de uma árvore. Compreendeu que era o amante de sua filha. Foi contar a coisa a seu marido e ambos decidiram queimar a árvore para matar todos os lagartos que nela estavam aninhados. O casal ajuntou lenha e folhas secas ao pé da árvore e pôs fogo. Se tivessem reunido mais material, todos os lagartos teriam morrido, mas não foram bastante diligentes e alguns répteis, caindo no fogo, escaparam. Foram engrossar as águas de um pequeno regato que se tornou um grande rio. Seguindo o curso deste rio, os índios chegaram a uma aldeia de grandes casas. Galos cantavam. Era a aldeia dos lagartos, metamorfoseados em "cristãos".

A amante do lagarto estava grávida. Deu à luz um menino que, cada tarde, transformava-se em pequenos lagartos que dormiam junto de sua mãe. Os pais da jovem quiseram matar esses animais, porém, quando, no dia em que o avô deles pensava em abatê-los, sua mulher o impediu, dizendo que se tratava de um menino. Uma tarde, entretanto, os avós assaltaram os lagartos. Quando a jovem se levantou, deles não restava senão um. Ela o tomou em seus braços e gritou: "Não o mateis, é meu filho". — "Não", disseram seus pais, "é um bicho". Enterraram-se os lagartos mortos e a jovem partiu com o sobrevivente. Ambos se tornaram também cristãos" e possuíram muitos machados.

3 — Mito de Auke

(versão tomada por Harald Schultz, 1950, pp. 86-93, e reduzida a seus pontos essenciais por Roberto DaMatta, 1967, pp. 96-100)

Uma mulher andava grávida há bastante tempo. Mas o menino Auke passava poucos dias na barriga de sua mãe. Todo o dia, ele saía da barriga e se transformava em paca, preá. E, quando o dia ia amanhecendo, ele voltava para a barriga de sua mãe outra vez. Como a barriga da mulher já estava muito grande, o Auke dizia para ela: "Você já tem muitos dias que está assim. Não sei em que mês você vai parir". Ao que a mãe respondia: "É, eu já estou assim há muitos meses, mas deixa estar que algum dia eu vou parir, aí eu fico boa para caminhar".

Depois de algum tempo, Auke nasceu. Ele nasceu de noite e, quando o sol subiu um pouco, já estava rindo. Quando o sol subiu mais um bocadinho, já estava engatinhando. E mais um pouco, ele já estava caminhando e correndo e caindo. E mais um pouquinho, já estava grandinho e, quando o sol ficou mais alto, Auke já era um rapaz.

Quando as mulheres da aldeia resolveram ir ver o Auke e partiram na sua direção, trazendo nos braços os seus filhos, ele corre e fica nos braços de sua mãe, molinho como os outros meninos que vieram para vê-lo. Quando as mulheres saem, ele volta a caminhar. Quando de uma outra casa outra mulher vem visitá-lo com um menino já grandinho, então Auke vira do tamanho daquele menino. Quando é um homem já de idade que o vê de longe, o Auke fica sentado com barba preta, homem grande, esperando o outro que vem em sua direção. Quando vem um velho, usando um bastão para caminhar, de cabelo branco, então o Auke fica velho também, esperando.

Com isso, a mãe e o pai do Auke ficaram com medo. A mulher, então, falou para o marido: "Como é que nós vamos fazer com este menino? Por que ele esta fazendo de todo o jeito, virando todas as coisas. E eu estou com medo deste menino". "Quando a gente vê, este menino vai indo assim e daqui a pouco perde nós (Auke poderia matar toda a aldeia. Cf. nota de H. Schultz, p. 87 nota 116 — RM), porque este menino é muito sabido". Aí, o pai de Auke falou para sua mulher: "Não sei, quem sabe é o avô dele. Preciso conversar com o avô dele, porque ainda tem avô". Veio então o pai da mulher. O marido dela falou para o sogro: "Como é que nós vamos fazer com seu neto? Porque a mãe dele está com muito medo. Eu queria saber com o meu sogro, por que não está vendo que seu neto está fazendo de todo o jeito e ninguém sabe? Seria bom que você desse um jeito; porque você é o avô dele!". Ao que o avô respondeu: "É, deixa estar que eu vou fazer alguma coisa com ele".

A essa altura, toda a aldeia já sabia que o Auke tinha aquelas coisas e todos estavam com medo. Com isto, o avô disse: "Deixa estar, nós vamos caçar com ele e eu vou matá-lo. Porque é meu neto, mas ainda vou ver como!"

De manhã, o Auke estava brincando no pátio e o avô o chamou e disse: "Auke, leve um tiçãozinho para fazer fogo no meio do caminho. Daqui a pouco, nós saímos todos para caçar naqueles matos para ver se matamos alguma coisa". Auke levou o fogo, após andar um pouco, colocou o fogo no local indicado. Após ter feito isto, continuou brincando. Quando os índios chegaram, o avô conduziu Auke para uma serra muito alta. Ficando na beira do abismo, disse para Auke: "Lá embaixo é limpo, tudo fica pequeno, é bom olhar para baixo". O menino ouviu e pediu para o avô: "Deixa eu também olhar lá embaixo". Enquanto o avô empurrava, Auke falou: "Oh! Meu avô, não faça isso comigo". Mas o avô já o havia atirado.

Entretanto, quando Auke caiu um pedaço, foi virando folha seca que desceu para o chão em espirais, devagarinho. E, quando chegou no chão, virou outra vez menino e foi embora para a aldeia. O avô, porém, exclamava: "Oh! Por que fiz assim com meu neto? Estou com pena, meu neto morreu. Eu o empurrei no abismo e agora ele morreu". Enquanto o avô dizia isto, seu neto já estava na aldeia, vadiando. Quando a mãe de Auke o viu no pátio da aldeia, disse: "Meu filho chegou primeiro que o avô dele. Quando dá fé, não o mataram não, porque o avô disse que ia dar um jeito nele". Logo depois, o avô também chegou e, vendo seu neto, disse: "Ah! o meu neto não morreu não, e eu pensei que ele tivesse morrido, porque eu o joguei em um abismo".

De noite, enquanto Auke andava fora de casa, o avô foi até onde estava sua filha e contou a história para ela: "Este Auke é muito sabido, eu não sei como fiz, pois o atirei do alto em um abismo". Aí a mãe de Auke falou ao pai: "É, nós todos sabemos o que aconteceu com este Auke, mas ninguém vai dar jeito nele. Você vai dar jeito nele". Ao que o avô respondeu: "É, deixe estar, amanhã vou caçar jeito com ele outra vez".

No dia seguinte de manhã, o avô mandou Auke fazer fogo outra vez. Levou-o em seguida para o mesmo local e atirou-o outra vez no abismo. Mas Auke transformou-se em folha de chichá e desceu vagarosamente para o chão. Depois voltou para a aldeia, onde sua mãe, ao vê-lo, exclamou: "Oh! O avô não falou que ia caçar um jeito com ele? Pois ele veio de novo!" E quando o avô avistou o menino no meio do pátio com os outros índios, disse: "Ora, mas este meu neto é assim, como é que vou fazer com este meu neto? Porque ele é muito sabido, é difícil de dar um jeito nele". Aí o avô falou para a mãe de Auke: "Pode deixar, agora vou experimentar com fogo mesmo, vou mandar fazer fogo e vou botar Auke dentro do fogo e venho logo contar para você".

Quando o dia amanheceu, ele tornou a falar para o Auke: "Auke, você vai fazer fogo lá onde nós nos reunimos pela primeira vez". O menino levou um tição e o avô o acompanhou. O avô então disse: "Agora você faz um fogo bem grande. Bota bastante pau para ver se o fogo faz barulho, para ver se nós matamos alguma coisa logo". Auke chegou primeiro no local e fez o fogo. Os índios todos foram atrás. Quando o fogo estava bem alto, pois Auke o fez segundo as instruções do avô, e os outros índios haviam chegado, o avô disse: "Vamos embora agora, pois está chegando meio-dia". E ficou bem perto do fogo. Quando Auke viu seu avô perto do fogo, quis fazer o mesmo. E quando ele se aproximou da fogueira, os índios o pegaram pelo braço e o atiraram no fogo. Auke começou a gritar: "Oh! Meu avô, você não faz isso comigo. Eu não fiz nada com você". Mas o avô também ajudou a colocar o menino dentro do fogo, onde ele gritou e chorou até morrer. Então, o avô disse para os outros índios que eles deviam caçar e depois voltar para a aldeia correndo com toras. Quando chegaram na aldeia e não viram Auke, o avô disse: "Oh! o meu neto agora morreu mesmo dentro da fogueira, por que eu fiz assim com o meu neto?"

Depois de três dias, a mãe de Auke falou para seu marido: "Vamos lá na cinza do nosso filho, para ver se ainda ficou alguma coisa para nós queimarmos direito". Saíram para onde estava a cinza do menino, mas, quando estavam próximos do local, começaram a ouvir barulho de gado, peru e angolista (galinha-d´angola). Pararam e ficaram ouvindo. O marido disse: "Isto é nosso filho". "Vá ver que ele não morreu. Vamos voltar daqui, porque nosso filho está fazendo barulho". Chegando à aldeia, os pais de Auke contaram a história para os outros índios e finalmente eles foram até o local e verificaram que a história era verdadeira. Voltaram e contaram para todos. O avô resolveu ser o último a ir. Quando chegaram, viram no lugar das cinzas uma casa grande com telha. Auke viu o seu avô e chorou com muita saudade e com pena do povo e da aldeia. Abriu a porta da casa e deitou na rede chorando. Depois de algum tempo, saiu e chorou de novo. Ele não podia ver o seu avô. Depois mandou todos entrarem dizendo que já havia mandado sua mulher preparar comida para todos. Mas o avô ficou com medo de entrar na casa. Como recusasse, Auke mandou que os índios ficassem no terreiro. E foi falar com eles. Disse: "Olhe, meu avô. Eu vou lhe avisar. Quando nós formos comer, quando se puser as coisas fora, arco, arma de fogo, cuité, prato, você apanha primeiro as armas de fogo e o prato, que é camarada da espingarda". Então, a mulher do Auke botou a comida, mas os índios recusaram a comer dentro de casa. Tinham medo de entrar na casa e Auke fechar a porta. Quando os índios começaram a comer do lado de fora, Auke entrou e chorou muito.

Quando terminaram, Auke chamou seu avô para passar com ele o dia. O avô ainda recusou dizendo que não podiam dormir ali, tinham de dormir do lado de fora. Foram então embora para a aldeia e Auke pediu que no dia seguinte viessem trazendo o povo todo, inclusive seu pai e sua mãe. Quando os índios saíram, Auke ainda chorou com pena do povo todo.

Depois de três dias, os índios chegaram outra vez à casa de Auke. Ele falou com sua mãe dizendo que não tinha morrido e mandou preparar comida para o povo todo. Quando a comida estava pronta, Auke convidou os índios para comerem dentro de casa, mas os pais e o avô de Auke recusaram. Quando acabaram de comer, Auke foi buscar o arco, o cuité e o prato. Colocou a espingarda e o prato bem perto um do outro. E o arco e o cuité mais afastados. Chamou todo o povo e disse: "Agora, meu avô, você apanha estes dois" e ofereceu a espingarda e o prato. Mas o avô apanhou o arco e o cuité, porque ficou com medo de apanhar a espingarda. Auke então mandou que seu avô atirasse com a espingarda. O avô recusou. Auke insistiu dizendo: "Eu quero que você fique com este. Pra cristão não quero entregar, porque estou com pena de vocês todos. Eu quero que você faça como eu, que ando vestido. Por isso não posso entregar a arma para os cristãos. Eu quero que vocês fiquem cristãos como eu".

Mas, mesmo assim, o avô se recusou a atirar. Auke então saiu levando a espingarda e chorando: "Eu bem que queria que vocês ficassem com a espingarda, eu queria que vocês ficassem como eu, não ficassem nus". E depois, Auke encostou na parede e chorou, chorou.

Depois de algum tempo, Auke saiu de casa com um arco e perguntou: "É este que vocês querem?" E os índios ficaram alegres, respondendo: "É, nós ficamos com o arco e a flecha". Vendo isso, Auke chorou outra vez.

Depois de algum tempo, saiu de novo e, chamando um homem negro, falou para seu avô: "Você quer ver, ele atira certo". E, quando entregou a espingarda para o negro, ele atirou longe e logo disse: "Isto é bom. Agora vou ficar com arma de fogo". Quando Auke ouviu isto, chorou de novo. "Oh! — disse — vocês bem podiam ter ficado com a arma de fogo, eu tenho pena de vocês".

Depois Auke saiu e falou para o povo todo: "Pois aí está. A espingarda o negro já atirou. Ele também vai ficar com o prato; vocês que atiraram com o arco e flecha ficam com o cuité". Os índios então pegaram a cuia, sendo o primeiro o pai de Auke. Em seguida, Auke levou os índios para a beira do rio dizendo que, quando eles morressem, iriam afundar como uma pedra. A alma não subiria para o Céu. Depois, jogando uma coisa embrulhada em folhas e que boiava, disse: "Estão vendo, nossa alma, quando morre, faz assim, sobe para o Céu".

Fez uma Santa e deu para sua mãe, recomendando que ela não mostrasse para ninguém. E mostrou muita coisa para os índios. Depois disse para o seu avô: "Se vocês tomassem conta de mim, eu virava todas as coisas". Deu ainda um caldeirão para sua mãe e presentes para os outros. E, na despedida, abraçou a todos chorando muito. Disse: "Eu fico com muita pena de vocês. Porque o certo é como eu estou dizendo para vocês, mas vocês não querem acompanhar. Agora, eu sou o pai de vocês todos. Vocês agora me chamam de pai. Podem me chamar onde vocês quiserem. E, quando alguém quiser vir, vem, porque eu dou alguma coisa e não esqueço de vocês, porque vocês são filhos de todos nós". Os índios voltaram para a aldeia.

Se os índios não tivessem queimado Aauké, hoje seriam iguais aos cristãos.

4 — Mito de Auke

(segundo o índio canela Luís Baú, que mora entre os craôs, sendo remanescente de uma aldeia que foi destruída pelos civilizados em 1913. Narrada em 16-10-63)

Primeiro, havia somente craôs. Depois Deus (Pït, o Sol) pensou, transformou-se em cobra e foi ficar no ribeirão da aldeia. Uma rapariga bonita foi ao ribeirão. A cobra chamou a rapariga, transformou-se em índio e copulou com ela. E copulou outras vezes até que ela ficou grávida. Quando a rapariga ia tomar banho, o filho saía de seu ventre, transformava-se em paca e depois tornava a entrar. Até que ficou rijo no ventre materno. Então nasceu; era noite. De madrugada, já estava andando como um menino de uns cinco anos. De tarde, já era homem feito, rapagão. Então, o pai da mãe e a própria mãe pensaram: "Vamos matar esse menino, porque ele é sabidão, senão ele acabará com todos nós". Levaram-no para o mato e subiram ao alto de um despenhadeiro. O irmão da mãe tomou o menino para atirá-lo lá de cima, quebrando-lhe o pescoço. Mas o menino virou folha seca, desceu até o chão, tornou a tomar forma humana e chegou à aldeia antes do tio. Este chegou e observou: "O menino não morreu, não! Ah, menino sabido!". Convidou então o menino para pescar na lagoa. Lá, o tio ficou com sono, pediu ao sobrinho para pescar para ele e dormiu. Então menino pensou: "Vou ver se sou bom!". Fez a lagoa ficar grande e chamou o tio: "Vamos embora!". O tio se levantou, olhou a lagoa e viu emergindo cabeças de jacarés e de sucurijus; exclamou: "Não faça isso!". O sobrinho ria para o tio. O sobrinho passou a mão por sobre a lagoa e ela secou. Quando chegou à aldeia, o tio falou com sua filha (os craôs costumam empregar indiferentemente os termos "tio" e "avô", como sinônimos, dada a dificuldade de transferir sua terminologia de parentesco para a nossa): "Como é que a gente faz com esse sobrinho, porque ele é sabido, fez lagoa grande, quase me mata e eu fiquei com medo". A filha falou: "Vamos queimá-lo". De manhãzinha, o povo estava mudando a aldeia para outro local. Fizeram um grande fogo na porta da casa do menino, que ainda não tinha ido. Seus tios se reuniram e o mais velho o pegou. Amarraram-no e o puseram em cima do fogo. O tio mais velho falou aos mais novos: "Você vai embora e eu fico para juntar as cinzas e pô-las num buraco". Só o tio velho ficou. Ele pretendia colocar as cinzas num cesto e enterrá-las. O corpo de Auke não se queimou, entrou no chão: apenas a madeira da fogueira é que se consumiu. O avô foi à fonte e, quando retornou, encontrou casa de telha e galinha, pato, galinha d'angola, bode, porco, bovino, toda criação de kupẽ (civilizado). O sobrinho o olhava: "Lá está meu velho; eu tenho pena desse povo, ele está fazendo coisa ruim". Havia soldado na porta da casa; havia mercadorias (tecidos) etc.; e também já havia caixeiro de Auke. Este disse para o soldado: "Se meu tio vier aqui, não mexa com ele; deixe-o vir". O tio queria desviar-se da casa. Mas Auke o chamou: "Meu tio, venha cá, sou seu sobrinho, não tenha medo de mim não, eu não morri não! Apanhem uma cadeira e dêem para o tio sentar!". O tio estava com medo. E Auke lhe falou: "Se eu ficasse toda a vida com você, nós nos transformaríamos em kupẽ (civilizado). Mas, como eu já estou separado de você, agora você não se transforma não; eu só vou ficar com pena de minha mãe, de meu tio novo, de você. Você está com fome?" O velho respondeu: "Estou". Auke disse ao cozinheiro: "Ponha comida". O cozinheiro pôs comida numa bacia e Auke explicou: "Meu tio, essa carne é de gado; na sua língua, você pode chamá-lo de prukahëk; a carne é wani. É carne boa, pode comê-la e encher a barriga". O tio comeu e ainda deixou. Auke lhe disse: "Apanhe seu cesto, para que você o fez?" Respondeu o tio: "Era para apanhar suas cinzas". Retrucou Auke: "Ora, eu não morri, agora eu sou kupẽ (civilizado)". Auke apanhou carne e a pôs no cesto; apanhou o bofe, o bucho, as tripas, o coração e deu ao tio. Apanhou uma faquinha e duas volta de contas: "Isso eu vou entregar a você para mostrar ao povo de lá. Pois eu vou dar facas e enfeites para eles (Auke o estava enganando). Mas quero que as mulheres ponham mepré (cinto de várias voltas de corda de tucum, somente usado pelas mulheres púberes até a gravidez) e que os rapazes novos ponham khui (batoques auriculares)". O tio respondeu: "Eu vou dizer ao povo. Makarné, ipantu (o tio se despede de Auke, chamando-o pelo termo ipantu, o que indica que o sobrinho tinha o mesmo nome pessoal que ele)!". Auke respondeu ao cumprimento. O tio chegou de tarde à aldeia. Trazia uma calça dada pelo sobrinho. O povo se reuniu e o tio falou-lhe no pátio. Mostrou a faca e as miçangas e deu o recado de Auke. De Manhãzinha, todos se reuniram e foram ver Aukeré (diminutivo de Auke). Este já tinha feito a matalotagem (uma rês para alimentá-los). Quando chegaram, Aukeré mandou que se abrigassem numa sombra fora da casa e mandou chamar o "governador" (um dos dois indivíduos responsáveis pelas atividades diárias da aldeia) para dividir carne. Os índios só tinham trazido beiju. Aukeré lhes deu cinco quartas (uma quarta equivale a 40 litros) de farinha. E apresentou-lhes a rês: "Ai está matalotagem viva. Querendo matá-la, matem-na!" Então, laçaram a rês e mataram. Os índios dormiram perto da casa de Aukeré. Manhãzinha, ele chamou os rapazes novos e chamou as moças. Mandou-os escolher de tudo o que havia na casa. Eles entraram e Aukeré trancou a porta e disse ao soldado: "E agora eu vou mandar você, soldado, atirar para cima para que eles, os mais velhos, vão embora". Isso aconteceu no Rio de Janeiro. O soldado atirou para cima e os velhos correram. Os rapazes e moças se transformaram em kupẽ (civilizados). Auke bateu na cabeça deles e eles esqueceram os pais. Foi Aukeré que designou o primeiro chefe da aldeia. Auke está vivo.

5 — Mito de Auke

(segundo o craô Pedro Penõ, 26-11-63)

Foi com Aukeré que surgiram todos esses estrangeiros. Papam fez um filho em uma mulher. Quando ela ia tomar banho, o menino nascia, transformava-se em peixe e nadava para baixo e para cima até que entrava novamente no ventre da mãe e ela ia embora. Quando sentia dor, a mãe ia para o ribeirão, o filho virava anta, nadava e, quando acabava de tomar banho, ia outra vez para o ventre da mãe e ela ia embora. Quando sentia calor, a mãe ia de novo ao ribeirão, o menino saía, virava sucuriju e passeava por perto. Voltava, entrava outra vez no ventre materno e a mãe ia embora. Quando ele já estava para nascer, saía a todo momento. Cedo, a mãe ia ao ribeirão, ele virava cobra e andava dentro d´água. Pelas noves horas tornava a voltar ao ribeirão e ele se transformava em pato, nadando, voando, até voltar. Ao meio-dia, ela voltava ao ribeirão e o filho virava onça preta (que anda dentro d'agua), andava pelas vizinhanças e voltava. E as mulheres da aldeia, quando iam tomar banho, viam o fenômeno, voltavam e contavam para os outros: "O filho daquela mulher não é gente; talvez aquele menino, quando nascer, acabe conosco". O povo já estava falando, fazendo mexerico, para matar o menino, pois senão ele nasceria, cresceria e o destruiria. Mas o avô do menino (pai da mãe) falava: "Não, não matem meu neto; este é meu primeiro neto, eu não vou maltratá-lo". Mas o povo não se importava com o avô e estava mexericando, estava falando, combinando para matar o menino. Até que o menino nasceu, assim como qualquer menino nasce. E o menino chorava. Mas, quando a mãe ia encostar o seio em sua boca, ele calava. Se a mãe o mandava calar, assim como as mulheres falam para os filhos, ele respondia: "Não, mamãe, eu não estou chorando não; estou é cantando". Depois de cinco dias, o povo conversou com o avô, pedindo-lhe que entregasse o menino para matá-lo. O avô não queria deixar, mas insistiram com ele umas dez vezes. Então o avô entregou para que o povo o levasse. Eles tomaram o menino e conversaram entre si: "Como é que vamos fazer com esse menino?". "Vamos subir a serra, e daí a gente joga para baixo". Levaram-no então para o morro e lá de cima o atiraram. Mas o menino virou folhinha leve e foi caindo devagarinho até o chão. E ficou chorando. Tornaram a buscá-lo, levaram-no de volta para cima e o jogaram outra vez para baixo. Ele se transformou em folha de banana brava e desceu em círculos até chegar ao chão. Atiraram o menino três vezes e já estavam combinando para arranjar um outro meio: "Como é que nós vamos fazer com esse menino, porque este menino não vai morrer não!" Resolveram fazer uma fogueira para queimá-lo. Fizeram um grande fogo. Quando já estava bem intenso, jogaram o menino no meio da fogueira e ele se queimou. Mudaram a aldeia para outro local. O kederé (avô materno) estava chorando muito com pena do menino. No lugar das cinzas, apareceu uma casa grande, com muitos animais em torno: bovinos, cavalos, porcos, galinhas. Alguns foram ver as cinzas e já encontraram a casa grande. Contaram para os demais e foram todos vê-la. Aukeré estava zangado com eles e os enganou. Abriu a casa e disse a todo o povo que entrasse e pegasse o que lá havia: panos, miçangas, pratos, colheres, etc. Havia muita coisa lá dentro, espingardas, muita coisa. Entrou somente a rapaziada nova para apanhar aquelas coisas da casa de que era cheia como uma loja. Aukeré tinha pedido para entrarem primeiro os novos, para depois entrarem os mais velhos. Os novos entraram. Os soldados, que eram muitos, espantaram os mais velhos, atirando para cima com espingarda, e todos correram, ficando os filhos trancados. Todo o mundo foi embora e os meninos ficaram presos. Então, Aukeré fez não se sabe o que, para que não se lembrassem mais de voltar. Os mais velhos voltaram correndo para a aldeia. Os que ficaram na casa não lembravam mais dos velhos. Então, os mais velhos viajaram para outro lugar. Aukeré insistiu para que retornassem, mas não o conseguiu. Aqueles meninos que ficaram na casa é que se tornaram kupẽ (civilizados). Os mais velhos viajaram na direção da área em que hoje estão os craôs e foram se acabando, se acabando.

6 — Mito de Auke

(segundo José Nogueira, líder do movimento messiânico craô, 29-11-63)

A mãe de Auke era casada. Ela estava com vontade de comer najá. Havia uma cascavel grande a esperá-la quando foi apanhar os cocos. A cascavel lhe perguntou: "Ah, é você que está apanhando najá?" A moça respondeu: "É, sou eu que estou apanhando, estou comendo". A cascavel retrucou: "Ah, agora eu estou vendo, estou esperando, eu vou deixar cair os cocos para você apanhar. Você pode vir sempre apanhá-los, pois não vou deixar outros bichos pegá-los. Mas você tem de copular comigo". A moça se entregou à cascavel e esta a lambeu. Auke ficou grande no ventre materno. Não existia kupẽ (civilizado). kupẽ ia aparecer agora, quando o povo acabasse com Auke ajudado pelo fogo. Essa cascavel não era cobra não: talvez fosse o próprio Deus metamorfoseado. A mulher grávida ia se banhar e Auke se transformava em todo bicho até que nasceu. Quando nasceu, ao chorar, dizia: "Mamãe, eu não estou chorando não, eu estou só cantando". Passaram-se quatro dias e ele já podia andar. Então, todo o povo resolveu: "Vamos aí no mato, para matarmos caça para comer". E foram saindo todos com Auke. E o avô dizia: "É preciso acabar com Auke, senão esse menino, quando ficar grande, acabará conosco". Mas Auke estava escutando: "Você, quando acabar comigo, você é quem sabe, você não tem pena. Deus é quem sabe". Fizeram um rancho, para caçar. Reuniram-se, pegaram o menino, amarraram braços e pernas e o levaram. Queimaram-no. Tinham feito um grande fogo. O povo foi embora, pensando que Auke tinha morrido. O avô perguntou pelo menino à mãe dele. Ela respondeu: "Os tios dele acabaram com ele". Ele disse: "Oh, por que você o entregou?" O tio chorou muito. (Os craôs traduzem o termo keti ora como "avô" ora como "tio"; esta versão apenas mostra que havia alguns keti favoráveis à morte de Auke, mas pelo menos um keti era contra isso). O avô foi ajuntar as cinzas. Foi chegando ao local e havia uma casa grande. Auke ficara rico, Deus o havia transformado. O velho vinha com... Auke recomendou aos que o cercavam: "Não mexam com meu tio; este tio ficou com pena de mim". Havia mercadoria (tecidos). Auke já sabia ler. "Olhe, meu tio, isso é que se chama ko´hoko (livro?). A casa estava iluminada. Auke disse ao velho: "Olhe, meu tio, como você veio, porque você tem pena de mim: se vocês não acabassem comigo, a gente poderia viver... cristão ou desse jeito que você está. Você está vendo cristão: esse é jagunço, esse é polícia que anda em redor de mim, esse é kupẽ". Auke prometeu presentes e mandou vir os outros.

7 — Mito de Auke

(outra versão do mesmo José Nogueira, em 4-3-67)

Primeiro havia só índio; depois é que apareceram os brancos. Havia uma mulher com marido. Já estava com o ventre grande. Convidou o marido para ir buscar najá. O marido não quis. Ela foi apanhar najá e voltou. De manhã, foi outra vez. Parece que... apanha para ele. "É você que está apanhando najá? Sim, pois eu estou vendo você apanhar najá. Escuta: eu gosto muito de você". "Você gosta de mim?", a mulher perguntou. "Eu gosto de você, dá-me seu sexo". E a mulher passou a dar. Passaram-se cinco dias e ela ficou grávida. "Agora você pode vir buscar najá; você vir, eu vou só espantar os bichinhos". E a mulher copulava com Pït. A mulher tornou a vir copular e levou najá. E marcaram outro encontro: "Eu venho depois de amanhã", disse a mulher. "Oi, você vem, eu vou-me embora", disse Pït. Conversaram, tornaram a copular. "Agora eu vou-me embora", disse Pït. "Mas olha, seu menino está na minha barriga", disse a mulher. Pït foi para o céu. A mulher já estava com o ventre muito grande. Foi ao ribeirão. O menino saía do ventre e se transformava em peixe, paca. A mãe cansava de esperar até que ele voltava e ela ficava com ventre grande outra vez. Todos os dias ele se transformava em bicho, cobra, peixe. No dia em que devia de nascer, nasceu. Mas se transformava em toda caça, em cascavel, em sucuriju. Não havia cidade e nem cristão. Porque Deus deixou este menino e ele iria virar cristão. Outrora, o índio era besta e pensava que o menino, quando se tornasse homem adulto, iria fazer mal à aldeia. Então, seus parentes conversaram, combinando matá-lo. A mãe da mãe e o pai da mãe do menino foram embora para o mato. Os novos combinavam acabar com o menino. Eram rapazez que não sabem pensar nesta vida (assim como eu, como Joaquim, diz o informante). Foram conversar com a mãe: "Fulana, dê-nos esse menino, nós vamos acabar com ele, porque, quando for homem, ele acabará conosco". "Não". "Você que...". A mãe pensou e entregou. Carregaram o menino para o mato. Resolveram: "Vamos jogá-lo dentro da cachoeira". Amarraram-lhe os braços e as pernas e o jogaram. Caiu no fundo. Não morreu. Transformou-se em folha do mato, caiu e correu na frente. Chegou primeiro à aldeia e ficou deitado na cama da mãe. A rapaziada voltou e ficou espantada. Resolveram pô-lo no fogo. Fizeram um fogo grande no terreno limpo. Apanharam o menino, amarraram as pernas e braços e o puseram numa vara. O menino estava chorando, mas o povo não tinha pena. Jogaram. Só ficaram as cinzas. Foram embora. De noite, o avô e a avó chegaram e perguntaram: "Onde está o menino?". A filha respondeu: "Já foi no fogo". Por que você o deu?" perguntaram os avós. "É que conversaram muito comigo, porque diziam que o menino acabaria com a aldeia". O tio chorou muito (novamente a confusão dos termos tio e avô). De manhã, falou com a mãe do menino que ia ajuntar as cinzas dele. Foi chegando, espiando e viu casa grande, já mesmo cidade. Muita espingarda, panela, facão, gado, galinha, muito kupẽ (civilizado) já sendo soldado. O tio foi espiando, caminhando devagar, dizendo: "De onde vem essa gente?". Então, o neto saiu para fora e falou com os kupẽ: "Olhem, vocês não mexam com o velho; é meu tio". O tio chegou à casa e os kupẽ se puseram em torno dele. "Compadre, entre, sente na cadeira". Ele sentou. A casa estava cheia de toda coisa. O tio estava sentado olhando. Só branco, só cristão aí estava. O neto recomendou que não mexessem com ele: "Eu lhe vou dar de comer; se quiser ir embora, eu despacho". O soldado estava com espingarda, de cara feia. O velho estava sentado. O neto lhe deu de comer e ele estava comendo bem. Estava-lhe ensinando os nomes do que ele via: "Isso é galinha, é bode, é animal (de montaria), isso é facão, faquinha, cinturão, mercadoria (tecidos). Mostrou-lhe o espelho. O tio estava olhando mekarõ (alma, imagem) aí dentro. O neto lhe disse: "Você pode ficar com ele". Deu-lhe faca, facão, dois metros de pano e o enganou: "Agora eu estou dando essas coisas para você, há muita coisa, você pode mostrá-las para o povo, deixe o povo vir para cá, cada um vai receber umas coisinhas". De tarde, despachou o velho para a aldeia. O chamador (índio que costuma fazer recomendações aos habitantes da aldeia gritando-lhes do pátio) convidou-o a vir ao pátio para contar o que tinha visto. Aí o velho ficou zangado com a gente: "Meu neto está lá esperando todos vocês, para receberem as coisas. Há muita coisa. Há mercadoria (tecidos), facão, panela, espingarda, eu mesmo vi. Casa grande, muita gente. Você vão todinhos". Era só para os enganar, porque o tinham queimado. Quando o povo chegou à casa, rodearam-na, entraram e lhes mostram pano. "Que pano você quer?". Todos foram convidados a entrar. A rapaziada entrou, um bocado dela, num quarto. As mocinhas no outro quarto. Os velhos ficaram fora. Aí as portas foram fechadas. "Pronto, dêem fogo!". Atiraram, mas não mataram nenhum. Os índios velhos correram. Os índios velhos corriam muito, eram bestas, pois só estavam atirando para cima. A rapaziada estava presa. Os... viraram kupẽ (civilizados). Isso é o que os índios velhos contavam primeiro.
 
 

8 — Mito de Adão e Eva

(segundo os craôs Marcão e Davi, em 4-12-62)

Sol e Lua tiveram muitos filhos. O Sol morreu e Lua o enterrou. Lua morreu e os outros enterraram. Suas almas foram para o céu. No mundo, ficaram seus descendentes, apenas índios. O mundo foi então destruído pelo fogo. Depois pela água. E só se salvaram Adão e Eva. Estes tiveram muitos filhos. Tinham quartos cheios de filhos. Deus então mandou um padre para batizá-los. Mas Adão e Eva ficaram com vergonha de mostrarem tantos filhos e só mostraram uma parte deles. Estes foram batizados e se tornaram cristãos; os outros ficaram sem batismo e se tornaram índios.
 
 

9 — Mito de Adão e Eva

(segundo Luís Baú, o mesmo narrador do mito 4,
em 16-10-63)

Havia apenas Papam e Pïdrï (isto é, Pït, Sol, e Pïdrï, Lua). Os dois fizeram este Brasil todo. Aqui, não havia nem kupẽ (civilizado), nem mehim (índio). Então, Pït pensou: "Eu vou fazer outras coisas, pois viverem só dois assim é ruim". Não se sabe como foi que ele fez Adão, que andava nuzinho. Então pensou: "Eu vou fazer mulher para Adão, porque ele anda sozinho e não fala com os outros". Ao meio-dia, Adão chegou e Papam lhe disse: "Adão, vem comer!". Adão comeu e depois foi cochilar. Queria dormir e dormiu logo. Então Pït puxou uma costela de Adão, limpou-a e colocou no quarto onde Adão dormia. Adão acordou. Pït lhe disse: "Vá espiar o quarto onde você dorme". A mulher já estava lá, inteirinha e bonitinha. Pït disse: "Adão, você já tem mulher, agora você não copule com Bruta (Bruta é o nome de uma fruta que os craôs chamam de Waka´tẽti; Bruta era o nome de Eva). Ela já é sua e eu direi quando você pode copular. Pode ir com ela". E eles foram para o mato. Eva estava nuazinha; só pôs umas folhas sobre o sexo. Dormiram até de manhã. De manhãzinha, Papam os chamou: "Adão, chegue aqui para tomar café". E ele se aproximou com sua mulher. Tomaram café e voltaram para o mato. E Papam estava imaginando: "Como é que vou fazer com Adão e Eva? Vou mandá-los para o Brasil". De tarde, chegaram Adão e Eva. De manhãzinha, tornou Papam a convidá-lo: "Adão, vem tomar café!". Apanhou machado, facão e deu a Adão, ordenando-lhe: "Agora você desce, faça uma grande roça, enquanto sua mulher fica aqui". E lhe deu farinha e carne, ordenando: "Dentro de duas semanas você vem". Adão disse: "Adeus mulher, pode esperar duas semanas aqui". Aí, ele desceu do céu, indo lá para onde os estrangeiros moram. Naquele lugar, fez roça, derrubando tudo. Fez casa grande, toda fechada, colocou porta, fazendo muitos quartos. E Papam o estava olhando: "Ah, Adão é bom mesmo, não tem descanso; eu gosto de ver homem assim". Passaram-se duas semanas e Adão subiu ao céu outra vez. E teve um diálogo com Papam: "Fez roça?". "Fiz". "Fez casa?" "Fiz". "Está bom. No mês de agosto, você vai queimar". Chegou o tempo de queimar a roça. "Agora é tempo de roça; aqui está caroço de algodão, mamona, arroz, fava, feijão, pimenta do reino, alho, maniva, milho". E, de cada um, dava um carocinho. E disse: "Pois aí está, Adão, este é seu serviço e este é o de Eva. Vocês têm de dar comida a seus meninos". "Adeus, meu pai!". "Adeus", disse Papam. E Adão desceu lá do estrangeiro. Plantou toda a roça. Era muita fartura. Papam pensou: "Eu vou dar muitos filhos para ele". E Adão já estava copulando com a mulher. Com apenas dois coitos, ela já ficava grávida e de madrugada dava à luz. Papam pensou: "Agora, vou dar-lhes filhos a todo momento, para aumentarem depressa". Eva dava à luz de manhã, de tarde e de noite. Até que encheu quatro quartos de filhos. Papam estava olhando para eles: "São poucos ainda, pois estão faltando os mehim (índios). E tornou a lhes dar mais filhos. Até que se encheram dez quartos. E disse Papam: "Agora vou fazer parar os filhos de Adão". E Eva não deu mais à luz. A casa estava cheia. Então Papam pensou: "Agora vou fazer um padre para batizá-los". Esse padre era o Papa. Arranjou, para o padre, um burro com sela e tudo, arranjou comida e tudo. Esse padre, esse Papa, não morre nunca, pois foi Papam mesmo quem o fez. O padre montou no burro e Papam lhe falou: "Espero você dentro de dois dias". E o padre desceu do céu para o estrangeiro. Estava montado e já de manhã chegou à casa de Adão, gritando: "Oh de casa!". "Oh de fora! Apeie, cidadão!" O padre apeou. Adão pegou o burro, tirou a sela e levou-a para dentro de casa. Apanhou uma cadeira para o padre sentar. Perguntou ao padre: "Para onde vai, cidadão?". O padre respondeu: "Eu venho batizando meninos, alcancei você e pergunto se tem menino para batizar". O padre o estava enganando, pois, nesse mundo, hão havia outros senão os meninos de Adão. "Eu venho batizar seus meninos", continou o padre. "Eu tenho só quatro", disse Adão, enganando o padre. E o padre estava olhando, porque todos os quartos estavam cheios. E Adão disse: "Eu só tenho quatro". O padre respondeu: "Não tem importância, pois eu já estou batizando neste mundo. Eu vou passar dois dias com você e vou-me embora". Adão fez comida para o padre, pois já tinha muita criação: porco, galinha, pato, galinha dangola. De manhãzinha, o padre falou: "Está na hora, seu Adão, vamos batizar os meninos". Foram conversando, conversando, até que o sol saiu. À sombra de uma árvore, o padre pôs água numa bacia e pôs remédio e disse: "Vamos ver, chame os meninos". E saíram dois meninos, depois quatro, depois cinco, depois dez, depois vinte, depois quarenta, e o padre foi batizando todos. E perguntou: "Acabaram?", "Acabaram", respondeu Adão. Abriu-se outra porta e sairam dez. "Só? Não há mais?". E o padre batizou todos. "Ainda há?" "Há". E batizou mais vinte; e vieram mais dez. O padre batizou todos. E vieram mais vinte e mais. "Acabaram?" "Acabaram". E a mulher de Adão lhe disse: "Adão, eu já estou com vergonha!" Adão respondeu: "Não, não tenha vergonha não, deixe-o batizar todos". A mulher respondeu: "Os dois últimos quartos ele não batiza não". Eva já estava pensando: "Agora esses dois quartos estão reservados para serem mehim (índios) e kupẽtugré (negros)". O padre só batizou ingleses, americanos, estrangeiros, alemães, russos. O padre disse: "Adão, não tenha vergonha não, eu vou batizar todo o mundo!". Adão respondeu: "Não, não há mais meninos não!". O padre já estava dizendo: "Não, deixe ficar, esses aí são mehim (índios)". Já era meio-dia. O calor era grande. Os que estavam ainda nos quartos abriram as portas para se olharem na água da bacia. Os índios é que se fizeram índios, pois passaram água com terra no corpo. Os kupẽtugré (negros) saíram e passaram terra molhada só nas mãos; por isso é que somente suas mãos são brancas. E passaram carvão no corpo inteiro e só ficou a mão alvinha. E o padre pensou: "Como é que vou fazer? Eu vou por nome neles". Chamou primeiro o estrangeiro: "Que fala você quer?" "Você é que sabe". Então o padre falou para eles, eles aprenderam e indicou-lhes o lugar de morada. Depois fez o mesmo com o americano, recomendando: "Não vá embora já não. Quando eu acabar a distribuição você vai". E depois deu fala para o russo, o inglês, o alemão. Então chamou o português (kupẽ). E chamou o índio, e fez a mesma coisa, dizendo-lhe: "Agora você é mehim (índio); seu nome para os kupẽ (civilizados) é patrício e índio. Para os mehim é craô. E esse negro é negro no português e kupẽtugré na língua do mehim". Então, o padre entrou no quarto, pegou a espingarda, chamou o craô, e mandou que atirasse na mãe dele. Mas o craô não sabia atirar. Chamou o inglês e ordenou que matasse a mãe. E ele matou. Então, o padre rezou e a mãe se levantou. O padre então disse ao inglês: "Tome a espingarda que já é sua e desses seus companheiros. Não vá brigar com seus irmãos". Aí, o padre pegou o arco, bonito, bem feito, e chamou o estrangeiro, ordenando-lhe: "Mate sua mãe". Mas ele não sabia. Chamou então o craô e este matou a mãe. O padre rezou e Eva se levantou. O padre disse ao craô: "Pois o arco já é seu, não o deixe". E apanhou um arco e deu para o negro e este flechou Eva. O padre tirou a flecha, rezou e Eva se levantou. Então, o padre disse ao estrangeiro, ao americano, ao russo, ao inglês, ao alemão, bem com ao craô e ao negro qual era o lugar que habitaria cada um. E aí terminou. O padre então falou com Adão e Eva: "Vocês podem ficar aqui toda a vida. Vocês não morrerão nunca. Eu vou para o céu e depois volto para ficar aqui e não morrer nunca". E montou no burro, andou uma certa distância e subiu. O padre ficou sendo o Papa. Foi Deus mesmo que lhe pôs esse nome. Disse-lhe: "Se eu fizer alguma coisa, você fica sabendo. Escreva aqui para eu ver!". O padre escreveu. "Ah, agora você pode ir para a terra, não morrerá nunca". Só os filhos é que morrem, mas o Papa, Adão e Eva não morrerão nunca.

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O Messianismo Craô

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