Apêndice I

Depoimentos

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O Messianismo Craô

 

O conhecimento que temos desse movimento se baseia puramente em informações, já que não o presenciamos. Dada, porém, a discordância maior ou menor que existe entre os dados fornecidos pelos vários informantes ou entre os dados oferecidos pelo mesmo informante, resolvemos apresentar os diversos depoimentos em que se baseou este trabalho. Chamamos de depoimento a qualquer conjunto de informações, seja breve ou longo, sobre o movimento messiânico. A ordem de sua apresentação não obedece a um critério cronológico e nem de riqueza de dados. Simplesmente tentamos justapor os depoimentos pertencentes aos mesmo informante para que o leitor se dê conta de como é difícil ter uma idéia do ocorrido em meio a tantas contradições.

A — Depoimentos de Esteves

Esteves é morador da aldeia do Posto, tendo mais de 50 anos de idade. Seu nome indígena é Itxẽk Hëktókót. Dele dispomos de três depoimentos.

A1 — O primeiro depoimento ocorreu no dia 26 de novembro de 1963. Foi ele quem nos chamou a atenção para o movimento de que, até então, não tínhamos tido notícia. Contou-nos Esteves que, certa vez, José Nogueira mandou amarrar o focinho de todos os cachorros da aldeia para que não latissem, evitando assim que um bicho feio matasse o índios. Contou ainda que José Nogueira quis matar os civilizados das cidades (os do Rio de Janeiro não, que é longe) com chuva. Fez chover muito e a água já enchia toda a região, de modo que o informante ficou com medo. Acrescentou que era o Cão (Diabo) que estava enganando a José Nogueira.

A2 — O segundo depoimento do mesmo informante ocorreu em 17 de janeiro de 1967. Contou que tudo começou quando José Nogueira fumou diamba. Um rapaz trouxe dois pacotes de diamba de Porquinhos (aldeia dos apaniecrás), do Maranhão. Esteves avisou que aquele fumo era como cachaça e que tomasse cuidado quem não tivesse o costume de usá-lo. Mas José Nogueira fez um cigarro grande, dizendo que o fumo era fraco. Dentro em pouco, começou a gritar e depois a tocar pífaro. Na outra noite, ordenou que todo o mundo ficasse calado, amarrasse a boca dos cachorros e jogasse fora os objetos que guardavam em casa, mas nada aconteceu. Foi esperar motor (uma lancha) no ribeirão, mas também não veio nada. Mandou fazer casa grande para encher de mercadorias (tecidos) e também curral. Disse que o finado André seria doutor; Pedro Penõ (o atual chefe da aldeia do Posto), major; Marcão (o então chefe da aldeia em que ocorria o movimento), presidente; Patrício, coletor; Marquinho, coronel; Justino, delegado; Antônio Pereira, prefeito. Haveria quatro caixeiros para vender o que haveria na casa grande que José Nogueira mandou construir, mas o dinheiro assim conseguido pertenceria aos caixeiros, que seriam Esteves (o informante), José Ayehi, José Aurélio e Pedro Colina. José Nogueira pediu uma rês a Marcão para alimentar o pessoal que fazia a casa grande; e o chefe deu uma grande vaca. Vieram moradores de outras aldeias para ajudar. Do Galheiro (aldeia de Serrinha), chegaram parentes da esposa de José Nogueira, tais como Marco, João Noleto (chefe da aldeia de Serrinha), João Sedó, Porfírio Kapran, Senhorinho. Do Canto Grande (aldeia de Boa União), vieram Jacinto, Honório (o primeiro era "irmão" e o segundo, "tio" de José Nogueira). O encarregado do S.P.I., na época desses acontecimentos, era Veloso. José Nogueira não permitia o trabalho aos sábados e domingos. Quem fosse caçar no sábado teria chifres. Nos sábados, só deviam comer abóbora, leite de coco babaçu, carne. Disse que deviam abandonar o urucum. Esteves lhe respondeu que só abandonaria depois que visse as transformações que José Nogueira prometia. Quando o movimento falhou, os índios ficaram zangados com José Nogueira, mas não o maltrataram, pois o julgavam doido.

A3 — O terceiro depoimento é de 28 de janeiro de 1967. Segundo o mesmo, José Nogueira impôs um regime alimentar aos habitantes da aldeia: só podiam comer carne na segunda-feira; nos demais dias da semana, apenas peixe. José Nogueira, nesse tempo, mandou sua mulher e sua tia retirar três cofos (cestos) de mandioca da roça do civilizado Zé Arco. José Nogueira, que não sabe escrever, fez um bilhete para Zé Arco, também analfabeto. Disse que mais tarde pagaria. Quando Zé Arco veio receber, afirmou que não pagaria, pois o civilizado estava morando dentro do território indígena; deu-lhe apenas um quarto de veado catingueiro. José Nogueira pediu licença aos velhos para destruir os "cristãos". Pouparia o Rio de Janeiro, que já é lugar antigo; mas nem Goiânia pouparia. O informante ficou então pensando como poderia ser, já que os índios necessitam das coisas dos civilizados. Tanto os velhos como as mulheres não desejavam abandonar os costumes indígenas.

B — Depoimentos de Pedro Penõ

Pedro Penõ é o atual chefe da aldeia do Posto. Quando ocorreu o movimento, entretanto, o chefe da aldeia era seu tio materno Marcão, e a aldeia não tinha ainda sofrido o desmembramento ocorrido quando se formou a aldeia de Pedra Branca. O nome indígena do informante é Penõ Haragai´këre Kro´kroko Itót. Apresentou três depoimentos, que são os mais longos e também os mais coerentes.

B1 — O primeiro depoimento nos foi fornecido nos dias 26 e 27 de novembro de 1963. O informante o precedeu com a narração do mito de Auke, que vai transcrito no Apêndice II (nº 5). Contou então que José Nogueira ensinou que o criador de todos os animais da terra, Deus, é o inverno (estação chuvosa), a chuva: Deus é que refrigera todo o mundo. José Nogueira começou a contar. Disse que Papam (Deus) o estava ensinando. Ouvia-lhe falar lá de cima. Quando estava deitado, ouvia lá do alto lhe ser dito que iria ser um grande homem, bem rico de tudo, para ser chefe de todos os animais, para olhá-los. Ia ficar falente mesmo. Ele ouvia, assim como quem recebe telegrama; sem telegrama, pelo vento, vinha recado para ele. Dizia que há um presidente que está no meio do rio (mar). É Papam (Deus). Disse que ele sai a passear pelas cidades e ninguém conhece. Papam mesmo falou com ele para não fumar o fumo usado na região (fumo de rolo), mas fumar o cigarro "raporal", o cigarro "manço" (cigarro de maço, de origem industrial) que lhe vinha de cima. Também lhe falou para não beber cachaça, mas somente "bebidas" ("bebida" é qualquer refrigerante, cerveja ou bebida alcoólica que não seja aguardente de cana). José Nogueira agia durante a noite toda, somente sossegando de madrugada. Ele disse: "Agora vamos fazer um grande curral". O povo fez um grande curral, perto da aldeia, quando esta ficava no caminho que conduz à Fazenda Maravilha. Então, João Crioulo, João Silvano, Antoninho e Esteves criaram obstáculos para que José Nogueira não conseguisse seus intentos. Diz-se que eles fecharam com cera, por meio de feitiço, as orelhas de José Nogueira, para que este não ouvisse as ordenações que lhe vinham do céu. Essas pessoas fizeram assim porque queriam ficar como índios mesmos, não queriam abandonar os costumes dos antigos. O curral tinha a finalidade de receber o gado que iria chegar de cima ou sair do chão. José Nogueira ia maltratar muito os civilizados que moram em torno do território indígena, utilizando-se, para isso, da chuva. Amarraram (com feitiço) as orelhas de José Nogueira com pano, puseram-lhe algodão nos olhos, maltrataram-no muito, quase o matam de feitiço. José Nogueira tinha mandado amarrar as bocas dos cachorros da aldeia para que Papam descesse, pois, se os cães latissem, ele não viria. Todos obedeceram, amarrando. Mandou acabar com a semente do arroz todinha (o informante diz, entretanto, que não acabou com a dele, pois, se as coisas que José Nogueira prometia realmente acontecessem, ele ganharia sementes novas e daria as antigas para os porcos). Mandou acabar com as galinhas, com os porcos, pois os índios ganhariam novos animais e deviam acabar com os velhos. Todos acabaram com as sementes, com os porcos, com as galinhas. José Nogueira se esforçou a noite todinha, mas nunca chegou nada, nunca apareceu ninguém. Ele fez um pífaro de taboca; quando queria que chovesse, ele, que não era corneteiro, nunca tinha aprendido na cidade, tocava bonito o instrumento e, logo que começava, ouvia-se o trovão. José Nogueira mesmo disse ao informante: "Você presta a atenção quando a chuva vem, que o pífaro vem tocando". E diz o informante que escutou música, corneta, que vinha tocando na escuridão da chuva. José Nogueira se esforçou a noite inteira e quase mata João Crioulo, dizendo que foi ele que fez coisa (feitiço) para que não ouvisse. Marcão, que nesse tempo era o chefe, não deixou. José Nogueira foi para a fonte (lugar do ribeirão onde os índios tomam banho e de onde tiram água) com André, pai de Manoel Kutëkré, para esperar o motor (lancha), que nunca chegou. No motor, vinham os terens (artigos industrializados dos civilizados). José Nogueira disse que a aldeia ia virar cidade, os índios iam-se transformar em civilizados. Os civilizados, por sua vez, iam ficar assim mesmo como estão. Disse que iam acabar com os civilizados das redondezas, valendo-se da chuva, daquele relâmpago da chuva. Iam desocupar de civilizados tanto as redondezas como as cidades pequenas e próximas: Carolina, Pedro Afonso, Miracema, Porto Nacional, iam todas acabar. O Rio de Janeiro permaneceria. A cidade que surgiria no lugar da aldeia indígena iria ser grande. Justino, Marquinho, ficavam com pena de deixar de ser índios. Quando José Nogueira estava empenhado nisso, ninguém falava com ele, pois carregava a espingarda, punha-a na porta e ameaçava de fazer fogo. O pessoal da aldeia do Galheiro (Serrinha) veio ajudar a fazer o curral. Foi por causa dessas tentativas que José Nogueira ficou doido. Os civilizados querem brigar por causa da terra dos índios; por isso é que José Nogueira queria acabar com eles, atacando-os com a chuva. Só ia acabar com as cidades próximas; as cidades pequenas junto ao Rio de Janeiro ou junto de São Paulo, não falou nelas: só falou nas próximas dos craôs que são as que ele conhece. José Nogueira era muito "besta" (ignorante), mas, com essa "invenção", ele aprendeu a dizer o nome dos anos. Para ele, o "tampo" da cabeça era "caco"; o peito era o "tronco" e do cinturão para baixo era... Os índios iriam ser ricos como os civilizados: andariam de avião, de trem de ferro, de motor. Iam ter muitas reses, muitos cavalos. O gado seria para que tivessem leite e carne. Os cavalos seriam para os vaqueiros. Haveria "jeep" e caminhão para o serviço. O "jeep" seria para "gente grande". Os jovens queriam todos se transformar em civilizados; os maduros também; só quem não estava querendo se transformar eram os velhos. Justino estava com muita pena de deixar os costumes antigos. Penõ, o informante, estava cético quanto aos resultados dos esforços de José Nogueira. Marcão, o chefe da aldeia, estava calado; Davi, irmão de Marcão, queria se transformar, mas não acreditava plenamente na capacidade de José Nogueira em consegui-lo. Os velhos pediam ao informante que solicitasse a José Nogueira que parasse, pois não queriam virar civilizados, não queriam usar roupa.

B2 — O segundo depoimento deste informante se deu no dia 16 de janeiro de 1967. Disse, então, que tais acontecimentos ocorreram no tmepo em que Ely Távora era encarregado do Posto do S.P.I. A aldeia estava situada no riacho João Vidal, na passagem onde hoje há mangueiras e perto da Fazenda Maravilha. O chefe da aldeia era Marcão. José Nogueira fumou diamba. Viu aproximarem-se muitos animais (para os craôs a palavra portuguesa "animal" significa animal de carga e montaria, como cavalo, burro ou jumento). Como o pessoal de sua casa não quis se afastar, os animais voltaram. Na outra noite (não ficou claro se era a noite seguinte), Joaquim (Kratxet), filho da esposa de José Nogueira, namorando, abriu as palhas da parede da casa. José Nogueira, zangado, pegou a espingarda e atirou; por pouco, não atingiu Joaquim. José Nogueira então começou a tocar pífaro e, toda vez que tocava, a chuva vinha. Mandou fazer uma casa grande para si e, atrás da casa, um curral. Um dia, Ely Távora passou pela aldeia, quando ia à Fazenda do Xupé, e viu o curral. Perguntou para que era e os índios responderam que se tratava de uma cerca para proteger as fruteiras que iam plantar. Mentiram: era para gado. José Nogueira escolheu Penõ, o informante, para secretário. Penõ respondeu que, como José Nogueira queria, aceitaria. José Nogueira ordenou que se jogassem os cofos (cestos) fora das casas, pois, um dia, de manhã, ao invés de cofos, surgiriam malas. Hakru, esposa do informante, queria desfazer-se dos seus, mas Penõ disse que não, pois talvez não acontecesse nada. Jose Nogueira anunciou que o córrego João Vidal se tornaria um rio grande. À meia-noite do dia aprazado, convidou Penõ. Fez quatro tentativas dizendo: "Que venha o rio!", mas nada aconteceu. O curador André (pai de Manoel e de Krampéi) foi então chamado por José Nogueira, a fim de curá-lo. André tirou-lhe algodão da cabeça, posto por João Crioulo, pai de José Aurélio. Parece que José Nogueira fez tentativas até o amanhecer, sem nada conseguir. Marcou uma outra noite para fazer outra tentativa. Convidou Penõ outra vez, mas Marcão aconselhou-o a não ir, dizendo que José Nogueira estava mentindo. José Nogueira fracassou mais uma vez. Pouco depois, a aldeia inteira teve uma febre que durou três dias e o informante atribui a mesma a feitiço de José Nogueira, pois estava com raiva do povo, que não cooperou na sua tentativa de transformá-lo em civilizado. Os jovens, como Joaquim, queriam transformar-se, mas os velhos, como Marquinho e Justino, não: queriam deixar "rastro" (descendência) de índio. A aldeia do Galheiro (Serrinha) acompanhou com interesse o movimento e chegou a fazer lá um curral também. Seu pessoal, parece, veio até à aldeia onde estava José Nogueira, para assistir à transformação do córrego em rio. José Nogueira não tinha parentes lá, mas sim a sua mulher. Já então era chefe da aldeia do Galheiro o Xerente João Noleto. Daí por diante, José Nogueira endoidou. Quando via o povo cantar reunido, pensava que era para matá-lo.

B3 — O terceiro depoimento de Pedro Penõ é o mais longo de todos. Foi tomado a 31 de Janeiro de 1967. Segundo esse depoimento, quando a aldeia estava perto do Posto, José Nogueira fumou muita diamba. E começou a contar. Fumou no começo da noite e, quando já estava escuro, veio tropa de animais. A tropa vinha fazendo ruído, vinham tocando os chocalhos. O portador veio na frente para avisar para acalmar os cachorros e o povo. Mas o povo não acalmou e a tropa voltou.

Depois da aldeia mudou para perto da fazenda Maravilha, pois o pessoal do Posto sempre falava dos índios, dizendo que estavam a todo momento no Posto. Então, veio aviso para Penõ, o informante, para ir ao Galheiro (Serrinha) a fim de ver seu pai, que estava doente. Quando Penõ retornou, José Nogueira já estava contando, tocando pífaro, dizendo que ouvia o toque de muitos pífaros no céu e que os acompanhava com o seu, aqui na terra. Lá de cima, mandavam-no tocar. Quando ele começava a tocar o pífaro, começava logo a trovejar. Chovia muito, parava e então José Nogueira começava a falar no pátio para todo o mundo. Tinha já recebido nome. O homem que falava com ele lhe dissera que seria criador de todos os animais domésticos e do mato. Comunicava-se com o céu. Quando tocava pífaro, trovejava, chovia, parava de chover e José Nogueira começava a falar. E assim foi indo. Então José Nogueira começou a proibir a corrida de toras e os cânticos com maracá. O homem que se comunicava com ele se chamava Anjo. Deu a José Nogueira o nome de Piacá. Jesus, a mãe de Jesus, insistiram com José Nogueira para ser dono de tudo. Era para José Nogueira ser presidente. Sua casa devia ser muito alta, muito grande e ninguém o veria. Fizeram casa grande, de três vãos, fechada com barro. E José Nogueira dizia ao povo para que observasse sua casa, pois ela ia mudar. Penõ queria renovar sua casa, mas José Nogueira disse-lhe que não, que Penõ seria seu ajudante e que sua casa se iria renovar por si. E Penõ deixou a casa assim mesmo. Depois, José Nogueira mandou fazer um grande curral. E o pessoal fez um cercado grande. Disse que, aos sábados, todo o mundo só poderia comer peixe e coco. No sábado e no domingo, não deveriam caçar, porque, dentro em pouco, haveria muita carne de zebu e não fumariam mais do fumo que usavam (de rolo), mas de outro fumo. E seeee transformariam em "cristãos". Os índios mais velhos, como Justino, não queriam isso, estavam pensando muito. O informante diz que ele próprio também estava pensando muito: só iria crer quando visse as coisas prometidas. José Nogueira mandou as mulheres jogarem fora os cestos. Mandou gastar as sementes e matar as galinhas, porque apareceriam outras galinhas diferentes. Depois, apareceria gado (bovino), ovelha, bode. Jesus pedia muito a ele para fazer aparecer zebu, para virarem "cristãos". Depois, mandou que todos acabassem com a semente do arroz: "Quem não acabar com semente de arroz e com sua criação, não vira `cristão´, vira negro e vai ser trabalhador". Aí, os índios ficaram pensando que ele queria que todos acabassem com seus terens. E falou: "Agora todos vão apanhar comida na roça e os homens caçar, porque amanhã minguém sai, senão não volta para a `cidade´. Se sair, a pessoa vira bicho". Aí, todo o mundo caçava, as mulheres apanhavam massa de mandioca e coco para comer. No dia em que José Nogueira não queria que ninguém caçasse, todo o mundo ficava quieto em suas casas. Havia dias que tocava muito pífaro, dizendo que daqui de baixo escutava o toque lá de cima, que lhe ensinavam. Quando ele falava "Agora vai chover até de tarde e amanhã até de tarde", ele tocava muito pífaro e chovia. Então, ele mandava a chuva parar e a chuva parava. Então, ele começou a contar: "Agora meus soldados vão ser muitos e que é que nós vamos fazer? Depois que todo o mundo virar, aí nós atacamos os moradores, porque eles estão tomando terra. Porque depois que nós virarmos, ninguém é para ser melhor do que eu. Eles podem atirar em mim..." José Nogueira foi para o mato. Foi lá para o fim da cabeceira do ribeirão. Disse que havia uma torneira para desarrolhar, para sair muita água e virar rio grande. Quando retornou da cabeceira, começou a dizer que o homem que ia transformar os índios já estava debaixo da água lá no fundo do chão, esperando a hora em que José Nogueira mandasse aparecer. Quando foi outro dia, José Nogueira chamou Penõ, o informante, para ir lá. Pediu a Penõ para ficar sendo companheiro dele. O informante respondeu: "Não sei não, você é quem sabe, eu não faço questão, porque eu já sou mais civilizado, eu sei de tudo, eu já pego o jeito do cristão, eu sei um pouquinho, eu não me importo que faça a gente virar, mas os índios mais velhos estão falando de não virar. Você é quem sabe, do jeito que você quiser fazer para mim, eu aceito. Mas eu só vou crer quando eu vir alguma coisa de seu pedido, de sua presença, aparecer. Pois estão falando de você, você não está escutando, que isso é mentira sua". José Nogueira respondeu: "Não, não fale assim não, cunhado, pois nosso pai está escutando, se você fala assim, ele não dá confiança". Penõ retruncou: "Eu falo assim, porque, se aparecer qualquer coisa para aparecer de vista, está bom" (em suma, Penõ queria que José Nogueira provasse o que prometia, fazendo aparecer o que prometia). Então, José Nogueira promoveu um baile para os índios dançarem. Alertou-os para não trocarem de pares, não dançarem com a esposa de outrem, pois, senão não se transformariam em civilizados.

Quando se aproximou a hora dos índios se transformarem, José Nogueira começou a dizer que outros curadores estavam atrapalhando: João Crioulo, João Silvano, Esteves. O informante disse que não sabia; se ele visse uma carta ou um jornal caindo para José Nogueira, ele iria saber; mas, como só José Nogueira estava escutando, Penõ não sabia. José Nogueira falava que o estavam atrapalhando, que o tinham pegado e colocado seu espírito (karõ) numa loca de pedra. Mas Antoninho o tirou da loca de pedra; Antoninho estava do lado de José Nogueira.

De noite, falou para todo o mundo jogar os cestos, cuias, no mato, porque viriam mesmo pratos, panelas, colheres, garfos, bule, xícaras. Disse para todo o mundo jogar os cofos no mato e acabar com as sementes de arroz. Pois aqueles que não estavam acreditando, não jogaram fora. As roças apareceriam plantadas. E, nessa noite mesmo, o pessoal tirou os cestos das casas e foi jogá-los no mato. O informante não os jogou fora, pois o cesto que ficasse em casa viraria mala. Guardou a esteira; só se desfaria dela quando aparecesse rede.

José Nogueira ficou se esforçando com Antoninho, Raimundo Pinto, Patrício Novo. Depois veio chamar Penõ, porque, se na hora se transformasse, Penõ também viraria cristão. Quando o informante chegou lá, já estavam todos à beira do riacho. Já estava quase na hora do galo cantar. Estava frio. Penõ chegou lá e José Nogueira falou com ele. Penõ respondeu: "Você é quem sabe". José Nogueira lhe disse: "Quando o motor descer, a gente o pega e o encosta no porto". Penõ não era curador e ficou com medo de que, quando a água aparecesse, o levasse, pois não era curador. José Nogueira chamou a água para ela sair. Assobiou. Mas nada de água. Tocou o pífaro e nada. Mandou tocar sanfona debaixo d´água e Penõ não escutou nada. Esforçou-se até o galo cantar e nada apareceu. Já estava perto do amanhecer. Disse que outros estavam impedindo o aparecimento daquilo que prometera. José Nogueira falou: "Agora estão me atrapalhando e, quando amanhecer, porque meu irmão Piacá está me chamando lá, nós vamos lá, nós não vamos demorar não, porque é só chegar na beira do rio, nós vamos telefonar". Penõ disse que ia, mas Marcão lhe disse para não ir, para José Nogueira ir só com o povo dele. Amanheceu e nada havia aparecido: a casa feita estava do mesmo jeito e o curral estava vazio.

Então José Nogueira falou: "Agora chegou aí uma chuva brava". Penõ disse: "Como é? Minha casa vai cair, porque as forquilhas estão podres". José Nogueira respondeu: "Não, não vai acontecer nada com sua casa, só com as outras casas". Veio chuva brava, derrubando as cumieiras. José Nogueira, depois da chuva, preparou viagem. Então, ele zangou: "Agora nosso pai está vendo, nosso pai quer que a gente vire cristão, mas alguém está impedindo, ele vai dar castigo". Aí apareceu doença, febre, dor de cabeça, corpo quente. Até o informante pegou doença. Todos estavam doentes. Depois de quatro dias, passou a doença. Então, todo o mundo falava a José Nogueira que ele tinha pregado uma grande mentida ao povo. Se todos tivessem acabado com as sementes, ninguém teria nada para comer. O informante diz que ele próprio plantou sua roça e não matou seus animais domésticos. Falavam com José Nogueira que ele não tinha vergonha na cara, para fazer com o povo dessa maneira.

Dentro em pouco já estavam fazendo curral no Galheiro (aldeia de Serrinha). Mandaram um cunhado de José Nogueira, o Xerente Pedrão, fazer uma rês aparecer para todo o mundo ver. Se fizesse, então acreditariam e fariam o serviço que ele quissesse, pois já estavam sabendo que José Nogueira não conseguira nada na aldeia de Marcão.

José Nogueira fumou diamba outra vez e ficou doido.

Foram os parentes de José Nogueira os que obedeceram a suas ordens, matando os animais domésticos e gastando as sementes: a sogra de Secundo, a mulher de Esteves, a mulher de Joaquim, a mulher de Antônio Pereira, a mulher de Chiquinho. Jogaram fora as esteiras; mas, no dia seguinte, tiveram de trazer de volta as esteiras para a casa. O pai de Antoninho tinha o mesmo nome de José Nogueira. Pedrão era irmão de Vitória, esposa de José Nogueira.

C — Depoimentos de José Nogueira, o profeta do movimento

José Nogueira, chamado Rópkur Txortxó Kraté, foi o líder do movimento. Dispomos de quatro depoimentos seus sobre o caso, mas bastante contraditórios.

C1 — O primeiro depoimento data de 28 de novembro de 1963. A princípio, negou-se a confirmar ter alguma coisa com o movimento messiânico. Mas insistimos. Perguntamos-lhe sobre o "Cão". Respondeu-nos que não tinha nada com o Cão. Fora "Chuva" quem falara com ele. "Chuva" (Ta?ti) é como "gente" (civilizado) e suas "coisas" são como fogo. No mato, Chuva convidou José Nogueira para pegar suas coisas. Ele não quis; só quis ver. Era mesmo como fogo. Ele não pegou, porque ficou com medo de se queimar. E, depois, José Nogueira começou a "variar" (sofrer das faculdades mentais): "E depois eu fiquei bestinha por aí!" Chuva era como um homem civilizado. Disse a José Nogueira: "Olhe, você apanha minhas coisas e você tem de transformar com todo esse povo. Agora você fica chefe, agora você é dono desse lugar onde estão vocês. Você toma o lugar para o civilizado não tomar". E explicou ainda o informante que os índios eram poucos e que Chuva queria transformá-los em civilizados para misturá-los com os outros civilizados. Se José Nogueira tivesse agüentado, pegado as "coisas", todos os índios se transformariam, todos ficariam ricos: Chuva daria muitos recursos para José Nogueira. Não haveria mais aldeia e sim "rua" (cidade). José Nogueira mesmo não estava gostando de se transformar em "cristão", mas Chuva estava querendo assim. Chuva é pai de Deus (Pït, o Sol). Disse Chuva a José Nogueira: "Olha, sobrinho, esse é filho meu que está aí alumiando". Chuva conta a verdade mesmo, porque ninguém vê Chuva, ninguém vê nem o Sol. (Porque Chuva saiu debaixo dessa terra e depois é que pôs o dia e pôs a noite). Chuva também é pai de Pïdlïré (Lua). O sol que vemos é luz que está caminhando, mas Pït mesmo está em sua casa. A lua é luz de Pïdlïré. Ta?ti não é a chuva propriamente, mas é ele que manda a água. No leste, onde nasce o sol, ficam as moradas de Ta?ti, Pït e Pïdlïré. Diz José Nogueira que fizeram assim com ele porque primeiro Santiago e Mundico quase acabaram com a aldeia (referia-se ao ataque de fazendeiros que sofreram as aldeias craôs em 1940). Chuva queria dar-lhe poder de acabar o mundo: "Se você quiser, você apanha minhas `coisas´ e você acaba o mundo, porque `gente´ (os civilizados) não tem vergonha na cara, todo o mundo. Por isso que kupẽ (o civilizado) não pensava em mim; olha, como é que acabou com vocês". E comentou o informante: "Ah, fiquei besta mesmo, senão eu tinha acabado com cristão! Só esses fazendeiros, esses ao redor. Cidade grande não posso acabar não, só esses fazendeiros que estão juntinhos de nós". Contou então José Nogueira que poderia ter acabado com Pedro Afonso, Itacajá, Carolina, Miracema. Mas não com Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, porque o povo dessas cidades sempre acode os índios. Chuva lhe disse que, com essas cidades grandes, ele podia misturar os índios.

Então, José Nogueira nos contou a história do herói Auke. Acrescentou que o lugar onde está Auke atualmente não é o Rio de Janeiro não; deve ser a Europa.

José Nogueira confirmou que mandou fazer casa grande, fazer curral, dançar, amarrar a boca dos cachorros. Os civilizados pobres iriam continuar pobres, mas os índios seriam todos ricos. Sendo ricos, não roubariam mais. Chuva mandou que ele fizesse casa grande, pois ia dar mercadoria (tecidos), gado. Depois mandou-o tocar pífaro. José Nogueira ficou tocando pífaro até que Chuva ficou com raiva dele. Segundo o informante, talvez chuva já tenha aparecido no Rio de Janeiro, mas ninguém o conhece. É um homem novo, de cabelos pretos, barba grande, tinha um fuzil na mão (porque chuva forte mata as pessoas), usava sapatos, chapéu. Tem a cara fechada, não ri. Chuva se chama "Bandeirante". Quer que se lhe respeite: quando chove não se deve pegar facão, panela, falar alto, andar na chuva. Como os índios fazem assim, nunca a chuva matou índio. A chuva, porém, tem matado cristãos, que vão andar fora, quando ela está caindo.

C2 — O segundo depoimento dado pelo líder do movimento foi no dia seguinte, 29 de novembro de 1963. Nesse depoimento, José Nogueira também fala no mito de Auke. Mas, com relação estritamente ao movimento que dirigiu, pouco falou. Através desse depoimento soubemos que José Nogueira ia destruir Itacajá só porque era ordem de Chuva. Por ele mesmo não destruiria, pois tem pena do povo de Itacajá. Se destruísse Itacajá, onde os índios iriam comprar suas coisinhas? Itacajá vende caro, mas é perto. Se destruísse Itacajá, só poderiam comprar em Pedro Afonso. Porém José Nogueira destruiria por sua própria vontade a fazenda de Santiago (um dos fazendeiros que atacou os índios) e as casas de seus vaqueiros nas vizinhanças.

C3 — A terceira entrevista foi dada em 23 de janeiro de 1967. Entrevistamos José Nogueira na sua roça, abrigados na reentrância de um morro durante uma chuva. A entrevista não rendeu muita coisa, pois o líder messiânico nada queria dizer; apenas confirmava o que percebia que já sabíamos. Contou que sua doidice começou quando, certa vez, um rapaz trouxe diamba de outra aldeia. José Nogueira estava acostumado a fumar e a tomar cachaça, mas não a fumar diamba. Como insistissem, fumou e logo começou a sentir o efeito. A princípio, disse que nunca havia falado com Ta?ti. Como o lembramos que já tinha dito o contrário, contou, então, que, quando chovia, ouvia uma voz baixinha lá do céu que o mandava segurar o raio. José Nogueira afirmou que achava que isso fazia parte de sua loucura e que estava só em sua cabeça mesmo. Ficou com medo de segurar o raio. Se não conseguisse segurá-lo, o raio cairia no chão e acabaria com ele. Referimo-nos à transformação dos índios em civilizados e ele respondeu que tudo isso iria acabar, tanto índios como cristãos, e começaria uma outra coisa, que só Chuva sabe. Os cristãos cobram as coisas caro aos índios, mas tudo eles devem a Chuva, que fez todas as coisas e depois Papam ou Pït tomou conta. Até os livros dos cristãos mandam respeitar a chuva. Papam ou Pït é filho de Chuva. Confirmou José Nogueira que mandou fazer curral para encher de gado e casa grande para encher de mercadorias que distribuiria. Confirmou a vinda do motor e disse que quase ele veio. Disse que, atualmente, quando chove, não ouve mais nadinha. Perguntamos-lhe se os índios transformados em cristãos iriam se espalhar. Respondeu que a aldeia se transformaria em cidade. Disse José Nogueira que, se tivesse pegado o raio, talvez ficasse do mesmo jeito que Chuva. Então, curaria os doentes etc. Negou possuir ajudantes ou "secretários".

C4 — O quarto depoimento de José Nogueira foi dado em 3 de março de 1967. Como o anterior, foi um relato conseguido a custa de muita pergunta, já que o informante não fez esforço em fazer um relato contínuo. O resguardo que José Nogueira mandou os índios fazerem era como os dos cristãos em "dia grande" (dia santo): não comer carne, somente abóbora, leite de coco, peixe. O resguardo era feito no Galheiro (Serrinha) e na aldeia onde vivia José Nogueira; mas não na aldeia chefiada por Ambrosinho. Pedro Penõ (o atual chefe da aldeia do Posto) é que foi levar as instruções do informante ao Galheiro; não foi especialmente para isso: aproveitou a oportunidade da viagem de Pedro Penõ para lá. Teria sido o aviso dado na aldeia Galheiro (aqui a informação é obscura): "Eu dou aviso para vocês não comerem toda coisa, caça, fazerem resguardinho, comer só mesmo leite de coco, abóbora, peixe. Veado não. Mateiro não. Só mesmo peixinho, coco, abóbora, arroz, milho". Teria sido aviso ao pessoal morador da aldeia próxima do Posto (informação também obscura): "Agora você faz um curralinho, porque vai ter gadinho para nós". José Nogueira acha que foi Deus mesmo que lhe falou. Marcão, o então chefe da aldeia, dizia: "Se nós virarmos cristão, nós vamos matar qualquer um, assim como cristão, que briga". Marcão não queria se transformar em cristão com medo de briga. Cristão gosta muito de brigar, quando toma cachaça. Só José Nogueira queria virar cristão; os outros não, a rapaziada não; queriam ficar assim mesmo, nus, não podiam se vestir. José Nogueira falava de vez em quando na praça, de manhãzinha; homens e mulheres escutavam. Quando a nuvem ficava preta, vinha chegando recado para José Nogueira. Quando ficava preta a nuvem, José Nogueira saía (de casa?) e a chuva (nuvem?) se espalhava. Marcão e José Pinto, seu irmão, mataram cada um uma rês de sua própria propriedade durante o movimento. José Nogueira mandou cada um colocar palha em seu telhado, palha nova no telhado da própria casa e também fazer parede de barro, para ficar bom, ficar bonito. Esses acontecimentos se deram no tempo do encarregado Ely Távora. Ka´këre, da aldeia do Abóbora, também sabe lidar com chuva. Foi Marcão que disse a José Nogueira que lá no Abóbora havia alguém que sabia lidar com chuva, que, quando chama chuva, vem muita chuva. Chove até de manhã: quando ele sai (de casa) a chuva se espalha, termina. José Nogueira respondeu: "É, eu não estou duvidando não, às vezes é certo, não sei não". Comentou José Nogueira: "Às vezes, chuva mesmo não me quis mais, aí sua palavra não apareceu mais, acabou-se". Disse que depois que mandou fazer resguardo, curral, aí terminou. Depois ficou doido; antes desses acontecimentos não era assim. Lembramos-lhe então o caso do motor (lancha). Então José Nogueira disse que Chuva lhe falara: "Se pegar coisa minha, motor, rio, vai aparecer". Chuva estava lhe prometendo o kutxe (relâmpago). E Chuva lhe disse: "Se pegar kutxe, tudo vai aparecer; se não pegar kutxe, você vai variar mesmo". E acrescentou José Nogueira: "Quando cortaram minha verba todinha (sic), eu variei, quase me mato com minha mão". Tentamos tomar os acontecimentos pela ordem cronológica; mas José Nogueira não parecia querer contá-los. Havia-nos dito que Chuva só lhe disse: "Olhe, seu fulano, eu lhe quero muito bem, se você quiser meu relâmpago bom, eu dou relâmpago". José Nogueira respondeu: "Não sei não, se eu tivesse coragem, eu pegaria este relâmpago". Chuva retrucou: "Pois é, gosto muito de você, vamos ser amigos". José Nogueira lhe disse: "Pois é, vamos ser amigos". Na segunda vez, Chuva lhe disse: "Olhe, agora você vai falar para todo o povo para não comer caça ruim não, só comer bicho que não mama, galinha não mama, só pode comer peixe, abóbora. Você avisa ao povo: se comer bicho que mama, será alma de você que vão comer". Piaho parece ser o termo para bicho que mama. Só nos "dias grandes" (dias santos) é que os bichos que mamam são mekarõ (almas dos mortos). Diz José Nogueira que os moradores civilizados falam assim; e a mesma coisa Ta?ti foi-lhe dizendo, dizendo certo. Na terceira vez, Chuva lhe disse: "Acabou-se, eu não estou mais lembrando de você não; agora você pode andar no mundo". E diz José Nogueira: "Aí, eu fiquei já com a cabeça variada, aí, eu não estava lembrando de nada". Sobre o motor (lancha), disse o informante: "Quando eu fui esperar o motor, já vinha muita zoada (barulho), aí, o chão tremeu, eu fiquei com medo e corri para casa". O informante estava sozinho e pensou: "Agora as coisas vão aparecer para mim e vou-me acabar". O povo todo estava quieto. Acha José Nogueira que o motor voltou de longe mesmo, não chegou até onde ele estava. O povo, então, ficou zangado com o informante e lhe disse: "Ah, isso é mentira, você está mentindo para nós; estamos perdendo serviço, você não presta. De onde vinham as coisas falarem para você? Isso é conversa! Se fosse Deus, as coisas apareceriam para você e a gente ficaria alegre. Isso é invenção de sua cabeça. Nós fizemos serviço grande e perdemos". Marcão e José Pinto cobraram o gado que mataram e José Nogueira pagou com serviço na roça. O povo do Galheiro não fez curral na aldeia deles. Disse José Nogueira que não pretendia atacar os cristãos, a não ser que eles atacassem. Transformado o índio em cristão, os antigos cristãos permaneceriam cristãos.

D — Depoimentos de Patrício Chiquinho

Trata-se de um indivíduo de meia idade, xamã, morador na aldeia do Posto, e cujo nome indígena é Põhïkhrat Katxëpei, nome aliás que é o mesmo do filho de José Nogueira.

D1 — O primeiro depoimento que nos forneceu a respeito do movimento messiânico é curto e data de 27 de novembro de 1963. Contou que José Nogueira mandou amarrar a boca dos cachorros para não espantar chuva, pois cachorro espanta mekarõ (alma do mortos). Fez isso para que Chuva fosse à casa dele. Chuva é como os índios, mas tem cor preta. Se os cachorros latissem, Chuva ficaria zangado e queimaria José Nogueira.

D2 — No outro depoimento, Patrício Chiquinho estava bêbado. Foi a 3 de março de 1967. Declarou que os civilizados das vizinhanças acusavam os índios de roubo de gado. Mas ele, o informante, tem o poder de destruí-los com chuva: acabará com os civilizados próximos, com os de Goiânia, os de Brasília, os do Rio. Depois, excluiu o Rio de Janeiro do rol de suas destruições. Disse que ia fazer isso no próximo mês de fevereiro. Pediu-nos que não contássemos nada aos outros cristãos. Foi Deus que lhe ensinou a fazer isso. Disse então que José Nogueira também sabia, mas não nos queria contar.

E — Depoimento de Zacarias

Zacarias, de um pouco mais de 30 anos de idade e que mora atualmente na aldeia do Posto, chama-se Rópkë Kaui e nos deu o seguinte depoimento em 29 de novembro de 1963.

Disse que José Nogueira só ficava na rede, tocando pífaro. Era o Cão (Diabo) que lhe mandava fazer assim. José Nogueira mesmo que contava. O Cão estava tratando com José Nogueira. Mandava a rapaziada dançar, vadiar. José Nogueira fazia a rapaziada dançar na sua própria casa; dançavam com as mulheres. Ele tinha casa grande, na tapera da aldeia que tem pés de manga. Ele tocava música de cristão nesses bailes para virarem civilizados, mas não viravam. E diz o informante: "Índio é índio!". José Nogueira fazia isso todas as noites até meia-noite. Mandou fazer curral de gado, e fizeram-no. Disse que tinha gado, mas Zacarias não sabe onde. O Cão é que ia mandar gado para José Nogueira, para o povo dele. Era no tempo em que José Nogueira estava doido mesmo. O Cão conversava com ele, dizendo que ia mandar muita coisa: bacia, tigela, espelho, lanterna, óleo, pente facão, espingarda, foice. E José Nogueira dizia aos índios: "Podem fazer o serviço, quando o dinheiro chegar, eu vou pagar tudo". O informante diz que não ajudou a fazer o curral, mas auxiliou na construção das paredes da casa de José Nogueira. Este arranjou gado com Marcão ou Davi ou Penõ para o povo comer e fazer o serviço da casa dele. Era casa feita na aldeia, grande como a do Posto do S.P.I. O povo de João Noleto veio (aldeia de Serrinha), o do Ambrosinho veio, o de Marcão veio (o informante está enganado, pois nesse tempo não havia aldeia do Marcão, sendo este o chefe da aldeia onde se davam os acontecimentos). José Nogueira queria casa grande por ordem do Cão. Este conversava com ele, prometeu-lhe pano e toda a coisa, miudezas e até fazer os índios virarem civilizados. A casa era de quatro forquilhas (centrais?) e larga como o Posto. O povo deixou de correr com toras. Os civilizados passariam a ser índios e estes, civilizados. O informante afirmou que gostaria de se transformar em civilizado, pois todos iam se transformar e ele não queria ficar sozinho. Não ficou claro se Zacarias gosta mais de ser índio ou de ser civilizado.

F — Depoimento de Milton

Trata-se de um rapaz, casado, cantador, morador na aldeia do Posto, de mais de 20 anos. Seu nome indígena é Pótxö. Seu breve depoimento data de 30 de novembro de 1963.

Disse o informante que participou das danças, quando José Nogueira queria fazer os índios se transformarem em civilizados. Pótxö queria se transformar em civilizado. Não gosta de ser índio. O tora arrebenta o corpo por dentro. Os índios só caçam, correm e trabalham pouco. Se virasse cristão, não correria mais, só cuidaria da roça, de criação de galinhas, porcos. Já falou com seu pai que ia fazer casa separado. Sua mulher também quer separar-se da aldeia. A corrida de toras diminui as horas de trabalho. Quando foi ao Rio de Janeiro, quis ficar lá, mas Aleixo (seu irmão?) não deixou (já esteve no Rio de Janeiro duas vezes). Os jovens não querem mais correr com toras, mas os velhos insistem. Quando os velhos acabarem, acabará também a corrida de toras. Milton quer trabalhar e enriquecer. Queria ficar na cidade por causa do movimento; esqueceria seu pai e sua mãe.

G — Depoimentos de Secundo

Também morador na aldeia do Posto, Secundo tem por nome indígena To´tote Wa´here Tenaku. Deve ter perto de 30 anos. Deu três depoimentos sobre o caso.

G1 — O primeiro foi em 2 de dezembro de 1963. Disse que era um menino de mais ou menos uns doze anos (tomou como referência um menino da aldeia), quando José Nogueira entrou em contacto com Ta?ti. Lembra-se de que José Nogueira mandou todo o mundo tomar um bom banho antes de dormir, à tarde. Quando acordassem, já seria em cama de civilizado e já estariam de roupa. O povo tomou o banho.

O pai do informante também conversava com Chuva. Uma vez, ele e sua mulher iam apanhar bacaba, mel, buriti. A mulher estava com sede: "Tupen, aonde eu vou beber água?" O marido respondeu: "Aqui não tem água, é só seco". A mulher se zangou e então ele falou: "Olha, você pode reparar naquela pedra, naquele pau". A mulher foi e viu água no seco mesmo. Bebeu e ficou forte. O pai de Secundo achou dois tatus. Voltaram para a aldeia. Ao chegar à casa, a mulher contou aos filhos (Secundo era pequeno; seu irmão Clóvis ainda não tinha nascido): "Olha, eu estou só olhando seu pai e não vi como ele fez água!". O marido a repreendeu, dizendo-lhe para não contar aos outros, só aos filhos. Os filhos estavam com fome. A chuva vinha pertinho e Tupen dizia à mulher: "Fica quieta com seus filhos e eu vou passear com Chuva. Eu venho já." E ele não se molhava na chuva. Voltava seco. O "chefe da chuva" dava-lhe carne, farinha (Chuva não passa fome; na chuva, há toda carne, até gado). Voltava para a casa com o cofo (cesto) cheio. Isso era de noite, quando ninguém via. De manhã cedo, dizia: "Ó menino, vai reparar o telhado da casa!" O menino exclamava: "É carne! É carne!" O pai recomendava: "Cala a boca, apanha, pode apanhar; ninguém botou aí em cima não!" O pai do informante recebia mensagens de Chuva através de um beija-flor (iunré). Um dia, Aleixo ou Milton (irmãos do informante) jogaram um pau no beija-flor que estava pousado no dedo de Tupen (pai do informante), matando-o. Tupen amassou o passarinho com as mãos, soprou e ele sumiu. O pai chorou com pena do beija-flor e avisou: "Já matou essa coisa, agora eu morro logo". E ficou zangado mesmo com o menino que matou o bicho. Morreu tuberculoso, pouco depois.

G2 — A segunda entrevista de Secundo, embora nada conte do movimento desencadeado por José Nogueira, é interessante, porque narra a experiência que teria tido um índio, que poderia servir de base para um movimento messiânico. Este depoimento data de 5 de dezembro de 1963. Segundo o informante, veado, peixe, jabuti, tamanduá-bandeira, tatu, tatu-peba, tatu-canastra, caititu, porco-queixada, anta, são animais que caem do céu com as chuvas fortes. Só mesmo os bichos grandes caem dessa maneira. A raposa não cai. O boi, o porco, a galinha, não caem. Diz o informante: "Sempre que estão acabando as caças, quase todas, Deus manda as coisas para a gente matar. Olha, repara que agora não tem nada, só mesmo veado. Deus olha para baixo e ficam as pessoas com dois dias de fome, vão caçar e aí encontram coisa que Deus manda". Só com chuva forte caem os animais. Quando a chuva é forte, vai descer alguma coisa: anta, veado ou peixe. Parece que foi Aleixo, irmão do informante, que viu um jabuti cair na porta da casa na aldeia. A seguir, o informante começou a contar a história do dono dos veados, que diz ser verídica e ter acontecido quando ele era ainda pequeno. Na direção de Olivença, onde primeiro esteve a aldeia do Posto (perto da Fazenda Maravilha), há o morro do Chato, que é mesmo como a casa de capital grande (arranha-céu) e onde ninguém sobe. Diz-se que, lá, há dono de veado e não é índio não, é cristão mesmo. O índio Wapo estava caçando sozinho, e baleou veado. E saiu atrás dele na direção do morro do Chato. Ele já estava perto do morro e o veado entrou em direção do morro. O índio foi atrás, mas o veado entrou na pedra. Aí, o dono dos veados falou de cima da pedra: "Eh!" O índio respondeu: "Eh!" O dono dos veados perguntou: "É você que está baleando o meu gado? Entre aí, eu já o pus no curral para você matar". Wapo ficou calado, com medo, não respondeu nada, enguliu a tosse. A pedra abriu-se como uma porta e o dono dos veados disse: "Pode entrar e matar o veado que você baleou". O veado estava lá. Estava cheinho de veados. Wapo entrou na casa. Era o mesmo que loja: tinha espingarda, pano, estava cheia de mercadoria. O dono mandou matar o veado baleado para este não ficar doente. E disse ao índio: "Oh, você pode reparar essas coisas; essas coisas tudo é seu". A casa de Deus era ali. Deus, de vez em quando, passava algum tempo ali. O dono dos veados falou: "Quando eu explicar a você, você não vai perder minha palavra, senão você não vira cristão. Pode vir no fim da semana e eu dou duas espingardas; no fim da outra, eu dou panela; na outra semana, eu dou miçangas. Você pode vir no fim da semana. Quando outro perguntar a você, você não diz: diz que comprou no Vau (Itacajá). Quando eu acabar de explicar a você, você pode trazer todo o mundo e eu vou dar as coisas; não é preciso ir para o Rio (de Janeiro) não. Você não vai viajar no mundo não; aqui tem muita coisa". Wapo matou o veado, tirou o couro e foi embora. Quando chegou à aldeia, a mulher lhe perguntou: "Eh, você está custando, você veio tarde, não veio cedo não!". Wapo respondeu: "Não, porque eu estou doente, baleei veado e aí fiquei correndo atrás dele até que matei, por isso só vim tarde". A mulher partiu o veado com os parentes dela. O dono do veado tinha-lhe mandado não comer carne, nem farinha, nem arroz, nem sal, nem rapadura; comer só milho. Só poderia comer de tudo depois de um mês. Aí, a mulher preparou o veado e o marido não aceitou. A mulher então perguntou: "O que você viu, o que você está pensando?". No entanto, o prazo dado pelo dono dos veados foi ultrapassado e este se zangou. Wapo foi chegando perto do morro e o homem falou: "Psiu, não vem não, você não veio no trato, já passou muito; não quero ver mais você aqui". E a pedra não se abriu. Wapo foi-se embora para a casa. No caminho, ficou com o couro quente e já chegou ruim em casa. A mulher lhe disse: "Eh, você está com o couro quente!". Wapo respondeu: "Agora, eu vou dizer para você; quem me vai perder é você mesmo; eu querendo caçar mesmo no trato e aí você não quis deixar e aí voltei; e já estou ruim mesmo". O índio deitou na cama e continuou: "Agora você pode me escutar: o dono dos veados é que vai me matar, porque eu passei do trato e ele zangou comigo. Ele mesmo vai me matar". A mulher disse: "Pode contar para mim". O índio continuou: "Olhe, aquela pedra se chama morro do Chato, tem bicho lá, bicho não, é cristão mesmo. Lá tem tantas coisas só para vocês, tanta coisa só para nós eu vi lá. Eu não fui no trato e ele zangou-se. Se eu respeitasse o trato, eu tinha me transformado mesmo como o cristão". E então Wapo morreu.

G3 — O terceiro depoimento de Secundo data de 21 de janeiro de 1967. O informante era pequeno quando ocorreu o movimento. Lembra que José Nogueira mandou o pessoal da aldeia tomar banho de tarde, na véspera do dia de se transformarem em cristãos, mandando lavar os pés, que amanheceriam com sapatos. Acordariam já vestidos; teriam espingarda na casa etc. A casa e o curral foram feitos primeiro. A casa era grande e estaria cheia de coisas que os cristãos possuem. Secundo ajudou um pouco. Parece que fez o serviço de carregar barro para as paredes. Para esperar o motor que viria, todos se reuniram na casa grande. Segundo aí cai em contradição. Disse primeiro que não ouviu o barulho do motor, pois era menino e menino não sabe. Depois disse que ouviu. José Nogueira ficou com medo que o motor voltasse. O motor parou e José Nogueira correu com medo. Disse que o motor voltou e não vinha mais. O povo dormiu em suas casas, pensando que no outro dia acordariam como cristãos. Mas tal não aconteceu. Segundo o informante, nesse movimento os cristãos iriam desaparecer. Perguntamos-lhe se este seria também nosso destino, mas ele esclareceu que seriam somente os cristãos das cidades próximas dos índios. Afirmou que os índios mais velhos não queriam se tornar cristãos: Gabriel, Chico Velho, Patrício, Alfredo Velho, Marquinho, Justino, Antônio Pereira, Pedro Noleto. Esteves e Marcão queriam se transformar. Tentamos saber de Secundo se houvera entre os craôs outros movimentos semelhantes. Ele citou o caso de Aleixo, seu irmão, e de Bento, seu pai, mas depois vimos que não se tratava de movimentos messiânicos. Aleixo disse que ninguém morreria mais, pois ele curaria. E que ele ia subir aos céus. E também disse que tudo ia desaparecer. Secundo não esclareceu mais do que isso. Bento (Tuho Katuare) era mestre de chuva (Ta?ti). Chuva gostou dele. Era de Travessia (aldeia dos desaparecidos canelas-quencateiês, atacados em 1913, no Maranhão, pelos civilizados). Os cristãos atacaram os índios. E os amarraram e iam matá-los. Mas a bala cortou a corda e Bento caiu dentro d´água. Desamarrou os pés e fugiu para os craôs. Casou entre estes. Secundo era do tamanho de Piken (fiho do informante, de uns 6 anos de idade) e via o que o pai trazia para a mãe. Trazia muito tatu-peba, tatu, que Chuva mandava para ele. Vinha debaixo de chuva, mas sem se molhar. Uma vez, o compadre (hõpin) dele estava com sede no mato. Não havia fonte. Alguém falou com Bento que o compadre dele estava com sede. Bento mandou o compadre procurar água num pé de pau. A água estava numa pocinha e todos beberam. Os que não beberam logo foram procurar e não viram mais a poça. De noite, iam dormir e de manhã Bento acordava um de seus filhos, Aleixo ou Abel, que eram os mais velhos, e mandava apanhar um traçado de carne de gado em cima do telhado. O portador de Bento era o iunré (beija-flor). O portador pousava no dedo de Bento, falava e voltava. O portador disse para ficarem quietos em casa, porque chuva vinha forte. Não andavam com fome os de sua casa: não faltava carne, nem arroz, nem farinha. Bento morreu na aldeia do Galheiro. De noite, não deitava com a mulher, ia embora, subia, ia ver o mundo; descia e contava o que vira. Voltando a falar de José Nogueira, Secundo disse que ele falhou por não ter guardado o resguardo: não comer coisa pesada, não copular.

H — Depoimento de Aleixo

Aleixo tem o nome indígena de Póhi. Mora na aldeia de Serrinha e tem mais de trinta anos. Seu depoimento é de 15 de dezembro de 1963. No tempo em que José Nogueira tentava fazer os índios virarem civilizados, Aleixo morava na aldeia de Ambrosinho. Ouviu, então, que José Nogueira mandara dizer que quem tivesse gado que o matasse, porque, no lugar de um, seriam dez ou vinte. João Canuto, Chiquinho e Ambrosinho então tinham gado. Os índios deveriam se metamorfosear em cristãos e estes passariam a ser índios. Mandou fazer cercado na aldeia de Penõ e no Galheiro também fizeram. Entregavam mandioca uns aos outros, sob promessa de pagar quando se tornassem cristãos. Aleixo diz que então comprou dois cofos de mandioca de Osé, a dez cruzeiros cada um, mas pagou logo, porque, quando virasse cristão, não quereria gastar o dinheiro que iria ser dele. O movimento durou um mês. Aconteceu entre outubro e novembro de 1951 (Aleixo se lembra, porque, em 1950, ele passeou no Rio de Janeiro). Bertoldo, irmão de Chiquinho, mandou matar sua única vaca e bezerro. José Nogueira só queria que os índios comessem peixe com leite de coco. Que comessem só cozido, nada no moquém. Chegaria o dia em que mandaria sangrar os velhos para que rejuvenescessem. Os índios só podiam então dançar homem junto com mulher; os casados dançariam com a própria mulher, pois, quando se transformassem, se tivessem dançado com mulher de outrem, sua mulher surgiria casada com outro. Solteiro dançaria com solteira. João Canuto vendeu todo o seu gado: duas cabeças. Aleixo, o informante, vendeu uma, que comprara de João Canuto, se não estamos enganados. Ambrosinho e Chiquinho mataram gado também. Muitos não queriam se transformar. Aleixo não acreditava que iria se transformar. O curral que fizeram no Galheiro tinha uns cem metros de comprimento (ia como da casa de Aleixo até à fonte da aldeia). Quando virassem cristãos, o curral amanheceria com gado "raciado" (zebu ou mestiço de zebu). Iria haver ricos e pobres. Todos teriam coração de ouro, porque o ouro não apaga nunca e por isso não iriam morrer nunca. José Nogueira foi marcando tempo, até marcar o dia: "Amanhã de noite, é para virar cristão". Quando chegou a noite combinada, ajuntou o povo e mandou todos olharem para o céu. Quando José Nogueira voasse, todos virariam cristãos. Ele iria voar para o céu. Pulava de braços abertos para voar. Aleixo diz que riu muito quando Davi lhe contou este acontecimento. Pulou, pulou, cansou e aquietou. Então, disse ao povo que eles não se transformariam mais não. O povo então o repreendeu, porque estava mentindo. Durante esse período, os índios não caçavam mais, porque, se caçassem, virariam bichos. Davi e Porfírio estavam na aldeia de Penõ quando isso aconteceu.

I — Depoimento de Davi

Davi também mora na aldeia de Serrinha e tem mais de trinta anos. Seu nome indígena é Kaho. Deu-nos um depoimento no dia 15 de dezembro de 1963. Contou que José Nogueira ficou louco, fugia de todos, andava sempre com espingarda, temia que quisessem matá-lo. Mas ficou bom e, depois disso, deu para mentir. Contou que Auke (o informante então nos narrou rapidamente o mito de Auke) lhe ordenara o seguinte para os índios: guardar o sábado e o domingo; não comer caça que mama, só peixe. Mandou fazer curral nas três aldeias existentes. Quando chegou o dia de os índios virarem cristãos e de José Nogueira virar presidente, ele chamou todos os índios (na aldeia de Penõ) e foram todos esperar o motor, que iria subir pela água da fonte da aldeia onde há mangas. O mar viria então até ali, acompanhando o motor. Era de noite. Todos os índios olhavam para as estrelas para ficarem alvos, se olhassem para baixo ficariam negros. Todo o mundo estava acreditando. Das outras aldeias, então, estavam presentes Jacinto, Marcão, Davi (irmão de Marcão), Davi (o informante), Mundico, José (Pï´hoko), Iromtép, Porfírio. Trabalhavam, então, pelo S.P.I., Ely, Leusipo, Cícero. Os índios não deviam contar nada aos cristãos. Os índios iriam virar cristãos e estes, índios (todos os cristãos virariam índios, inclusive os das cidades). José Nogueira dava ordem para matar gado bovino, porco, capado. Davi, o informante, tinha três vaquinhas e matou tudo. João Canuto matou cinco reses, ficaram uma novilha e um garrote. Marcão matou dez reses. Davi (irmão de Marcão?) matou duas, depois zangou-se e não quis mais matar: duvidou de José Nogueira. José Pinto matou cinco e era tudo o que tinha. José Nogueira proibiu de plantar, pois os gêneros nasceriam por si, mas o informante plantou cinco pratos (dez litros) de arroz. Foi Penõ (que ainda não era capitão) que foi buscar o povo do Galheiro, enquanto Pedro Colina foi buscar o da aldeia de Ambrosinho. O informante já estava com a roça limpa, a finada sua mãe dizia que ele não podia plantar arroz, senão ficaria cego. Mas Agostinho, o finado Wakedi, Wa´here (Antoninho), Porfírio e mais uma mulher o ajudaram a plantar. Na noite decisiva, José Nogueira mandou os índios tirarem as coisas dos jacás, porque, quando acordassem, eles teriam virado maletas. Nessa mesma noite, José Nogueira punha as mãos no chão, virava as nádegas para o céu para passar telegrama (o informante nos disse que tinha vergonha de contar isso, mas como Aleixo já tinha contado...). José Nogueira seria presidente; Penõ, ajudante; o finado André (pai de Manoel Kutëkré), secretário; Lourenço, motorista. Na primeira noite, não chegou o motor, porque Rópkutxo (João Crioulo) jogou pedra dentro d´água. Na segunda noite, o povo foi esperar até que José Nogueira mandou dormir. Nessa noite, todos iriam virar cristãos e os cristãos, índios. José Nogueira acusou João Crioulo e Marco (Mroyanõ) como causadores do insucesso da empresa. Foi na primeira noite que ele mandou amarrar a boca dos cachorros; se estes latissem, o gado não entraria no curral. Os bailes, José Nogueira os realizava aos sábados. Deu bailes durante uns dez sábados. José Nogueira tocava pífaro. As noites decisivas foram um sábado e um domingo. Já então o povo das outras aldeias não estava mais na aldeia onde vivia José Nogueira: estavam nas suas aldeias, ajeitando os caibros das casas, para que surgissem telhas. José Nogueira brigou com José Pinto. Este matou um garrote e uma novilha de Basílio, seu filho, que estava na aldeia Canela de Porquinhos, e exigia uma indenização do vidente. José Nogueira ficou durante cinco anos trabalhando em roça dos outros para pagar os prejuízos; depois, com pena, o deixaram. Logo depois do seu fracasso, José Nogueira passou uns tempos em estado são na aldeia do Galheiro; só recentemente sua doença nervosa voltou. Nas sextas-feiras, nos sábados e nos domingos, não se comia carne, porque era o jeito do cristão, era jejuando. Disse o informante que só João Crioulo e José Pinto não queriam se transformar: os dois plantavam roça e bem plantada. O informante deixou transparecer que ele, pelo menos, e os outros índios queriam virar cristãos, mais por uma obrigação imposta pelo sobrenatural do que por um desejo próprio...

J — Depoimentos de José Aurélio

José Aurélio mora na aldeia do Posto e tem mais de 40 anos. Seu nome indígena é Atorkó. É conhecido como bom orador pelos índios e respeitado pelos civilizados.

Seu primeiro depoimento data de 18 de janeiro de 1965. Disse que antes José Nogueira era são. Mas começou a contar que alguém de lá do céu tinha falado com ele e lhe ia dar poderes. Os índios iam ganhar muita coisa. Esse ser sobrenatural se chamava, o informante não se lembra bem, Coelho. José Nogueira mostrava o retrato dele num livro. Este livro lhe tinha vindo às mãos por meios sobrenaturais. José Nogueira mandou fazer casa grande, fazer curral, matar todos os animais domésticos. Tudo isso foi feito, José Pinto chegou a matar um garrote. Davi e Marcão não mataram bovinos porque não acreditavam na história. José Nogueira dizia estar sabendo que alguns não acreditavam nele e ficava muito zangado. A aldeia, então, estava no caminho da Fazenda Maravilha. José Nogueira disse que uma certa noite viria o motor ou vapor com as coisas para os índios. O córrego que passava na aldeia se transformaria em rio grande para vapor e motor. José Aurélio, o informante, diz que escutou barulho de motor na direção do Posto S.P.I. O barulho cessou. José Nogueira disse então que nada ia acontecer, porque o povo não acreditava nele. Antes disso, ele tinha realizado um baile, onde tocava pífaro. O informante disse que não dançou: ficou só mesmo olhando. Sobre a destruição dos cristãos, disse o informante nada ter escutado. O povo ficou zangado com José Nogueira, mas não muito. Foi depois disso que ele ficou doido, pensando que iam matá-lo. Agora está bom.

Em 17 de janeiro de 1967, José Aurélio nos deu outro depoimento, breve, pois foi interrompido. Disse que José Nogueira estava bom. Começou a fumar diamba. Mandou o povo matar galinhas e porcos. O povo matou tudo. O povo não matou gado bovino. Apenas José Pinto matou seu gado. Mandou fazer casa grande e curral. O povo não trabalhava em outra coisa a não ser nisso. E ia comendo seus animais domésticos à medida que fazia a casa. Não plantaram nada, embora tivessem roça queimada. José Nogueira disse que ele arranjaria a comida. Disse que apareceria rio grande e motor. Mas não conseguiu isso. O informante não sabe em que ano isso aconteceu e nem quem era o encarregado do S.P.I. então: desconfia que foi no tempo de Jonas e de José Tavares.

K — Depoimento de Aloísio

É também um morador da aldeia do Posto e tem cerca de 40 anos. Seu nome indígena é Tukaprï. Seu depoimento data de 19 de janeiro de 1967.

Este informante acha que José Nogueira enganou o povo. Não obstante, afirmou que era Chuva quem falava com o mesmo. Tudo começou quando José Nogueira fumou diamba. Confirmou a construção da casa, a construção do curral com a participação do pessoal do Galheiro. O importante na informação de Aloísio é que, segundo ele, o dia marcado para a transformação dos índios em civilizados, à noite, era o mesmo em que chegaria o motor. Nessa noite é que amarraram as bocas dos cachorros; nessa noite é que as casas amanheceriam com telhas. Em preparação para essa noite é que os índios jogaram fora os kohó (cestos). Os índios dormiram em suas casas. José Nogueira foi sozinho esperar o motor. Disse o informante que sua mulher, no começo da noite, ouviu na fonte o barulho do motor que iria sair do chão. Também Aloísio diz ter sentido o barro tremer. Ainda nesta noite, o povo dançou até às dez horas e estavam todos alegres, porque iam virar cristãos. Não trabalharam mais, matavam seus animais domésticos. Só comiam abóbora, leite de coco e algo mais que não registramos. Toda noite dançavam na casa que José Nogueira mandara fazer para si. Ele mesmo tocava um pífaro e os índios dançavam à moda dos cristãos. José Nogueira não conseguiu nada, porque um outro curador lhe pôs algo na cabeça. Ninguém mais falou com José Nogueira, zangado com ele. José Pinto matou uma rês durante o movimento. Marcão quase mata todas, mas não matou. A aldeia do Galheiro participou quase toda do movimento. No dia de virarem cristãos, bem como no dia de fazer a casa e o curral, quase todos os homens do Galheiro estavam na aldeia do Posto. Entretanto, o pessoal de Cabeceira Grossa não participou, porque, nesse tempo, estavam brigados com a aldeia do Posto. E o informante contou um incidente que envolveu membros de duas aldeias numa disputa por causa de uma mulher.

L — Depoimento de Davi, irmão de Marcão

Davi já tem mais de 50 anos. Seu nome indígena é Rã´rãkre. É quem possui mais gado entre os craôs, sendo conhecido como muito hábil em trabalhos manuais e muito trabalhador. Seu depoimento data de 20 de janeiro de 1967.

Disse que o movimento se deu quando Penõ era chefe (o que não é verdade). Falou na construção do curral e da casa. Disse do interesse dos velhos em permanecerem índios: Justino, Marquinho, Esteves. Insistiu sobremodo na resistência de Justino. Afirmou que os jovens queriam se tornar cristãos, pois eles querem tudo que se lhes oferece. Quem falava com José Nogueira, segundo o informante, era nosso Pai, Papam. Marcão estava indeciso se queria ou não se transformar em cristão.

M — Depoimento de Ambrosinho

Ambrosinho já passa dos 50 anos e é chefe da aldeia de Boa União. No tempo em que ocorreu o movimento, sua aldeia era maior, pois dela ainda não havia se destacado a aldeia do Abóbora. Seu depoimento data de 5 de fevereiro de 1967.

José Nogueira mandou um mensageiro para a aldeia do informante: era Simeão. José Nogueira proibia fazer paparuto e também comer carne nos dias santos: só comer coco, peixe etc. Não comer comida pesada. O informante confirmou a construção do curral e da casa. Marcão não dizia nada, pois estava acreditando. Na aldeia do informante, deixou-se de fazer paparuto, mas continuava-se a comer carne nos dias santos. José Nogueira mandou o povo jogar fora o urucu, para receber roupa. Disse que, na mesma noite, iria subir. O povo foi assistir no pátio. José Nogueira tomava todas as posições e mesmo virava as nádegas para cima. Davi foi dormir amuado. O povo dispersou sem ter visto nada de extraordinário. José Nogueira ainda recomendou que dormissem bem esticados para que o sapato pudesse entrar no pé. A noite de espera do motor (lancha) foi outra. José Nogueira mandou matar gado, dizendo que as vacas passariam a parir dois bezerros de cada vez. Ambrosinho atribui o caso de José Nogueira ao uso da diamba, dizendo que a diamba faz com que o próprio Cão (Diabo) fale com o fumante.

N — Depoimento de Diniz

Diniz, cujo nome indígena é Tébyet, mora também na aldeia de Boa União e é ajudante do capitão Ambrosinho. Seu depoimento data de 11 de fevereiro de 1967. Esse depoimento demonstra que a participação da aldeia de Ambrosinho no movimento foi maior do que pensávamos.

José Nogueira mandou fazer um curral, na aldeia de Marcão, cujo gado pariria dois bezerros de cada vez. Ambrósio, o seu falecido filho Eusébio, Bertoldo e Chiquinho tinham gado. José Nogueira mandou acabar com o gado e eles acabaram. Venderam a carne aos próprios índios e estes a compraram fiado. José Nogueira mandou abandonar o pau de leite, o urucu, não cozinhar em moquém, mas somente em panela. Mandou que todos fizessem parede de barro em suas casas e todos fizeram. O próprio informante fez, embora a parede fosse bem baixinha. Toda noite, José Nogueira tocava e o povo dançava. De manhã, atirava para o ar (só nos dias santos?). Marcou o dia em que deveriam virar cristãos. Todos deveriam ficar calados em casa e se transformariam. Todas aldeias assim o fizeram. Mas o feitiço de Marco, um Xerente, atrapalhou tudo. O secretário de José Nogueira, na aldeia de Ambrosinho, era Jacinto. Simeão lhe trazia notícias. Todos que iam à aldeia de Marcão traziam para a aldeia de Ambrosinho mensagens de José Nogueira. Ele prometeu que os velhos ficariam novos e as velhas também seriam novas, de peitinho duro, quando virassem cristãos. Um rio passaria diante de todas as aldeias e por ele navegaria o motor. No sábado, domingo e dias santos, não se comia bicho que mama; só se comia buriti, galinha, leite de coco, abóbora. Os que fossem longe da aldeia, o rio poderia pegá-los, ou então virariam pedra, cupim. Os cristãos iam virar índios, para trabalhar para os índios, então transformados em cristãos. Na noite em que iam se transformar em cristãos é que o motor viria trazendo a bagagem (carregamento) dos índios. Os cristãos não estavam sabendo de nada, porque José Nogueira mandava não contar nada para eles. O movimento durou um mês. José Nogueira proibiu plantar. Mas já estava no tempo da colheita. O índio iria comprar gêneros a dinheiro do cristão. O motor traria cereais. Quando José Nogueira foi considerado como fracassado, José Pinto e Davi lhe tomaram panela, espingarda, como pagamento do gado que tinham matado. Se Marcão tivesse matado gado, também cobraria. Ambrosinho não cobrou nada. Na aldeia de Ambrosinho, os velhos não queriam se transformar em cristãos, pois talvez não se acostumassem a andar de roupa. Eram eles: a mãe de Ambrosinho, e a avó de Martim (Peke), Bertoldo Velho, Tomás Velho, Margarida.

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O Messianismo Craô
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