Capítulo VI

Comparação entre os dois movimentos
messiânicos timbiras conhecidos:
craô e ramcocamecrá

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O Messianismo Craô

 

1 - Descrição do movimento ramcocamecrá

Em 1963, ocorreu um movimento messiânico entre os índios canelas (ramcocamecrás), do Maranhão. Foi uma mulher grávida quem tomou a iniciativa e liderança do mesmo. Seu feto começou a manifestar-se: uma noite, à luz da lua cheia, apareceu à mulher e seu marido com a aparência de uma menina canela de uns onze anos de idade, vestida e arrumada segundo os padrões tribais. Revelou-lhes que era a irmã de Auke e, quando nascesse, este apareceria e mudaria muitas coisas: os canelas teriam casas novas de telhas, viveriam em cidades e disporiam de incontáveis riquezas, enquanto os civilizados viveriam nas florestas a caçar. A irmã de Auke previu seu nascimento para 15 de maio e recomendou à mãe que contasse a seu "tio" ou "tia" sua mensagem. Através do tio, o conselho da aldeia ficou sabendo das predições e, da Aldeia Velha, onde se davam esses acontecimentos, foram despachados mensageiros para as aldeias Campestre, Baixão Preto e do Ponto (esta última quase abandonada, tendo sido outrora a aldeia única dos ramcocamecrás). Alguns prodígios foram realizados pela irmã de Auke, como tomar a forma de serpente. Poucos dias depois, deu permissão aos índios para capturar o gado dos civilizados, uma vez que não deveriam passar fome, sendo o gado propriedade de Auke. Manifestou também seu desagrado pela divisão da tribo em facções e o desejo de nascer na aldeia do Ponto. E, assim, os habitantes da Aldeia Velha migraram para o Ponto com todos os seus pertences, passando pelas demais aldeias, que também resolveram migrar, de modo que toda a tribo voltou à aldeia do Ponto, reconstruindo-a.

A líder do movimento reuniu em torno de si de quarenta a cinqüenta jovens de ambos os sexos, como servidores fiéis, que cumpriam todas as suas ordens, ainda quando desagradáveis, dormiam num conjunto de cabanas, sendo bem vestidos e alimentados por ela. A irmã de Auke ordenou que os canelas dançassem, pois, quanto mais o fizessem, mais ricos seriam, quando viesse o dia da transformação. Eram também estimulados a fazer dádivas à líder do movimento e a venderem seus haveres, fossem animais, víveres, espingardas, para comprarem roupas, jóias, cosméticos, dos civilizados. Assim, os canelas se empobreceram e se desarmaram. De sexta-feira a domingo, os índios tinham de dançar no estilo dos civilizados; nos outros dias, à maneira tradicional. O canto e a dança eram estimulados pela ameaça de castigos para os que desempenhassem mal essas atividades.

A 13 de maio, a vidente deu à luz um natimorto do sexo masculino e quase morreu no parto. O corpo foi colocado em um caixão feito à maneira dos civilizados e sepultado ao lado de um dos caminhos radiais que conduzem à praça da aldeia. Sobre o túmulo, foi levantada uma casinha de pau-a-pique. O sepulcro era visitado ao entardecer pela maioria da tribo, conduzida pela líder, que entoava cânticos do catolicismo popular. Após isso, todos beijavam o abdomem da mulher, pois era o lugar de Auke e sua irmã, recebendo uma bênção. A vidente havia explicado que o cadáver era simplesmente a imagem da irmã de Auke, mas que seu ser real havia ido visitar Auke no céu, voltando a seguir para o seu útero. A morte do feto era atribuída ao feitiço de um índio apaniecrá, a quem uma vez a mulher tinha recusado prestar favores sexuais. Continuou a predizer que Auke viria transformar o mundo após alguns meses, depois que ele e sua irmã estivessem satisfeitos com as danças que os canelas realizassem na casa da líder. Ela deixou seu marido e tornou a casar-se com um rapaz mais jovem, filho de um prestigiado chefe político, assegurando assim novamente o poder.

Os canelas estavam cada vez mais animados e tomavam atitudes de desafio para com os civilizados, mesmo com os funcionários do Serviço de Proteção aos Índios. Havendo matado um grande número de cabeças de gado dos sertanejos, os canelas acabaram, finalmente, sendo atacados por eles. A morte de alguns índios nas escaramuças que então se deram, apesar das promessas da vidente de que as balas dos civilizados não fariam mal aos canelas, fez com que ela passasse a ser considerada uma mentirosa, terminando assim o movimento.

Foi desse modo que ocorreu o movimento canela, segundo a descrição de William Crocker (1967, pp. 69-78), que esteve entre eles logo após esses acontecimentos.

2 - Semelhanças e diferenças entre
      os movimentos craô e ramcocamecrá

A comparação entre os casos ramcocamecrá e craô parece de grande valia, uma vez que pode mostrar até que ponto variam os movimentos messiânicos surgidos de situações muito semelhantes, para não dizer idênticas. De fato, tanto os canelas (ramcocamecrás) como os craôs constituem grupos Timbira, com a mesma tradição cultural, diferindo em sua estrutura social apenas quanto a detalhes. Foram ambos pacificados na mesma época: os craôs em 1809 e os canelas em 1815. Ambos estão em contacto com o mesmo segmento da sociedade brasileira, caracterizado pela criação de gado, fruto da expansão dos rebanhos a partir do litoral baiano e pernambucano pelo rio São Francisco, interior do Piauí e Maranhão. Ambos os movimentos foram inspirados pelo mito de Auke.

Apesar da mesma situação de contacto, da mesma cultura tradicional, do mesmo mito inspirador, os movimentos que daí surgiram não foram exatamente iguais. Assemelham-se muito nos recursos mágicos utilizados para transformar os índios em civilizados. Assim, os canelas imitavam os sertanejos: passaram a comprar roupas, jóias e cosméticos; dançavam nos dias do fim da semana à moda dos civilizados; o sexo, que era motivo de alegria mútua, tornou-se associado a proibições, punições e desrespeito à irmã de Auke; supõe William Crocker (1967, pp. 76 e 80) que as punições impostas pela vidente sob a forma de intercurso sexual constituíam uma tentativa, mesmo inconsciente, de aniquilar o sistema de parentesco canela, quebrando suas regras de proibições do incesto e aproximando-o do sistema sertanejo. O comportamento canela, insistindo na imitação dos civilizados, tinha o mesmo fundamento que entre os craôs, uma vez que entre os ramcocamecrás se nota a existência de "um padrão de comportamento segundo o qual, quando se recusa alguma coisa a uma pessoa, se esta persiste insistentemente em pedir o objeto, seu desejo pelo item requerido será satisfeito" (Crocker, 1967, p. 79). Assim, tanto os craôs como os canelas imitavam insistentemente os civilizados até que neles se transformassem.

Uma diferença entre os dois movimentos reside no fato do caso craô tomar feições de "cargo cult", que não ocorreu entre os canelas. Mas essa diferença decorria de uma redundância das crenças messiânicas craôs: tal como os canelas, acreditavam os índios que se transformariam, num determinado dia, repentinamente, em civilizados; mas os craôs, além disso, admitiam a vinda de uma tropa de animais ou de uma lancha carregada de mercadorias para serem distribuídas entre ele. Além disso, ambos os movimentos davam uma importância muito grande ao equipamento tecnológico dos civilizados.

No movimento canela, os índios se mostravam agressivos para com os civilizados antes mesmo de obterem as promessas da vidente. Os craôs, embora hostis aos sertanejos que os envolviam, não tomaram tais atitudes para com eles, aguardando primeiro que se transformassem em civilizados.

O mito de Auke serviu de inspiração aos movimentos messiânicos de ambas as tribos. Entretanto, no caso canela, as ligações entre as atividades messiânicas e o mito eram muito mais evidentes: a figura sobrenatural venerada era a irmã de Auke, a qual parecia dispor dos mesmos poderes do irmão, o comunicando-se a mãe e saindo de seu vente antes de nascer, transformando-se também em serpente. No movimento craô, o redentor era "Chuva", cuja afinidade com Auke não pode ser percebida à primeira vista, embora exista, tal como o demonstrou nossa análise. Portanto, ambos os movimentos tiveram, por messias, entes que, de algum modo, se ligam ao herói mítico Auke.

Aparentemente, a diferença maior entre os dois movimentos estava na personalidade dos líderes. No caso canela, a vidente é uma mulher de quarenta e poucos anos, com grande prestígio, e que falava português melhor do que as demais mulheres da tribo, tendo tido alguns casos amorosos com civilizados. No início do movimento, era casada com um homem de 30 anos, sendo ela, claramente, o cônjuge dominante neste casamento. Deixou o marido para se casar com um rapaz de 16 anos (Crocker, 1967, pp. 71, 75 e 80). O líder craô, curiosamente, apresenta algumas caracterísitcas que são o contrário daquelas da vidente canela: casou-se com uma mulher mais velha do que ele, mãe de um filho, e que, pelo menos nos primeiros tempos da união, era a figura dominante, familiarizando-o no trato com os civilizados; comparado com outros homens craôs, não é o que fala o melhor português. Mas, sob outros aspectos, o comportamento de José Nogueira se aproxima do da profetiza canela. Assim, ambos os videntes desculpam-se de seus fracassos, atribuindo-os a feitiço de seus inimigos. Parece também que ambos acharam com quem se identificar dentre os personagens do mito de Auke: é evidente a identificação da profetiza canela com a mãe de Auke; por outro lado, nossa análise nos levou à suposição de que José Nogueira se identificava, inconscientemente, com o próprio Auke.

Essas considerações nos levam à conclusão de que os dois movimentos, gerados por uma mesma situação interétnica, eram muito semelhantes, sendo que se distinguiam em questões de detalhe.

A semelhança entre os casos ramcocamecrá e craô nos leva, entretanto, a uma outra questão: por que motivo os apaniecrás, os crincatis, os pucobiês, que possuem os mesmo mitos, as mesmas tradições timbiras, estando em contacto com o mesmo segmento da sociedade brasileira, não fizeram eclodir movimentos messiânicos? Seriam eles apenas desconhecidos? Seria falta de um líder? Mas, se pessoas tão diferentes podem ser líderes desses movimentos, mesmo assim faltaria uma que preenchesse os requisitos para assumir a chefia? Tais questões não podemos ainda responder.

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