Capítulo V

Crenças e recursos mágicos
manipulados durante o movimento

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O Messianismo Craô

 

1 - A reformulação mitológica

O movimento messiânico craô se caracterizou por uma intensa atividade; não se limitaram os indígenas a esperar que chegasse o dia de sua transformação em civilizados; pelo contrário, puseram em prática uma série de recursos mágicos com o objetivo de favorecer esta metamorfose. Certas crenças foram modificadas pelo líder messiânico, criando mais um herói mitológico e estabelecendo relações entre ele e os tradicionais. Os referidos recursos mágicos consistiam na adoção de costumes civilizados, na negação das tradições indígenas bem como na execução de certos atos que não estavam previstos na cultura sertaneja e nem na indígena. No entanto, o comportamento craô nesse período, por mais que se esforçasse em ser inovador e oposto às tradições tribais, era inconscientemente modelado, como veremos, por padrões culturais indígenas também expressos em seus mitos.

Em primeiro lugar, vejamos a modificação da mitologia craô. Segundo as palavras do próprio José Nogueira (C1), o ser que entrou em contacto com ele, incentivando-o a desencadear o movimento, foi "Chuva". "Chuva" seria o pai de Sol e de Lua. A morada desses três seres fica a leste. O primeiro é responsável pelas chuvas; o segundo e o terceiro não se confundem com os astro do mesmo nome, embora estejam relacionados com eles. Não obstante, "Chuva" diz a José Nogueira, referindo-se a Sol: "Olha, sobrinho, esse é filho meu que está aí alumiando". "Chuva" saiu de dentro da terra e depois fez o dia e a noite. Parece, portanto, que o vidente associa o fenômeno meteorológico chuva com a água que, segundo a mitologia tradicional (SCHULTZ, 1950, p. 56), existe debaixo do chão e que pode sair por um buraco que está "arrolhado" por um quelônio. "Chuva" tem a aparência de um homem novo, civilizado, de cabelos pretos, barba grande, usando sapatos, chapéu, tendo na mão um fuzil; tem o rosto sério, não ri e se chama "Bandeirante". Patrício Chiquinho, um dos colaboradores de José Nogueira, informou-nos (D1) que "Chuva" tem a aparência de um índio, mas de cor preta. Numa outra ocasião (C3), José Nogueira contou que foi "Chuva" quem fez todas as coisas e depois Papam ou Pït (Deus ou o Sol) tomou conta. Pedro Penõ, também auxiliar do vidente, contou que Deus, ou Papam, com quem José Nogueira falava, era o "Inverno" (estação chuvosa), "Chuva", aquele que refrigera o mundo (B1). É um presidente que vive no meio do rio (mar). Sai a passear pelas cidades, mas ninguém o conhece. Numa outra ocasião (B3), Penõ obscurece a imagem do seu redentor, fazendo referências a Piacá, Jesus, a mãe de Jesus, Anjo.

É interessante notar que os auxiliares de José Nogueira conseguiam reproduzir uma imagem de "Chuva" mais ou menos próxima daquela que descrevia José Nogueira. Outras pessoas, menos chegadas ao vidente, identificam o ser com que ele entrou em contacto com outros entes como Auke (I), ou o Cão, isto é, o Diabo (A1, E, M).

Mas, de que maneira teria surgido na mente de José Nogueira a figura de "Chuva"? O nome "Bandeirante" parece constituir uma chave para o problema. Provavelmente, o vidente tirou a imagem de "Chuva" de algum livro didático. Lembramo-nos de ter visto na casa de Pedro Penõ, entre os vários livros que tinha, uma História do Brasil de Rocha Pombo, ilustrada, e também um livro de leitura, chamado Nosso Brasil, de Hildebrando de Lima. Nesse último, havia uma gravura que representava um bandeirante com sua espingarda e sua barba, a qual era, no entanto, branca. Ora, Pedro Penõ sabe ler e, como vimos, tinha a confiança de José Nogueira no período em que tais fatos se deram. Ouvindo Penõ a ler seus livros ou fazendo-lhe perguntas a respeito das figuras, pode ter identificado "Chuva" com o bandeirante. A arma de fogo seria fundamental para esta identificação. Disse José Nogueira que "Chuva" traz fuzil, porque mata as pessoas. Ora, a chuva mata as pessoas com o raio. Como afirmou o próprio vidente, as "coisas" que "Chuva" lhe oferecia eram como fogo. No seu quarto depoimento (C4), ainda fica mais claro que as "coisas" de "Chuva" são o raio o relâmpago, que é chamado kutxe. Curiosamente, por conseguinte, o líder messiânico craô nos faz lembrar a lenda de Caramuru, identificando o raio com um homem branco armado. Que esta imagem de "Chuva" foi tirada de um livro fica bem claro no depoimento de José Aurélio (J). Este conta que o ser que havia entrado em contacto com José Nogueira se chamava, não se lembra bem, Coelho; e o vidente mostrava o retrato dele num livro, o qual lhe tinha vindo às mãos por meios sobrenaturais. O fato é que José Nogueira andava, neste tempo, às voltas com os livros. Um trecho pouco compreensível de um depoimento (B1) diz que, apesar de muito ignorante, José Nogueira, durante o período messiânico, aprendeu a dizer o nome dos anos. Além disso, chamava o "tampo" da cabeça (calota craniana) de "caco" (crânio?); o peito era "tronco"; e do cinturão para baixo era.. Provavelmente, José Nogueira andara folheando um livro de ciências naturais junto com alguém alfabetizado. Há mais um indício de sua preocupação com a palavra escrita (A3): embora o líder messiânico não soubesse escrever, fez um bilhete endereçado ao sertanejo Zé Arco, que também era analfabeto. Por conseguinte, a imagem de "Chuva" teria tido origem num ou mais livros folheados por José Nogueira, auxiliado por uma pessoa alfabetizada. Tudo indica que esta seria Pedro Penõ, pois é um dos poucos índios que sabe ler (atualmente só existem quatro alfabetizados nas aldeias craôs), possui alguns livros, que guarda dentro de malotes, e gozava da confiança do líder messiânico.

Por que teria José Nogueira alterado a mitologia craô? Caso tivesse entrado em contacto com Auke, ao invés de "Chuva", a alteração não se faria, ou seria bem menor. De fato, a chuva não existia como pessoa, como herói, na mitologia, embora, como veremos, fizesse parte do sistema simbólico dos craôs como elemento não personificado. Foi preciso criar um lugar para "Chuva" na mitologia: ficou sendo pai de Sol e de Lua. "Chuva", entretanto, não parece ter surgido na mente de José Nogueira por puro azar. Há três pontos a considerar com relação à chuva: a) sua presença como elemento não personificado no sistema simbólico craô; b) certas características que ligam, de certo modo, a chuva ao herói Auke; e c) o fato da chuva ser respeitada pelos civilizados.

Analisemos o primeiro fator: chuva como elemento não personificado, constante do sistema simbólico craô. O ciclo anual se divide para os craôs em duas estações: uma chuvosa e outra seca. Um dos vários pares de metades pelas quais se distribuem estes índios está associado a essas estações. De fato, a metade Wakeme(n)ye está ligada à estação seca, enquanto a metade oposta, Katamye, se liga à estação chuvosa. A primeira metade está associada também com o dia, com o oriente, com os enfeites de folha verde claro, com os traços verticais da pintura corporal, com o vermelho, com o centro da aldeia. A segunda, com a noite, com o ocidente, com os enfeites de folha verde escuro, com o preto, com a periferia da aldeia.

As almas dos mortos vivem fora da aldeia. Nesta penetram sobretudo à noite ou então nos dias nublados ou chuvosos. Como a noite, portanto, a chuva se acha associada aos mortos.

Mas não somente aos mortos. Vários craôs nos asseguraram que, durante as chuvas, os animais caem do céu. Para Secundo (G2), somente durante as chuvas fortes eles caem; são animais de tamanho médio ou grande e não domésticos. Quando não há caça, Deus manda mais. Penõ conta que, quando chove muito, pelo menos peixes caem do céu; ele mesmo já viu. Conta também o caso de uma sucuriju que, durante uma chuva dessas, teria caído no cerrado, ficando dependurada num galho. Zacarias, mais de uma vez, viu animais caírem do céu: de certa feita, um tamanduá mambira caiu dentro da aldeia; em outra, um jabuti caiu diante da casa de um sertanejo; os dois acontecimentos se deram por ocasião de chuvas fortes. Parece que esta crença de que os animais caem do céu em dias de chuva vem a ser a contrapartida de uma explicação mais racional, também dada pelos craôs, sobre a maior facilidade de se encontrar caça durante a estação chuvosa. Explicam que a chuva apaga os rastros deixados pelos animais. Por isso, quando se vê o rastro de um animal logo após uma forte pancada de chuva, isto é sinal de que passou por ali há poucos minutos, devendo estar por perto, sendo mais fácil encontrá-lo e matá-lo. Sendo mais fácil capturá-los na estação chuvosa, os animais aparentam existir em maior número durante este período. Além disso, parece que um grande número de espécies tem crias nessa mesma estação. A chuva, por conseguinte, estaria associada à expansão da vida animal.

Além disso, os craôs reconhecem que o crescimento dos vegetais também depende das chuvas. Patrício Chiquinho observou que o milho e o arroz nascem quando a chuva molha suas sementes.

Durante o período das chuvas, freqüentemente certas atividades recreativas, rituais ou reuniões de caráter político ou administrativo são adiadas devido a pancadas de água. As caçadas se tornam mais perigosas na mata e no cerrado devido à presença de cobras que se escondem na vegetação revigorada pelas águas. Um dos símbolos da metade da estação chuvosa, Katamye, é a sucuriju, que nesse tempo se torna uma ameaça para aqueles que atravessam descuidados as águas mansas de algum ribeirão.

Em suma, a chuva está associada à presença dos mortos na aldeia, à expansão da vida animal e vegetal e cria obstáculos às atividades recreativas do canto e da dança, aos ritos, às reuniões na praça da aldeia. Dir-se-ia que a chuva marca a expansão da natureza ou daquilo que não faz parte da sociedade craô: mortos, animais e vegetais.

Os elementos associados à chuva, algumas vezes, chegam mesmo a se confundir. Em certas ocasiões, ocorre ao caçador não matar um animal, mas sim a alma de um ser humano falecido, sob a forma de bicho. Ocorre também que o ser visto sob a forma de animal seja o karõ (alma) deste. O animal morto que tem origem no karõ de uma pessoa falecida não tem gosto, cheira mal. É crença dos craôs, também, que as almas dos mortos vivem algum tempo sob a forma humana; morrem depois, transformando-se em animais; quando estes morrem, transformam-se em tocos de pau, montes de cupim, animais rasteiros. Quando o fogo acaba com esses seres, nada mais resta: o aniquilamento é absoluto. Assim, pois, fora da sociedade, os seres podem ser confundidos e uma coisa tomada pela outra.

A água, um dos elementos constituintes da chuva, segundo a idéia que dela fazem os craôs, aparece nos mitos e ritos como algo benfazejo, que favorece o crescimento. No mito de Akrei e Kenkunã, estes dois heróis ficam sobre um jirau dentro do ribeirão, a fim de crescerem depressa (Schultz, 1950, pp. 77-98). Neste episódio mítico, fundamenta-se o costume constituinte do rito do Ikhréré, atualmente extinto, de molhar os jovens em iniciação com água para crescerem rapidamente. De um modo geral, em todos os ritos craôs, o oferecimento de água para refrescar o corpo ou beber expressa a solidariedade entre parentes consangüineos de sexos opostos.

Em resumo, a chuva está ligada aos seres exteriores à sociedade craô — os vegetais, os animais, os mortos —, àquilo que vive fora e em torno da aldeia. Por isso, provavelmente, é que a chuva se acha ligada justamente com aquela metade — Katamye — associada à periferia da aldeia. A água, um dos elementos da chuva, é utilizada pelos craôs para apressar o desenvolvimento do organismo humano. Por conseguinte, as tradições craôs, apesar de não personificarem a chuva, dão-lhe uma enorme importância. José Nogueira, ao personificá-la, estaria enfatizando, no redentor dos craôs que imaginava, o poder de gerar outros elementos e fazê-los se desenvolver.

Vejamos agora o segundo fator: os caracteres que associam, de certo modo, a chuva com o herói mítico Auke. Já vimos que a chuva, para os craôs, se constitui não somente da queda d´água, mas também do raio, do relâmpago, da trovoada, das nuvens escuras. Ora, o mito de Auke nos mostra que o herói está ligado à água e ao fogo. De fato, antes de nascer, quando sua mãe ia ao ribeirão, Auke saía de seu ventre e se transformava em diversos animais. Há mesmo uma versão (Apêndice II, nº 5) na qual Auke só se transforma em animais que vivem nas vizinhanças da água. Depois, mais tarde, quando os índios resolvem matá-lo e o atiram ao fogo, o herói se transforma em civilizado. Água e fogo, portanto, estimulam as transformações de Auke. Roberto DaMatta (1970), numa análise da versão Canela do mito de Auke, quando o compara com o mito da origem do fogo, mostra que o herói é proveniente da natureza, penetra na sociedade e dela é novamente expulso pelo fogo. A chuva, de modo semelhante, é algo externo à sociedade craô, algo associado a fenômenos que estão fora da esfera do social: animais, plantas, mortos. Há, pois, elementos comuns entre chuva e Auke. Ao tomar a personificação da chuva como redentor, José Nogueira estaria aproveitando dois elementos seus que o mito de Auke havia mostrado serem eficientes transformadores: a água e o fogo. Se estes elementos haviam favorecido as metamorfoses de Auke, favoreceriam também a transformação dos atuais índios em civilizados. Note-se que, segundo as palavras de José Nogueira, o raio, as "coisas" que queimavam como fogo, poderia servir para destruir os sertanejos e também para transformar os índios em "cristãos". A água poderia tanto destruir com sua inundação como trazer a lancha carregada de mercadorias. Esses dois elementos, pois, tanto são destruidores como transformadores.

Por fim, vejamos o terceiro fator: o fato da chuva ser também um elemento natural respeitado pelos civilizados. Na verdade, o herói Auke só é conhecido pelos índios. Estes nunca viram qualquer civilizado se referir a Auke. Mas, por outro lado, os indígenas já observaram que os civilizados da região mostram um certo respeito pelas chuvas fortes acompanhadas de relâmpagos e trovoadas. Quando ocorrem tais chuvas, evitam deixar ao ar livre objetos de metal, viram os espelhos contra a parede. Segundo o próprio líder messiânico (C3), até os livros dos "cristãos" mandam respeitar a chuva. Diz também (C1) que "Chuva" quer ser respeitado: quando chove não se deve pegar facão, tocar em panela, falar alto, andar na chuva. Os índios fazem assim e "Chuva" nunca os matou; porém, tem matado "cristãos", que andam foram de casa quando a chuva está caindo. O líder messiânico repete aqui, portanto, as crenças sertanejas. Provavelmente, os sertanejos, observados pelos índios, lhes deram a impressão de considerar a chuva como uma pessoa pelo medo que mostram dela. Convém notar ainda que o símbolo da força dos civilizados para os indios é a arma de fogo, a espingarda. E o raio, mais de uma vez, foi comparado por eles a um tiro de espingarda. A chuva apareceria assim quase como um civilizado superpoderoso, capaz de transmitir aos índios seus poderes. Talvez esse motivo também tenha levado José Nogueira a personificá-la.

2 - A imitação de costumes sertanejos

Certos modos de comportamento incentivados por José Nogueira constituíam pura imitação de costumes civilizados. Um deles era a abstinência de certos alimentos em determinados dias. Vários depoimentos contêm referências aos alimentos permitidos e proibidos (A2, A3, B3, C4, H, I, K, M, N), mas não coincidem exatamente uns com os outros. Malgrado o fato das informações serem incompletas e incoerentes, torna-se evidente que José Nogueira impôs a imitação dos católicos no que tange à abstinência da carne. Aplicou-a, parece, aos sábados, domingos e dias santos, o que não coincide com a prática dos católicos. Além disso, estes aplicam as proibições aos animais de sangue quente, mas José Nogueira reduziu-as aos mamíferos (bichos que mamam). Note-se que José Nogueira insistia no consumo de peixe, tipo de carne com que os católicos costumam substituir a dos animais de sangue quente nos dias de abstinência.

Outro comportamento incentivado por José Nogueira era o respeito ao sábado e ao domingo (A2, B3, N). Nestes dias, era proibido trabalhar nas roças e também fazer caçadas. O vidente ameaçava com castigos sobrenaturais aqueles que desobedecessem as essas instruções: o infrator teria chifes, seria apanhado pelo rio, seria transformado em pedra ou monte de cupim. Embora o catolicismo não tenha como preceito o respeito pelo sábado, não sabemos até que ponto os sertanejos da região o guardam também, além do domingo. O fato é que os índios craôs, independentemente das ordens de José Nogueira, evitam o trabalho agrícola tanto no sábado como no domingo, preferindo dedicar esses dias à atividade de caça.

Também a casa grande e o curral que José Nogueira mandou levantar na aldeia constituíam imitação da cultura sertaneja. São símbolos da riqueza dos civilizados. A casa grande era um misto de sede de fazenda e loja comercial, tal como aparece no mito de Auke. O curral teria necessariamente de existir, uma vez que o gado, numa região de pecuária, é medida de riqueza.

O vidente levou os índios também a dançarem aos pares, cada par constituído por um homem e uma mulher, tipo de dança completamente estranha aos padrões tradicionais craôs (B3, E, F, H, I, J, K, L). Os bailes eram dados na grande casa de José Nogueira, que tocava um pífaro. Os homens casados dançavam com as próprias esposas. As informações não concordam quanto aos dias da semana em que eram realizados esses bailes.

Os índios também receberam instruções para fazerem paredes de barro em suas casas (C4, N) e as cobrirem de palha nova. Parece que não chegaram a fazer paredes inteiras de barro, limitando-se a levantar uns poucos centímetros de muro de pau-a-pique. Portanto, a imitação dos civilizados, no que tange à construção, era mais simbólica do que real.

O próprio José Nogueira, em seu contacto com o sobrenatural, se utilizava de imitação de recursos dos civilizados. Ouvia a voz de "Chuva" assim como quem recebe telegrama: pelo vento vinha recado para ele (B1); José Nogueira, na beira do ribeirão, também tentou telefonar para "Chuva" (B3); certa vez, nas suas tentativas de conseguir a metamorfose dos índios, pôs as mãos no chão e virou as nádegas para o alto, a fim de passar telegrama (I).

3 - Negação das tradições indígenas

Assim como em certos atos os índios craôs imitavam os civilizados, em outros mostravam uma recusa, um repúdio aos costumes indígenas. Desse modo, José Nogueira ordenou que os índios atirassem fora todos os seus cestos e esteiras; em lugar dos recipientes de palha, surgiriam maletas (B2, B3, I). Pelo menos alguns indivíduos obedeceram a essas ordens.

Ordenou também o abandono do uso do urucu e do pau-de-leite (que serve para fixar o pó de carvão ao corpo), o que significa que proibiu o uso da pintura corporal (A2, M, N). Essa medida visava permitir que a pintura fosse substituída magicamente por roupas iguais às dos civilizados.

O costume de cozinhar bolos com ajuda de pedras previamente aquecidas também foi votado ao abandono, segundo podemos saber através de alguns depoimentos (M, N).

As corridas de toras foram proibidas (B3, E), assim como os cânticos acompanhados com o maracá. O afastamento da corrida de toras de suas atividades era muito significativo, uma vez que os craôs se referem a esse costume para simbolizar a essência do modo de viver indígena.

4 - Inovações

Outro tipo de comportamento, entretanto, mantido pelos índios craôs durante este período, não tem nenhum precedente na sociedade indígena e nem na civilizada. Trata-se da extinção dos animais domésticos e do abandono das atividades de plantio (B1, B3, I, J, M). O vidente prometia aos índios que, em compensação, eles teriam muito mais do que haviam aniquilado quando se transformassem em "cristãos". Parece que a finalidade de José Nogueira era fazer com que os índios abandonassem sua preocupação com a subsistênica para que se dedicassem mais livremente à construção de sua grande casa e do curral (J). Ele dizia aos índios (E): "Podem fazer o serviço, quando o dinheiro chegar, eu vou pagar tudo". Os indígenas utilizavam, de maneira bastante pródiga, sua reserva de alimentos; alguns emprestavam quantidades de mandioca a outros companheiros de tribo, sob promessa de que receberiam a retribuição quando fossem reabastecidos por meios sobrenaturais (H). Somente seriam pagos quando se transformassem em civilizados.

Outro elemento do movimento messiânico que não parecia ligado às tradições craôs e nem aos costumes civilizados foi a associação da chuva com o pífaro. José Nogueira tinha um pífaro de taboca; sem nunca ter aprendido a tocar nenhum instrumento, diz Penõ que o tocava de modo bonito e, logo que começava, ouvia-se o trovão. Penõ, prevenido pelo vidente, diz ter realmente ouvido o som de pífaro que se aproximava junto com a chuva. Numa outra vez (B3), Penõ ainda nos diria que, logo no começo do movimento, encontrou, ao chegar de volta de uma aldeia, José Nogueira tocando pífaro e dizendo que acompanhava daqui da terra o toque de muitos pífaros que ouvia no céu. Dizia que era lá de cima que lhe vinha ordem de tocá-lo. Assim que começava, trovejava e começava a chover; finda a chuva, José Nogueira falava ao povo. Quando tocava muito, chovia muito; quando mandava parar de chover, parava. Na noite decisiva do movimento, quando o líder quis fazer subir a água, assoviou primeiro; depois tocou pífaro; depois mandou tocar sanfona debaixo d´água. Desse modo, o líder associou o som musical ao aparecimento da água, sem que houvesse nada entre os craôs ou entre os civilizados que lembrasse tal associação.

5 - A persistência dos padrões rejeitados

Malgrado o repúdio dos costumes indígenas, a imitação do comportamento dos sertanejos, a criação de novas maneiras e as novas associações simbólicas, o craô continuava preso àquilo de que desejava se livrar; no seu esforço por se metamorfosear num outro ser, mais afirmava, inconscientemente, suas peculiaridades culturais.

Já vimos que "Chuva" constituía a personificação do produto da sincretização de vários elementos: o simbolismo ligado ao fenômeno pluvial pelos craôs, mais o tema mitológico da água existente dentro da terra, passível de provocar inundações, e mais as crenças dos sertanejos com relação às chuvas. Mas os elementos da cultura indígena não se encontram apenas na elaboração da imagem de "Chuva"; outros traços culturais craôs podem ser notados nas atividades messiânicas. Assim, uma das ordens de José Nogueira foi, certa vez, a de amarrar os focinhos de todos os cachorros, para que ele pudesse receber, na aldeia, "Chuva" e seus enviados. Tal atitude está, provavelmente, associada à crença craô, segundo a qual o ladrar dos cães assusta e afasta as almas dos mortos. Os cães espantam todos os estranhos às casas da aldeia, sejam homens ou animais. Daí, talvez, a crença de que assustam os mortos, uma vez que estes são estranhos à sociedade dos vivos. Desse modo, o ladrar dos cães afastaria "Chuva" ou seus enviados, não por serem mortos, mas por serem estranhos à aldeia.

A oposição dos velhos ao movimento messiânico, não querendo transformar-se em civilizados, refletia, curiosamente, um episódio do mito de Auke: aquele em que o herói atrai para dentro de sua casa os rapazes e moças, trancafiando-os para os metamorfosear em "cristãos", enquanto mandava afugentar os velhos com tiros, deixando que permanecessem como índios (Apêndice II, nº 4, 5 e 7). O mito, portanto, previa o comportamento conservador dos velhos.

Como vimos, os craôs repudiavam os costumes indígenas e tentavam imitar os civilizados. Não se tratava, entretanto, de uma imitação efetiva: as paredes de barro com que protegiam suas casas não eram completas, o telefone ou o telégrafo que o vidente usava não era um telefone ou telégrafo real. Se os índios imitassem efetivamente os civilizados em todos os seus costumes e técnicas, se tal fosse possível, transformar-se-iam automaticamente em civilizados. Mas não se tratava de uma imitação completa: a pintura corporal foi abolida, mas os índios não tinham recursos para substituí-la pelo vestuário dos civilizados; os artefatos indígenas foram atirados fora, mas não havia recursos para substituí-los pelos correspondentes dos civilizados. Em suma, procurando transformar-se em "cristãos", os índios lançavam mão de um certo recurso mágico presente em sua mitologia: a imitação como que caricatural do ser em que se quer metamorfosear. Alguns exemplos podem ilustrar o que queremos dizer. O mito de Autxetpïruré descreve como seres humanos se transformaram em cavalos, sacudindo seu corpo (como cavalos?); descreve também a tentativa de um deles, embora sem resultado, de se transformar em cavalo, imitando o comportamento desse animal: relinchando, correndo de quatro, arrancando capim com a mão e tentando comê-lo (Schultz, 1950, p. 144). Este mesmo mito conta como um pai e seus filhos se transformaram em veados campeiros, usando o seguinte processo: gritar como veado e correr (Schultz, 1950, p. 145). Uma versão deste mesmo mito, que anotamos, mostra que, enquanto o pai e suas filhas mais velhas conseguiam se transformar em animais, a mais nova não obtinha esse resultado, porque trazia um enfeite formado por uma pequena cuia de cabaça. Isso mostra que, para se transformar em outro ser, era preciso se despojar daqueles objetos que a definiam como membro de sua tribo. Ora, este tema mítico se reflete naqueles atos dos craôs durante o movimento messiânico, quando atiravam fora seus objetos indígenas para poderem se transformar em civilizados.

Além disso, os craôs, ao insistirem nesta imitação caricatural dos civilizados, repetindo-a muitas vezes, tal como acontecia, parece, com os bailes no estilo sertanejo, estavam agindo também segundo um padrão da cultura indígena. Quando alguém deseja um favor ou um objeto de outrem, acabará por consegui-lo se o pedir com insistência. No próprio mito de Auke, numa de suas versões (Apêndice II, nº 5), vemos um exemplo desse modo de agir: os moradores da aldeia conversaram com o pai da mãe de Auke, pedindo-lhe que deixasse matar seu estranho neto. Ele não queria deixar, mas insistiram tanto com ele que acabaram conseguindo seu consentimento.

Tudo isso demonstra que os craôs continuavam inconscientemente presos aos seus padrões culturais, chegando mesmo a manipulá-los até quando faziam esforços conscientes para se afastarem deles.

6 - Meios mágicos para objetivos concretos

O modo de vida que os craôs pretendiam alcançar através das atividades messiânicas tinha por modelo a sociedade civilizada, tal como a conhecem: um sistema social em que a maior parte de seus membros não tem acesso a tudo aquilo que uma tecnologia avançada pode oferecer. De fato, alguns depoimentos deixam entrever que os craôs admitiam que, na futura sociedade, haveria ricos e pobres, brancos e pretos, sendo estes últimos os trabalhadores. Nessa nova sociedade, os craôs pretendiam ocupar a camada superior, como brancos e ricos, e também as posições que julgavam importantes, como vimos pela distribuição prévia de cargos que fez o vidente, tais como presidente, prefeito, coletor, delegado e outros.

Apesar de um depoimento admitir a imortalidade e eterna juventude de seus membros (H), a imagem que os craôs faziam da sociedade futura nos parece, à primeira vista, bastante realista, uma vez que sonhavam para si um sistema social cujo paradigma realmente existe: a sociedade dos civilizados. Entretanto, essa imagem não era tão realista quanto parecia por dois motivos.

Em primeiro lugar, os craôs não conhecem de modo pleno a sociedade global dos civilizados, mas apenas aquele segmento da mesma que com eles está em contacto. É certo que visitam as grandes cidades e sabem que são os próprios civilizados que fabricam tudo aquilo de que se utilizam, inclusive ferramentas e máquinas. No entanto, os craôs tomaram por modelo aquela parte da sociedade brasileira que mais conheciam, ou seja, o segmento pastoril que os envolve. Por isso, as promessas de José Nogueira incluíam, por exemplo, uma grande loja comercial, mas não fábricas. Os craôs queriam ocupar o lugar dos civilizados que os envolvem, substituindo-os como criadores de gado e comerciantes; mas nenhum depoimento registra qualquer desejo de se transformarem em empresários ou mesmo trabalhadores das indústrias. "Chuva", o redentor, tomaria a si a proteção paternalista dada pelos civilizados das grandes cidades, substituindo-os.

Em segundo lugar, os craôs esperavam ocupar a camada privilegiada da sociedade regional. De fato, índios e mestiços de sertanejos e índios, que viviam dentro da reserva indígena, mas fora das aldeias tradicionais, já havia mostrado aos craôs ser possível adotar os costumes dos civilizados, sem lançar mão de nenhum recurso sobrenatural. Mas o que esses indivíduos tinham conseguido fora apenas se transformarem nos mais pobres e obscuros dos sertanejos (Melatti, 1967, pp. 147-151). Mas não era esse o resultado que os adeptos do movimento messiânico desejavam. Na falta de qualquer meio concreto para conseguirem seus objetivos, os craôs tiveram de lançar mãos dos recursos ditados pelos mitos ou pela magia.

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