Capítulo III

Caracterização deste movimento como messiânico

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O Messianismo Craô

 

1 - Coerência com a definição de messianismo

O movimento craô, do qual acabamos de fazer uma breve descrição, constitui, sem dúvida, um caso de movimento messiânico. Três razões, pelo menos, justificam sua inclusão nessa categoria: em primeiro lugar, satisfaz à definição geralmente aceita desses movimentos; em segundo, apresenta o ritmo peculiar a tais movimentos, alternando fases de espera com a fase de intensa atividade messiânica; e, por fim, os participantes craôs tenderam a se organizar segundo os moldes que caracterizam o movimentos messiânicos.

Segundo a sempre citada definição de Kohn, messianismo "é, antes de tudo, a crença, a crença religiosa na vinda de um redentor que porá fim à presente ordem de coisas, seja universalmente, seja para um único grupo, instituindo uma nova ordem de justiça e felicidade" (Kohn, 1959, p. 356). Ora, no caso craô, o redentor é "Chuva", personificação de um fenômeno meteorológico que, antes de tal movimento, como já vimos, não tinha (e talvez continue a não ter) sua presença marcada na mitologia e nos ritos dessa sociedade Timbira, a não ser como elemento não personificado. Entretanto, "Chuva" dispõe de certas características, como será demonstrado mais adiante, que o aproximam do herói mítico Auke. "Chuva" iria pôr fim ao estado de penúria e de subordinação dos craôs, impondo uma nova ordem, que seria sua equiparação aos civilizados, tanto cultural (e talvez racial) como hierarquicamente, entregando-lhes o equipamento e riquezas dos brancos. Por conseguinte, as crenças transmitidas pela mensagem de José Nogueira se enquadravam na definição de messianismo.

2 - O ritmo messiânico

Uma das características que permitem classificar um movimento como messiânico é o seu caráter cíclico (PEREIRA DE QUEIROZ, 1965, p. 60). Ora, o movimento craô apresenta também esse aspecto, uma vez que o período de atividade messiânica parece ter sido precedido e seguido por um período de espera. De fato, a formação do mito de Auke, a história de Wapo, podem ser colocadas num período em que os índios tentavam explicar a natureza dos civilizados e invejavam suas riquezas, alimentando esperanças de virem a ser iguais a eles; o ataque às aldeias craôs e a cobiça das terras indígenas acrescentaram a essas esperanças um certo desejo de vingança. Este período prepara os craôs para a mensagem de José Nogueira, que dá início ao trabalho ativo, de caráter mágico, para punir os civilizados e fazer os índios se equiparem a eles. O período presente, seguinte ao fracasso de José Nogueira, é marcado pela esperança de alguns craôs de que os civilizados venham a ser punidos, por meios sobrenaturais, devido a preços altos, acusações de roubo e outros atos hostis que infligem aos índios.

Mas ninguém poderá dizer com absoluta certeza se este período por que passam atualmente os craôs será realmente seguido por uma nova etapa de atividade messiânica. Na verdade, se olhado de uma perspectiva temporal mais ampla, o ritmo messiânico não perdura indefinidamente. Deve chegar a um final quando se torna possível encontrar outros meios de alcançar a solução dos problemas que levam ao movimento messiânico. Por ora, parece que os craôs não podem dispor de soluções menos utópicas do que as messiânicas. É certo que podem escolher viver como civilizados e adotar os costumes dos sertanejos por imitação pura e simples. Mas, dessa maneira, somente conseguirão ser os mais pobres dos agricultores da região. O acesso a tudo aquilo que pode ser oferecido pela moderna tecnologia é um privilégio que nem mesmo a maioria dos homens civilizados possui. A conquista de tais privilégios por meios concretos de violência constitui algo completamente utópico para uma população de pouco mais de 500 indivíduos. Por enquanto, conclui-se, os craôs não podem escapar ao tempo messiânico.

3 - A organização messiânica

De um modo geral, todos os movimentos messiânicos possuem uma organização hierárquica, ocupando o ápice o líder; abaixo dele, há um grupo de apóstolos ou discípulos; e ocupam a base da pirâmide os demais adeptos (Pereira de Queiroz, 1965, pp. 59-60). Ora, no caso craô também se formou uma hierarquia cujo ponto mais alto estava ocupado por José Nogueira. Os depoimentos nos dão uma vaga idéia dessa organização.

José Nogueira tinha um certo número de auxiliares diretos, embora certa vez nos tivesse negado ter contado com qualquer ajudante (C3). Pedro Penõ foi convidado por ele para ser seu secretário (B2, B3). Conta o mesmo Penõ (B3) que, num dos momentos críticos em que se deveria fazer a transformação dos índios em civilizados, José Nogueira se esforçava para conseguir este efeito juntamente com Antoninho, Raimundo Pinto e Patrício Chiquinho. Antoninho e Patrício Chiquinho são reconhecidamente xamãs, Raimundo Pinto provavelmente o seria, mas não chegamos a conhecê-lo. Pedro Penõ, embora sempre nos tivesse afirmado não ser xamã, de certa feita nos contou como quase se transformou em curador. Por conseguinte, parece que José Nogueira tinha uma certa preferência pelos curadores para seus auxiliares. Essa preferência não é de estranhar, se considerarmos os xamãs como os indivíduos habilitados a lidar com o sobrenatural.

Além desses ajudantes para as ações mágicas, José Nogueira contava também com mensageiros, que levavam suas instruções para as demais aldeias. Jacinto e Simeão eram os mensageiros do líder messiânico para a aldeia chefiada por Ambrosinho (M, N). E o mesmo Pedro Penõ (C4) levou instruções suas para Serrinha. Convém notar que Jacinto era irmão de José Nogueira por parte de um dos pais e, ao mesmo tempo, filho da irmã da mãe do líder messiânico; Simeão era um outro pai de Jacinto (os craôs admitem a possibilidade de um indivíduo possuir mais de um genitor masculino).

Além dos xamãs e mensageiros que eram auxiliares diretos de José Nogueira, havia os demais adeptos. Estes eram constituídos, sobretudo, de jovens (E,F). Os parentes de José Nogueira eram também fiéis cumpridores de todas as suas ordens (B3). Várias razões alegam os jovens pelo apoio que deram ao líder messiânico: um disse que, se todos iriam se transformar, ele não queria ficar sozinho; outro alegou que não queria correr mais com toras, que arrebentam o corpo por dentro; queria cuidar da roça e dos animais domésticos; viveria na cidade, onde há mais animação.

Se os jovens e os homens e mulheres maduras eram adeptos de José Nogueira, deveria haver também um certo número de céticos, indiferentes, e mesmo de pessoas que se opunham ao movimento. Gabriel, Chico Velho, Patrício, Alfredo Velho, Marquinho, Justino, Antonio Pereira, Pedro Noleto, Esteves (G3,L) não queriam se transformar; na aldeia chefiada por Ambrosinho eram de mesma opinião a mãe do chefe, uma avó de Martim, Bertoldo Velho, Tomás Velho, Margarida (N); eram, na maioria, velhos. Estes velhos simplesmente mostravam seu desagrado ante a possibilidade de sofrerem uma metamorfose em civilizados. Outros, porém, foram acusados de tentarem mesmo prejudicar o líder messiânico através de recursos mágicos. Conta Pedro Penõ (B1) que João Crioulo, João Silvano, Esteves e Antoninho por meios mágicos fecharam com cera as orelhas do líder messiânico, de modo que este não ouvisse as instruções que lhe vinham do céu (aqui há uma contradição, pois o mesmo informante cita Antoninho como auxiliar de José Nogueira). E isso fizeram porque não queriam abandonar os costumes dos antigos. O mesmo informante conta (B2) que, quando José Nogueira não conseguiu transformar o córrego que passa perto da aldeia num grande rio, chamou o xamã André para curá-lo. André lhe tirou algodão da cabeça, posto por João Crioulo. O líder messiânico acusou de o estarem atrapalhando (B3) a João Crioulo, João Silvano e Esteves, que teriam levado sua alma (karõ) para uma loca de pedra. Mas o xamã Antoninho foi buscar a alma do líder lá na loca. Outros informantes (I, K, N) também se referem a acusações de feitiçaria que José Nogueira teria feito contra João Crioulo e Marco (Mroyanõ). É interessante notar que mesmo os opositores citados nominalmente acreditavam nos poderes de José Nogueira; não acusavam de mentiroso; temiam que ele, realmente, transformasse os índios em civilizados. Mas é preciso ressalvar ser bem possível que simplesmente não quissessem se metamorfosear em civilizados, mas não hostilizassem o líder; este pode tê-los tomado como bodes expiatórios para justificar seu fracasso. É interessante notar que, se os principais ajudantes de José Nogueira eram xamãs, também o eram aqueles que colocava entre os seus mais agressivos opositores.

As informações não nos permitem dizer muita coisa sobre o tipo de relação que José Nogueira mantinha com o chefe da aldeia, Marcão, nesse período. José Nogueira tomava certas atitudes que obrigariam forçosamente um chefe a intervir, como o fato de colocar uma espingarda junto a sua porta, ameaçando a vida de quem quer que fosse interrompê-lo (B1). E, de fato, Marcão, uma vez, teve de agir, impedindo que José Nogueira matasse a João Crioulo, a quem acusava de, por meio de feitiço, tê-lo impedido de ouvir a mensagem sobrenatural(B1). Penõ, filho da meia-irmã de Marcão, afirma que este chefe estava calado (B1). Mas parece que Marcão ora apoiava, ora se mantinha cético quando às ações do vidente, ora acreditava nelas, mas não desejava seus resultados. Assim, conta o vidente que Marcão e seu irmão José Pinto mataram, cada um, uma rês durante o período de atividade messiânica (C1). Mas, quando José Nogueira convidou a Penõ a acompanhá-lo para reiterar as tentativas da metamorfose, Marcão aconselhou-o a não ir, dizendo-lhe que o vidente estava mentido (B2). O próprio José Nogueira diz que Marcão não queria se transformar em "cristão", argumentando que estes gostam muito de brigar quando tomam cachaça: "Se nós virarmos cristãos, nós vamos matar qualquer um, assim como cristão, que briga" (C4). Davi, irmão de Marcão, assegurou que este estava indeciso, não sabendo se queria ou não se transformar em civilizado (L). Em suma, o chefe da aldeia não se opunha de maneira aberta ao movimento e, por certo, evitava ao máximo entrar em conflito com o vidente, parecendo estar mesmo em segundo plano nesse período.

Portanto, os craôs e, sobretudo, a aldeia em que morava José Nogueira, estariam divididos em dois grupos: de um lado os que desejavam se transformar em civilizados e do outro os que não queriam ou estavam indiferentes. O grupo messiânico estaria assim organizado: no ápice, estava o vidente; logo abaixo, se apresentavam os seus auxiliares, que talvez possam ser divididos em xamãs e mensageiros; e, por fim, os demais adeptos. Os indiferentes e os opositores, embora não dessem apoio a José Nogueira, acreditavam que suas ações podiam resultar na metamorfose dos índios. Se não o acreditassem, não haveria razão, por exemplo, dos velhos pedirem a Pedro Penõ para que fosse solicitar ao vidente para que abandonasse seus intentos, pois não queriam virar civilizados, não queriam usar roupas (B1).

Mas além da organização dos craôs durante o período em que se esforçavam para se transformarem em civilizados, José Nogueira tinha em mente a maneira pela qual iriam se organizar após a metamorfose. Assim, depois que se transformassem em "cristãos", José Nogueira seria presidente; Pedro Penõ, ajudante; André, secretário; Lourenço, motorista (I) (deve-se notar a importância do motorista numa região de comunicações difíceis e que, nesse período, só deveria contar com o caminhão do S.P.I.). Uma outra informação diz que André seria doutor; Pedro Penõ, major; Marcão, presidente; Patrício, coletor; Marquinho, coronel; Justino, delegado; Antônio Pereira, prefeito. Haveria caixeiros para vender as mercadorias que estariam na casa grande que o vidente mandou construir. Eles seriam Esteves, José Ayehi, José Aurélio, Pedro Colina (A2). Uma vez que o dinheiro proveniente das vendas seria dos caixeiros, estes, na verdade, agiriam como donos de uma loja comercial. Mas, além de pessoas que ocupariam cargos de importância, posições de destaque, José Nogueira imaginava também uma camada social inferior, como o mostra uma ameaça que o vidente fez certa vez juntamente com uma de suas instruções: "Quem não acabar com semente de arroz e com sua criação, não vira "cristão", vira negro e vai ser trabalhador" (B3). Por conseguinte, o alvo do movimento era fazer os índios viverem numa sociedade igual à dos civilizados cuja organização contaria com as mesmas camadas sociais, os mesmos cargos administrativos e os mesmos preconceitos raciais. É interessante notar que algumas pessoas, dentre as escolhidas para ocupar posições de importância, se contavam no meio daquelas que se opunham ou eram indiferentes ao movimento: Marcão, Esteves, Justino, Patrício, Marquinho, Antônio Pereira. Acontece, porém, que tais indivíduos eram líderes na aldeia e o vidente os manteria na liderança mesmo depois da transformação.

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