Capítulo I

O sistema sócio-cultural craô
e suas relações com a sociedade nacional

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O Messianismo Craô

1 - População e localização dos craôs

Os índios craôs constituem um ramo dos timbiras. As tribos timbiras podem ser distribuídas em dois grupos: o Oriental e o Ocidental. Os timbiras orientais abrangem as tribos gavião, no Pará; pucobiê, crincati, ramcocamecrá (canela) e apaniecrá (Canela), no Maranhão; e craô, em Goiás (agora Tocantins). Os ocidentais são constituídos por uma tribo apenas, os apinajés, que habitam o extremo norte de Goiás (agora Tocantins). Em resumo, os timbiras ocidentais se situam na margem esquerda do Tocantins, enquanto os Orientais se localizam em pontos esparsos de uma vasta região à margem direita do mesmo rio. Mas essa divisão não é puramente geográfica: os ocidentais, ou seja, os apinajés, distinguem-se dos demais timbiras por um maior afastamento lingüístico e cultural. De qualquer modo, os timbiras possuem tradições culturais extremamente próximas e línguas muito semelhantes, podendo atribuir-lhes uma origem comum. Os timbiras se incluem na família lingüística jê.

Os craôs estão localizados num território de 3.200 quilômetros quadrados, entre o rio Manoel Alves Pequeno e o Vermelho (afluente do Manoel Alves Grande), da bacia do Tocantins, situado nos municípios de Goiatins (Piacá) e de Itacajá, ao norte do Estado de Goiás (Tocantins). Foi o Governo deste Estado que, pelo Decreto-lei nº 102, de 5 de agosto de 1944, concedeu aos indígenas o uso e gozo das terras do referido território.

Em 1962/63, havia 519 índios que viviam nas cindo aldeias craôs. A aldeia do Posto tinha 169 habitantes; a de Pedra Branca, 49; a de Boa União, 109; a do Abóbora, 50; e a de Serrinha 130. Dentro do território craô, mas fora dessas aldeias, moravam 43 indígenas ou descendentes mestiços de indígenas, que tentavam viver à moda dos sertanejos.

Nas aldeias craôs, contam-se indivíduos apaniecrás, apinajés, xerentes. Há também representantes dos quencateiês (canelas), tribo timbira cuja aldeia, no Maranhão, foi massacrada pelos civilizados em 1913. Indivíduos desses grupos tribais e ainda representantes dos pucobiê ou de uma outra tribo timbira extinta, os ponrecamecrás, miscigenaram-se com os craôs, deixando descendentes em suas aldeias. É impossível calcular a exata proporção em que essas tribos contribuíram para a constituição da população craô. Deve-se acrescentar que, entre os craôs, contam-se indivíduos que têm ascendentes civilizados, sobretudo de cor negra. Sejam quais forem seus ascendentes, entretanto, todo indivíduo que nasce numa aldeia craô é considerado como pertencente a esta tribo.

2 - Economia

A subsistência dos craôs está apoiada, antes de tudo, na agricultura, principalmente no cultivo da mandioca e do arroz. As atividades agrícolas têm que se adaptar a um clima quente com chuvas abundantes no final e início do ano e cerca de seis meses de completa estiagem (de maio a outubro). Desse modo, a derrubada das matas, a queimada, o plantio, precisam ser realizados em períodos bem determinados. A agricultura craô parece ter sofrido um empobrecimento quanto à variedade das espécies cultivadas. Tendo adquirido com os civilizados o conhecimento do cultivo do arroz, passaram a dar muito menos importância ao plantio da batata doce, do milho, do inhame, tendo desaparecido mesmo de seus roçados o cipó comestível chamado kupa. As atividades de coleta também constituem uma importante fonte de alimentos vegetais. A caça, que recebe muito mais atenção do que a pesca, se apresenta como a principal fonte de proteínas. Devido ao constante aumento da população sertaneja, que também lança mão da caça como recurso alimentar, a fauna da região está se reduzindo rapidamente, fazendo com que os resultados das caçadas craôs sejam cada vez menores.

A principal unidade econômica dos craôs é, sem dúvida, a família elementar. O resultado do trabalho individual de uma pessoa, ou a parte que lhe toca do resultado de trabalho coletivo, se destina, quase sempre, a ser consumido pelos membros da família elementar. Assim, cada casal cultiva um pedaço de terra e os produtos obtidos se destinam, antes de tudo, à sua alimentação e à de seus filhos. Os animais caçados pelo homem são levados à sua casa materna, se é solteiro, ou à casa de sua mulher, se casado. Além disso, cabe ao marido suprir suas esposa e filhos com artigos adquiridos dos civilizados, como sal, tecidos, intrumentos cortantes, panelas de ferro, agulha e linha, miçangas e outros.

Entretanto, nem sempre os indivíduos ou as famílias elementares trabalham isoladamente. Há tarefas que podem ser realizadas por grupos maiores. Por exemplo, no encoivaramento, capinagem ou plantio de cada roça pertencente a uma família elementar, pode ser realizado um mutirão. O mutirão craô difere do sertanejo quanto aos participantes: geralmente, os trabalhadores se limitam aos indivíduos de um só sexo, ou pertencentes a uma só metade ritual, ou apenas a um só estágio de idade. A família a que pertence a roça assim trabalhada deve oferecer uma refeição aos participantes. As caçadas, as pescarias e a coleta também podem ser coletivas. De qualquer modo, o mutirão se faz em benefício de uma família elementar; os animais caçados coletivamente devem ser divididos entre os participantes, de modo que cada caçador leve sua parte para sua família elementar; nas pescarias com timbó ou tingui cada família elementar recolhe para si os peixes atordoados que flutuam na superficie da água; nas expedições de coleta, cada mulher apanha frutos para sua família elementar. Assim, pois, a unidade de consumo vem a ser geralmente a família elementar. É certo que uma casa quase sempre congrega mais de uma família elementar e o que uma mulher cozinha costuma ser oferecido a todos os habitantes da casa. Mas, na hora da refeição, cada família elementar forma um pequeno grupo separado dos demais.

Os homens podem participar, divididos em classes de idade, de uma refeição comum na praça da aldeia. Entretanto, isso se dá raramente e se trata de um rito. Vários outros ritos, por sua vez, têm como ápice a troca de produtos coletados ou de carne de caça por alimento preparado. Essas trocas ocorrem, geralmente, entre indivíduos de sexos opostos, de metades opostas e entre parentes por afinidade.

No que tange às relações entre parentes por afinidade, é preciso chamar a atenção para o fato de que o homem sempre deve presentes aos parentes consangüíneos de sua esposa. Por outro lado, além da proibição de relações sexuais, as relações entre parentes consangüíneos são caracterizadas pela ausência de retribuição por alimentos, dádivas ou favores especificamente discriminados. Em outras palavras, enquanto um determinado indivíduo não faz conta daquilo que dá a um parente consangüíneo ou do que dele recebe, estabelecendo com ele um contínuo fluir de dádivas e favores espontâneos de um para o outro, exige retribuição especial para cada presente ou serviço que oferece a um parente por afinidade. Por conseguinte, as relações de parentesco, entre outras características, possuem também um aspecto econômico.

A produção de um excedente agrícola passível de comercialização não constitui objetivo dos craôs. Se, por acaso, um indivíduo vende parte de sua produção, ela vai lhe fazer falta posteriormente. De um modo geral, os gêneros agrícolas necessários à subsistência terminam antes da colheita seguinte. Para poderem comprar artigos de origem industrial, os craôs costumam trabalhar para os civilizados que vivem próximo a seu território, nas roças, na limpeza das ruas de Itacajá, no campo de pouso. Mas é pouco o trabalho que os civilizados da região lhes podem oferecer. A venda de couro de animais caçados e de filhotes de arara também produz uma pequena renda para os craôs. No entanto, são raros os animais de peles mais valiosas como a onça ou o gato maracajá. Como o trabalho assalariado para os civilizados regionais ou o comércio com eles pouco podem oferecer aos craôs, estes consideram muito mais compensadoras as viagens que fazem até cidades grandes e longínquas como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília. Nessas viagens, obtêm como presentes, doados pelo órgão governamental encarregado da proteção aos índios, pelos governos municipais ou estaduais, por congregações religiosas e mesmo por particulares, artigos que dificilmente poderiam adquirir com a renda de seu trabalho, tal como armas de fogo, geralmente espingardas pica-pau. Essas viagens parecem ser estimuladas pela obrigação de dar presentes aos parentes da esposa.

3 - Grupos e relações de parentesco

O grupo doméstico, ou seja, o conjunto de indivíduos que habita uma casa, compreende geralmente mais de uma família elementar. Como a regra de residência é uxorilocal, os indivíduos nascidos numa mesma casa se ligam entre si através de parentes consangüíneos de sexo feminino. Quando um desses grupos domésticos se cinde, os habitantes que deixam a casa constroem uma outra imediatamente ao lado da primeira. Assim, pois, indivíduos nascidos em casas contíguas se ligam entre si através de parentes femininos.

Já vimos que a família elementar se caracteriza como uma unidade de produção e de consumo. Como a divisão do trabalho entre os craôs se limita aos critérios de sexo e de idade, cada família elementar pode ser uma unidade econômica autônoma. Os laços entre os membros da família elementar são enfatizados pela crença segundo a qual todo indivíduo está ligado por um laço biológico extremamente forte com aqueles que o geraram e aqueles que gerou, e ainda com aqueles que têm, pelos menos, um genitor em comum com ele. Por isso, os genitores têm que manter certas evitações rituais enquanto o filho não ultrapassa uma certa idade; além disso, todos os indivíduos ligados por essas relações devem fazer resguardo quando um deles fica gravemente enfermo ou é picado por animal venenoso.

O grupo doméstico é bem mais difícil de se definir como uma unidade do que a família elementar. O trabalho dos genros é, até certo ponto, coordenado pelo sogro, que assim se constitui em chefe do grupo. Como cada família elementar pode realizar exatamente as mesmas tarefas, uma certa coordenação dentro do grupo doméstico se faz necessária para diversificar as atividades a serem realizadas num determinado dia.

As casas contíguas ligadas entre si por parentes femininos formam um grupo que convencionamos chamar de segmento residencial, na falta de um termo mais adequado. Geralmente, um homem evita se casar no segmento residencial em que nasceu, o que faz com que tais grupos tomem um caráter exogâmico. Mas, além da exogamia, nada mais contribui para dar individualidade a esses segmentos (não têm um nome, nem emblemas e não participam como um grupo de nenhuma atividade econômica ou rito), a não ser o fato de suas casas se manterem mais ou menos sempre na mesma posição com referência aos pontos cardiais, mesmo quando a aldeia muda de local ou quando parte de um desses segmentos muda de aldeia.

A proibição de incesto não abrange apenas as mulheres nascidas no mesmo segmento residencial de um homem, mas também todas as outras que ele considera como parentas consangüíneas. Os limites de parentesco de consangüínidade de um indivíduo é arbitrário. Além disso, é possível a uma pessoa transformar um parente consangüíneo num afim pela modificação da maneira de se comportar para com ele.

4 - Unidades políticas

A unidade política mínima entre os craôs vem a ser a facção. Uma facção não se confunde com uma família elementar, nem com um grupo doméstico e nem com um segmento residencial. Também não coincide com o grupo de parentes consangüíneos de seu líder. É difícil traçar-lhe os limites, que somente se tornam mais nítidos quando duas facções entram em conflito aberto. Uma série de interesses pode fazer um indivíduo pender para uma ou outra facção, independentemente das unidades de parentesco a que pertença, muito embora as relações de parentesco também possam ser utilizadas no aliciamento de adeptos. Em suma, tomando por base apenas as relações de parentesco de um indivíduo, não se pode prever a que facção ele se irá filiar. O conflito de facções, geralmente, culmina com a cisão da aldeia.

A aldeia constitui uma unidade política mais bem definida. Em primeiro lugar, dispõe de uma série de líderes formais. Destes, o mais importante é o chefe ou "capitão" da aldeia, responsável pelas relações de seus habitantes com os civilizados e também pelas relações internas e pela boa ordem da aldeia. Apoia-se numa faccão. Não é vitalício e nem hereditário este cargo e o indivíduo nele investido só o mantém enquanto tiver o consentimento de uma grande parte dos habitantes da aldeia. Há também os "prefeitos", em número de dois, ambos pertencentes a uma mesma metade sazonal e que exercem suas funções durante uma estação (a seca ou a chuvosa), sendo depois substituídos por dois outros "prefeitos" da metade oposta. Os "prefeitos" têm, como principais atribuições, a coordenação das atividades diárias da aldeia e a partilha dos bens de consumo, sobretudo a carne oriunda das caçadas coletivas. A aldeia é também a unidade promotora dos ritos a que os membros de outras aldeias assistem na qualidade de convidados; para isso, cada aldeia dispõe de um padré [nota 1], ou seja, um homem que se ocupa da direção dos ritos. Cada aldeia dispõe de um conselho informal e um tanto indefinido que inclui aqueles homens que se interessam pela vida coletiva e que dispõem de algumas qualidades que os craôs reconhecem nos líderes: são ativos, falam bem, conhecem as tradições tribais, são generosos, pacíficos. Este conselho orienta os "prefeitos" e discute com o "capitão" os problemas graves da aldeia. Parece haver um mínimo de habitantes abaixo do qual uma aldeia não pode se manter: as aldeias craôs de cerca de 50 habitantes, originadas da cisão de aldeias maiores, tendem a desaparecer pela retirada de seus habitantes para aquelas onde haja uma maior concentração de indígenas. Nas aldeias pequenas, além de ser mais difícil encontrar cônjuges potenciais, pessoas portadoras de determinadas habilitações, como o conhecimento dos ritos, aptidão para o canto, há menos movimento, o que faz seus habitantes se voltarem para as aldeias grandes.

A tribo vem a ser a unidade política mais abrangente. Mas não há nenhum líder ou conselho que a dirija como um todo. O que lhe dá unidade é a posse de um território comum, os laços de parentesco entre os habitantes das diversas aldeias, os convites formais que cada aldeia faz às demais para a participação em seus ritos, a hostilidade aos outros grupos tribais. Os craôs também dispõem de uma instituição, tal como os outros timbiras, que faz com que cada aldeia possa ter um representante seu em cada uma das demais: são os chefes honorários. Atualmente, a tribo craô dispõe de uma autoridade responsável por ela toda, imposta pela sociedade nacional: o encarregado de Posto do extinto S.P.I. ou da atual FUNAI. Essa autoridade, vez por outra, contribui para a imposição de determinado índio como chefe de uma aldeia; na maior parte das vezes, entretanto, limita-se a confirmar o chefe que chega ao poder segundo os padrões tribais.

5 - O sistema mágico-religioso

A mitologia craô não faz referência à origem do mundo. Sol e Lua, heróis que são os criadores dos homens, iniciam suas atividades num universo já existente que se limitam a transformar. Esses heróis, ambos do sexo masculino, estão ligados por três tipos de relação: são irmãos, são ikhïonõ (algo assim como parentes consangüíneos, mas sem conexão genealógica um com o outro) e são hõpin (amigos formais). O mito de Sol e Lua pode ser dividido numa série de episódios, todos eles com a mesma estrutura: a) Sol possui um certo conhecimento ou objeto; b) Lua quer ter o mesmo que o Sol; c) o Sol esconde ou nega o que tem; d) Lua insiste; e) Sol cede, mas de tal maneira que agride Lua; f) Lua corre perigo; g) Sol resolve salvar Lua. As peripécias de Sol e Lua mostram como surgiram o trabalho, a morte, os mosquitos, as cobras, a menstruação, os homens. Harald Schultz (1950, pp. 55-71) apresenta longa versão deste mito. O mito de Sol e Lua, por conseguinte, mostra como surgiram os seres humanos e uma série de limitações e dificuldades que a natureza impõe aos homens. Muito pouca coisa de sua cultura os craôs admitem ter sido criado por esses heróis. Entre elas, podem-se citar as evitações rituais dos genitores logo após o nascimento da criança, o sepultamento (Schultz, 1950, pp. 61-63). Os indígenas reprovam as atitudes que Lua toma no mito, não somente por ser desajeitado e menos hábil do que Sol como também pela insistência com que faz seus pedidos. E dessa insistência de Lua é que decorrem os males que afligem os sere humanos. É digno de nota, entretanto, que o comportamento de Sol, escondendo ou negando aquilo que tem, também se afasta do comportamento aprovado pelos craôs. Entretanto, estes só demonstram seu desagrado para com as constantes reivindicações de Lua, mas nunca para com a sovinice de Sol.

Outros mitos, porém, narram como os craôs aprenderam a agricultura, obtiveram o fogo, aprenderam os ritos e os cânticos. Esses mitos têm estruturas semelhantes e muitas vezes iguais. Geralmente, tais mitos contam a história de um indivíduo que se afasta da aldeia e, no mundo externo, aprende alguma coisa, voltando à aldeia com esses conhecimentos que transmite aos demais habitantes. O caso do mito da origem da agricultura é o inverso: um ser da natureza entra na aldeia, aí deixa certos conhecimentos, retirando-se novamente para o mundo externo. O mito de Auke, muito importante para a compreensão do movimento messiânico craô, segue o esquema deste último. Mas Auke, indivíduo que tem origem na natureza, ao entrar na aldeia, não tem oportunidade de ensinar aos índios aquilo que sabe, pois estes têm medo dele e acabam por afastá-lo de modo violento da vida da aldeia. Auke, então, no mundo externo à aldeia, dá origem aos civilizados. Alguns mitos também contam a história de indivíduos que, tendo se afastado da aldeia, não voltam a ela com novos elementos a serem aproveitados pelos seus habitantes; pelo contrário, ficam no mundo externo, transformando-se em animais ou serem monstruosos. O leitor se habilitará a compreender um grande número de mitos craôs se tomar como base o modelo oferecido por Roberto DaMatta (1970, pp. 92-93 e 99-100) em "Mito e Anti-mito entre os timbiras".

Portanto, os craôs não dispõem de apenas um herói civilizador, mas de muitos, tendo cada um contribuído com uns poucos elementos para a constituição de sua cultura. A nenhum desses heróis prestam qualquer tipo de culto, a não ser talvez Lua, a quem se dirigem diretamente por ocasião dos eclipses, oferecendo-lhe dádivas para não desaparecer. Aos invés de culto, ao invés de relações com divindades ou heróis míticos, os ritos craôs se ocupam diretamente das relações entre pessoas e grupos, mediante a utilização de um esquema simbólico. Participam dos ritos craôs vários pares de metades. Tais metades não regulamentam o matrimônio e nem existem como divisões políticas; estão ligadas, antes de tudo, aos ritos. Alguns desses pares de metades se dividem em grupos menores. Entretanto, não são apenas as metades e suas divisões que participam dos ritos; neles se podem notar outras oposições, como aquela entre parentes consangüíneos e parentes afins e aquela entre homens e mulheres.

As metades que constituem a oposição Wakme(n)ye/Katamye estão ligadas simbolicamente a uma série de outras oposições, tais como estação seca/estação chuvosa, dia/noite, praça da aldeia/periferia da aldeia. De cada uma dessas metades é que se tiram os dois "prefeitos" da aldeia no início de cada estação. Cada uma delas possui um repertório de nomes pessoais, de modo que cada indivíduo pertencerá a uma ou a outra segundo o nome que receber. Geralmente, o menino recebe o nome de um tio materno ou de outro parente que seja chamado pelo mesmo termo que aquele, enquanto a menina recebe nome da tia paterna ou outra mulher terminologicamente equivalente. Os nomes pessoais masculinos estão também distribuídos pelos diversos grupos componentes das metades que constituem a oposição Khöirumpekëtxë/Harãrumpekëtxë; portanto a inclusão de cada indivíduo num desses grupos depende do nome que ele receber. Os indivíduos do sexo masculino, quando chegam à puberdade, são colocados em classes de idade por um homem experiente; essas classes se distribuem pelas metades Khöikateye e Harãkateye. As demais oposições de metades -- Teré/Tép,, Krókrók/Hëk e suas variações — não têm membros fixos. Os homens se incluem numa ou noutra metade a seu bel prazer, no momento em que se inicia um rito de que uma dessas oposições participe. Somente as metades da oposição Wakeme(n)ye/Katamye incluem homens e mulheres. As outras têm como membros, antes de tudo, indivíduos do sexo masculino; as mulheres se incluem nas metades de seus maridos.

Há ritos que duram vários meses. Neles se pode perceber um período de abertura, um período de latência e um outro de encerramento. Geralmente, esses longos ritos, em sua maioria, são de iniciação ou parecem preencher períodos em que deixam de ser realizados os de iniciação. Tais ritos, embora se refiram à passagem de grupos de indivíduos de uma categoria para outra dentro da sociedade, utilizam-se de um simbolismo em que a aldeia se opõe ao mundo externo, ou seja, valem-se da oposição sociedade/natureza. Outros ritos, que duram poucos dias, relacionam-se com as atividades econômicas, enfatizando os sentimentos de solidariedade ou de hostilidade que animam os grupos sociais nos períodos de plantio, colheita, caça e coleta.

Pode-se dizer que cada aldeia craô vive continuamente num período ritual: há um rito que perdura por toda a estação seca e outro que se desenvolve durante toda a estação chuvosa. Sobrepondo-se a estes ritos, realiza-se um dos ritos de iniciação ou que substitui os de iniciação; além disso, ocorrem durante todo o ano ritos curtos ligados às atividades econômicas. Assim, pois, os craôs vivem o ano inteiro num ambiente ritual. Como a todos os ritos está ligada a corrida de toras, esta se realiza quase todos os dias, disputando-se entre dois times, que correspondem a um dos pares de metades.

No que tange à magia, certos atos podem ser efetuados por qualquer pessoa, enquanto que outros são postos em prática apenas pelo xamã. Assim, a magia referente à caça e à agricultura, realiza-a qualquer indivíduo empenhado nessas atividades. A magia do caçador visa sobretudo a enganar o animal que pretende capturar, de modo que caia facilmente nas mãos de quem o persegue. Quanto à magia ligada à agricultura, ela tem por objetivo favorecer à germinação e ao crescimento adequado das plantas.

Embora seja do conhecimento de um grande número de indivíduos, certos recursos medicinais para determinados males, a cura das doenças são, geralmente, entregues aos xamãs. O indivíduo, para se transformar em xamã, passa por uma experiência sobrenatural, revivendo um mito (Melatti, 1963). O futuro xamã, afetado por alguma doença e isolado dos demais habitantes da aldeia, entra em contacto com um animal ou algum outro ser, dele recebendo poderes, que passa a trazer em seu próprio corpo, sob a forma de uma substância mágica. Faz uso desses poderes, seja para curar outros indivíduos, seja para enfeitiçá-los, provocando a doença e a morte. Em alguns casos, parece mesmo haver uma certa identificação entre o xamã e o ser que lhe dá poderes; por exemplo, o animal coloca no corpo do xamã partes de seu próprio organismo, ou lhe impõe que coma seu alimento, ou mesmo reduz a atividade sexual do xamã ao período do cio de sua espécie. Mas tal identificação não é evidente na maior parte dos casos. A doença é, geralmente, interpretada como o efeito da introdução no corpo do paciente de pequenos objetos ou frações do corpo de animais. Essa introdução muitas vezes é atribuída a um outro xamã. Por causa de tais acusações, até a uma época bem recente, não eram raros os assassinatos de xamãs. Pudemos contar entre os craôs um total de 43 xamãs, todos do sexo masculino, o que constitui uma alta proporção para uma população de 519 indivíduos.

Tanto os mitos como os ritos e a magia acentuam as relações entre a aldeia e o mundo externo, entre a sociedade e a natureza, que parecem formar uma oposição muito importante para a compreensão do sistema ideológico craô.

6 - Relações com a sociedade nacional

As relações de contacto entre os índios craôs e os civilizados já constituíram objeto de outro trabalho nosso (Melatti, 1967). Aqui, por conseguinte, limitar-nos-emos apenas aos traços essenciais do problema, sobretudo aqueles que permitem lançar alguma luz para compreender a eclosão do movimento messiânico.

No início do século XIX, quando entraram em contacto com os civilizados, os craôs habitavam não Goiás, mas o Maranhão, estando localizados na região banhada pelo curso inferior do rio Balsas e seus afluentes, como o Neves e o Macapá. Os civilizados, que então começavam a ocupar o sul do Maranhão, eram criadores de gado provenientes do Piauí. O contacto foi inicialmente hostil e os craôs foram empurrados na direção do Tocantins. Entretanto, parece que faziam frequentes incursões sobre as terras das quais tinham sido expulso, havendo mesmo destruído duas fazendas. Em 1809, uma expedição foi enviada contra esses índios; dela participavam militares e civis, e lhes infligiu uma grande derrota, fazendo-lhes 70 prisioneiros. A partir de então, os craôs tiveram de aceitar a condição de não mais hostilizarem os civilizados. Parece que foi nessa época que os craôs se encostaram na margem direita do Tocantins, sendo que uma parte deles chegou mesmo a atravessar para o lado oposto. Nesse seu deslocamento, entraram em choque com índios acuens (xerentes ou xavantes?), que obrigaram a se afastarem para mais longe.

Foi nas margens do Tocantins que Francisco José Pinto de Magalhães, comerciante goiano, encontrou os craôs em 1810. Ocupado no comércio entre o Pará e Goiás através do rio Tocantins, fez amizade com os craôs, contando logo com o apoio dos criadores do sul do Maranhão, altamente interessados em conservá-los pacificados, que chegaram a lhe oferecer gado para facilitar seu empreendimento. O comerciante iniciou a construção de um povoado que viria a ser a origem da atual cidade de Carolina. Tal povoado tinha como finalidade constituir um local de descanso e reabastecimento para os navegadores do Tocantins; constituiria um centro comercial para os moradores do sul do Maranhão; seria a base para a exploração agrícola das florestas marginais do Tocantins, que o comerciante queria cultivar com algodão; e também a base para a organização de expedições para escravizar índios, que seriam empregados pelo comerciante em suas plantações ou seriam vendidos por ele em Belém. Convém notar aqui que a Carta Régia de 5 de setembro de 1811 permitia a escravidão temporária de índios hostis na bacia do Tocantins.

Os craôs participaram, ao lado dos civilizados, dessas expedições escravizadoras e várias tribos timbiras parecem ter desaparecido em consequência disso. Ao mesmo tempo, a região ia sendo ocupada por gado. Os bovinos, sendo superiores em tamanho a qualquer animal selvagem da região, constituíam uma tentação para os índios, que davam uma grande importância à carne como alimento e, consequentemente, à caça. Os craôs, tal como outro indígenas da região, faziam caçadas ao gado dos fazendeiros, mas acusavam outros grupos tribais como responsáveis pelos prejuízos que estes sofriam. Dessa maneira, forneciam fácil motivo aos civilizados para continuarem com sua expedições. Por conseguinte, os craôs eram não somente aproveitados para liquidar com as outras tribos, como eles próprios incitavam os civilizados contra elas. Em 1840, um fazendeiro da região mantinha perto de sua fazenda uma pequena aldeia de índios craôs, de certa de 25 habitantes, para protegê-lo dos índios acuens.

Entretanto, os índios dos arredores de Carolina se tornaram cada vez mais raros e eram então os próprios craôs que apareciam como ladrões de gado. Tornando-se indesejados pelos fazendeiros da região, foram transferidos mais para o sul, em 1848, ficando sob a direção do missionário capuchinho Frei Rafael de Taggia, na região da confluência dos rios Tocantins e do Sono, onde se fundou Pedro Afonso, já em terras de Goiás (hoje terras do Tocantins). Mesmo essa transferência tinha ainda como um dos fins colocar os craôs como uma sentinela avançada dos civilizados contra os acuens.

As notícias sobre os craôs, na segunda metade do século passado, são mais raras. Mas parece que, a partir de sua transferência, não mais entraram em choque com outros grupos tribais, com exceção apenas da expedição que realizaram em 1923 contra os Apinayé. Os craôs se afastaram de Pedro Afonso, onde estavam sediado o missionário e se deslocaram na direção nordeste, vindo a se estabelecer na região onde atualmente está demarcado o seu território. Nessa região, ajudaram muito a um fazendeiro, pois exterminaram as onças que impediam o crescimento de seu rebanho. Continuaram muito amigos de um descendente do mesmo fazendeiro, chegando mesmo a ajudá-lo a retomar o gado que lhe fora roubado por bandidos vindos do norte. Este fazendeiro os presenteava com cabeças de gado e fechava os olhos aos furtos que os índios faziam no seu rebanho.

Não obstante, um dos filhos desse fazendeiro, após a morte do pai, apoiado por mais dois outros criadores de gado, indignado com os furtos de gado, atacou os craôs. Duas de suas aldeias foram assaltadas e 26 índios foram mortos. Porém, uma missão batista havia funcionado entre os craôs entre 1926 e 1938. Um dos missionários, que ainda estava na região, deu parte do acontecimento ao Governo Federal, que imediatamente tomou as devidas providências. Promoveu-se o julgamento dos culpados, sendo os dois fazendeiros considerados como principais responsáveis condenados a sete anos de prisão e alguns outros a penas menores. Foi estabelecido entre os craôs um posto do Serviço de Proteção aos Índios. E, em 5 de agosto de 1944, o Governo de Goiás lhes concedia o uso e gozo das terras que ocupavam, delimitando-lhes o território.

Mas os problemas das relações com os civilizados não se resolveram completamente com essas medidas. No território concedido aos craôs havia moradores sertanejos, que o S.P.I. permitiu continuarem nas terras que ocupavam mediante um contrato de arrendamento. O fato dos índios causarem prejuízo à propriedades desses sertanejos fez com que um encarregado rescindisse, em 1952, cem contratos de arrendamento e fizesse uma grande parte dos moradores civilizados se retirar do território indígena. Os civilizados da região continuam a cobiçar as terras indígenas e os políticos locais têm-se esforçado em conseguir uma diminuição da área da reserva tribal. O Serviço de Proteção aos Índios instalou duas fazendas no território tribal. No entanto, o número de cabeças de gado das mesmas é reduzido, o que não permite um abastecimento regular de carne para as aldeias. A diminuição dos animais silvestres leva os índios não somente a abater reses dos fazendeiros vizinhos como também das próprias fazendas do órgão protecionista. Além disso, os próprios chefes de aldeia, contrariando a política do antigo S.P.I., permitem o estabelecimento de sertanejos no território tribal, mediante o fornecimento de algumas dádivas anualmente.

Uma série de modificações sofreram os craôs a partir do momento em que entraram em contacto com os civilizados. Sua população era estimada em 3 ou 4 mil no início do século, o que talvez constituía um pouco de exagero dos cronistas. De qualquer forma, ela declinou sensivelmente nos primeiros anos de contacto, tanto que um recenseamento em 1852 contou apenas 620 índios craôs. O declínio foi menos acentuado a partir daí, pois a população caiu de uma centena em um século. Atualmente, ela dá mostra de poder se recuperar, bastando que sejam tomadas algumas medidas sanitárias eficazes e seja resolvido o problema das carências alimentares. As missões religiosas não conseguiram nenhuma conversão de índios craôs ao cristianismo. Em compensação, as crenças craôs sofreram ligeiras modificações devido ao contacto com o catolicismo folclórico dos sertanejos. Por exemplo, identificam o herói Sol com Deus e Lua com São Pedro, talvez, baseados nos contos sertanejos que narram as andanças de Jesus e de São Pedro sobre a terra onde este santo se mostra, ao mesmo tempo, malicioso e desajeitado. Além disso, costumam os craôs convidarem os sertanejos para serem padrinhos de batismo de seus filhos, a fim de poderem se valer das relações de compadrio que estabelecem com eles. Notam-se também modificações na construção de casas, que se assemelham às dos sertanejos, com tetos de palha de duas águas. Na cozinha, adotaram as panelas de ferro. Passaram a se utilizar de armas de fogo na caça, sobretudo de espingardas pica-pau, uma vez que não dispõem de recursos suficientes para comprar munição de armas mais modernas. Os craôs começaram também a adquirir tecidos dos civilizados, adotando-o no vestuário, que, entretanto, tomou características próprias: os homens usam uma simples tanga segura por um cinto de couro ou de palha; as mulheres usam um pano enrolado em torno da cintura que as cobre até os joelhos; trazem ao pescoço colares de miçangas de várias voltas. Os indivíduos do sexo masculino de idade superior a uns quinze anos falam todos o português, sendo que esta língua é mais raramente falada pelas mulheres, não obstante várias delas a compreenderem. Diversos ritos vieram a desaparecer durante o período do contacto, entre os quais o do Ikhréré, que parecia estar intimamente ligado com as classes de idade, que também estão em decadência. Os craôs abandonaram também o sepultamento secundário. É interessante notar que, apesar de um certo empobrecimento em relação aos traços culturais tradicionais, o contacto com outros grupos timbiras tem feito com que adotem cânticos e ritos desses grupos, o que de certa maneira serve de compensação aos traços que desaparecem.

É costume falar-se de um conservantismo timbira, observando-se a resistência de sua cultura à mudança. De fato, com mais de um século e meio de contacto interétnico permanente, a cultura craô mantém muito dos costumes tradicionais. Parece que tal conservantismo pode ser atribuído ao fato dos craôs, como outros grupos timbiras, viverem à margem do sistema sócio-econômico pastoril. A criação extensiva de gado exige uma grande área de terra e, ao mesmo tempo, poucos trabalhadores. Por isso, os civiliziados, ao invadirem a região ocupada pelos timbiras, procuraram não somente fazê-los desaparecer como tribos organizadas, mas também como indivíduos. Os poucos grupos timbiras que restaram ficaram à margem da sociedade pastoril, sendo que a mão-de-obra indígena não foi aproveitada por ela, uma vez que havia excesso de trabalhadores nas fazendas.

A situação atualmente ainda continua a mesma. Os fazendeiros desejam as terras dos craôs para aumentarem seus pastos; os lavradores de subsistência as querem para aproveitar suas matas para a lavoura. Os índios, sentindo a falta de caça, pois que é também procurada pelos lavradores e pelos vaqueiros, de vez em quando capturam uma rês de algum fazendeiro. A qualquer momento, portanto, pode vir a ocorrer um outro choque entre civilizados e índios.

Em resumo, uma vez pacificados, os craôs se aliaram aos fazendeiros de gado contra os demais índios. Conforme esses outros índios iam sendo dizimados, os craôs apareciam mais e mais aos fazendeiros como indesejáveis, acabando por serem transferidos mais para o sul. Aí, durante algum tempo, ainda conseguiram a amizade de alguns fazendeiros em troca de serviços. Entretanto, com estes mesmos acabaram por se indispor e foram atacados em 1940. Após essa data, apesar de terem seu território mais ou menos respeitado devido à vigilância do S.P.I., suas terras ainda continuam sendo cobiçadas e eles continuam a "caçar" gado, sendo possível que a situação venha novamente a se agravar.

Notas

Nota 1 — Nesta edição para internet adotamos a mesma grafia que utilizamos em nosso livro Ritos de uma Tribo Timbira (São Paulo: Ática, 1978). Convencionamos que as letras têm o mesmo valor que em português, com as adaptações que seguem. Não utilizamos as letras c e q; o g tem, diante de qualquer vogal, o mesmo som que em português lhe é atribuído antes de a, o e u; o h equivale ao som de rr no dialeto carioca; o r tem sempre o som brando, mesmo no início da palavra, igual ao que se atribui a essa letra em português quando está entre vogais; o s tem sempre o valor de ss. O w e o y têm respectivamente o som de u e de i e formam sílaba com a vogal que os segue. O ó e o é abertos são assinalados com o acento agudo, mas não trazem acento quando fechados. O ë, o ö e o ï representam, respectivamente, o ó, o o fechado e o u não arredondados. O ñ corresponde ao nh do português; o kh, ao k aspirado; o tx, à oclusiva africada álveo-palatal. O ponto de interrogação indica a oclusão glotal. O m e o n não nasalizam as vogais que lhes são contíguas, pois sua nasalização é indicada pelo til. Nas palavras não oxítonas, antepomos o apóstrofo à sílaba tônica. A sílaba , em final de palavra, geralmente constitui o sufixo que indica diminutivo; neste caso o r não forma um grupo consonantal com a consoante que o precede, mas inicia sílaba independente. Quanto aos etnônimos, procuramos adaptá-los à grafia oficial brasileira. Voltar ao texto
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O Messianismo Craô
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