Capítulo 3

A perspectiva do branco

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Índios e criadores

Constitui objetivo deste capítulo examinar como a estrutura sócio-econômica do segmento da sociedade brasileira que envolve os craôs condiciona o comportamento dos regionais para com os indígenas. A rigor, estes indígenas já não se encontram mais em contacto com uma frente. A frente pastoril que penetrou em seu território no século passado ocupou-o e ultrapassou-o. Os sertanejos que vivem junto aos craôs não mais estão à margem de uma área desconhecida que devem conquistar. Isso significa que os craôs já não vivem empurrados pelos bordos da área pastoril, mas estão dentro dela, completamente envolvidos por ela. As modificações sofridas por este segmento da sociedade nacional parecem ter tomado mais o sentido de uma modernização do que realmente de uma transformação da estrutura sócio-econômica. Isto ficará mais evidente depois de descrevermos de modo sumário o aspecto que atualmente apresenta a sociedade regional.

1. A falta de um centro de decisão

Na região em que se encontram os índios ticunas, bem como na dos índios suruís e gaviões, é possível apontar um centro de decisão, isto é, um núcleo urbano que reúne os detentores do poder político e econômico e em cujas mãos se acha a sorte dos habitantes regionais e o destino das populações indígenas (Cardoso de Oliveira, 1964, p. 41; Laraia, 1965, p. 67; Da Matta, 1963, pp. 186-187). Marabá, por exemplo, na região dos índios suruís e gaviões, constitui um desses centros; lá têm sua sede aqueles que financiam a coleta da castanha-do-pará, os proprietários dos castanhais, os políticos locais, os comerciantes, papéis esses muitas vezes confundidos nas mesmas pessoas; para lá se dirige grande parte da produção regional da castanha, de onde é embarcada para Belém. E o destino dos índios suruís e gaviões depende da maneira pela qual essas pessoas decidem explorar os recursos da região.

Parece-nos muito mais difícil apontar um centro de decisão semelhante na área que interessa aos índios craôs, devido a vários motivos. Em primeiro lugar, o centro para onde convergem os interesses políticos da área não coincide com o mercado do principal produto regional. Assim, a região depende administrativamente de Goiânia, mas o gado encontra seu principal consumidor na cidade de Belém. As duas maiores cidades relativamente próximas do território craô são Carolina e Pedro Afonso, a primeira no Estado do Maranhão e a segunda em Goiás (hoje no Tocantins). Os dois munícipios onde se encontra o território craô, Piacá e Itacajá, desmembraram-se em 1953 do antigo município de Pedro Afonso. Entretanto, o primeiro tem comunicações mais fáceis com Carolina, enquanto o segundo, com Pedro Afonso.

Portanto, Carolina, Pedro Afonso, Piacá e Itacajá constituem diferentes sedes municipais onde se encontram elementos que têm interesses ligados à região. Dizer em quais dessas sedes se tomam as decisões mais importantes com respeito aos craôs é impossível.

Os civilizados regionais formam um sistema social estratificado, se bem que seja difícil distinguir as camadas que o compõem. Pode-se dizer, entretanto, que a camada mais alta reúne os criadores e os comerciantes, enquanto a mais baixa, os agricultores de subsistência. Parece que o poder da camada mais alta sobre esta mais baixa não pode ser muito exagerado, pois os agricultores não estão necessariamente presos por laços de dependência aos fazendeiros, visto poderem utilizar as terras devolutas da região.

O problema da existência de um grupo com poder de decisão talvez se aclare depois de examinarmos a situação atual dos criadores e dos agricultores.

2. A fazenda de criação

Os habitantes da região têm como atividade econômica ideal a criação de gado. Todos aqueles que dispõem de algum capital tentam logo comprar alguns bovinos. A riqueza de uma pessoa é quase sempre calculada sobre o número de reses de que dispõe. Entretanto, as fazendas não reúnem grandes rebanhos. Uma fazenda considerada grande na região possui geralmente cerca de 600 reses. A tabela abaixo nos dá uma boa idéia do tamanho dos rebanhos das fazendas situadas nos dois municípios em que se encontra encravado o território dos craôs:
Número dos estabelecimentos (E) e número de reses (R) que possuem
(I.B.G.E., 1963, pp. 63-64)
  Total Menos de
100 reses
De 100 a
menos de 500
De 500 reses
e mais
  E R E R E R E R
Piacá 415 30.014 334 13.927 77 13.515 4 2.572
Itacajá 755 36.533 656 17.592 97 17.941 2 1.000
Total 1.170 66.547 990 31.519 174 31.429 6 3.572

Ora, esta tabela nos indica que a maior parte dos estabelecimentos que possuem gado (85,5%) reúne rebanhos de menos de 100 cabeças (numa média de 31 reses cada um), detendo assim 48% do gado dos dois municípios. Por outro lado, 14% dos estabelecimentos criadores se acham na classe daqueles que possuem de 100 a menos de 500 reses (com uma média de 180 cada um), reunindo 47% do gado de ambos os municípios. Finalmente, apenas 0,5% dos estabelecimentos criadores se classificam entre os de 500 ou mais reses (com uma média de 595 cabeças cada um), cobrindo somente 5% do rebanho dos dois municípios.

Por conseguinte, as fazendas consideradas grandes para a região, as que apresentam por volta de 600 reses, são em número bastante reduzido. Por outro lado, muitos dos estabelecimentos possuidores de gado dificilmente podem ser considerados fazendas, visto o número exíguo de cabeças que possuem.

Poucos são os indivíduos proprietários de mais de uma fazenda. O homem mais rico destes municípios possui quatro fazendas, com um total de cêrca de duas mil reses. Portanto, a renda das maiores empresas é irrisória, quando comparada com as de outras partes do País.

O método empregado nas atividades pastoris é o mesmo do século passado. O gado se cria disperso, à solta, e poucos são os homens necessários para cuidar de um grande número de reses. Por isso, cada fazendeiro tem às suas ordens um número reduzido de trabalhadores.

O vaqueiro continua a ser recompensado segundo a maneira tradicional. Recebe um cria de cada quatro que nascem aos seus cuidados. Tem também direito a consumir um rês para cada lote de dez crias nascidas durante o seu período de trabalho; dessa rês o vaqueiro pode utilizar a carne, mas deve devolver o couro ao patrão. Como o rebanho é pequeno, poucas são as crias e, por isso, pequena é também a recompensa do vaqueiro. Este ainda costuma recorrer à caça para seu suprimento de carne e deve também providenciar o plantio de uma roça que garanta sua subsistência.

O vaqueiro muitas vezes não encontra mais boas terras disponíveis para o estabelecimento de sua própria fazenda e freqüentemente as despesas a que tem de fazer face o obrigam a vender ao próprio patrão as crias obtidas na partilha.

A introdução do gado zebu na região fez com que os fazendeiros alterassem a proporção tradicional da partilha. Mantiveram a proporção de uma cria para cada quatro apenas com relação ao gado da variedade tradicional, mas modificaram-na para uma cria em cada seis no que toca ao zebu e uma cria em cada cinco no caso de gado mestiço. O vaqueiro foi grandemente lesado com essa transformação, pois, embora o zebu necessite de mais cuidados, o trabalhador recebe uma fração menor da produção.

Parece que atualmente o vaqueiro tem menos oportunidade do que outrora para chegar a ser fazendeiro, o que se deve a vários motivos. Em primeiro lugar, devido a aumento da população e à multiplicação do gado, já não se encontram terrenos vazios com boa terra e boa água para o estabelecimento de novas fazendas. Em segundo lugar, temos a já citada alteração na recompensa do vaqueiro devido à introdução do gado zebu. Em terceiro lugar, as atuais fazendas são muito pequenas para permitir uma recompensa muito grande. Pode-se acrescentar, ainda, um quarto motivo: o desaparecimento dos animas de caça, que forneciam carne ao vaqueiro, evitando que tivesse de abater suas próprias reses. Segundo um criador da região, um vaqueiro, quando muito, chega a ganhar na partilha oito crias por ano, mas as vende logo ao recebê-las, por ter necessidade de dinheiro. Essa necessidade de dinheiro se coloca, provavelmente, na medida em que o vaqueiro e sua família passam a comprar certos produtos industriais que vem substituindo outros, dependentes no passado da fabricação doméstica, como tecidos, panelas, calçados e outros (veja-se, por exemplo, a situação de penúria em que viviam os habitantes da frente pastoril no início do século passado em Ribeiro, 1870, pp. 65-66, e 1874, pp. 77-78).

A abertura da estrada Belém-Brasília contribuiu para facilitar o transporte do gado para o seu principal mercado — a capital paraense — mas não parece ter trazido nenhuma modificação para as relações de produção. Antes de se abrir ao tráfego essa estrada, o gado da região era enviado geralmente às charqueadas de Pedro Afonso e Carolina; aí, depois de abatido, era embarcado em avião para Belém. Entretanto, depois da construção da estrada, o gado pode também chegar de pé a esta cidade. Os boiadeiros o conduzem a pé ou em barcas até a BR-14, onde o colocam em caminhões que o levam até Belém e aí se efetua o corte. O transporte por terra parece que foi um dos motivos do fechamento de duas charqueadas de Carolina, bem como da diminuição do corte de gado em Marabá, em cujo município havia pastagens para engordar o gado proveniente de Goiás e de onde também partiam para Belém aviões, fazendo transporte da carne do gado abatido.

Atualmente os fazendeiros da região tentam adotar o sistema de pastos plantados. Tais pastagens não são cultivadas sobre o mesmo terreno do pasto natural, o cerrado, mas se fazem em terra da floresta. Ao se derrubar uma porção de mata com o fim de transformá-la em pasto, aproveita-se o terreno desbastado para se fazer primeiramente uma roça e ao findar a colheita é que se planta o capim. A introdução da técnica do pasto cultivado contribuiu para incrementar o uso do cercamento do terreno dos estabelecimentos com arame farpado [nota 1].

A esmagadora maioria das fazendas se estabelece sobre terras ainda sem título de propriedade. Fazendeiros e agricultores se instalam nessas terras mediante o pagamento de uma quantia irrisória como imposto territorial. Note-se que o número de estabelecimentos registrados na prefeitura de Itacajá em 1963 é menor do que o constante nos dados no Recenseamento de 1960 (I.B.G.E., 1963, p. 65; no Censo constam 755 estabelecimentos com gado; na Prefeitura, 184), demonstrando assim que uma boa parte deles, sobretudo aqueles possuidores de umas poucas reses, não pagam o imposto e nem a taxa de capitação que incide sobre o gado. Pouquíssimos são os proprietários de terras na região. No município de Itacajá talvez somente uns três ou quatro o sejam. Não sendo proprietários, os fazendeiros não se vêem no direito de cobrar nenhuma taxa aqueles que pedem para fazer suas roças nas terras que detêm; e se o fizessem, não teriam maior resultado, pois simplesmente o requerente iria procurar um lugar entre as terras ainda não ocupadas. O fazendeiro, por conseguinte, não tem tanto poder sobre os seus agregados quanto disporia se fosse proprietário das terras que ocupa e se a terra fosse mais escassa.

3. Os agricultores

Aqueles que não conseguem participar das atividades pastoris, nem como fazendeiros, nem como vaqueiros, não têm outro recurso senão tentar subsistir cultivando roças. Tais plantações têm por finalidade primordial a subsistência. A produção de um excedente não era até há pouco estimulada, visto que as fazendas possuem suas próprias roças e os núcleos urbanos regionais são muito pequenos para constituírem um bom mercado.

A tabela seguinte nos dá uma idéia da área ocupada pela agricultura nos dois municípios, Itacajá e Piacá (hoje Goiatins), em que se encontra o território craô:
Comparação das áreas dos municípios de Piacá e Itacajá
com a área ocupada pelos estabelecimentos e a área cultivada
(I.B.G.E., 1963, pp. 3-4, e 1958, pp. 232 e 340)
Municípios Área do município Área ocupada por
estabelecimento
Área cultivada
Itacajá 670.000 ha 197.177 ha 1.513 ha
Piacá 1.180.000 ha 81.190 ha 1.970 ha
Total 1.850.000 ha 278.367 ha 3.483 ha

Segundo essa tabela, os estabelecimentos da região, tanto os agrícolas como os pastoris, ocupam apenas mais ou menos um sexto dos territórios dos municípios e a área cultivada preenche uma porção diminuta de sua superfície. Nota-se, por conseguinte, que há suficiente terra desocupada para receber novos lavradores ou para onde podem deslocar-se os atuais cultivadores. Há entretanto, algumas ressalvas a fazer. Em primeiro lugar, cerca de 320.000 hectares dessa terra desocupada pertencem ao território indígena e, portanto, não pode ser utilizada de direito pelos sertanejos. Em segundo lugar, as terras cultiváveis são apenas aquelas cobertas pela floresta e esta ocupa no máximo um quinto da superfície da região. Mesmo assim é preciso ponderar que nem todas as terras florestais são igualmente desejáveis: elas diferem em grau de fertilidade, em declive, e nem todos os pontos da floresta, que é ciliar, oferecem uma largura razoável para se fazer uma roça. Em terceiro lugar, o terreno cultivado um ou dois anos consecutivos deve ficar em descanso cerca de oito anos antes de ser plantado novamente. Assim, se alguém pretender cultivar permanentemente num só local, deverá ter à sua disposição uma área oito vezes maior do que a roça que comumente faz cada ano [nota 2]. Finalmente, deve-se considerar que a introdução das pastagens cultivadas pelos fazendeiros veio diminuir ainda mais a terra disponível para a agricultura. Essas considerações nos fazem ver que a área não cultivada e passível de o ser não é tão grande quanto faz acreditar um exame demasiado rápido da tabela apresentada.

As terras ainda disponíveis para a agricultura vêm sendo pouco a pouco ocupadas por indivíduos provenientes do Maranhão e do Piauí. São vários os motivos dessa migração. As secas do Piauí constituem um deles. Outro, o esgotamento das terras daqueles dois Estados, devido ao uso contínuo e prolongado. Mas o principal motivo é o sistema de arrendamento vigente nos mesmos Estados. Segundo informações tomadas a alguns desses migrantes, os proprietários no Piauí e no Maranhão exigem daqueles que usam suas terras — os agregados — cerca da quarta parte da produção. Esses agregados procuram, então, escapar a tais condições buscando alcançar o norte de Goiás, onde podem ocupar uma porção de terra mediante uma taxa irrisória paga ao município ou mesmo sem nenhuma contribuição.

Recentemente os agricultores da região receberam um forte estímulo para aumentar seu excedente comercial. Isso ocorreu com a abertura da estrada Belém-Brasília. Ela permitiu a caminhões provenientes do sul chegarem até à região em busca de arroz. Ao mesmo tempo em que se abria esse mercado no sul, o Banco do Brasil, através de sua agência de Carolina, passava a fazer empréstimos aos agricultores. Assim, indivíduos que cultivavam antes roças de três tarefas, passaram a plantar extensões de oito ou mais tarefas, sendo obrigados a procurar outros trabalhadores que os ajudassem como diaristas ou empreteiros.

Não se pode ainda dizer se esse incremento das atividades agrícolas da região perdurará por muito tempo. Talvez as perspectivas abertas pelo mercado do sul tenham sido apenas o efeito de uma crise de abastecimento passageira. Por outro lado, o Banco do Brasil deixou de conceder o crédito agrícola, talvez devido à nova política financeira governamental. Finalmente, dada a sua relativa exigüidade, as terras disponíveis para a agricultura não suportariam um grande aumento da produção.

4. A política social

Tanto os fazendeiros como os vaqueiros e também os agricultores têm interesse nas terras ainda disponíveis na região. A prosperidade das fazendas, com seu mercado certo em Belém, o aumento da população que tira sua subsistência da agricultura e a expansão momentânea da agricultura comercial implicam numa procura de áreas desocupadas. A presença do território indígena, com os seus 3.200 quilômetros quadrados e habitado por menos de 600 indígenas, bem no centro dos dois municípios, constitui uma perene fonte de atração para os sertanejos. Embora cada fazendeiro não tenha muitos vaqueiros sob suas ordens, embora os agricultores não lhe estejam ligados por laços de subordinação, qualquer um deles encontraria toda a população a seu favor caso tentasse uma ação por meios legais ou violentos contra a presença do território dos índios, pois os interesses de todos coincidem com respeito a esta área.

Já dissemos que a camada social mais alta é formada por fazendeiros e proprietários de estabelecimentos comerciais, enquanto a mais baixa se compõe de agricultores de subsistência. Não podemos, entretanto, considerar essas camadas como duas classes que se opõem. A maior parte da população se compõe de indivíduos que não são exclusivamente fazendeiros ou exclusivamente agricultores, mas de agricultores que criam algum gado. Há vaqueiros que, ao mesmo tempo em que estão subordinados a um fazendeiro, possuem também sua própria fazenda. O que se pode dizer é que um sistema de classes em oposição ainda não se definiu claramente, havendo apenas uma hierarquia de camadas sociais cujo número e delimitação não se evidenciam com nitidez.

Talvez concorra para tal definição num futuro próximo a atual distribuição de terras que vem sendo promovida pelo próprio Estado. O governo do Estado de Goiás, através de uma de sua repartições, o IDAGO (Instituto de Desenvolvimento Agrícola de Goiás, antigo Departamento de Terras e Colonização), tem providenciado a demarcação, venda e concessão de títulos de propriedades das terras devolutas de Goiás. Até há pouco tempo, como dissemos, poucos no norte do Estado tinham cogitado em requerer a propriedade definitiva sobre as terras que ocupavam: os agricultores, por deslocarem de ano para ano suas roças; os fazendeiros, por criarem seu gado à solta, misturados pelos campos animais de fazendas diversas. O plano do IDAGO, visando conceder terras a todos os posseiros, e até mesmo àqueles que nada pudessem pagar, pois teriam direito a 30 hectares gratuitamente, fez com que todos passagem a providenciar o requerimento de propriedade para a as terras que ocupavam. Tal interesse pela obtenção do título de propriedade surgido, não espontaneamente, entre os habitantes da região, mas sim por iniciativa do Governo, já começou a provocar choques entre indivíduos interessados nos mesmos lotes. Nessas disputas têm levado a melhor aqueles possuidores de maior poder econômico ou político. A concessão do título de propriedade aos atuais ocupantes da área fará com que no futuro os migrantes provenientes do Maranhão e do Piauí não encontrem mais terras devolutas, tendo então de se submeterem à condição de agregados e se sujeitarem às exigências dos proprietários, o que fatalmente levará a uma situação de tensão entre proprietários e agricultores sem terra.

Mas esta oposição entre grupos que parece estar em vias de se definir é até certo ponto complicada e mesmo camuflada pela ação de partidos políticos rivais. Na prática a população regional estava dividida, até 1964, em dois grupos políticos: os partidários do PSD e a "Oposição", constituída pelos elementos da UDN, do PSP e, muito débil, do PTB. O PSD era o partido da maioria. A distribuição dos eleitores pelos diversos partidos não coincide com nenhuma oposição de classes, hierarquia de camadas sociais ou distribuição ocupacional. Qualquer partido tem mais ou menos a mesma proporção de eleitores fazendeiros, agricultores ou vaqueiros. Assim, a oposição partidária não reflete a estratificação social.

Cada partido procura ter em suas mãos todos os cargos públicos, de modo que deles se possa beneficiar para se manter no poder. Contou-nos um cidadão que certa vez foi nomeado suplente de juiz num município da região. Durante determinado período eleitoral teve de sair pelo sertão, fazendo casamentos gratuitamente a fim de conseguir ou manter eleitores para o PSD. Os casamentos de eleitores da "Oposição" se realizavam às custas de seus líderes. Sendo também juiz preparador das eleições, o referido informante atendia os partidários do PSD a todos os momentos, mas o pessoal da "Oposição" tinha de esperar para ser atendido apenas dentro do horário do expediente oficial. Cada partido procurava manter ou aumentar o seu eleitorado, atraindo os indivíduos sem recursos com dádivas, favores, crédito nas lojas de comerciantes membros do partido.

A oposição entre os dois grupamentos eleitorais pode muitas vezes levar a ações em contradição com interesses que animam todos os sertanejos. Podemos citar um exemplo. A diminuição da área da reserva craô constitui interesse de todos os regionais a ponto de os candidatos à prefeitura fazerem nesse sentido promessas em seus comícios eleitorais. Entretanto, quando um indivíduo da região, com ajuda de um documento do tempo do Império, provavelmente falso, alegou ser proprietário de uma pequena parte do território indígena, tendo inclusive iniciado a venda de lotes dessa parcela a moradores da região, o prefeito de Piacá, ao invés de apoiá-lo, como seria de esperar, colocou-se ao lado do encarregado do S.P.I. Havia, porém, razões para isso. Em primeiro lugar, o prefeito era do PSD, enquanto o pretenso proprietário pertencia ao PSP, sendo, por conseguinte, seu rival. Em segundo lugar, o encarregado do posto servia de cabo eleitoral do prefeito e este se sentia com certa obrigação para com ele. Provavelmente o valor desse cabo eleitoral estava no fato de estar ligado como pastor aos membros da Igreja Batista. Estes parecem constituir na região uma das forças em que se apoiava o PSD (essa suposição se baseia numa afirmação de um pastor batista da região, segundo o qual a Bíblia ensina a respeitar o poder temporal também, e como o PSD era o partido que estava no poder, os batistas deviam de votar nesse partido).

O antagonismo partidário atua, por conseguinte, no sentido de dividir a população regional em pelo menos duas partes independentemente de camada ou classe social: os do "nosso partido" e os do "outro partido". Nas recentes disputas entre indivíduos pretendentes aos mesmo lotes de terra têm-se visto as partes recorrerem à ajuda de seus correligionários políticos.

Em resumo, os fazendeiros mais ricos são poucos e não possuem recursos suficientes para individualmente exercerem um poder de decisão muito extenso, abarcando grande parte da população. Cada fazendeiro possui muito poucas pessoas a ele ligadas por laços de subordinação — os vaqueiros. Os lavradores que ocupam terras onde estão estabelecidos os fazendeiros nada lhes devem e podem abandonar esses terrenos, quando o desejarem, dirigindo-se a outras terras devolutas; portanto, os fazendeiros não podem exercer grande poder sobre eles. Por outro lado, não há descontinuidade entre as camadas sociais, ficando a maior parte da população caracterizada por indivíduos que possuem roças e ao mesmo tempo um pouco de gado. Uma oposição entre classes sociais apenas ameaça aparecer. Não existe um núcleo urbano único que se constitua num centro em que se reúnam aqueles que decidem. Trata-se, pois, de uma população atomizada, cuja distribuição em dois grupos políticos não traduz de modo algum uma oposição de classes. Em suma, a população regional se reúne menos em torno de alguns empresários ou chefes políticos de que ao redor de certos interesses comuns, sendo os principais o gado e a terra. Destes decorre um terceiro interesse comum: a redução da reserva dos índios, que são ocupantes de terra e consumidores de gado.

5. A presença do S.P.I.

Vimos que nenhum centro e nenhum grupo bem determinado pode ser apontado como responsável pelo destino da região. No que toca aos índios, seria possível um pequeno grupo reunir toda a população sertaneja contra eles, pois todos têm interesse na terra dos indígenas. Mesmo assim o antagonismo partidário pode vir a impedir essa ação conjunta.

Mas os destinos dos índios craôs não está simplesmente nas mãos dos civilizados regionais. A presença de um posto do S.P.I. no território indígena torna mais complexo o problema. Os funcionários do S.P.I. que trabalham na Povoação Indígena Antônio Estigarríbia, responsável pela assistência aos índios craôs, têm possibilidade de opor obstáculo às tentativas dos civilizados de se apoderarem do território indígena. O Posto Indígena representa o Governo Federal e também o brasileiro longínquo, desligado completamente dos interesses dos sertanejos. As razões dessa atitude de independência do encarregado do S.P.I. em face dos civilizados se deve à situação peculiar do posto na região.

Em primeiro lugar, o Posto Indígena estabelecido entre os craôs não funciona à maneira de uma empresa, como tem sido observado em outras áreas (por exemplo, Las Casas, 1964, pp. 12-14, e Cardoso de Oliveira, 1965, p. 131). O Posto não produz nenhum excedente comerciável. Sua roça e seu rebanho visam apenas ao consumo interno. Por outro lado, tanto a roça como o rebanho estão aos cuidados de funcionários civilizados, não participando os índios das tarefas ligadas à produção do Posto. Desse modo o encarregado não tem necessidade de nenhum mercado para o excedente do Posto, que é nulo, não estando por isso ligado por nenhum interesse aos habitantes da área. Os funcionários nem mesmo têm a possibilidade de desviar em seu favor nenhuma parte dos bens do Posto, visto que, além deste não produzir excedente, não recebe quase verba para assistência aos indígenas. Assim, os funcionários não têm oportunidade de se ligar a elementos da região através de negócios escusos.

Em segundo lugar, o S.P.I. parece ser muito mais respeitado nesta do que em outras regiões onde possui postos instalados. Isso se deve talvez ao fato de ter ocorrido na região um dos poucos casos de violência aos indígenas contra os quais o Governo usou de sanção legal mais ou menos enérgica: trata-se do já aludido ataque às aldeias em 1940. A punição, ainda que leve, dos principais culpados, a doação de um território aos índios, a criação do Posto Indígena, mostraram aos sertanejos que os índios não estavam sozinhos e que o poder do Governo Federal podia se manifestar de modo efetivo.

Um incidente ocorrido há quase quinze anos deixa bem claro a efetividade das decisões do encarregado, quando este resolve — e supostamente tem condições para isso — enfrentar os interesses dos regionais. O território da Craolândia, ao ser demarcado pouco depois de 1940, já era ocupado por umas duzentas famílias de civilizados. Tratava-se de agricultores de subsistência e criadores de gado, aqueles, sem dúvida, em maior número, sem que se possa, entretanto, indicar a proporção. Naturalmente, os criadores também faziam a sua pequena agricultura e os seus rebanhos variavam desde vinte até, caso único, mil cabeças de gado. Depois de demarcado o território, o S.P.I. passou a cobrar uma taxa aos moradores civilizados, não só para lembrar o direito de posse dos índios sobre aquelas terras, como também para fazer face a certas despesas do Posto. As taxas eram calculadas sobre o número de reses e hectares plantados. Todos os moradores tinham de se mostrar cientes e concordar com o novo estado de coisas, assinando um documento em que inclusive se previa a obrigação de deixar o território indígena quando o S.P.I. assim o determinasse. Como, porém, os índios causassem prejuízos aos moradores, capturando reses, provocando contínuas reclamações, e também para evitar que o aumento da população "branca" não viesse prejudicar os próprios craôs, um encarregado do Posto, de acordo com seus superiores do S.P.I., resolveu afastar os civilizados do território indígena. Isso aconteceu em 1952. Realizou uma reunião dos moradores num ponto da área indígena, o atualmente desaparecido Posto Teodoro Sampaio, e ali lhes falou do aumento que sofreriam as taxas, dissuadindo-os de morarem dentro da Craolândia, aconselhando-os a procurarem terreno fora, nas terras do Estado, enquanto houvesse espaço vazio. Parece que houve certa intenção de intimidar os moradores, pois o encarregado fez questão em que viessem desarmados e ao mesmo tempo permitia aos índios saudar a bandeira nacional com uma salva de tiros. Na mesma ocasião rescindiu cerca de cem contratos de arrendamento. Os moradores não tiveram outro caminho senão abandonarem o território indígena. Conta-se que deixaram suas casas, suas roças, suas árvores frutíferas e conduziram seus rebanhos para fora. O gado que voltava era abatido pelos índios e, até os fazendeiros conseguirem novos e bons pastos, perderam muitas reses. Há quem diga terem alguns chegado a se transferir para a ilha do Bananal. O fato é que os moradores da região nunca perdoaram o responsável por este ato.

Entretanto, quando o encarregado deixou o Posto, cerca de dois anos depois, seus sucessores não mantiveram um policiamento adequado das fronteiras do território e os civilizados voltaram a nele penetrar e a ocupar-lhe os bordos, infiltração que continua até hoje. No entanto, a atual população civilizada ocupante da Craolândia não chega a corresponder à metade daquela que habitava o território craô antes da expulsão de 1952. Os novos encarregados voltaram a cobrar taxas sobre a área plantada e as cabeças de gado. Porém, essa cobrança foi sendo executada cada vez mais frouxamente até que por volta de 1960 um encarregado resolveu que os próprios chefes das aldeias indígenas a fizessem, recebendo dos civilizados em dinheiro ou em gêneros e distribuindo os bens apurados aos índios. É o que está ocorrendo atualmente. Cada ano o encarregado entrega aos "capitães" documentos em que os autoriza a fazer a cobrança das taxas, cada um dentro de um setor do território indígena.

O caso da expulsão dos sertanejos do território indígena se mostra interessante pelo fato de sabermos que o encarregado não dispunha de nenhuma força à sua disposição para coagir os moradores do território a abandoná-lo, a não ser a lembrança da ação do Governo Federal no passado, ao punir os atacantes das aldeias, e talvez a remota possibilidade de organizar os índios para um eventual choque armado.

Cremos, por isso, poder afirmar que o destino dos índios craôs não está inteiramente nas mãos dos habitantes civilizados da região, pois o S.P.I. dispõe de um poder, talvez fictício, mas ainda efetivo, para se lhes opor.

6. A representação do índio na sociedade regional

A população regional mantém uma série de preconceitos com relação aos indígenas. Alguns desses preconceitos possuem uma base empírica real, pois se apóiam no comportamento observável dos indígenas. Constituem, entretanto, preconceitos por se manifestarem como julgamentos desse comportamento segundo os valores da sociedade envolvente. Além disso, tais julgamentos têm por função manter segregados os indígenas e justificar a cobiça por seu território.

Dessa maneira o preconceito constitui um meio para validar a ação política com o objetivo de reduzir a área do território indígena, bem como um meio de afastá-los da possibilidade de trabalho junto aos civilizados. O exame dos preconceitos mais evidentes parece demonstrar, como veremos, que eles não são outra coisa que a racionalização de objetivos ou a justificação de intenções dos membros da sociedade regional.

a) A concepção indígena de trabalho. Os índios são acusados pelos regionais de não plantarem o suficiente para si, de dedicarem boa parte de seu tempo a festas e a viagens ao invés de trabalharem nas roças. Com esta "preguiça", dizem os regionais, e sendo tão poucos, nunca poderão de modo algum cultivar todo o território que possuem. Concluem, portanto, os civilizados que aos índios pertencem terras em excesso e que os municípios de Itacajá e de Piacá deveriam retomar parte desse território para si.

Como vemos, a acusação de "preguiça" põe logo em dúvida a necessidade de uma área para os índios. Entretanto, se o trabalho dos indígenas não produz resultados satisfatórios na manutenção de uma agricultura que lhes seja suficiente, isso se deve em parte à situação de contacto com os civilizados e não à "preguiça" pura e simples. A adoção de instrumentos de caça e de agricultura e de certos hábitos brasileiros criou novas necessidades entre os craôs. Portanto, atualmente os índios precisam de certos artigos que outrora não lhes faziam falta, já que não os utilizavam: sal, fumo, cachaça, tecidos, facões, enxadas, espingardas, chumbo, pólvora, etc. Para obtê-los devem trabalhar para os civilizados. Geralmente procuram serviço na cidade de Itacajá ou entre os moradores do sertão. Embora trabalhem de modo intermitente, isto é, somente quanto têm necessidade imediata dos artigos mencionados, isso afeta de muito o andamento de suas tarefas na aldeia, atrasando ora a derrubada, ora o plantio, o que às vezes pode ser fatal, devido ao regime das chuvas. Poder-se-ia objetar, dizendo que os indígenas deveriam procurar aumentar suas roças de modo a poderem vender uma parte da produção, evitando, assim, ter de trabalhar fora da aldeia. Entretanto, eles não encontrariam mercado para seus produtos, pois, na região todos têm roça e só agora começa a exportação agrícola para o sul. O trabalho que os índios realizam para os civilizados consta de construção de casas, o que fazem na estação seca como auxiliares de pedreiro; limpeza de ruas, manutenção do campo de pouso de Itacajá; e atividades agrícolas: derrubada, construção de cercas em torno das roças para protegê-las do gado, coivara, plantio, colheita, todas elas com tempo marcado para sua realização segundo as estações. Um atraso na derrubada da mata não permite que os troncos sequem suficientemente para serem queimados de maneira adequada antes que caiam as chuvas. O plantio precoce do arroz logo no início das chuvas em terreno muito úmido dificulta a colheta. Todas as etapas da produção agrícola, portanto, têm seu tempo marcado, não tanto pelos homens, mas pelo clima. Desse modo, toda vez que um craô trabalha na roça de um civilizado, faz o mesmo serviço que deveria estar realizando na sua; deixa o seu para mais tarde, quando talvez já não haja tempo [nota 3].

As viagens que os craôs fazem até às grandes cidades, das quais nos ocuparemos no próximo capítulo, também contribuem para a perturbação das atividades agrícolas, mas não é possível evitá-las, visto serem muito mais rendosas — pelos presentes que recebem — que o trabalho para os civilizados regionais. Viajando para Goiânia, Brasília, Recife ou outra grande cidade, ganham muito mais, sem trabalhar, divertindo-se, bastando apenas aceitarem-se como figura exótica, como os vêem os habitantes dos grandes núcleos urbanos.

Alguns exemplos numéricos nos dão idéia de como são pequenas as roças craôs. Em fins de 1963 o "capitão" da aldeia do Posto tinha uma roça pronta para plantio com cerca de 2,20 hectares. Por ser roça do chefe da aldeia, trabalhavam nela todos os seus habitantes. Um outro índio tinha preparado uma roça de cerca de 1,35 hectares. Como chegassem, entretanto, dois parentes seus de uma longa viagem, dividiu-a com eles, reservando para si 0,45 hectares, e dando aos parentes, que nada tinham preparado, um pedaço de 0,50 hectares e outro de 0,40 hectares.

Quanto aos ritos dos craôs, dizem os regionais que contribuem para a inatividade dos índios, deixando-os por vezes sem trabalhar por dois ou três dias seguidos, inteiramente dedicados aos cerimoniais. A realidade, porém, é bem outra; os ritos craôs foram e ainda são um estímulo ao trabalho. Num dos cerimoniais em que participam como figura principal os pembkahëk — assim são chamados todos os índios do sexo masculino que ainda não tenham gerado filhos — os pais destes jovens devem fazer uma esteira de dormir para cada uma das "amigas formais" dos filhos que participam neste festival (a "amizade formalizada" já foi descrita no Capítulo II). Geralmente cada jovem tem três, quatro ou mais "amigas formais", o que obriga a seus pais a trabalharem bastante. O traçado das esteiras, feitas com fibra de buriti, é demorado e um dia inteiro não basta para confeccionar uma só delas. Tais esteiras não se destinam apenas ao ritual, mas são utilizadas posteriormente para cobrir as camas das casas da aldeia. O cerimonial contribui assim para renovar um material útil, que seria elaborado mais devagar e sem motivação, se não houvesse a necessidade de tê-lo pronto para a realização do festival.

Vários outros exemplos podem ser citados. Assim, cada aldeia craô possui duas ou três crianças, cada uma delas associada a um grupo de indivíduos de sexo contrário. Na aldeia de Boa União havia, em 1963, três dessas crianças; denominavam-se wïtï uma menina associada aos homens adultos; outra menina associada aos meninos; e um menino associado às mulheres. Cada um desses grupos — os homens adultos, as mulheres ou meninos — termina a corrida de toras à porta da casa de seu wï'tï. As casas dessas crianças é procurada por aqueles que, vindos de outras aldeias, não possuem parentes nas aldeias que visitam. O pai do wïtï deve oferecer alimento a todos os homens, a todas as mulheres ou a todos os meninos a que seu filho ou filha esteja associado, principalmente durante a realização dos cerimoniais. Os pais das crianças associadas não se devem queixar quando alguém lhes tira algo da roça. Por isso têm sempre uma área cultivada razoavelmente grande a fim de poderem satisfazer as obrigações ligadas ao papel desempenhado por seus filhos. Mesmo quando desejam que eles deixem de ser wïtï, devem marcar o acontecimento com uma festa durante a qual oferecem grande quantidade de alimento aos habitantes da aldeia.

No ritual, hoje esquecido, do Ikhréré, em que os jovens eram encerrados em pequenos quartos dentro das casas maternas e bem alimentados para "crescerem depressa", havia necessidade de muito alimento, como bananas, ananases, batata doce, mamão, carne e, sobretudo, abóbora, pois com o suco desta se banhavam os jovens reclusos. Os pais das duas moças associadas aos rapazes participantes deviam, no fim do cerimonial, oferecer alimentos a todos os presentes. O desaparecimento desse festival levou consigo uma das motivações para o trabalho.

Mesmo as tarefas realizadas para os civilizados na atualidade têm sua razão de ser, por vezes, nos cerimoniais. No final de 1962, encerrou-se na aldeia do Posto um festival dos pembkahëk. Durante algumas semanas que precederam o encerramento percebia-se na aldeia um intenso movimento de saídas e chegadas de índios que se dirigiam às cidades próximas ou delas vinham. Procuravam sobretudo Itacajá, mas também Pedro Afonso, em busca de trabalho — carregamento de fardos, capinagem de quintais — a fim de comprarem, com o dinheiro assim apurado, panos novos para suas mulheres usarem no encerramento do festival e miçangas para ornar os cetros de pau-brasil utilizados no cerimonial. Uns poucos indivíduos chegaram a procurar Carolina, levando alguns objetos do artesanato indígena para os venderem no relativamente movimentado aeroporto daquela cidade. Segundo um informante de Itacajá, durante o ano inteiro há índios craôs na cidade à procura de trabalho, mas aparecem em maior número quando estão para realizar um festival.

Considerando a "preguiça" como causa da pobreza dos índios e de seus períodos de fome, os civilizados chegam à conclusão de que é melhor para aqueles a ocupação de parte de seu território pelos brasileiros. Um morador da vila de Craolândia, que, como já dissemos, tentou, no início de 1963, tirar aos índios o extremo norte de seu território, apresentando um documento de propriedade datado do tempo do Império, que todos na região julgam falso, declarou que o governo, em vez de doar 55 mil hectares de terras para os índios, deveria ter dado apenas 5 mil — e já é muito, diz ele — e mais assistência, pois os indígenas não trabalham e são muito poucos para aquelas terras; andam aos "magotes" pelo seu território. Com tantos pobres (civilizados) sem terra, diz ele, havendo toda a área indígena abandonada! Alguns civilizados de Taquari, pequeno núcleo agrícola estabelecido dentro das terras indígenas, declararam que, se eles próprios abandonassem a Craolândia, os índios das aldeias próximas morreriam de fome, pois os de Boa União plantam pouco e os de Abóbora não plantam nada, dependendo deles, sertanejos, para o seu abastecimento.

Numa área em que nem toda mão-de-obra disponível tem oportunidade de trabalho assalariado, o epíteto de "preguiçoso" atribuído ao índio parece concorrer para que se dê preferência ao trabalhador "cristão" e muitas vezes justifica a remuneração mais baixa que lhe dão. Um morador de Itacajá, considerado amigo dos índios, nos informou que ofereceu trabalho certa vez a alguns craôs. Não ficou, porém, satisfeito, pois tinha de dar alimento não só aos trabalhadores como a suas mulheres; além disso eles interrompiam muitas vezes o serviço para pitar. No final acabou gastando mais do que se tivesse empregado trabalhadores civilizados. Um outro informante nos confiou que aos índios ele paga tanto quanto aos civilizados; entretanto, só lhes entrega o dinheiro depois de medir o serviço que fizeram durante o dia, pois geralmente trabalham pouco e mal. Todos aqueles que costumam oferecer serviço aos índios reclamam que eles trabalham apenas dois ou três dias e querem logo voltar para a aldeia. Não obstante, uns poucos craôs são conhecidos na região como ótimos trabalhadores.

Índios e "cristãos", portanto, não observam a mesma atitude para com o trablho; labutam em ritmo diferente e com motivações diversas. E isso valeu aos primeiros a alcunha de "preguiçosos", de que se valem os segundos na disputa de trabalho e de terras.

b) O furto. Os craôs são também acusados de "ladrões". Todos, entretanto, concordam em dizer que eles furtam por terem fome. Ninguém os increpa de violência ou de perturbações da ordem na cidade. Os craôs de fato furtam e o fazem nas roças próximas de suas aldeias, apropriando-se também de galinhas, de porcos. Porém o que mais irrita os civilizados é a captura de suas reses. Não obstante, concordam em afirmar alguns criadores que o furto de gado já se torna bem menos freqüente.

O problema, porém, parece muito mais complexo do que se mostra à primeira vista, pois o furto não só ocorre em prejuízo dos civilizados como também se leva a efeito entre os próprios índios. Realmente, são comuns os roubos efetuados por indígenas sobre a propriedade de outros não ligados por laços de parentesco consangüíneo ou afim. O furto se exerce não somente nos produtos agrícolas, tanto aqueles ainda dentro do solo, como a mandioca, quanto os guardados nos paióis das roças, como o milho, o arroz, mas também nos porcos e galinhas, que andam livremente no interior e nos arredores da aldeia. Para evitar furtos, cada família faz sua roça isolada e longe da aldeia e das outras roças; ou então grupos de duas ou mais famílias elementares que tenham alguns parentes em comum instalam seus roçados num só local, de modo que permita a cada uma vigiar as plantações das outras. Das 25 roças a serem plantadas que tinha a aldeia do Posto em 1963, 11 eram completamente isoladas; as demais formavam grupos, sendo um de seis e os outros de duas roças cada um. Cada grupo de roças estava a cargo de indivíduos parentes próximos entre si por consangüínidade ou por afinidade. Os homens cujas famílias elementares de procriação possuíam as seis roças que constituíam o grupo maior podem ser dispostos no seguinte esquema genealógico:

Os demais quatro grupos, constituídos de roças unidas duas a duas, também estavam em mãos de indivíduos parentes entre si: um deles era formado pelas roças a cargo de dois irmãos; outro, pelas roças de um pai e de um filho; o terceiro, pelas roças de um homem e do filho de sua irmã; finalmente, o último, pelas roças de um homem e do filho da irmã classificatória de sua mulher.

O furto é, portanto, um ato esperado dentro do próprio grupo tribal. Como já dissemos, as obrigações ligadas ao parentesco decrescem em ênfase à medida que os parentes se afastam no esquema genealógico. Por conseguinte, se imaginarmos, por exemplo, um homem craô como centro de uma série de círculos concêntricos, o círculo mais interior representaria as famílias elementares a que está ligado pelo nascimento o pelo casamento; o segundo, as famílias extensas em que elas estão incluídas; o terceiro, os demais parentes afins e consangüíneos; o quarto, os outros craôs. Poderíamos então acrescentar um quinto círculo para representar os civilizados. A intensidade da solidariedade social iria diminuindo então dos círculos mais internos para os mais externos. Ora, como se pratica o furto entre índios craôs não ligados por laço de parentesco consangüíneo ou afim, é de se esperar que ele se exerça com maior intensidade ainda sobre os civilizados.

A captura de reses pelos índios craôs é uma perene fonte de choques com os civilizados desde o século passado. Ela em parte se deve à escassez de caça. Quase se pode dizer que o pequeno agricultor civilizado, sem recursos, suporta com mais resignação a falta de carne. Trata-se do alimento predileto dos índios, como bem nos mostra uma frase de chefe Penõ num certo dia em que os moradores de sua casa estavam reduzidos a comer apenas manga e farinha: "Só carne que faz a gente comer farinha, beiju; e quando é escoteiro (puro, sem mistura), eeh!" Todavia, além desse interesse na carne como alimento por excelência, há também o problema dos cerimoniais. Pode-se dizer que não há ritual sem troca de alimentos e entre os mais importantes está a carne. Em certa ocasião quatro indivíduos tiveram de esperar por algum tempo o dia de realização de um ritual em que dariam por finalizado o seu "resguardo" (mantido por cada um dos indivíduos por motivos diversos) porque faltava carne para a cerimônia. Foi preciso que o encarregado do Posto resolvesse o problema, doando-lhes uma rês. Esse caso nos dá uma idéia da dificuldade enfrentada pelos craôs para manter certos rituais numa área em que as oportunidades de caça são cada vez menores.

Não se pode dizer com certeza quantas cabeças de gado os índios matam clandestinamente por ano; é quase impossível fazer um cálculo; isso porque seria preciso consultar fazendeiro por fazendeiro, mas dificilmente se obteria o número certo: eles exagerariam a cifra. Além disso é possível que muitas reses cujo desaparecimento se atribui aos índios tenham sido na realidade picadas por cobra ou envenenadas por um vegetal conhecido na região pelo nome de "erva". O gado do S.P.I. talvez nos dê uma idéia do problema. Calcula-se que, por volta de 1943, quando o S.P.I. introduziu bovinos na Craolândia, havia cêrca de 500 cabeças de gado no território indígena pertencentes ao Serviço. Em 1963, isto é, cêrca de 20 anos depois, o gado estava reduzido a 200 cabeças. Ora, o Posto apenas uma vez vendeu gado para corte, cêrca de 60 cabeças. Antes de 1960 mais ou menos o S.P.I. permitia o abate de uma rês por mês para o consumo do Posto. Também até essa data vinham verbas da Inspetoria Regional de Goiânia para o gasto no cuidado com o gado, como a compra de sal, creolina, etc. Entretanto, desde então, tais artigos só puderam ser comprados com a quantia obtida pela venda de algumas reses. Com reses também são pagos certos serviços que particulares prestam ao Posto, por não haver verba com que os gratifique. Temos de considerar ainda as reses mortas por cobra e por "erva". Ora, os rebanhos regionais passam pelas mesmas atribuições que sofre o S.P.I. e, além disso, ainda fornecem gado para corte, mas apesar de tudo parece que os rebanhos continuam aumentando sempre. O único fator que os faz decrescer com o qual o S.P.I. não conta é a divisão por herança. Acrescente-se ainda que o S.P.I. paga os seus vaqueiros com dinheiro, enquanto os fazendeiros remuneram os seus com gado. É razoável, pois, que se conclua que o rebanho do S.P.I. se encontra em tal estado devido ao consumo que dele fazem os craôs, visto ser o de mais fácil acesso para os indígenas. Os índios fazem uso de suas reses, matando-as clandestinamente, ou recebendo-as do Posto como dádiva ou obrigando o Posto a indenizar com elas os fazendeiros de que abateram algum bovino. De 154 reses saídas do rebanho do S.P.I. durante oito anos, segundo os dados encontrados no arquivo da Povoação Indígena Antônio Esstigarríbia [nota 4], exatamente a metade foi consumida pelos indígenas (39 clandestinamente ou em substituição a outras que capturaram e 38 com permissão). Um memorando de um encarregado de Posto dirigido ao Diretor do S.P.I. indica mais de 26 roubos de gado, tanto do S.P.I., quanto de particulares, realizados pelos índios desde pouco depois de 1943 até 1963, ressaltando ser este número apenas uma pequena parte, à guisa de exemplos, do que os craôs realmente abateram. Na verdade, embora os civilizados costumem exagerar a respeito desse assunto, não se pode negar que os índios craôs abatem gado pertencente ao S.P.I., a civilizados da região ou mesmo a certos índios que possuem uma criação incipiente. Eles próprios reconhecem quando suas aldeias se acusam mutuamente desses furtos ou quando descrevem casos de captura cujas evidências não podem esconder. Mas procuram sempre convencer aos interessados neste problema que sua própria aldeia não faz ou só raramente realiza ações de tal espécie.

Uma série de providências tomam os indígenas quando realizam o abate de uma rês: a condução do animal a um local onde possa ser morto sem que os civilizados o percebam; o carneamento feito de modo a não deixar vestígios (em certa ocasião retalharam uma rês dentro de um ribeirão para que a água levasse o sangue); o apagamento dos rastros do animal e dos indivíduos que o perseguiram; o enterramento das partes não aproveitáveis a fim de não atrair urubus, o que chamaria a atenção dos proprietários; a rês deve ser morta de preferência dentro do território indígena, pois assim podem melhor desculpar-se, dizendo que a mataram porque estava em suas terras, ou porque o fazendeiro proprietário não lhes pagava uma taxa para usar dos pastos localizados dentro da Craolândia.

A captura de gado coloca os índios em estado de tensão, preocupados em evitar que se identifiquem os verdadeiros responsáveis, acusando outros indivíduos ou aldeias por temor de represálias. Assim, tanto no ano de 1962 como em 1963, os índios de Serrinha temiam que certos fazendeiros lhes atacassem a aldeia. O furto de gado traz ainda problemas para o "capitão" da aldeia, mediador que é entre índios e civilizados. Por exemplo, o chefe da aldeia do Posto, Penõ, nos primeiros dias de 1963, nos confiava que, tendo os rapazes de sua aldeia matado uma rês de um civilizado poucos dias antes, o encarregado do Posto não falava mais com ele, parecia zangado e talvez estivesse pensando em substituí-lo por outro no cargo de "capitão".

A caracterização do índio como "ladrão" tem servido a alguns civilizados para exercer certo tipo de exploração sobre os indígenas, como que ressarcindo-se de furtos antigos ou futuros. Tratam de cobrar os gêneros alimentícios com preço mais alto quando os vendem aos índios do que quando os adquirem os civilizados. Assim, em novembro de 1963, quando a quarta (medida regional equivalente a vinte pratos ou a quarenta litros) da farinha de mandioca estava a 500 ou a 600 cruzeiros, um morador próximo da aldeia do Posto vendia-a aos craôs por mil cruzeiros, muito mais caro, portanto, com o fim, diziam certo informantes "cristãos", de compensar os furtos que os índios praticavam.

Este atributo de "ladrão" é também manipulado pelos civilizados para resolver problemas seus em casos que não dizem respeito diretamente aos índios. Assim, um vaqueiro do S.P.I., tendo recebido ordem de se apresentar em Goiânia, escreveu uma carta em que alegava não poder deixar a área indígena, apresentando, entre outros motivos, o furto de gado pelos índios, citando inclusive, vários casos, o que fazia forçoso que permanecesse na fazenda, a fim de proteger as reses.

O problema do roubo chega a pôr a perder medidas tomadas para garantir o território dos craôs. Em certa ocasião, um encarregado do Posto, depois de muita insistência e ameaças, conseguiu que um fazendeiro da região retirasse o gado que punha para pastar dentro do território indígena. Entretanto, pouco tempo depois, alguns índios da aldeia do Posto — que ainda não havia sofrido cisão — conduziram dois bois mansos desse mesmo fazendeiro para o interior da área indígena e abateram um deles. Para indenizá-lo do prejuízo, o encarregado se viu forçado a permitir ao criador que colocasse novamente seu gado para pastar dentro da Craolândia.

c) A "ignorância" dos índios. O desconhecimento ou a não adoção dos padrões civilizados pelos índios apóiam também as pretensões dos regionais sobre as terras indígenas. Assim, um vaqueiro do S.P.I., sertanejo da região, falando sobre a inconveniência do afastamento dos civilizados da Craolândia, afirmou que tal fato representava um retardamento no processo de civilização dos índios, pois, com "cristãos" dentro do território indígena, os índios novos iriam aprendendo a língua portuguêsa ao brincar com os meninos brasileiros, mas na situação atual, declarava ele, com exceção da aldeia do Posto, que está próxima da fronteira do território, os índios novos voltarão aos antigos costumes.

d) A higiene craô.As diferenças de padrões higiênicos constituem uma outra fonte de desentendimentos entre índios e civilizados. Os craôs são considerados como indivíduos imundos, com quem não se deve permitir proximidade, para evitar contágio das doenças de que são portadores. Sem dúvida há exagêro ao acusar de falta de higiene a indivíduos que tanto cuidado têm co seu corpo: tomam mais de um banho diário, praticam a corrida, possuem uma série de tabus alimentares que visam proteger a saúde. Não é certo, portanto, dizer que os craôs não têm regras de higiene: suas regras são apenas diferentes daquelas dos sertanejos. Mas os "cristãos" julgam os índios segundo suas próprias regras. Acham mau, por exemplo, o odor que exala dos corpos dos indígenas. Entretanto, mesmo um vaqueiro da região reconheceu que esse cheiro não provém da falta de asseio corporal, mas do urucum, do pau de leite e de outras substâncias que utilizam em suas pinturas. Os sertanejos apontam com horror o fato de muitas vezes os índios utilizarem uma só cuia ou um só prato para servir a vários indivíduos simultaneamente. Mas isso também acontece entre muitos agricultores brasileiros da região. Do mesmo modo, o hábito de cuspir no chão a todo momento é partilhado por índios e civilizados, sobretudo os fumantes. Um dos fatos que mais chocou aos índios foi a guerra total que fez um encarregado contra o seu hábito de fumar e cuspir no chão, não permitindo que entrassem de cigarro acesso em sua casa e queimando com um tição o lugar sobre o qual algum deles escarrasse. "Você gostaria que alguém queimasse o seu cuspe?" perguntou-nos um jovem craô indignado (Harald Schultz, 1949, nos fala da importância mágica da saliva entre os craôs).

Alegando falta de asseio, os civilizados não compram aos índios gêneros alimentícios que dispensam lavagem prévia para serem ingeridos, como a farinha de mandioca, dizendo que a fabricam com mãos sujas e a transportam em sacos pouco limpos.

A acusação de sujos irrita profundamente os índios. Contou-nos o velho Chiquinho, antigo chefe da aldeia do Abóbora, que certa vez um "cristão" lhe disse que a comida dos índios era nojenta. "Ora, argumenta Chiquinho mais ou menos com estas palavras, nojenta por que? O índio, quando mata a caça, moqueia e ela fica assadinha. O "cristão", quando mata anta, veado, corta o animal em pedacinhos e salga. A carne fede. Tem de ser consumida com pimenta. A comida do "cristão" é que é nojenta. O "cristão", quando viaja, come até cru".

Nas casas próximas ao território indígena, ou mesmo naquelas que estão dentro dele, os índios sempre recebem alimento em pratos e xícaras rachados, não usados pelos moradores, quando não há mesmo vasilhas com o fim especial de servi-los.

Os padrões de higiene decorrem, até certo ponto, de uma concepção do mundo. Para os civilizados as doenças se propagam pelo contágio, pelo contacto com as imundícies. Os craôs não negam completamente essa explicação. Assim, o chefe Ambrosinho transferiu sua aldeia para Boa União porque, no antigo local, embora houvesse grande mata a ser aproveitada pela agricultura, a aldeia estava assentada sobre terreno arenoso; na estação seca o vento levantava a areia, carregada de "doenças", ficando seus habitantes amarelos, encatarrados. Ambrosinho já se havia queixado, antes de mudar a aldeia de lugar, que no antigo local havia muita "piranga", que lhe fazia arder os olhos como pimenta. É comum também entre os craôs atribuírem sua pequena resistência às doenças ao uso do sal; antes de ser introduzido pelos civilizados, os índios, eles próprios o dizem, eram fortes e não caíam enfermos. Entretanto, dão muito maior ênfase a outra explicação para as enfermidades: elas se devem à introdução, por meios mágicos, de qualquer objeto no corpo do paciente ou então se explicam pela fuga do karõ — que poderíam traduzir grosso modo por alma — o qual se afasta do corpo. Dada essa explicação, é compreensível que os craôs não procurem evitar o contacto com seus doentes e os objetos que eles utilizam.

A introdução dos padrões de higiene dos civilizados, se por acaso fosse imposta aos craôs, iria afetar a plena atualização de suas normas sociais. Vários cerimoniais, por exemplo, exigem a troca de alimentos entre determinadas pessoas; segregar um indivíduo por ser portador de doença contagiosa seria ao mesmo tempo proibi-lo de tomar parte na vida ritual. Acrescente-se ainda que o urucum, para as pinturas corporais, é misturado com o leite de coco babaçu obtido pela mastigação, dando mais oportunidade para a propagação da tuberculose através da saliva. A depilação das pálpebras pelo arrancamento das pestanas, realizada desde tenra idade, priva-os de uma proteção para os olhos, mas por outro lado satisfaz a um padrão de beleza e, sobretudo, junto com outros cuidados com o corpo, como o uso do cabelo comprido com um sulco em torno da cabeça, as orelhas furadas dos homens, a depilação das sobrancelhas, constituem um sinal para a identificação do grupo tribal a que pertencem. Por conseguinte, a higiene está intimamente ligada a uma concepção da origem das doenças e tem de ser coerente com os padrões estéticos, os rituais, os símbolos, e tudo isso faz com que os padrões de higiene craô sejam diferentes daqueles dos brasileiros que os cercam.

e) O craô como ser biologicamente diferente.A distância biológica que os civilizados colocam entre eles próprios e os craôs vai mais além do que o simples reconhecimento da diversidade racial, a qual, é óbvio, existe. Atribuem a fatores biológicos diferenças culturais. Certa vez, entre um grupo de pessoas que conversavam em Tupiratins, cidade próxima da área indígena, mas do outro lado do Tocantins, comentando o fato de uma mulher de origem desconhecida viver entre os craôs, segundo os costumes indígenas, alguém afirmou que só quem possuísse "sangue" de índio poderia levar aquela vida, concluindo assim que ela deveria ter ascendentes indígenas.

Por outro lado, uma certa crendice se encontra entre os sertanejos mais ingênuos: a de que os índios velhos se transformam em bichos. Em 1963 falava-se na vila de Craolândia, às margens do rio Vermelho, que o velho chefe Chiquinho, da aldeia do Abóbora, homem talvez de mais de oitenta anos, estava transformando-se em bicho. Também no mesmo ano contava-se em Itacajá que uma índia havia atacado uma mulher "cristã", quando esta pilava arroz, machucando-a, derrubando-a, rasgando-lhe as vestes; acreditava-se que ela estava virando bicho. Um sargento e um motorista da região contaram casos de seres peludos que andam pela floresta, a que os habitantes regionais chamam de "capelobos". Admitiram que os índios velhos, quando passam da idade em que normalmente deveriam morrer, se transformam nesses seres. Os craôs reagem indignados contra essas assertivas, mas, ao tentar refutá-las, recorrendo às suas próprias crenças e mitos, só fazem confirmá-las àqueles que os ouvem de má fé. Assim, Ambrosinho, referindo-se a Chiquinho, confirmou que ele poderia virar bicho, mas só se fosse "dentro do chão", querendo dizer com isso que é possível ao karõ de um índio transformar-se em animal, porém somente depois da morte, e não antes, como querem os "cristãos". Embora um informante civilizado nos tenha confiado que virar "capelobo" pode acontecer também a um "cristão", nos casos que nos foram narrados predominam as transformações de índios.

Acentuando e exagerando a diferença biológica entre civilizados e índios, essas idéias têm como decorrência a colocação dos craôs num outro nível biológico, como que fora do extrato humano. Negada sua humanidade, torna-se mais fácil negar seus direitos, estando justificada toda e qualquer exploração que se venha a exercer sobre eles.

7. Conclusão

A descrição do estado atual da população civilizada que envolve os índios craôs parece deixar patente que a estrutura sócio-econômica da área pastoril tem-se mantido mais ou menos a mesma desde o século passado. Entretanto, a própria operação do sistema, como foi descrito neste e no primeiro capítulo, parece conduzi-lo na direção de uma transformação. De fato, essa estrutura, para operar, depende da existência de terras disponíveis onde se criem novas fazendas e onde os vaqueiros tenham oportunidade de vir a ser fazendeiros. A ocupação das terras ainda disponíveis da região se faz rapidamente. A introdução de novas técnicas, como a criação de zebu e o cultivo de pastos, indica o início da transformação da pecuária extensiva em atividade de caráter mais intensivo. Ao mesmo tempo, os ocupantes começam a providenciar títulos de propriedade. Desse modo existe cada vez menos oportunidade de achar terreno disponível para a instalação de novas fazendas. Isso vem criar um obstáculo à ascensão social do vaqueiro, que cada vez menos terá possibilidade de se tornar fazendeiro. Ao mesmo tempo, os agricultores que continuamente chegam como migrantes terão cada vez menos terras à sua disposição e terminarão por encontrar todas as terras sob o regime de propriedade privada, tendo de aceitarem a condição de agregados. Em futuro próximo, talvez, a região terá a presença de agricultores sem terras e de vaqueiros sem oportunidade de possuírem fazendas, todos dependentes daqueles que terão o privilégio de serem proprietários.

Essa necessidade cada vez maior de terras exigida pela operação do sistema faz prever um agravamento das relações de fricção entre sertanejos e índios craôs, detentores que são estes últimos de um território com grande área de terras disponíveis.

Os sertanejos parecem justificar a pretensão sobre o território indígena, tentar neutralizar a concorrência dos índios no mercado de trabalho e no comércio de gêneros alimentícios e também procurar afastá-los do convívio com os civilizados através das diversas modalidades de representações que fazem dos craôs.

Enfim, os dois sistemas sociais em oposição — o da área pastoril e o dos índios craôs — operam num mesmo ambiente geográfico, cujos recursos, entretanto, exploram de maneira diferente. Ambos possuem uma agricultura de subsistência mantida segundo as mesmas técnicas. Entretanto, o primeiro tem por principal atividade a pecuária comercial, a que o segundo opõe a caça para subsistência. Se o território indígena parece grande quando se tem em conta a agricultura dos craôs, torna-se pequeno ao considerarmos as possibilidades para a caça, que se rarefaz cada vez com mais intensidade. A exigência do ritual craô pelo consumo de carne não só faz com que transformem o gado em caça, entrando por isso em choque com os civilizados, bem como esse mesmo interesse pela carne, aliado ao sistema da distribuição pelas linhas de parentesco, tem posto a perder todas as tentativas dos craôs no sentido de criar uma pecuária comercial.

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Índios e criadores

Notas

Nota 1 — A região de que estamos tratando parece que começa agora a passar por uma fase que o sul do Estado de Goiás atravessou há anos atrás: modificação de técnicas de criação com a introdução do pasto plantado, da cerca de arame, ao mesmo tempo em que cada um procura garantir a propriedade definitiva dos terrenos que ocupa. No sul de Goiás essa situação foi muito bem retratada pelo cantador José Brás do Amaral na "Moda do arame farpado", que José A. Teixeira recolheu antes de 1940 (Teixeira, 1959, pp. 115-117). Voltar ao texto

Nota 2 — O esgotamento da terra, somente, não explica porque não se costuma cultivar o mesmo terreno por dois anos consecutivos. Há também outras razões. Uma delas é o cultivo da mandioca. As raízes dessa planta demoram dois anos para crescer. É impossível cultivar novamente o solo antes da colheita da mandioca. Um outro motivo é a cerca. Todas as roças da região são protegidas por uma cerca de madeira, bem fechada, que impede tanto a invasão do gado bovino como de pequenos animais domésticos. As árvores derrubadas no local em que se fará a futura roça é que fornecem a madeira para a cerca. Após a colheita de todos os gêneros e também da mandioca, a madeira da cerca já está um tanto apodrecida e não servirá para proteger as plantas oriundas de uma segunda semeadura. Por outro lado, não tendo ainda se iniciado o processo de reflorestamento, não existem no local outras árvores que forneçam madeira para uma nova cerca. Torna-se necessário, assim, derrubar um outro pedaço da floresta. Voltar ao texto

Nota 3 — O índio Aprak, por exemplo, habitante da aldeia de Serrinha, declarou em dezembro de 1963 que comprara em outubro do mesmo ano quatro peças de pano a seis mil cruzeiros. Já tinha trabalhado uma semana a duzentos cruzeiros por dia (com as refeições) para ajuntar dinheiro a fim de pagar sua conta, e iria continuar a trabalhar para os civilizados em janeiro para poder completar a quantia devida, pois tinha de pagá-la até o fim deste mês. Ora, calculando-se a quantia que já possuía por uma semana de trabalho (6 x 200 cruzeiros = 1.200 cruzeiros) e a que ainda faltava para completar o valor da dívida (6.000 cruzeiros - 1.200 cruzeiros = 4.800 cruzeiros) cheega-se à conclusão que deveria trabalhar fora da aldeia quase todo mês de janeiro (4.800 : 200 = 24 dias). Ora, janeiro é um dos meses dedicados ao plantio. É de se esperar, portanto, que Aprak, por ter trabalhado para os civilizados a fim de obter dinheiro, tenha feito uma roça reduzida para sua família, se não ficou completamente à mercê de alguns de seus parentes consangüíneos ou afins. Esta roça não lhe deve ter dado alimento além do mês de agosto, devido ao seu pequeno tamanho. De setembro até a colheita seguinte teria sido obrigado a adquirir gêneros entre os civilizados, aos quais pagará com dias de serviço em suas roças, atrasando novamente o andamento de sua própria plantação. Cai assim num círculo vicioso, do qual parece difícil escapar. Tal é a situação de vários índios. Voltar ao texto

Nota 4 — Se dermos crédito aos arquivos da Povoação Indígena Antônio Estigarríbia, no período compreendido entre 1955 e 1962, durante oito anos, portanto, o S.P.I. deu baixa em 154 cabeças de gado. Destas, 39 foram abatidas pelos índios, umas comprovadamente, outras provavelmente, ou dadas a fazendeiros para substituir reses suas capturadas pelos indígenas; 38 foram dadas aos craôs para corte como pagamento de serviços seus ou graciosamente; 10 foram vendidas ou entregues a civilizados como pagamento de serviços; 27 morreram picadas por cobra ou envenenadas por "erva"; as 40 restantes tiveram morte motivada por outras causas diversas, ou desapareceram sem deixar vestígios. Das primeiras 39 reses só uma parte se pode provar que realmente foi morta pelos índios. Voltar ao texto

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