quando queria fazer poemas pedia emprestado um castelo tomava da pena de prata ou de pavão, chamava os anjos por perto, dedilhava a solidão como um delfim conversando coisas que europeu conversa entre esculpidos gamos e cisnes - num geométrico jardim. Eu moderno poeta, e brasileiro com a pena e pele ressequidas ao sol dos trópicos, quando penso em escrever poemas - aterram-me sempre os terreais problemas. Bem que eu gostaria de chamar a família e amigos e todo o povo enfim e sair com um saltério bíblico dançando na praça como um louco David. Mas não posso, pois quando compelido ao gesto do poema eu vou é pegando qualquer caneta ou lápis e papel desembrulhado e escravo escrevo entre britadeiras buzinas seqüestros salários coque'teis televisão torturas e censuras e os tiroteios que cinco vezes ao dia disparam na favela ao lado metrificando assim meu verso marginal de perseguido que vai cair baldio num terreno abandonado ![]() ![]() ![]() ![]() |