Limitações do Flerte



      Que fim levaram aquelas
      que flertamos nos bares,
      esquinas e aeroportos?
      Não aquelas que levamos
      ao restaurante, parques
      e camas, mas aquelas tocadas
      num leve aceno, de longe,
      corpo fluindo e morrendo
      na ponte aérea do instante.

      Mas por que pensar nas distantes
      que nem tocamos na mão ou fronte?
      Preferimos jogar com a ausente?
      É essa a nossa concreta fonte?
      Como se vê, não adianta, não se aprende.
      A gente aqui pensando nas que flertamos
      de leve, em dois minutos intensos,
      entre um sorriso e o gesto frustro,
      enquanto, perto, pisamos brutos
      o calcanhar da que está junto,
      ou pulamos na jugular
      da que nos cobre de frutos,
      olhando por sobre os muros
      as que ondeiam seus bustos
      sobre a linha do horizonte.

      - Amar com os olhos é mais fácil
      e anônimo? - É mais fútil? É declarar
      por telefone, apenas com um fio
      de voz que enrosca os corpos e mentes,
      ou melhor, numa vaga prolação, sem dormente
      ou trilho que leve o trem-passageiro
      ao outro corpo-estação.

      Mas como é vegetativo esse amar plantado,
      esgalhando o olhar furtivamente. A isso,
      prefiro carnívoras plantas que se abraçam
      e num sufoco se esmigalham deixando ao chão
      sementes em que piso, convertendo a morte havida
      em refluir de raízes.
      Flertar é texto-antigo, é bordar caligrafias
      quando há guerra e telegramas. Flertar é prefácio
      e eu quero logo desfolhar o livro. Flertar é usar
                 binóculos
      devastando camarotes oblíquos
      quando o drama está no palco
                                - e em nossos corpos aflitos.
      Amar assim tão voyeurista, é tão perverso
      como amar só por carta, com a caneta em riste
            e triste
      é pior que conhecer estrela só na foto,
      é apenas vê-la de luneta, correr atrás de um cometa
      É chamar a fêmea sem macho
      na padaria. É cear ante um retrato
      e uma cadeira vazia.

      Isto de amar de longe, só com os olhos,
      não é sequer ir à caça. É ir à exposição
      de animal de raça. É ver decoração em loja,
      olhar por trás da vitrina um feriado que passa.

      É coisa de telegrafista ou coisa de mau amador
      de rádio, ouvindo só os ruídos
      do outro lado da antena e cama.
      Não é tocar de ouvido partitura desconhecida.
      O músico, nisso, é o contrário, vai mais fundo
      pois pega com as mãos e arpeja
      a música com os dedos.

      E eu tenho essa mania de amar como o invasor
      pulando os muros de Roma, como o astronauta
      se acolchoando na câmara, como o casulo
      se entretecendo no claro-e-escuro,
      enfim, como a gavinha da barroca parreira
      crescendo a sede das vinhas.

      Um amar estabanado, como a criança quebrando
      o delicado brinquedo e derramando a alma
      dos pichos sobre o tapete do medo.

      Comigo é assim:

            ficar olhando não basta. Vou logo
            precipitando borrasca e estrela.
            Que se cuide o olhar alheio quando
            olho com o corpo inteiro, porque alojo fácil,
            peço café e pijama, e fico pastando
            com esse olhar de boi manso
            no breve espaço da cama.


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