Como Amo Meu País



    Fragmento 1

      Com aquela melancolia que ao entardecer
                      em Teresina
      eu olhava do outro lado do sujo rio
                      a vilazinha de Timon,
      com a fúria da multidão endomingada martelando
      caranguejos entre farofa e cerveja
                 numa praia em Aracaju,

      com a penintência de quem amssa o barro
      que depois vira anjo nas mãos das mulheres de
            Tracunhaém,

      com a solidez marinha do jangadeiro
                      em Cabedelo
      empurrando a esperança mar adentro
      e a repartir a espinha do dia morto sobre a areia,
      com a cadência magoada do vaqueiro tangido nos
      seus cornos a recolher o sal e a solidão
            nos currais de Minas, em Curvelo,

      assim
            eu amo este país que me desama.


    Fragmento 2

      Deveria deixar de amá-lo como sub ser vivo
                 e amá-lo ostensivo
                 num tropel de bandeiras
                 num estádio de urros
                 e canções guerreiras?

      Amo este país
          como o hortelão cuida e corta
      a praga de sua horta
          e parte com seu cesto a bater de porta em
            porta
      com a resignação do operário
            abraçado à neblina da marmita,
      quando larga os panos e a mulher na madrugada
      e sai do café quente de sua casa
      e desce nos vagões de medo ao fundo da espúria
            mina.


    Fragmento 3

      Deve haver quem ame o seu país
            como quem escarra em casa própria,
            coça o saco na calçada,
            arrota e palita os dentes,
            entorna cachaça ao santo
            suando a alma e o corpo
            no ébrio espasmo do gol.

      Uns amam seu país
      como o mendigo o seu muro,
      como o agiota o seu juro.

      Outros
            como o domador às suas feras:
                 - distância e precisão -
            para evitar que o povo
                 - lhe arranque o poder da mão.

      Outros amam seu país
      como o carcereiro a prisão,
      o lenhador a floresta
      e o carvoeiro o carvão.

      Há quem o ame no palco e pista
      sem máscaras, expondo as vísceras,
      e há quem o ame sonolento
      num camarote ou nas frisas
      enquanto o catnro, o cavalo e o jogador
      se atropelam numa ópera surrealista.

      Há quem o ame com o cáutico e sádico amor
      com que o gigolô deprava e surra a cansada
      mulher das madrugadas ou quem o ame
            como a própria mulher
                 furando seus cartões ao som do sexo
                 aviltado no metal da orquestra.


    Fragmento 4

      Eu, quando posso,
            ponho minha alma num carro de bebê
            e vou levá-la ao sol da praça. Praça
            que ninguém mais conheceu
            que Felipe dos Santos atado
            à cauda do cavalo, cimentando o chão
            com o repasto de seu sangue.

      Fora isto
            com a passividade estrangulada do índio
            carregando as armas do invasor
      tenho a ingenuidade e o desperdiçado amor
      dos Kreen-Akarores em suas matas
      quando viram os berloques e espelhos
                                trazidos
      pelos irmãos Vilas-Boas
                           do outro lado do rio,

      Desde então
      eu amo este país
               - como a prostituta ama a estrada.


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