em Teresina eu olhava do outro lado do sujo rio a vilazinha de Timon, com a fúria da multidão endomingada martelando caranguejos entre farofa e cerveja numa praia em Aracaju, com a penintência de quem amssa o barro que depois vira anjo nas mãos das mulheres de Tracunhaém, com a solidez marinha do jangadeiro em Cabedelo empurrando a esperança mar adentro e a repartir a espinha do dia morto sobre a areia, com a cadência magoada do vaqueiro tangido nos seus cornos a recolher o sal e a solidão nos currais de Minas, em Curvelo, assim eu amo este país que me desama. Fragmento 2
e amá-lo ostensivo num tropel de bandeiras num estádio de urros e canções guerreiras? Amo este país como o hortelão cuida e corta a praga de sua horta e parte com seu cesto a bater de porta em porta com a resignação do operário abraçado à neblina da marmita, quando larga os panos e a mulher na madrugada e sai do café quente de sua casa e desce nos vagões de medo ao fundo da espúria mina. Fragmento 3
como quem escarra em casa própria, coça o saco na calçada, arrota e palita os dentes, entorna cachaça ao santo suando a alma e o corpo no ébrio espasmo do gol. Uns amam seu país como o mendigo o seu muro, como o agiota o seu juro. Outros como o domador às suas feras: - distância e precisão - para evitar que o povo - lhe arranque o poder da mão. Outros amam seu país como o carcereiro a prisão, o lenhador a floresta e o carvoeiro o carvão. Há quem o ame no palco e pista sem máscaras, expondo as vísceras, e há quem o ame sonolento num camarote ou nas frisas enquanto o catnro, o cavalo e o jogador se atropelam numa ópera surrealista. Há quem o ame com o cáutico e sádico amor com que o gigolô deprava e surra a cansada mulher das madrugadas ou quem o ame como a própria mulher furando seus cartões ao som do sexo aviltado no metal da orquestra. Fragmento 4
ponho minha alma num carro de bebê e vou levá-la ao sol da praça. Praça que ninguém mais conheceu que Felipe dos Santos atado à cauda do cavalo, cimentando o chão com o repasto de seu sangue. Fora isto com a passividade estrangulada do índio carregando as armas do invasor tenho a ingenuidade e o desperdiçado amor dos Kreen-Akarores em suas matas quando viram os berloques e espelhos trazidos pelos irmãos Vilas-Boas do outro lado do rio, Desde então eu amo este país - como a prostituta ama a estrada. ![]() ![]() ![]() ![]() |