Os Limites do Autor



        Às vezes, ocorre
        um autor estar
        aquém
        - do próprio texto.
        De o texto ter-se feito,
        além dos dedos,
        como gavinha que inventou
        a direção de seu verde,
        e fonte que minou
        o inconsciente segredo.

        Um texto ou coisa
        que ultrapassa a régua,
        a etiqueta e o medo,
        copo que se derrama,
        corpo que no amor
        transborda a cama
        e se alucina de gozo
        onde havia obrigação.
        Enfim, um texto operário
        que abandonou o patrão.

        Às vezes ocorre
        um autor estar aquém
        da criação.
        O texto-sábio
        criando asas
        e o autor pastando
        grudado ao chão.

        - Como pode um peixe vivo
        estar aquém do próprio rio?
        - Que coisa é esse bicho
        que rompe as grades do circo
        e se lança na floresta
        no descontrole de fera?
        - Que coisa é essa
        que se enrola?
        É fumaça? ou texto?
        que se alça do carvão?

        Lá vai o poema ou trem
        que larga o maquinista
        na estação
        e se interna no sertão.
        Ali o poema
        olhado de binóculo
        - só de longe tocado -
        e o autor, falso piloto
        largado na pista ou salas
        do aeroporto, atrás do vidro,
        enquanto o texto
        levanta seu vôo cego
        com o radar da emoção.

        Enfim,
        um poema que vira pássaro
        onde termina a mão
        ou avião desgovernado
        que ilude o autor e a pista
        e explode na escuridão.


Página anterior Início Página seguinte
 
1