a desaparecer pessoas, estranhamente. Desaparecia-se. Desaparecia-se muito naqueles dias. Ia-se colher a flor oferta e se esvanecia. Eclipsava-se entre um endereço e outro ou no táxi que se ia. Culpado ou não, sumia-se ao regressar do escritório ou da orgia. Entre um trago de conhaque e um aceno de mão, o bebedor sumia. Evaporava o pai ao encontro da filha que não via. Mães segurando filhos e compras, gestantes com tricots ou grupos de estudantes desapareciam. Desapareciam amantes em pleno beijo e médicos em meio à cirurgia. Mecânicos se diluiam - mal ligavam o tôrno do dia. Desaparecia-se. Desaparecia-se muito naqueles dias. Desaparecia-se a olhos vistos e não era miopia. Desaparecia-se até a primeira vista. Bastava que alguém visse um desaparecido e o desaparecido desaparecia. Desaparecia o mais conspícuo e o mais obscuro sumia. Até deputados e presidentes esvaneciam. Sacerdotes, igualmente, levitando iam, arefeitos, constatar no além, como os pescadores partiam. Desaparecia-se. Desaparecia-se muito naqueles dias. Os atores no palco entre um gesto e outro, e os da platéia enquanto riam. Não, não era fácil ser poeta naqueles dias. Porque os poetas, sobretudo - desapareciam. Se fosse ao tempo da Bíblia, eu diria que carros de fogo arrebatavam os mais puros em mística euforia. Não era. É ironia. E os que estavam perto, em pânico, fingiam que não viam. Se abstraíam. Continuavam seu baralho a conversar demências com o ausente, como se ele estivesse ali sorrindo com suas roupas e dentes. Em toda família à mesa havia uma cadeira vazia, a qual se dirigiam. Servia-se comida fria ao extinguido parente e isto alimentava ficções - nas salas e mentes enquanto no palácio, remorsos vivos boiavam - na sopa do presidente. As flores olhando a cena, não compreendiam. Indagavam dos pássaros, que emudeciam. As janelas das casas, mal podiam crer - no que viam. As pedras, no entanto, gravavam os nomes dos fantasmas pois sabiam que quando chegasse a hora por serem pedras, falariam. O desaparecido é como um rio: - se tem nascente, tem foz. Se teve corpo, tem ou terá voz. Não há verme que em sua fome roa totalmente um nome. O nome habita as vísceras da fera Como a vítima corrói o algoz. E surgiam sinais precisos de que os desaparecidos, cansados de desaparecerem vivos iam aparecer mesmo mortos florescendo com seus corpos a primavera de ossos. Brotavam troncos de árvores, rios, insetos e nuvens em cujo porte se viam vestígios dos que sumiam. Os desaparecidos, enfim, amadureciam sua morte. Desponta um dia uma tíbia na crosta fria dos dias e no subsolo da história - coberto por duras botas, faz-se amarga arqueologia. A natureza, como a história, segrega memória e vida e cedo ou tarde desova a verdade sobre a aurora. Não há cova funda que sepulte - a rasa covardia. Não há túmulo que oculte os frutos da rebeldia. Cai um dia em desgraça a mais torpe ditadura quando os vivos saem à praça e os mortos da sepultura. ![]() ![]() ![]() ![]() |