Entrevista



        Telefonam-me do jornal:
        -Fale de amor-
        diz o repórter,
        como se falasse
        do assunto mais banal.

        -Do amor? -Me rio
        informal. Mas
        ele insiste:
        -Fale-me de amor-
        sem saber, displicente,
        que essa palavra
        é vendaval.

        -Falar de amor? -Pondero:
        o que está querendo, afinal?
        Quer me expor
        no circo da paixão
        como treinado animal?

        -Fala...-insiste o outro
        -Qualquer coisa.
        Como se o amor fosse
        - qualquer coisa -
        prá se embrulhar no jornal.

        -Fale bem, fale mal,
        uma coisa rapidinha
        -ele insiste, como se ignorasse
        que as feridas de amor
        não se lavam com água e sal.

        Ele perguntando
        eu resistindo,
        porque em matéria de amor
        e de entrevista
        qualquer palavra mal dita
        é fatal.


Página anterior Início Página seguinte
 
1