Crônicas de uma cidade assombrada

 

Hilário

Cida

Antônio

Gonçalves

Ana Luiza

Dr. Wallace

Zeca do Poço

Júlio

Cristina das Rosas

 

 

>>Rua Tupi, domingo à tarde

 

Hilário o zelador,

zela por tudo todos os dias

zela pela entrada do edifício

pelo vazamento na garagem

pelos gatos da D. Tudor do terceiro

mas zela muito mais pela Cida do bar

 

Hilário zela tanto pela sua imagem de protetor

que no futebol da Javari, joga de zagueiro

já quebrou duas pernas, mas nenhuma era a dele

 

Hilário ganha duzentos reais

e tem 6 camisas azuis e uma do time

todas muito bem limpas e passadas

e ele nem esbarra que eu existo

deve pensar que sou poeta

e não preciso de cuidados

 

(proteste:

esse meu ofício é muito ao contrário,

só me deixa desguardado)

 

 

>>Ibirapuera, quarta-feira 11 horas

 

Julinho se curou

Caio também

Raphael quebrou a perna

mas agora já está andando

Bruno está com saúde

depois da catapora

tudo graças aos bons préstimos

do Doutor Wallace

 

só a Carolina, tadinha,

que apesar de todos os esforços,

nunca melhora

 

Doutor Wallace

é realmente um ótimo pediatra

mas em alguns casos

parece que não acerta a mão

Foi assim com a Paulinha

com a Bia, com a Adriana e com a Rachel

Doutor Wallace as examina direitinho,

prescreve a receita

e sempre pede prá mamãe

trazê-las de volta semana que vem

 

(divise: sob o sol há zonas de luz e de sombras

numa fina linha, termina uma, começa a outra

e é justamente onde germinam e crescem pessoas)

 

>>Barra Funda, dia da Graça

 

Zeca do Poço

o entregador que não se entrega

 

não se entrega às pessoas

não se entrega às agruras da vida

não se entrega à polícia

que o procura faz tempo,

de endereço em endereço

nas pistas que as faturas deixam

 

e as pessoas nada falam

que é pra não se arrependerem

da gorjeta dada ao mulato

 

(repare:

porque essa gente,

ah essa gente,

também não entrega ninguém não senhor)

 

>>Lapa, sexta-feira 22 horas

 

Cristina das Rosas

sempre esperou

esperou pelo dia da chegada do amigo distante

esperou pela decisão importante

esperou pela carta de além-mar

Mas pela sua própria distração,

Cristina das Rosas deixou de informar

seu endereço preciso.

 

A Cristina que não recebe nunca,

as rosas na casa ao lado,

e no bolso do moço, o cartão amassado.

 

(tolere,

há sempre um pequeno espaço separando todas as coisas

e entre as gentes, alguns pequenos segundos: tudo são quases)

 

 

>>Rua Augusta, 8 e meia

 

A Cida do bar serve bem

serve bem no balcão todo dia

serve bem o Hilário toda noite

serve bem à vida justa

que deus emprestou a ela

A Cida do bar sabe quando ser servil

ela sabe o sentido da santidade

sabe tremer e suar

com o entregador mulato ela é puta

com zelador fiel ela é grata

 

(tolere: tudo são instantes

a vida só nos vende prazos

o resto são gentes...)

 

>>Cidade Jardim, domingo à noite

 

Gonçalves aposta

que o baio chega em primeiro

e que na outra semana recupera

 

aposta na paciência dos credores

e que perna quebrada logo ajeita

 

aposta na compreensão da mulher

e que ela goza antes dele

 

aposta que vai ser menino

e que sina de mulher é bem mais doce

(e que vida de mulher é menos sofrida)

 

aposta que gente sua a favela respeita

e que o moço fez mal, mas casa

 

aposta no aumento da féria da banca

no dinheiro dar até o mês

na cachaça que tudo cura

no perdão da família

na chuva que não há de vir

e que a pneumonia é só gripe

 

(creia:

acreditar é coisa muito fácil,

e Deus é cobrador

mais severo que o Cão)

 

>>Bela Vista, terça-feira à noite

 

Ana Luiza

era atriz do teatro

mas sonhos são assim mesmo

feitos prá se largar

abandonou o tablado

porque veio um filho

de quem nunca sei

que atriz é assim

feita prá se largar mesmo

cresceu o menino

mas um inverno mais frio

levou embora o menino

que coração de mãe é assim mesmo

feito prá se apertar

Ana Luiza

não foi esposa feliz

não foi mãe

não foi atriz

 

(totalize:

a vida não é justa

no final das contas,

tudo são subtrações)

 

>>General Olímpio, quinta-feira à noite

 

Antônio, o cenógrafo apaixonado,

coloca os óculos

e começa a faina

 

muda o fundo,

muda as cores,

muda o humor

e perde o riso

ao falar com quem produz

e não consegue entender

por que é que certas gentes

não mudam nunca

 

Antônio e o sono

imagina, finge, sonha

e vai colocando

milhares de beatrizes num mundo

que não é o dele.

 

Antônio e a madeira

corta, lixa, plaina

e é tão perna-de-pau

que só joga no time da pensão

porque se coloca muito bem.

 

Antônio e o linho

desenha, tinge, costura

e coloca de lado sempre um pouco de tecido

pro vestido de Ana Luiza

que ele acha que faz em segredo

(e todo elenco sabe...

mas ela! ah, ela pensa que é uma colcha!)

 

(note:

aqui o efeito que pode uma luz,

ter nos acontecimentos)

 

>>Avenida Paulista, madrugada de sábado

 

Logo depois da janela

Júlio caiu como um danado

bicho avoado, planando, sem atropelo, merecido

não caiu assustado, pelo contrário, caiu prevenido

caiu como o diabo, caiu como um descido condenado

caiu seduzido,e pela queda desejada gozou na vertigem e no vento

caiu esquecido, de todo o tempo perdido:

nunca aceitaria cair perdoado

aliviou seu peso adquirido, em anos de infinitas subidas

e pôde cair sereno, lentamente e esvaziado

quase chorou por um segundo, mas nunca foi arrependido

caindo, teve a vida toda por um momento

e dela foi dono, e da sua descida foi guia

 

(conforme:

não o salvou carinho de mãe,

a cura do médico, a infância protegida.

tudo são decisões)

 

 

 

João Carlos Rocha Campos e Fernando Durand

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