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rônicas de uma cidade assombrada
>>Rua Tupi, domingo à tarde
Hilário o zelador,
zela por tudo todos os dias
zela pela entrada do edifício
pelo vazamento na garagem
pelos gatos da D. Tudor do terceiro
mas zela muito mais pela Cida do bar
Hilário zela tanto pela sua imagem de protetor
que no futebol da Javari, joga de zagueiro
já quebrou duas pernas, mas nenhuma era a dele
Hilário ganha duzentos reais
e tem 6 camisas azuis e uma do time
todas muito bem limpas e passadas
e ele nem esbarra que eu existo
deve pensar que sou poeta
e não preciso de cuidados
(proteste:
esse meu ofício é muito ao contrário,
só me deixa desguardado)
>>Ibirapuera, quarta-feira 11 horas
Julinho se curou
Caio também
Raphael quebrou a perna
mas agora já está andando
Bruno está com saúde
depois da catapora
tudo graças aos bons préstimos
do Doutor Wallace
só a Carolina, tadinha,
que apesar de todos os esforços,
nunca melhora
Doutor Wallace
é realmente um ótimo pediatra
mas em alguns casos
parece que não acerta a mão
Foi assim com a Paulinha
com a Bia, com a Adriana e com a Rachel
Doutor Wallace as examina direitinho,
prescreve a receita
e sempre pede prá mamãe
trazê-las de volta semana que vem
(divise: sob o sol há zonas de luz e de sombras
numa fina linha, termina uma, começa a outra
e é justamente onde germinam e crescem pessoas)
>>Barra Funda, dia da Graça
Zeca do Poço
o entregador que não se entrega
não se entrega às pessoas
não se entrega às agruras da vida
não se entrega à polícia
que o procura faz tempo,
de endereço em endereço
nas pistas que as faturas deixam
e as pessoas nada falam
que é pra não se arrependerem
da gorjeta dada ao mulato
(repare:
porque essa gente,
ah essa gente,
também não entrega ninguém não senhor)
>>Lapa, sexta-feira 22 horas
Cristina das Rosas
sempre esperou
esperou pelo dia da chegada do amigo distante
esperou pela decisão importante
esperou pela carta de além-mar
Mas pela sua própria distração,
Cristina das Rosas deixou de informar
seu endereço preciso.
A Cristina que não recebe nunca,
as rosas na casa ao lado,
e no bolso do moço, o cartão amassado.
(tolere,
há sempre um pequeno espaço separando todas as coisas
e entre as gentes, alguns pequenos segundos: tudo são quases)
>>Rua Augusta, 8 e meia
A Cida do bar serve bem
serve bem no balcão todo dia
serve bem o Hilário toda noite
serve bem à vida justa
que deus emprestou a ela
A Cida do bar sabe quando ser servil
ela sabe o sentido da santidade
sabe tremer e suar
com o entregador mulato ela é puta
com zelador fiel ela é grata
(tolere: tudo são instantes
a vida só nos vende prazos
o resto são gentes...)
>>Cidade Jardim, domingo à noite
Gonçalves aposta
que o baio chega em primeiro
e que na outra semana recupera
aposta na paciência dos credores
e que perna quebrada logo ajeita
aposta na compreensão da mulher
e que ela goza antes dele
aposta que vai ser menino
e que sina de mulher é bem mais doce
(e que vida de mulher é menos sofrida)
aposta que gente sua a favela respeita
e que o moço fez mal, mas casa
aposta no aumento da féria da banca
no dinheiro dar até o mês
na cachaça que tudo cura
no perdão da família
na chuva que não há de vir
e que a pneumonia é só gripe
(creia:
acreditar é coisa muito fácil,
e Deus é cobrador
mais severo que o Cão)
>>Bela Vista, terça-feira à noite
Ana Luiza
era atriz do teatro
mas sonhos são assim mesmo
feitos prá se largar
abandonou o tablado
porque veio um filho
de quem nunca sei
que atriz é assim
feita prá se largar mesmo
cresceu o menino
mas um inverno mais frio
levou embora o menino
que coração de mãe é assim mesmo
feito prá se apertar
Ana Luiza
não foi esposa feliz
não foi mãe
não foi atriz
(totalize:
a vida não é justa
no final das contas,
tudo são subtrações)
>>General Olímpio, quinta-feira à noite
Antônio, o cenógrafo apaixonado,
coloca os óculos
e começa a faina
muda o fundo,
muda as cores,
muda o humor
e perde o riso
ao falar com quem produz
e não consegue entender
por que é que certas gentes
não mudam nunca
Antônio e o sono
imagina, finge, sonha
e vai colocando
milhares de beatrizes num mundo
que não é o dele.
Antônio e a madeira
corta, lixa, plaina
e é tão perna-de-pau
que só joga no time da pensão
porque se coloca muito bem.
Antônio e o linho
desenha, tinge, costura
e coloca de lado sempre um pouco de tecido
pro vestido de Ana Luiza
que ele acha que faz em segredo
(e todo elenco sabe...
mas ela! ah, ela pensa que é uma colcha!)
(note:
aqui o efeito que pode uma luz,
ter nos acontecimentos)
>>Avenida Paulista, madrugada de sábado
Logo depois da janela
Júlio caiu como um danado
bicho avoado, planando, sem atropelo, merecido
não caiu assustado, pelo contrário, caiu prevenido
caiu como o diabo, caiu como um descido condenado
caiu seduzido,e pela queda desejada gozou na vertigem e no vento
caiu esquecido, de todo o tempo perdido:
nunca aceitaria cair perdoado
aliviou seu peso adquirido, em anos de infinitas subidas
e pôde cair sereno, lentamente e esvaziado
quase chorou por um segundo, mas nunca foi arrependido
caindo, teve a vida toda por um momento
e dela foi dono, e da sua descida foi guia
(conforme:
não o salvou carinho de mãe,
a cura do médico, a infância protegida.
tudo são decisões)
João Carlos Rocha Campos e Fernando Durand