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lbert Camus
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Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames." Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem. O Estrangeiro |
Prefácio para "O Estrangeiro"
por Albert Camus
Eu resumi O Estrangeiro há algum tempo atrás, com um comentário que admito que era extremamente paradoxal: "Em nossa sociedade, qualquer homem que não chore no funeral de sua mãe, corre o risco de ser sentenciado à morte". Eu apenas quis dizer que o herói do meu livro é condenado porque não joga o jogo. Sob este aspecto, ele é estrangeiro para a sociedade em que vive; ele vaga na borda, nos subúrbios de uma vida privada, solitária e sensual.
Este é o motivo pelo qual alguns leitores ficaram tentados a olhar para ele como um pedaço de entulho social. Uma idéia muito mais precisa do personagem, ou pelo menos muito mais próxima das intenções do autor, emergirá se alguém apenas perguntar como Meursault não joga o jogo. A resposta é simples; ele se recusa a mentir. Mentir não é apenas dizer o que não é verdade. É também, e principalmente, dizer mais do que é verdade, e tanto quanto o coração humano é capaz, expressar mais do que se sente. Isto é o que nós todos fazemos, todos os dias, para simplificar a vida. Ele diz o que ele é, ele se recusa a esconder seus sentimentos, e imediatamente a sociedade se sente ameaçada. Pedem a ele, por exemplo, para dizer que se arrepende do seu crime, de maneira formal. Ele responde que o que sente é muito mais aborrecimento do que real arrependimento. E este sentido obscuro o condena.
Portanto, para mim Meursault não é um pedaço de entulho social, mas um homem pobre e nu, enamorado de um sol que não deixa sombras. Longe de estar destituído de todos os sentimentos, ele é animado por uma paixão que é profunda pois é obstinada, uma paixão pelo absoluto e pela verdade. Esta verdade ainda é uma negativa, a verdade sobre o que nós somos e o que nós sentimos, mas sem ela, nenhuma conquista sobre nós ou sobre o mundo será possível.
Ninguém estará muito enganado, portanto, ao ler O Estrangeiro como a história de um homem que, sem heroísmos, aceita morrer pela verdade. Também devo dizer, de novo paradoxalmente, que tentei descrever no meu personagem o único Cristo que merecemos. Será entendido, após minhas explicações, que eu disse isso sem nehuma intenção blasfema, e apenas com a afeição um pouco irônica que um artista tem o direito de sentir pelos personagens que cria.
Albert Camus
8 de Janeiro de 1955
Vida na Argélia
Apesar de nascido em extrema pobreza, Camus cursou o liceu e a Universidade em Argel, onde desenvolveu um interesse permanente por esportes e teatro. Sua carreira na universidade foi encurtada por um severo ataque de tuberculose, doença que sofreu periodicamente durante sua vida. Os temas da pobreza, esportes e o horror da mortalidade humana aparecem notadamente em seus volumes dos chamados ensaios Argelinos: O Avesso e o Direito (1937) , Núpcias (1938) e L'Ete (1954).
Em 1938 tornou-se jornalista no Alger-Rebublicain, um jornal anticolonialista. Enquanto trabalhou para este jornal, escreveu reportagens detalhadas sobre a condição dos árabes pobres na região de Kabyles. Estas reportagens foram publicadas mais tarde sob forma resumida no Actuelles III (1958).
Os Anos da Guerra
Esta experiência jornalística se mostrou inestimável quando Camus foi para a França durante a segunda guerra Mundial. Ali ele trabalhou para a rede de combate da resistência e assumiu o editorial do jornal Parisian Daily Combat, que apareceu pela primeira vez clandestinamente em 1943. Seus editoriais, tanto antes quanto depois da liberação, mostravam um desejo profundo de combinar ações políticas com uma estrita aderência a princípios morais. Durante a guerra, Camus publicou os principais trabalhos associados à sua doutrina do absurdo - sua visão de que a vida humana no final torna-se sem significado devido ao fato da morte, e de que o indivíduo não pode racionalmente encontrar sentido nas suas experiências. Estes trabalhos incluem romance O Estrangeiro (1942), talvez seu melhor trabalho de ficção, que memoravelmente expressa o tema do século vinte do estrangeiro ou forasteiro alienado; um longo ensaio sobre o absurdo, o Mito de Sísifo(1942); e duas peças publicadas em 1944 Cross Purpose e Calígula. Nestes trabalhos Camus explorou o niilismo contemporâneo com considerável simpatia, mas sua própria atitude para com o absurdo permaneceu ambivalente. Na teoria, o absurdo filosófico logicamente implica em total indiferença moral. Contudo, Camus percebeu que nem seu próprio temperamento ou suas experiências na França ocupada permitiram a ele estar satisfeito com esta total neutralidade moral. O desenvolvimento de suas idéias sobre responsabilidade moral está parcialmente esquematizado nas quatro Cartas a um amigo Alemão (1945), incluído com alguns outros ensaios políticos em Resistance, Rebellion, and Death (1960).
Rebelião
A partir deste ponto, Camus estava preocupado principalmente em explorar caminhos da rebelião contra o absurdo. A Peste (1947), é um romance simbólico onde a importância da realização daqueles que combateram a peste bubônica no Orã não reside no pequeno sucesso alcançado, mas em sua afirmação de dignidade humana e resistência. No controverso ensaio The Rebel (1951) ele criticou o que considerou como as enganadoras doutrinas das filosofias "absolutistas", a transcendência vertical (eterna) do cristianismo, e a transcendência horizontal (histórica) do marxismo. Defendeu caráter e moderação ao invés de estoicismo e violência. Consequentemente, envolveu-se numa amarga controvérsia com Jean Paul-Satre sobre os assuntos abordados neste ensaio. Camus escreveu duas peças francamente políticas , a satírica State of Siege (1948) e The Just Assassins (1950). Pode-se argumentar, porém, que Camus conseguiu seu maior sucesso teatral com adaptações para o palco de romances como Requiem for a Nun (1956) de William Faulkner e The Possessed(1959) de Dostoievski. Ele também publicou um terceiro romance "A Queda"(1956), que alguns críticos lêem como um flerte com as idéias cristãs, e uma coleção de contos valiosa por sua virtuosidade técnica, O Exílio e o Reino (1957). Publicações póstumas incluem duas coleções de cadernos de anotações cobrindo o período de 1935 a 1951 , o romance "A Morte Feliz" (1971) e uma coleção de ensaios "Youthful Writings (1973).
Cronologia
1913 Nace em Mondovi, Argélia em 7 de Novembro
1914 Morre o pai, Lucien, na Primeira Guerra Mundial, Batalha do Marne
1930 Ataque de tuberculose
1934 Termina os, graduando-se em filosofia
1934 Casa com Simone Hié
1935 Funda o Teatro dos Trabalhadores para educar e entreter a classe trabalhadora da Argélia.
1936 Divorcia-se de Simone Hié
1938 Junta-se à equipe de reportagem do Alger-Republicain
1939 O Teatro dos Trabalhadores fecha
1940 Deixa a Argélia, vai para Paris, e retorna após a invasão nazista
1941 Retorna à França para juntar-se à Resistência
1941 Escreve o romance O Estrangeiro
1942 Escreve a peça Calígula
1943 Torna-se editor do Parisian Daily Combat, um jornal da Resistência
1943 Encontra-se com Jean Paul-Sartre em 2 de Junho
1946 Escreve o romance A Peste
1947 Escreve a peça The Just Assassins
1947 Não satisfeito com o quadro editorial do Parisian Daily Combat, abandona-o
1951 Escreve The Rebel, um estudo sobre revolta e rebelião. As críticas do livro à União Soviética e ao Partido Comunista levam a um rompimento com Sartre.
1951 Escreve os contos de O Exílio e o Reino
1956 Escreve o romance A queda, um estudo sobre fraude e culpa
1957 Ganha o prêmio Nobel de Literatura
1958 Actuelles III é publicada, uma coleção de colunas de Camus sobre a condição dos árabes na Argélia
1960 Publica Resistance, Rebellion, and Death
1960 Morre em Siena, França, num acidente de automóvel em 4 de janeiro
by John Cruickshank
tradução João Carlos R. Campos