O Mestre de Cerimônias
Sérgio Zurawski

 
 

        Não me lembro de seu nome, nem sei sua idade, que certamente era muita, mas nunca me esquecerei de sua imagem, vindo ao meu encontro, cumprimentando-me com o seu sorriso largo e com o aperto forte e alegre de sua mão grande, de palma encurvada para dentro - tão grande que envolvia a minha por inteiro. Ele se lembrou de mim, de quando nos conhecemos havia um ano mais ou menos. Não pensei que fosse se lembrar. Muita gente passa por lá o tempo todo. Deixou forte impressão quando o vi pela primeira vez, mas apenas nessa, pude me ater e vagar nas peculiaridades que cercavam sua figura.

       Sua história se misturava com a daquele teatro. Era funcionário da casa havia mais de meio século. Sua presença alta, de corpo e rosto magros, despertava uma ternura enorme. Era de um magnetismo e simpatia desconcertantes, que davam vontade de sentar ao seu lado e deixar-se ficar, por horas a fio, ouvindo de sua murchinha boca, pois já lhe faltavam todos os dentes, tantas quantas histórias daquele lugar quisesse contar.

        À noite, ao chegar ao teatro, cumprimentei-o na entrada de serviço e fui direto para o camarim me arrumar. Durante a tarde já havia acertado o som e deixado a guitarra no palco, prontinha e afinada, só esperando para ser tocada. Ao som do terceiro sinal, indo em direção ao palco, dou de cara com ele, não acreditando no que via. Estava enfiado num velho e surrado terno azul-marinho de corte bem antigo, desbotado e curto nas canelas, com camisa branca de colarinho já bastante puído, que assim como o terno e os sapatos baratos e muito usados, era imaculada e impecavelmente limpa. Na composição desse quadro havia também uma gravata-borboleta vermelha com bolinhas brancas, pousada caprichosamente no seu pescocinho enrugado. Alinhado, vaidoso de sua elegância e garbo, os olhinhos negros brilhavam ansiosos, excitados - rara pintura, que causou surpresa pela beleza de sua inusitada existência. Parecia um personagem vivo, encarnado, entre os muitos que habitam etereamente as galerias dos teatros, que nas escuras e silenciosas noites vêm do passado e, por entre sombras, deixam-se espreitar. Restos de emoções de mil e uma noites, sempre juntos através dos tempos, quando as luzes se apagam.

         Ele havia se arrumado daquele jeito especialmente para o espetáculo, como sempre o fez durante todos os anos vividos ali. Entendi, naquele exato momento, com um dos pés já pisando o primeiro passo dentro do palco, que, no nosso encontro, eu havia dado a deixa para ele entrar em cena e cumprir seu ato. Representava papel de sutil coadjuvante de todos os espetáculos que corriam sob aquele teto. Mestre de cerimônias.

         Terminado o show, já deixando o camarim com a guitarra e as coisas nas mãos para ir embora, encontro-o de novo trocado e vestido com sua roupinha normal do dia a dia. Apertamos as mãos em despedida, e ele, uma vez mais me sorriu, vazio de dentes e cheio de amor. Nesse instante deixei em sua companhia o personagem e as emoções que eu trouxera à vida ali, no lugar que ele, zeloso, guardava, engrossando seu elenco, para deleite de suas noites de solidão, no seu templo da ilusão - para quando o palco se esvaziasse, as luzes se apagassem, os panos caissem ... e as portas se fechassem para as ruas.

Fortaleza, Teatro José de Alencar, 1991

Sérgio Zurawski by Ayla


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        Guitarrista e compositor ,Sérgio Zurawski trabalhou com expressivos nomes da música ( Raul Seixas, Ednardo, Fagner, Gilberto Gil, Zé Ramalho, Sebastião Tapajós, Raul de Souza, Oswaldinho do Acordeon, Leandro e Leonardo, Manassés, e  Belchior, com quem toca ainda hoje) e do teatro (Beatriz Segall, Gabriel Villela, Zé Celso, Antonio Fagundes, Flávio Rangel, Marco Antônio Rodrigues, Wolf Maia, Fauzi Arap, Humberto Magnani, Fernando Neves, Cláudio Fontana, etc.), tendo  participado também, da gravação de mais de cem discos.


desde 30/11/1999


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