Não me lembro de seu nome, nem sei sua idade, que certamente era muita, mas nunca me esquecerei de sua imagem, vindo ao meu encontro, cumprimentando-me com o seu sorriso largo e com o aperto forte e alegre de sua mão grande, de palma encurvada para dentro - tão grande que envolvia a minha por inteiro. Ele se lembrou de mim, de quando nos conhecemos havia um ano mais ou menos. Não pensei que fosse se lembrar. Muita gente passa por lá o tempo todo. Deixou forte impressão quando o vi pela primeira vez, mas apenas nessa, pude me ater e vagar nas peculiaridades que cercavam sua figura.
Sua história se misturava com a daquele teatro. Era funcionário da casa havia mais de meio século. Sua presença alta, de corpo e rosto magros, despertava uma ternura enorme. Era de um magnetismo e simpatia desconcertantes, que davam vontade de sentar ao seu lado e deixar-se ficar, por horas a fio, ouvindo de sua murchinha boca, pois já lhe faltavam todos os dentes, tantas quantas histórias daquele lugar quisesse contar.
À noite, ao chegar ao teatro, cumprimentei-o na entrada de serviço e fui direto para o camarim me arrumar. Durante a tarde já havia acertado o som e deixado a guitarra no palco, prontinha e afinada, só esperando para ser tocada. Ao som do terceiro sinal, indo em direção ao palco, dou de cara com ele, não acreditando no que via. Estava enfiado num velho e surrado terno azul-marinho de corte bem antigo, desbotado e curto nas canelas, com camisa branca de colarinho já bastante puído, que assim como o terno e os sapatos baratos e muito usados, era imaculada e impecavelmente limpa. Na composição desse quadro havia também uma gravata-borboleta vermelha com bolinhas brancas, pousada caprichosamente no seu pescocinho enrugado. Alinhado, vaidoso de sua elegância e garbo, os olhinhos negros brilhavam ansiosos, excitados - rara pintura, que causou surpresa pela beleza de sua inusitada existência. Parecia um personagem vivo, encarnado, entre os muitos que habitam etereamente as galerias dos teatros, que nas escuras e silenciosas noites vêm do passado e, por entre sombras, deixam-se espreitar. Restos de emoções de mil e uma noites, sempre juntos através dos tempos, quando as luzes se apagam.
Ele havia se arrumado daquele jeito especialmente para o espetáculo, como sempre o fez durante todos os anos vividos ali. Entendi, naquele exato momento, com um dos pés já pisando o primeiro passo dentro do palco, que, no nosso encontro, eu havia dado a deixa para ele entrar em cena e cumprir seu ato. Representava papel de sutil coadjuvante de todos os espetáculos que corriam sob aquele teto. Mestre de cerimônias.
Terminado o show, já deixando o camarim com a guitarra e as coisas nas mãos para ir embora, encontro-o de novo trocado e vestido com sua roupinha normal do dia a dia. Apertamos as mãos em despedida, e ele, uma vez mais me sorriu, vazio de dentes e cheio de amor. Nesse instante deixei em sua companhia o personagem e as emoções que eu trouxera à vida ali, no lugar que ele, zeloso, guardava, engrossando seu elenco, para deleite de suas noites de solidão, no seu templo da ilusão - para quando o palco se esvaziasse, as luzes se apagassem, os panos caissem ... e as portas se fechassem para as ruas.
Fortaleza, Teatro José de Alencar, 1991
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desde 30/11/1999