TARDE DE CARNAVAL
 
Por semanas e semanas,
incansáveis formigas,
de velhas roupas demais reviradas
botões coloridos, alamares dourados,
variegados losangos as mães retiravam.

Fantasias humildes, contudo esmeradas,
noite adentro talhando e cosendo,
os dedos espertos das tias e das amigas
preparavam seguros,
melhor que estilistas.

E os jovens da aldeia, da oficina, da roça
repentinos arquitetos, entusiastas artistas
com arame, pintura, cola e papel
o heróico motor e a ruinosa carroça
transformavam, engraçado, num carrocel.

Insone a criançada a noite passava
sonhando, acordada, no alegre clamor
que no único dia daquela semana,
no peito infundia um precoce tepor.

Chegava a tarde do almejado desfile:
dos carros puxados pelo velho trator
caubóis, colombinas, matizados arlequins,
um franzino e acanhado pierrô,
alguns pálidos peles-vermelhas,
os valentes guerreiros e os espadachins
inundavam as ruas apinhadas
de cantos, de cores e de gaias risadas.

Poucas voltas na praça
desse húmido burgo
(os escassos confetes deixando esgotar)
um último giro em torno do centro
passando na frente da antiga matriz.

O sol enfraquece,
já desce a neblina,
rígido é o inverno e o tempo ameaça,
mas no breve domingo de carnaval
todo menino foi realmente feliz.

As famílias com pressa já voltam ao lar:
amanhã recomeça a rotina estafante.
Mas vendo nos ramos os tímidos gomos
prático sabe qualquer popular
que a vida na terra só fica escondida,
que a primavera não é tão distante.

 

30/08/2000 - 08:40
Alberto Malanca ©
(Parsifal)
 

 


 

 




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